<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745</id><updated>2011-11-27T16:21:01.454-08:00</updated><category term='Capa de A COLEGIAL NO MEU JARDIM'/><title type='text'>F. ANTENOR GONSALVES</title><subtitle type='html'>ETERNIDADE:                                     

Atroz, triste e infindável é um minuto:
– Um... dois... três... quatro... cinco...
sessenta segundos sem ti!!!!!!!!!!!!!!!</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>9</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-3894752379699689431</id><published>2010-09-10T07:01:00.001-07:00</published><updated>2011-04-01T07:05:10.013-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Capa de A COLEGIAL NO MEU JARDIM'/><title type='text'>A COLEGIAL NO MEU JARDIM</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/TIo6aTLWA5I/AAAAAAAAAJI/-9qI5cCEm2k/s1600/Capa+da+Colegial+definitava.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5515284917167457170" style="float: left; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 320px; height: 240px;" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/TIo6aTLWA5I/AAAAAAAAAJI/-9qI5cCEm2k/s320/Capa+da+Colegial+definitava.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONSALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;(MEMÓRIAS DA&lt;br /&gt;ADOLESCÊNCIA)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROMANCE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional&lt;br /&gt;(Câmara Venezuelana do Livro, Caracas, Venezuela)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonsalves, F. Antenor&lt;br /&gt;G626c A Colegial no Meu Jardim (Memórias da Adolescência)&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves.&lt;br /&gt;Caracas: ISKRA, 2010.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Literatura Latinoamericana I. Título.&lt;br /&gt;10-6132&lt;br /&gt;CDD-869.915&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Índice para catálogo sistemático:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Romance: Século 21 – Literatura Latinoamericana 869.915&lt;br /&gt;2. Século 21: Romance – Literatura Latinoamericana 869.915&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os direitos reservados de acordo&lt;br /&gt;com a legislação em vigor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hecho en Venezuela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revisão, diagramação, editoração, paginação, digitação, capa, arte final:&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Foto da capa:&lt;span style="font-weight: bold;"&gt; Daiane (Flor do serrado).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ref.: 8.692. ISKRA EDITORA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Há mulheres que amo&lt;br /&gt;quando tu não estás comigo&lt;br /&gt;(o homem necessita de doses de amor e fantasia).&lt;br /&gt;E ainda que as ame só no poema&lt;br /&gt;não deixa de ser amor.&lt;br /&gt;Previno-te pois podes um dia descobri-las entre minhas coisas.&lt;br /&gt;Estas são minhas mulheres de papel.&lt;br /&gt;Meus amores de caligrafia e solidão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as cinco e dez e cinco e quinze da tarde – com exceção dos domingos e feriados – quase que pontualmente, passava por minha calçada com seu uniforme de colegial: saia pinçada, sapatos pretos e meias e blusa brancas, alguns livros contra os seios como se denunciasse pudicice, bem apertados contra si pelos braços cruzados sobre os mesmos; cabelos longos esvoaçando ao vento – o que a obrigava a fazer bruscos movimentos com a cabeça para reordenar os cabelos – uma jovem de passos firmes e lentos como se a nada temesse e tampouco tivesse pressa de chegar a lugar algum, pára diante das grades do meu jardim e por entre as hastes de ferro colhe um cravo e o põe no canto esquerdo da boca e prende-o com seus dentes brancos que me lembram teclados de pianos. Calma e altivamente por entre as hastes de ferro colhe também alguns ramalhetes de jasmim; dá meia volta olhando-me por entre os cabelos, cheira os jasmins e segue pela calçada como se somente ela existisse.&lt;br /&gt;Acompanho-a com o olhar melancólico até que ela desapareça na multidão e volto a regar meu jardim e penso (quase como um consolo íntimo): amanhã ela encontrará cravos e jasmins mais belos e mais perfumados! E volto a esperar que o novo dia traga-me novamente a minha colegial anônima.&lt;br /&gt;A noite longa da espera por um novo dia por fim se foi enquanto eu nutria minha insônia com a leitura de alguns poemas, nos quais eu via sempre a imagem da colegial enigmática.&lt;br /&gt;7&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob os primeiros raios do Sol eu fui ver como amanheceram as minhas rosas, fontes de néctar aonde vinha todas as tardes (como uma beija-flor – como uma beija-flor!), não sei se se nutrir, mas me nutrir de esperanças, sonhos, desejos e interrogações a minha beija-flor vespertina e pontual.&lt;br /&gt;Eu passava os dias contando os segundos... e era ainda meio dia!&lt;br /&gt;– Tenho que ser torturado ainda por mais cinco horas! – resmungava eu.&lt;br /&gt;Fui ao jardim. Senti-me como se não estivesse só. O cheiro marcantemente forte do jasmim dava-me a certeza de que a minha colegial estava ali, colhendo minhas flores; olhando-me por entre os cabelos. Apertando seus livros contra seus seios, como que buscasse segurança e proteção em um abraço amigo. O sussurro do vento soou como se alguém balbuciasse meu nome. Talvez fosse ela... Eu jamais ouvira sua voz, portanto não tive a certeza de que ela me chamasse pelo nome. Fiquei ali por todo o resto da tarde e não vi o tempo passar. Procurei ver a hora: quatro e cinquenta e três!!! Fui até ao portão, olhei para todos os lados da rua. Todos me pareciam estranhos... até os vizinhos...&lt;br /&gt;– Mas já são cinco horas!... – sussurrei desconsolado.&lt;br /&gt;Dez eternos minutos se passaram e quando a ansie-dade já me consumia senti como se algo magnético se aproximasse de mim – naquele momento eu cuidava de uma papoula – e me virei no rumo das grades do jardim: era ela!! Olhamo-nos de soslaio sem nenhuma palavra. Ela&lt;br /&gt;8&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;colheu suas flores. Eu pensei: São tuas; cultivo-as para ti. Senti vontade de gritar isto, mas a voz não me saiu. Ela deu sua meia-volta com o cravo entre os dentes e os ramalhetes de jasmim próximos ao nariz. Olhou-me em silêncio, mas com altivez, e foi como se ela tivesse me sentenciado:&lt;br /&gt;– São minhas! Eu sei que as cultivas para mim!&lt;br /&gt;Eu tive a leve impressão de que ela deixou escapar um suave e discreto sorriso... Preferi pensar que fosse assim. E ela se foi mais uma vez; passos firmes e elegantes; sem olhar para trás; sem dizer uma palavra; sem alimentar nenhuma esperança, e a noite – mais uma infindável noite! – veio tempestiva.&lt;br /&gt;Procurei ouvir música – não consegui.&lt;br /&gt;Pensei:&lt;br /&gt;– Vou escrever tudo que me vier à cabeça e amanhã, quando ela vier e estiver colhendo suas flores, eu colocarei o papel em sua mão.&lt;br /&gt;Vibrei com a ideia. Enfim, uma possibilidade de um contato com aquela misteriosa jovem.&lt;br /&gt;Fracassei.&lt;br /&gt;Escrevi dezenas de estrofes – centenas talvez; escrevi centenas de frases – milhares talvez; escrevi até ver que um outro dia se anunciava com a alva. E fiquei indig-nado quando me dei conta da pilha de papéis rasgados por todos os lados e nem um monossílabo sequer para que eu pudesse entregar à colhedora de flores.&lt;br /&gt;Foi um dia sorumbático. O próprio tempo parecia enlouquecido: ora, sol; ora, nublado; ora, o vento silvava nas árvores; de repente uma chuva que, de início, pareceu&lt;br /&gt;9&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma tempestade, mas não passou mesmo de uma chuvinha.&lt;br /&gt;Rápido, o trágico me veio à mente, e desconsolado pensei:&lt;br /&gt;– Com chuva, certamente ela não virá colher as suas flores!...&lt;br /&gt;Um raio de sol iluminou-me a face filtrado por entre os ramos de acácia – era o Sol que, por fim, surgia entre as nuvens como se violentasse um véu para reacen-der-me a esperança de que o meu fim de tarde seria festivo. Incontido, balancei alguns galhos de árvores e as gotas d’água retidas em suas folhas caíram sobre mim. Fiquei encharcado, porém alegre como uma criança no ápice de sua pureza e ingenuidade. E era assim que eu me sentia.&lt;br /&gt;Tive a certeza de que naquele instante alguém ali riu de mim (por entre os dentes – como se diz) e a mão abafando o som premendo os lábios como se não quisesse ser ouvida. Ansiei tanto que fosse a minha colegial, mas pensei:&lt;br /&gt;– Ainda não são cinco horas...&lt;br /&gt;Levantei a cabeça e olhei em direção do portão e lá estava a colhedora de flores tentando disfarçar seu tímido sorriso inclinando a cabeça, de modo que os cabelos pen-deram para frente, anuviando-lhe a face. Não saberia eu descrever aquele momento: seria inútil tentar. As palavras seriam vãs, inúteis, inexpressivas... assim como foram desnecessárias para nós dois por tanto tempo. Bastavam-nos aqueles encontros breves e silenciosos, onde as palavras frustrariam os pensamentos; violariam a imaginação; violentariam os desejos... Enquanto qualquer palavra que-&lt;br /&gt;10&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;braria o encanto; a magia; a sublimação. A ausência de qualquer palavra nos permitia que os pensamentos não tivessem limites. Talvez tenha sido de uma situação seme-lhante que tenha surgido a expressão “dar asas à imaginação” – pensei como se fosse possível sussurrar pensamentos. Ela se demorou olhando os jasmins e como se estivesse saboreando o cravo. Colheu, por fim, mais uns ramalhetes de jasmim e quase que imperceptivelmente olhou em minha direção. E eu vibrei! Preferi crer que ela tivesse olhado mesmo para mim. Eu vi seu rosto ensaiar um sorriso e ela voltou a contemplar os jasmins. E assim – por três ou quatro vezes – ela olhou simultaneamente em minha direção e para os ramalhetes de jasmim, parada; imóvel; silenciosa... Senti que ela queria estender o braço direito com alguns jasmins em minha direção, como se a me oferecê-los – seu braço esquerdo continuou apertando os livros contra seus seios e segurando os primeiros jasmins que ela colhera naquela tarde. Lembrei-me de respirar ou respirei porque fui secar o suor das mãos e percebi que eu estava anóxico. Tentei respirar fundo e lentamente. Seu rosto ainda ensaiava um suave sorriso; seus olhos parece-ram-me úmidos e, concomitantemente, com mais brilho. Ela encolheu o braço que ensaiara estender com os jasmins em minha direção e o cruzou sobre os seus livros e se foi mais uma vez com os seus passos firmes, cadenciados, sem pressa, deixando para trás um profundo vazio pontuado por sextilhões de interrogações. E eu quis gritar: Até amanhã!!!, mas a incerteza reteve a minha voz na garganta. Ela já ia longe, quase um vulto na multidão, porém uma presença em tudo; marcante, indelével, inevitável – mesmo&lt;br /&gt;11&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que se eu não quisesse, inevitável.&lt;br /&gt;Abri o portão e fiquei na calçada por um tempo que sequer tenho a mínima noção do quanto durou. E eu olhava tudo, e em tudo eu não via nada. Em cada transeunte eu procurava especificamente um rosto que somente conseguia encontrar dentro de mim mesmo. Aquele rosto parecia fazer parte do meu cérebro. Era criação minha.&lt;br /&gt;Dei uma volta no quarteirão. Respondi uns-sei-lá-quantos “boa noite” e outros tantos “olá!”, “tudo bem?”, “anda meio sumido, hein?”... A rua começou a ficar vazia. A cidade começou a ficar vazia – ou tudo já estava vazio antes e eu não percebera. Eu me senti vazio; mais vazio. Já era madrugada. Pensei em voltar para casa, mas o fato é que eu nunca gostei mesmo de casa. O que ainda me pren-dia ali eram mesmo o jardim e a colegial colhedora de flores. Abomino casa; prefiro as estradas do mundo – sou um cidadão do mundo e não trocaria uma viagem qualquer que fosse pela melhor mansão do mundo. E foi com estes pensamentos que por fim me dei conta de que eu estava na estação rodoviária e que o dia já vinha raiando. Fiz o ca-minho inverso. Voltei para aquela casa fazendo de conta de que estava fazendo uma viagem para um encontro marcado entre as cinco e dez e cinco e quinze da tarde. Passei o dia apático.&lt;br /&gt;– Já são cinco e dezesseis!!! Há algo errado! – pensei – e como consolo, confortei-me:&lt;br /&gt;– Cinco e dezoito! Eu já desconfiava de que este relógio está adiantando... Só pode.&lt;br /&gt;– Cinco e vinte e dois! – exclamei, num misto de indignação, decepção, impotência e frustração.&lt;br /&gt;12&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri para o portão e olhei para a rua, em suas duas direções. Vislumbrei, ao longe, um vulto na multidão. Sorri por dentro: É ela. Só pode ser ela! O vulto foi se anunciando, reconstituindo formas, se definindo:&lt;br /&gt;– É ela! – exclamei eufórico.&lt;br /&gt;Ela estava cada vez mais próxima, e eu não queria que ela me visse ali, como se estivesse esperando por ela. Dissimulei que estava podando alguns galhos parasitas. Ela colheu suas flores e enquanto as colhia, eu percebi – senti mesmo – que ela me olhava sorrateiramente. Eu me virei bruscamente como se a quisesse flagrar me olhando e (quem sabe?) eu pudesse dizer-lhe:&lt;br /&gt;– Ah! Que ótimo! Consegues ver aqui algo além de tuas flores...&lt;br /&gt;Quedei-me com a boca semiaberta, pois ela, calmamente e depois de cheirar as flores, colocava algumas no ferrolho do portão, com os talos em molho enfiados no buraco destinado ao cadeado; e enquanto dava sua meia-volta para ir embora (palavrinha esdrúxula: embora quer dizer em boa hora – uma síncope criada para mau uso), olhou-me penetrante e suavemente e esboçou um tímido sorriso; cena que eu traduzi como:&lt;br /&gt;– São para ti. Guarda-as.&lt;br /&gt;Oh, se amei aquele gesto! E quanto!&lt;br /&gt;Saltei até ao portão, recolhi as flores – percebi que minha mão tremia – puxei o ferrolho do portão e fui para a calçada com as flores na mão, querendo encontrar coragem ou razão para alcançar a colegial e lhe dizer algo (qualquer coisa que fosse); agradecer, talvez, pelo seu gesto; pelas flores; por ela existir, e por que não?!&lt;br /&gt;13&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei alguns passos trôpegos e incertos como um bêbedo – sim, um bêbedo de paixão, talvez – e de repente parei no meio da rua como um louco que recupera a razão e me indaguei:&lt;br /&gt;– Mas o que é que eu estou fazendo aqui!?&lt;br /&gt;Percebi que eu quase alcancei a minha colhedora de flores (ela ainda ia ali, bem perto; eu sentia seu magnetismo – era esta a sensação que eu tinha quando nos aproximávamos: de que eu estava dentro de um campo magnético) e hesitei:&lt;br /&gt;– Devo ou não alcançá-la?&lt;br /&gt;Ponderei – parado ali, no meio da rua como aqueles bustos de parentes de politicóides, insignificantemente no meio da rua – e concluí que eu iria passar por vexame, pois o que dizer para a minha colegial colhedora de flores, se nem ao menos eu tinha certeza de que ela deixara as flores para mim? Eu nem mesmo tinha a certeza de que ela via o jardineiro além do jardim!&lt;br /&gt;Voltei a olhar para ela – já ia longe, bem longe! – e fiquei indignado: ela sequer olhou para trás! Mas me consolei, pensando em voz alta:&lt;br /&gt;– Menos mal. Pelo menos ela não me viu assim, me arrastando atrás dela.&lt;br /&gt;Entrei em casa, guardei as flores sem querer guardá-las, mas mantê-las juntas e junto a mim, porém eu não aguento casa; prefiro perambular pelas ruas; ser apenas mais um na multidão; um rosto sem identidade; confundir-me com os da rua. É assim que me sinto bem: cidadão do mundo, sem pátria e sem patrão; um gitano. Casa me de-prime; sinto-me um animalzinho domesticado. As ruas e as&lt;br /&gt;14&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estradas me libertam...&lt;br /&gt;Perambulando e pensando assim, percebi que as lâmpadas dos postes começaram a se apagar: elas são conectadas a fotossensores que são sensíveis à luz do Sol, acionando um dispositivo que desliga as lâmpadas da iluminação pública, o que significava que o dia amanhecia e eu sequer percebera.&lt;br /&gt;Lembrei-me também de que era sábado, o que sig-nificava que não havia turno integral de aulas, portanto a colegial anônima não passaria entre as cinco e dez e cinco e quinze da tarde, se é que passaria.&lt;br /&gt;Fui ver as flores que eu guardei na noite anterior entre meus papéis. Tomei-as nas mãos e tive uma breve confusão mental: eu via nas flores que eu mantinha em minhas mãos o corpo da minha colegial anônima, exalando o seu perfume inconfundível e exclusivo; e a maciez das pétalas me dizia da maciez da pele daquela misteriosa jovem que eu jamais tocara. Mas eu senti seu corpo em minhas mãos, e assim eu acariciava as flores como se fosse o corpo dela. Assim, ela era minha; deixava-se acariciar como se fosse tudo que quisesse na vida. Sim, aquilo era uma alucinação. Repus as flores entre os papéis com o propósito de desidratá-las e o tempo passou como se eu evitasse tocá-las novamente. Eu não tinha uma explicação lógica, mas eu evitava tocá-las. E não sei, com precisão, quanto tempo eu passei sem rever aquelas flores.&lt;br /&gt;Logo me relembrei de que era sábado, e os sábados são para mim como um dia dividido em dois: até ao meio-dia, é uma prolongação da sexta-feira; do meio-dia em diante é uma antecipação do domingo. Definitivamente não&lt;br /&gt;15&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gosto dos sábados. São como dias de meia-preguiça; de meias-alegrias; de meias-felicidades; de meias-tragédias; de meias-amizades; de meias-confidências; de meias-doses; de meias-certezas; de meias-horas; de meios-amores; de meias-mentiras; de meias-aventuras; de meias-desilusões; de completas amarguras.&lt;br /&gt;Andei a esmo pela casa, como se buscasse a mim mesmo. Folheei alguns livros; tentei ouvir Pink Floyd: Another Brick in the Wall, We don’t Need no Education, The Wall… Mudei para o Bolero, de Ravel…&lt;br /&gt;Porém, nada me satisfazia. Nada ali me completa-va. Só a solidão me fazia companhia – única companhia. Pensei em sair; fui até o portão, mas nem mesmo para isto me sobrara ânimo. Debrucei-me sobre a barra de ferro transversal do portão, com os braços entre as pontas-de-seta do mesmo e eu fiquei ali meio contemplativo e meio apático; como dizem:&lt;br /&gt;“matando o tempo”, mesmo eu sabendo que quem mata o tempo mata a si mesmo.&lt;br /&gt;Surpreendi-me cantarolando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;MARRÓN&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Marrón, Marrón,&lt;br /&gt;Préstame una sonrisa&lt;br /&gt;Te cambio ilusión.&lt;br /&gt;¿De donde saco flores&lt;br /&gt;Si no hay ningún balcón?&lt;br /&gt;¿De donde saco flores&lt;br /&gt;Si no hay ningún balcón?&lt;br /&gt;Si sobran los dolores&lt;br /&gt;Si falta la razón.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;16&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;¿De donde saco flores&lt;br /&gt;Si nadie las plantó?&lt;br /&gt;Canillita se carchita&lt;br /&gt;La niñez y la alegría&lt;br /&gt;Lave ropa noche y día;&lt;br /&gt;Lustre, lustre bien marrón.&lt;br /&gt;Monedero sin dinero&lt;br /&gt;No se asuste del ladrón.&lt;br /&gt;Por las calles de la villa&lt;br /&gt;Se me astilla me canción&lt;br /&gt;Dos niños se pelean&lt;br /&gt;Por un rayo de sol.&lt;br /&gt;Miseria, estay muy fea.&lt;br /&gt;¿Miseria, que pasó?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sábado, uma hora e quarenta e dois minutos da tarde, cantarolando MARRÓN, alheio a tudo e a todos, incrédulo da vida, vejo passarem bem ali, a alguns centímetros de mim, um casal e uma jovem entre os dois, pegando nas mãos dos mesmos, como se a unir-los.&lt;br /&gt;A mulher – que deduzi ser a mãe – dizia:&lt;br /&gt;– Não nos decepcione. Eu e teu pai praticamente deixamos de viver para nós para vivermos em função de você. Investimos tudo nos teus estudos... nada de namoricos. Você é muito nova e tem que antes concluir teus estudos.&lt;br /&gt;A jovem, que unia o casal pelas mãos, olhou-me por entre os cabelos (não tenho certeza, mas prefiro pensar que ela sorriu para mim) e enquanto o pai (suponho eu) falou algo que eu não ouvi bem, mas entendi que reforçava&lt;br /&gt;17&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que a mãe dizia, pois já iam distantes; a jovem soltou sua mão da do pai e a levou às costas, acenando para mim – quis eu que fosse isto mesmo, pois foi o suficiente para me alegrar por todo o restante do dia. Olhei no rumo dos três – minha colegial anônima e colhedora de flores enigmática e, suponho, seus pais – e vi três vultos sumindo na rua, quase como uma lembrança. Por sobre o ombro olhei para o jardim e demorei-me contemplando os pés de jasmim que, naquele instante, me pareceram mais floridos; mais perfumados; mais vivos... E eu também me senti mais vivo naquele momento e naquelas condições.&lt;br /&gt;Caminhei a esmo pelo jardim como quem está pleno de si mesmo e colhi algumas flores, dispondo-as em forma de buquê entre os dedos polegar e indicador da mão esquerda. Cheirando-as, andei rumo ao portão com o buquê próximo ao nariz, sentindo aquela mistura de fragrâncias e eu querendo descobrir o perfume de qual delas se destacava.&lt;br /&gt;Chegando ao portão, logo percebi que o casal e a filha já se aproximavam tagarelando bem mais do que quando antes passaram, principalmente a mãe que, vez por outra, era interrompida pelo marido ou pela filha, porém agora bem mais descontraídos que antes.&lt;br /&gt;Já vinham bem próximos – quase passando em minha frente – quando vi o brilho forte daqueles olhos penetrantes, ainda que eu só os tenha visto raras vezes e fortuitamente e por entre os longos cabelos, porém indiscutivelmente penetrantes e inolvidáveis.&lt;br /&gt;Ela, mais se dirigindo à mãe do que ao pai, sussurrou algo meneando a cabeça rumo ao jardim, de modo que&lt;br /&gt;18&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando passavam exatamente por mim ainda ouvi a mãe dizer – olhando para o jardim como se eu fosse transparente:&lt;br /&gt;– Parece ser bem cuidado, ainda que pareça que por alguém sem apurado gosto em se tratando de floricultura.&lt;br /&gt;Pararam as duas; o pai andou alguns passos, mas parou também, possivelmente para reclamar:&lt;br /&gt;– Vocês vão ficar aí, paradas, olhando sei lá o que ou quem?!&lt;br /&gt;A mãe – como se sequer tivesse ouvido o marido – disse, com certa desfeita:&lt;br /&gt;– Por exemplo: se fosse eu, plantaria na entrada alguns bem-me-queres e mal-me-queres; também algumas orquídeas e avencas dispersas por todo jardim.&lt;br /&gt;Virou-se lentamente e como se nem ao menos houvesse me visto (confesso – com profunda tristeza – que me senti transparente) e disse para a filha:&lt;br /&gt;– Vamos, antes que teu pai... – ela não completou a frase e se foi, seguida pela filha que ainda olhou para trás e o seu silêncio foi como se ela estivesse me dizendo:&lt;br /&gt;– Liga não; minha mãe é assim mesmo.&lt;br /&gt;Eu não encontrava explicação, mas eu tinha a sensação de que ouvia os pensamentos dela. Mas logo dando conta de mim, assustei-me com a dúvida:&lt;br /&gt;– Ou será que estou enlouquecendo?!&lt;br /&gt;Lembrei-me naquele momento das palavras de Horácio, pensador romano: Dulce est desipere in loco. (“É agradável perder o juízo no momento certo.”).&lt;br /&gt;Foi-se o sábado!&lt;br /&gt;19&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha colegial anônima não colheu suas flores e possivelmente no dia seguinte ela nem ao menos passaria, pois certamente no domingo não haveria aula. E pensando assim fui tomado por uma profunda melancolia; e quando eu estou&lt;br /&gt;“em crise” – como dizem os de casa – eu prefiro perambu-lar pelas ruas ou pegar a estrada. Entregar-me ao acaso, como costumo dizer.&lt;br /&gt;Fiquei por alguns minutos – ou horas, talvez?! – vagando pelo quarteirão, porém na proporção em que as ruas iam ficando desertas eu ia me distanciando mais de casa, não como se eu preenchesse aquele vazio, mas como se aquele vazio me preenchesse. Como se aquele vazio fosse parte de mim mesmo.&lt;br /&gt;Pela madrugada, alguns casais que vinham de suas festas me saudavam ao passarem por mim – às vezes com uma observação:&lt;br /&gt;– Você não dorme mesmo, hein?!&lt;br /&gt;Eu seguia pensando:&lt;br /&gt;– Sou o mais noctívago dos noctívagos!&lt;br /&gt;E vagando pelas ruas, vi nascer mais um dia – era domingo. Um domingo como todos os outros: sem perspectivas; sem flores; sem beija-flor; sem risos; sem olhares expressivos (tão expressivos e tanto que prescindiam palavras). Um domingo sem ser desejado; sem ser pedido; sem ser querido; sem ser agradável. Intruso; inquietante; inoportuno... feito para os que querem folga e para os folgados, conforme dizia uma amiga minha. E assim são mesmo os domingos – uma lacuna na vida com hora prevista para iniciar e findar.&lt;br /&gt;Voltei para casa como sem querer voltar; chutando&lt;br /&gt;20&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pedras pelo caminho. E até que era agradável aquilo, pois me dava a sensação de chutar para bem longe as mágoas; os dissabores; as amarguras; o ostracismo.&lt;br /&gt;Até chegar em casa eu respondi uns-sei-lá-quantos “bom dia!”; “bom domingo pra você” (e aqueles bom domingo pra você me soavam como uma provocação; uma ofensa)... Mas eu compreendia: eles não sabiam como são meus domingos.&lt;br /&gt;A ferrugem do portão dissolvida no orvalho da noite me lembrou sangue, e tanto que por vários segundos eu fiquei na dúvida: isto é sulfato ferroso ou sangue? Mas me lembrei de que as hemácias (glóbulos vermelhos) são vermelhas pelo sulfato de ferro, e murmurei como se falasse com o portão:&lt;br /&gt;– Sangue cheira a ferrugem!&lt;br /&gt;Destranquei o cadeado e entrei vagarosamente como sem querer entrar, e quando fui trancar o cadeado eu hesitei:&lt;br /&gt;– Ora!! Mas para que cadeado, se eu não vou a-guentar&lt;br /&gt;ficar em casa mesmo?!?!&lt;br /&gt;Passei pelo jardim imaginando caminhar por um corredor de bem-me-queres e mal-me-queres e assim quase esmago uma gata que – depois de se espreguiçar – veio me recepcionar, se entrelaçando em minhas pernas; buscando carinho; buscando companhia. Pensei alto, como se falando com a felina:&lt;br /&gt;– Somos bem parecidos...&lt;br /&gt;Passei-lhe a mão no dorso e entrei em casa, seguido pela gata que miava e se entrelaçava em minhas pernas.&lt;br /&gt;21&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que eu me lembrei que precisamos comer para viver. A gata estava com fome... Dei-lhe de comer... Pensei:&lt;br /&gt;– Eu também preciso de comida... – mas preferi tomar um banho.&lt;br /&gt;Ainda eram seis horas e trinta e sete minutos daquela manhã enfadonha e malemolente! E quão longo seria para mim aquele dia!&lt;br /&gt;Fui à biblioteca, que ficava no sótão da casa, e com as mãos para trás eu fui lendo os títulos dos livros – todos velhos conhecidos – porém sem tocá-los; eu lia somente o que estava escrito no dorso dos mesmos. Era tudo repetitivo para mim, naquele momento. Resolvi ir para o quintal, onde havia uma espécie de subsolo ou bunker ou casamata – como queiram – onde eram guardadas as armas do meu avô e vários livros censurados, já que estávamos nos primeiros anos da ditadura militar. Um cheiro forte de mofo me provocou uma crise de espirros, mas por nada eu iria perder a oportunidade de estar ali, sozinho, com toda li-berdade de manusear qualquer arma daquelas que sempre despertaram em mim a mais profunda curiosidade – curiosidade alimentada pelo proibido – e, ao menos, folhear aqueles livros tão censurados e tidos como subversivos, pois de modo algum eu conseguiria retirar um livro daqueles para eu ler, pois mesmo que seus donos mos emprestassem, o risco de ser flagrado e delatado aos órgãos de repressão era grande.&lt;br /&gt;E o simples fato de ser flagrado com um livro daqueles pelos órgãos de repressão poderia significar desde as mais cruéis torturas até mesmo a própria morte, mas não me contive e folheei – lendo aleatoriamente alguns tex-&lt;br /&gt;22&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tos – livros como PORQUE OS RICOS NÃO FAZEM GREVE, DE MARX A MAO TSE TUNG, MANIFESTO COMUNISTA, A MARCHA, GEOGRAGIA DA FOME e alguns outros mais.&lt;br /&gt;Dei-me conta de que já passava do meio dia – a manhã se fora sem eu perceber os segundos.&lt;br /&gt;– Menos mau. – pensei em voz alta, e saí com a sensação de que deixava um tesouro para trás.&lt;br /&gt;Fui ao portão para dar uma olhadela na rua, porém me lembrei de que havia cozinha na casa, e isto me deu uma leve sensação de fome. Entrei em casa como se a con-tragosto, fui até ao fruteiro e peguei algumas bananas para comer e saí para o jardim descascando automática e lentamente a fruta que eu nem decidira mesmo comer. Eu não sentia fome. Queria mesmo era andar a esmo pelas ruas, como se a buscar a mim mesmo.&lt;br /&gt;Detive-me no portão somente enquanto eu comia as bananas – agora, com avidez, pois eu queria era sair. Fui para a calçada ainda mastigando e procurando para um lado e outro da rua o que eu não perdera.&lt;br /&gt;Aquele domingo era definitivamente mais longo do que todos os outros; um dia sem fim. Um dia para eternizar todas as ânsias e sepultar todas as esperanças. Um da-queles dias em que se chover, queremos sol; se fizer sol, queremos que chova; se fizer frio, queremos calor; se fizer calor, queremos frio... e assim, nada nos satisfaz. De fato o que eu queria mesmo era que aquele domingo sem fim findasse!&lt;br /&gt;Fui ao ginásio – nem mesmo sei por que, mas fui – e ao chegar ouvi murmúrios:&lt;br /&gt;23&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha só quem chegou!...&lt;br /&gt;– Ih! Maomé veio à montanha...&lt;br /&gt;Estavam alguns conversando, outros ensaiando jogadas de voleibol, outros correndo em volta da quadra, como se se aquecessem para uma grande contenda.&lt;br /&gt;Alguns vieram conversar comigo:&lt;br /&gt;– Entra aí. Vamos jogar...&lt;br /&gt;A contragosto ainda ensaiei algumas levantadas e cortadas. Fiz alguns passes. Bati alguns saques... Enfim, esqueci por alguns minutos o mundo lá fora, mas o mundo lá fora pulsava dentro de mim: como esquecer que ainda era domingo? Como esperar – com ansiedade e incerteza – que amanhã, talvez, a minha colegial anônima viesse entre as cinco e dez e as cinco e quinze da tarde colher suas flores?! Como expulsar de minhas entranhas a essência do que me fazia encontrar na vida uma razão de viver?! Como, principalmente naqueles dias sombrios de profundas incertezas semeadas pela ditadura militar, manter acesa alguma réstia de alegria senão no inimaginável: uma colegial que às tardes – na volta da escola para sua casa – parava em frente ao meu jardim para colher as flores que eu tão zelosamente cuidava para ela?!? E mais ainda: é que por aqueles dias eu fora expulso da escola por “atividades subversivas” e estava ali, na casa de parentes, esperando – se é que podia haver esperança naqueles sombrios dias – que “as coisas se acalmassem”, pois havia parentes influ-entes e poderiam – quem sabe? – até mesmo reverter a minha situação. E era até fácil argumentar:&lt;br /&gt;– Isso são coisas de adolescente... – conforme dizi-am alguns parentes mais consternados do que solidários.&lt;br /&gt;24&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa, eu estava morando sozinho, ou mais exatamente com a gata e alguns outros bichos noctívagos: vez por outra, nas raríssimas vezes que eu parava em casa, eu via alguns morcegos comungando comigo os figos que adoro tanto. A gata, quando eu me demorava demasiada-mente pelas ruas, ela era premida pela fome a caçar alguns ratos – talvez, habitantes do sótão, já com direito a usucapião.&lt;br /&gt;Saí do ginásio sem olhar para trás e acenando enquanto quase gritei um até mais inseguro; dúbio; sem convicção. E fazendo uma superficial análise da minha situa-ção escolar (já quase no fim do período letivo, expulso de uma escola pública federal por subversão, possivelmente eu não conseguiria matrícula em nenhuma outra escola); e caminhei pelas ruas como quem vai a um encontro marcado, mas sem endereço certo. E de tanto vagar sem endereço certo aonde ir, por fim dei-me conta de que eu já ultrapassara os limites urbanos da cidade, seguindo a pé por uma estrada que eu não sabia aonde iria me levar.&lt;br /&gt;Subitamente senti um forte aroma de jasmim misturado com flor de laranjeira e somente então me lembrei de casa, da biblioteca, do meu jardim, das flores... da mi-nha colhedora de flores! e descobri com surpresa que era possível esquecê-la, nem mesmo que fosse por alguns mi-nutos. Localizei-me geograficamente, peguei uma rua qua-se sem iluminação pública – ali era mais evidente o descaso da administração pública com a periferia – , ruas esburacadas, esgotos a céu aberto, bocas-de-lobo sem tampas (eu ainda quase caí em um, sobrando-me disto leves arra-nhões na perna direita, à altura da panturrilha), crianças nas&lt;br /&gt;25&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ruas sombrias brincando de brincar como qualquer criança do proletariado sem brinquedos industrializados e tampouco importados. Entrei em uma viela que me levou à avenida principal e somente aí eu tive certeza de que já estava perto de casa, mais perto do que eu supunha, pois já sentia o aroma dos jasmins; já vislumbrava as árvores do jardim que na proporção em que eu andava pareciam fantasmas dançando inebriados.&lt;br /&gt;Por fim, cheguei.&lt;br /&gt;Mais tateando o cadeado do portão do que vendo qualquer coisa naquela penumbra, apalpei juntamente com o cadeado algo macio, o que me fez puxar a mão com rapidez, porém eu tinha que abrir o cadeado; e o procurei novamente tateando na penumbra. Apalpei de leve e senti que na alça do cadeado havia um buquê de cravos. Saquei os cravos imaginando tudo que houvera em minha ausên-cia: certamente a minha colegial anônima passara – esbravejei comigo! pois como me perdoar por ter saído?! – e certamente aquilo era mais que um recado: uma advertência. A imaginação era fértil e suspirei (quase um gemido):&lt;br /&gt;– Cravos simbolizam punição.&lt;br /&gt;Entrei em casa com os cravos nas mãos e indignado comigo por ter saído. E eu li os cravos como se lesse um bilhete. Estava escrito nos cravos que eu tinha nas mãos e que a colhedora de flores me deixara no cadeado do portão um recado tão legível como caligrafias em um pedaço de papel, observadas cuidadosamente todas as regras ortográficas e gramaticais, eu li nos cravos:&lt;br /&gt;– Estive aqui. Ainda te esperei, depois da surpresa inicial de – com tristeza e amargura – constatar que tu não&lt;br /&gt;26&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estavas. Fiquei triste por isto, mas procurei entender: pelo fato de não haver aulas aos domingos, imaginavas que eu não passaria por aqui, hoje. Compreendo, apesar da tristeza provocada por tua falta. Nem mesmo tive ânimo para colher os jasmins, mas deixei os cravos para que soubesses que não te esqueci. É que depois das quatro horas da tarde eu saí para dar uma volta com o meu irmãozinho e fui me distanciando de casa e sem me dá conta eu já estava para-da, diante do teu portão!... Era como se você estivesse me esperando!... A casa estava fechada, mas isso não significava que você não estivesse. Até aí, tudo bem, mas quando olhei para cada lugar do jardim e não te vi, e para com-pletar vi o cadeado no portão, só me restou a triste certeza de que você havia saído. Fiquei ali, parada, sem ação. Meu irmãozinho queria passear, enquanto que eu não sabia o que eu mesma queria. Peguei estes cravos que você logo terá nas mãos e saberá de mim. Depois, voltei para a minha casa, desconsolada – o que não deu para esconder – e minha mãe quis saber “o que houve”. Eu respondi apenas nada; estou bem. Ela ficou com cara de quem não acredi-tou. Eu fui para o meu quarto – disse que ia terminar um trabalho da escola. Deitei-me na cama e fiquei pensando em ti até adormecer.&lt;br /&gt;Boa noite e até amanhã.&lt;br /&gt;P. S.: Senti tua falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos cravos eu lia o dito e o não dito. Eu lia o que eu queria; o que me satisfazia; o que me confortava, mes-mo que nos cravos-bilhete estivesse escrito no domingo à noite o que teria acontecido na segunda-feira, o dia seguin-&lt;br /&gt;27&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;te! E era possível: bastava eu querer e ali estava escrito o que eu quisesse. Tudo é possível para um sonhador. Ela me dizia hoje, nos cravos, o que aconteceu amanhã! Era isto o que eu queria, e pronto.&lt;br /&gt;– Incrível! Estou delirando! – exclamei, mas com alegria por poder ter aquele delírio. Aquele delicioso delírio. Senti-me um poeta, capaz de criar um mundo onde tudo era possível, bastando para isto minha simples vontade. Eu substituía palavras; trocava frases; adaptava fatos... tudo conforme o meu interesse. E hoje eu penso: Quão bom se a vida fosse mesmo assim!&lt;br /&gt;Guardei as flores; acariciei os espinhos. Amarguei as horas (longas horas que até desconfio de que uma hora se divide em dez décadas – ou mais!) e afaguei a solidão até ver a segunda-feira raiar.&lt;br /&gt;A cidade voltou a ficar barulhenta; agressiva também aos meus ouvidos; aos meus pensamentos.&lt;br /&gt;Fiquei na calçada por alguns minutos (talvez tenha sido horas, não sei precisar) observando a loucura do homo sapiens pela sobrevivência ou pela mera competição de poder consumir mais... Refleti sobre isto – profundamente refleti sobre isto – e murmurei com indignação:&lt;br /&gt;– Jamais serei assim!&lt;br /&gt;E eu disse isto com um suspiro de alívio, como quem tira de sobre si um imenso fardo. E suspirei aliviado.&lt;br /&gt;Fui até a esquina. Pensei em ir um pouco mais adiante: até a pracinha dos pombos, onde um poeta popular passava o dia tentando vender seus livretos e, quando con-seguia vender um, jogava um punhado de milho para as aves.&lt;br /&gt;28&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não: lembrei-me de que eu largara a casa aberta e ralhei comigo em voz alta:&lt;br /&gt;– Seu irresponsável! A casa de veraneio dos parentes, confiada a ti, com relíquias guardadas de valores histórico e sentimental inestimáveis, sem contar o risco do comprometimento de dar abrigo a um subversivo clandes-tino, e tu largas lá, de portas abertas, como se a ingratidão fosse teu prazer!&lt;br /&gt;Voltei com profundo sentimento de culpa, e tanto que pus comida e água para a gata, subi ao sótão para verificar os livros, desci ao subsolo para verificar também se estava tudo em ordem; tirei um pouco as teias de aranhas – a contragosto, mas tirei, me perguntando:&lt;br /&gt;– Por que não deixar as pobrezinhas na casa delas? Afinal de contas não estão fazendo mal nenhum a ninguém! A casa é grande; há lugar para todos, e além do mais eu não ocupo muito espaço e bem que elas poderiam ficar no lugar que eu ocuparia. Ademais, só estou aqui meio escondido; enquanto essa onda passa. Elas poderiam ficar para sempre.&lt;br /&gt;E pensando assim, tirei apenas as teias de aranha que literalmente davam na cara – mais da metade ficou, e eu fiquei como meio satisfeito; meio feliz.&lt;br /&gt;Por fim, saí de casa depois de certificar-me de que todas as portas e janelas estavam bem trancadas e fui à pracinha dos pombos; e lá cheguei quando o poeta popular jogava dois punhados de milho para as aves, o que me fez deduzir que ele vendera dois livretos a um mesmo leitor, o que já era um grande feito! Talvez gente de fora, pois o povo do lugar – ainda que acima da média nacional gostas-&lt;br /&gt;29&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se de ler – não valorizava tanto os artistas do lugar.&lt;br /&gt;O comprador dos livros começou a folhear os livretos ali mesmo, lendo alguns textos como se estivesse balbuciando, e vez por outra olhava para o poeta. Depois de folhear os dois livretos ele se dirigiu ao poeta e fez alguns comentários (a meia voz e apontando especificamente para algumas páginas). O poeta balançava a cabeça como se concordasse com o que ouvia.&lt;br /&gt;Fiquei sabendo que o sujeito era do serviço de inteligência e dissera ao poeta que aqueles textos – em especial aqueles textos – deveriam ser borrados, se não quisesse que todos os demais exemplares fossem recolhidos e “outras consequências mais graves, isto é: na proporção da gravidade do conteúdo dos textos”. “E isto era a prova de que o regime era justo e tolerante” – salientara o agente da repressão.&lt;br /&gt;O poeta apenas concordou e já começou recolher os livretos para as devidas providências, pois até que era fácil borrar aquelas estrofes e além do mais conseguira vender dois livretos de uma só vez, pois era disso que sustentava a família: trocando os miolos da cabeça por miolos de pão.&lt;br /&gt;Mandou chamar um dos filhos para ajudar borrar aquelas estrofes indesejadas e malditas por duas razões óbvias e compreensíveis: criar problema com aquela gente poderia significar o fim de tudo e, segundo, aquilo era mais do que seu ganha-pão: era seu oxigênio; era sua própria vida, enfim.&lt;br /&gt;Eu quis intervir. Eu era dominado pelo caráter rebelde e indomável, mas ponderei: primeiro, esses tiranos i-&lt;br /&gt;30&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rão se vingar no poeta e, segundo, minhas condições de clandestino não são nada recomendáveis para essas impul-sividades. E saí pela rua com cara de vencido sem direito a revanche.&lt;br /&gt;Com o Sol bem no horizonte ocidental, iluminando-me bem de frente o rosto, lembrei-me de ver a hora: quatro e cinquenta e quatro! Acelerei os passos no rumo de casa, e disse para mim mesmo – em voz alta, como se dissesse para todos da rua:&lt;br /&gt;– Ainda dá tempo de chegar em casa. – e desconfio de que algumas pessoas pensaram: “esse, deve está com uma dor de barriga muito forte!”.&lt;br /&gt;Mas continuei rumo de casa como se meio correndo. A ansiedade funcionava como molas nos meus pés. Cheguei quase ofegante, mas em poucos minutos – menos da metade do tempo que eu levava normalmente para fazer o percurso entre a pracinha dos pombos e a casa.&lt;br /&gt;Cinco horas e dois minutos!...&lt;br /&gt;– Ufa! Receei que não desse tempo... – suspirei aliviado e meio ufanoso.&lt;br /&gt;Destranquei o cadeado e parei por alguns segundos olhando em minha volta, paralisado pela dúvida de se eu deveria entrar em casa ou não. Passou um casal por mim, ali parado como se mumificado, e me saudou com um:&lt;br /&gt;– E aí?... Tudo bem? Sempre se exercitando, hein!?&lt;br /&gt;Os segundos voavam, até que me decidi.&lt;br /&gt;Entrei em casa e dei uma averiguada para conferir se estava tudo normal. Conferi a alimentação da gata, subi ao sótão, fui ao subsolo... e como tudo parecia bem à pri-meira vista, rapidamente eu tomei um banho e voltei para o&lt;br /&gt;31&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;jardim e lá fiquei dissimulando cuidar das plantas, porém mais cuidando da rua ou, exatamente, do rumo de onde vinha do colégio a minha colhedora de flores.&lt;br /&gt;Tentei calcular o tempo que já não a via (e quanto tempo!):&lt;br /&gt;– Foi sábado à tarde – comecei a refletir e calcular – quando ela passou com os pais, a última vez que a vi: quarenta e nove horas e trinta e sete minutos! Isto significa que são decorridos 2977 minutos! Que por sua vez totalizam 178620 segundos! É tempo demais!!!&lt;br /&gt;E os minutos pareciam eternidades e exclamei impaciente:&lt;br /&gt;– Atroz, triste e infindável é um minuto: um... dois... três... quatro... cinco... Sessenta segundos sem ti!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando por entre as roseiras do jardim (procurando recuperar o fôlego que perdera não tanto pela corrida, mas mais pela ansiedade de rever a minha colegial anônima) assustei-me quando bateram no portão chamando-me a atenção. Apressei-me em atender, e o sujeito estendeu-me a mão com um calhamaço de contas: água e esgotos, energia elétrica, telefone, taxa do asfaltamento da rua, IPTU... Como um cão raivoso, encarei o entregador de contas (e olha que eu não imaginava sequer que existisse tal profissão!) e em minha expressão de raiva estampada na minha cara estava escrito:&lt;br /&gt;– Se manca, meu! Vê se consegue uma profissão menos odienta.&lt;br /&gt;E ele ainda me disse, já me dando as costas:&lt;br /&gt;– Desculpa aí... é o meu ganha-pão e dos meus filhos. Se eu não fizer isto vou parar debaixo da ponte.&lt;br /&gt;Fiquei com as contas do mês nas mãos e o olhar na rua. Não queria correr o risco de entrar em casa para guardar os papeis (que chegam mensal e infalivelmente feito regra de mulher) e perder a passagem da minha colegial colhedora de flores que, por sinal, já estava atrasada ou, pior ainda, já passara. Esta possibilidade me apavorou. Aumentou minha ansiedade ou – sei lá – dosou minha ansiedade com pânico! Comecei a me culpar por ter saído de casa ou, vai lá que tivesse saído, mas que não me demorasse tanto, principalmente àquela hora da tarde. E ain-da, como se não bastasse, fui me envolver (mesmo que à distância e sem intervenção direta) no caso do poeta e seus&lt;br /&gt;33&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;poemas censurados. Neste ponto lembrei-me do axioma: “Quem cuida da vida dos outros se esquece da sua.” Olhei as horas: cinco e vinte seis! Como desesperado, abri o portão e fui para a calçada com o calhamaço de contas nas mãos. Andei para um lado e outro, mas sempre com a a-tenção voltada para o rumo do colégio, onde estudava mi-nha colhedora de flores atrasada. Parei. Mirando ao longe uma jovem que vinha parecendo vestida com o uniforme escolar eu exclamei: Parece que é ela! – Não. Não era. Não havia nada parecido naquela jovem com a minha colegial; foi o que constatei ao vê-la se aproximar. Aparência apenas criada pela minha imaginação; pelo meu desejo de que fosse. Esbafori extremamente decepcionado. Eu estava atônito e incrédulo... Especulei-me divagando como numa espécie de pânico sobre o que poderia ter acontecido. E como sempre – ou quase sempre – nestas circunstâncias eu só conseguia imaginar o pior; e o pior poderia ser um acidente; uma doença grave... quem sabe sarampo, catapora, caxumba... pois eram as doenças da época que poderiam impedir de que um bom aluno fosse à escola – e isto porque se tratava de doença contagiosa e colocaria a saúde (entenda-se frequência escolar) dos demais alunos em risco. Também cogitei da possibilidade – pelo fato de o pai dela ser funcionário público – ele ter sido transferido para outra cidade e levado de imediato toda a família. E foi neste ponto que eu fiquei indignado; revoltado; incon-formado... e murmurei com profundo pesar: Puxa! Ela poderia ter ao menos me deixado algum sinal. Mas fui retomando a razão e ponderei: Vai ver que ela sequer teve tempo!!! Certo é que eu não conseguia pensar algo de bom&lt;br /&gt;34&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– se é que eu conseguia pensar. Eu só imaginava que alguma tragédia ocorrera. E isto era uma tragédia para mim. Ocorreu-me de que seria possível que ela estivesse inter-nada em algum hospital (que não eram muitos – o que me fez pensar de pronto: É pra já!) e eu tinha ótima relação com os profissionais da área de saúde, portanto a encontra-ria com facilidade, caso ela estivesse mesmo hospitalizada. Saí de hospital em hospital com o calhamaço de contas nas mãos procurando por uma jovem que eu sequer sabia o nome. Mas discretamente e já que minhas visitas eram frequentes e até mesmo esperadas, a minha busca foi relativamente fácil; e visto que eu sempre me inteirava sobre quais eram as mais recentes internações, as últimas altas e os possíveis diagnósticos. Procurei especificamente se alguma jovem aparentando entre dezesseis e dezessete anos fora internada entre sexta-feira e até aquele momento (tomei o cuidado de procurar se desde sexta-feira, pois nunca se sabe...). Tentei explicar para a recepcionista que estava havendo “um surto de meningite” – conforme órgãos oficiosos – mas quando falavam de que se tratava mesmo de uma epidemia, os militares justificavam para as massas de que eram “boatos de subversivos querendo de-sestabilizar o regime”. Pois é... Aqui mesmo só se fala no assunto aos cochichos, e estamos todos com medo... mas de sexta-feira até hoje não deu entrada ninguém com essas características – concluiu a recepcionista, mudando de assunto com a aproximação de uma médica que veio me cumprimentar, dizendo:&lt;br /&gt;– Sempre preocupado com o povo, hein! Tem escrito muito, ultimamente? – ela procurou saber se os papéis&lt;br /&gt;35&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que eu tinha nas mãos eram rascunhos do próximo livro, ao que eu disse que eram as contas do mês.&lt;br /&gt;Agradeci a uns e outros; despedi-me e disseram:&lt;br /&gt;– Não some não. Venha mais vezes.&lt;br /&gt;Voltei para casa com cara de vencido; com ânimo de desesperançado; com passos de indeciso; com jeito de inconformado; com voz de engasgado.&lt;br /&gt;Cheguei em casa lá pela meia noite. Por fim guardei os talões das contas.&lt;br /&gt;Desejei muito saber com exatidão o endereço da minha colegial anônima, pois eu apenas tinha imprecisa noção do setor onde ela morava, norteado pelo rumo que ela tomava quando passava pelo meu jardim. Porém não me encorajei ir à rua dela. E talvez eu nem mesmo fosse ainda que eu soubesse do endereço dela com precisão. A hora era inconveniente. Também aquele não era o meu setor favorito para o meu vagar noturno.&lt;br /&gt;Olhei as horas: uma hora e dezessete minutos de uma madrugada outonal!!! Ansiei que amanhecesse para eu ir à escola da minha colegial anônima, pois certamente alguém da direção ou alguma colega dela poderia me dar qualquer notícia dela. Mas ponderei: como procurar por alguém de quem nem mesmo eu sei o nome?!&lt;br /&gt;Às sete horas da manhã eu entrei na escola junto com as alunas (a escola não aceitava alunos – só matriculavam mulheres), e fui direto à diretoria. À diretora eu expus a minha preocupação (ou aflição), porém no franzir do cenho da diretora eu pude ler: Mas por que a preocupação? Você nem sabe o nome da aluna! Tampouco é parente da mesma! Eu expliquei que essa jovem passava to-&lt;br /&gt;36&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;das as tardes em frente a minha casa, mas estranhamente deixara de passar e me acorreu supor que algo grave lhe houvesse acontecido... Porém a diretora (meio desconfiada) disse-me que não estava sabendo de nada a respeito da mesma, mas que eu fosse à secretaria, pois certamente lá alguém me informaria algo sobre a mesma, até mesmo se houve algum pedido de transferência ou atestado médico. Também na secretaria ninguém sabia informar nada, exceto uma professora que, me olhando por sobre os óculos, disse secamente e como se falasse para ninguém:&lt;br /&gt;– Essa menina vem ultimamente irreconhecível. Mal presta atenção às aulas. E agora deu para faltar...&lt;br /&gt;Nada me restou senão agradecer e sair com cara de quem recebeu o resultado de um exame laboratorial que dava resultado positivo para uma doença incurável.&lt;br /&gt;Pensei em ir para casa, mas desisti: fazer o que lá se não havia ninguém para eu esperar?!&lt;br /&gt;Vaguei pelas ruas como quem planta silêncio e colhe solidão. Apenas caminhava, sem vontade de chegar a lugar algum. Talvez buscando a mim mesmo, pois eu já não sabia aonde ir procurar pela minha colegial anônima agora sumida!&lt;br /&gt;E antes, já amanhecendo a terça-feira, quando cheguei em casa depois de uma madrugada de quase infinito vagar pelas ruas da cidade vazia, agora ainda mais vazia, dei-me conta de que eu já não tinha mais tanta convicção de que a minha felicidade eu não saio a buscá-la por aí, pois eu a levo comigo, cá dentro, aonde eu vá. Não: eu já não tinha mais esta convicção. Eu sentia que um imenso amargor e uma sensação de infelicidade ocupavam o espa-&lt;br /&gt;37&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ço que ficara vazio em mim sem a minha colegial anônima e colhedora de flores, pois eu agora a imaginava semeadora de espinhos. E eu me sentia com cara de quem quebrou o jarro e despetalou a flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;¿De donde saco flores&lt;br /&gt;Si nadie las plantó?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E suspirei umas-não-sei-quantas-vezes estes versos. Exaustivamente eu suspirei estes versos até ver que já era meio dia e quarenta e sete minutos. Corri para o portão na esperança de que – quem sabe? – a minha colegial passasse, indo para a sua escola. Ali fiquei quase imóvel por mais de uma hora. Ela não passou. Minha angústia não passou. Permaneceu a terrível interrogação: onde está minha colhedora de flores?&lt;br /&gt;Olhei para o chão do jardim: estava forrado de pétalas murchas, quase secas... Dei-me conta de que eu abandonara o jardim já havia três dias. Nada ali parecia como há três dias. Só então tive noção do tempo e esbravejei. Indignei-me com a minha impotência diante das horas.&lt;br /&gt;Quanto tempo sem a ver ou, pior, sem ao menos ter notícia dela. Refiz as contas de quanto tempo de buscas e esperas:&lt;br /&gt;– Sábado à tarde, às quatro horas e dezessete minutos, quando passou com os pais... Agora já são dezoito horas e trinta e quatro minutos de terça-feira... Setenta e quatro horas e dezessete minutos! O que somam 4450 mi-nutos e 20 segundos que, por conseguinte, perfazem 267012 segundos!!!&lt;br /&gt;Pensei sussurrando e esbravejando:&lt;br /&gt;38&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É tempo demais!&lt;br /&gt;Em algum lugar do jardim, de espreita, a gata miou ou disse:&lt;br /&gt;– Demaaaaiiiiisss!!!!!!!!!!!!!! – garanto que ouvi isto; não ouvi um miado. Onomatopeia nada! A gata falou a minha língua!!! E fiquei intimamente feliz por ouvir uma voz solidária.&lt;br /&gt;Em seguida ouvi o barulho de um figo caindo – os morcegos também davam seu sinal de solidariedade. Ouvi também, vindo do sótão, aqueles gritinhos agudos de ratos e me alegrei mais ainda; e eu disse meio emocionado e quase gritando:&lt;br /&gt;– Obrigado, amigos, pela solidariedade.&lt;br /&gt;Com novo ânimo, procurei um rastelo e rapidamente dei uma geral no jardim e me assustei com o monte – quase montanha – de folhas e flores...&lt;br /&gt;Entrei em casa como se eu fosse visitar a mim mesmo – e tanto que quando cheguei à porta quase falei: Ó, de casa?! Eu buscava a mim mesmo; eu precisava me reencontrar; mas enfim entrei, ainda sem saber o que fazer naquela casa, como ainda não sei o que fazer em uma casa e tampouco para que serve uma casa. Ah! Já sei: para se tomar banho quando se está na zona urbana. Então, já que serve para isto, tomei banho... Fui à geladeira e peguei dois bifes – um para mim e outro para a gata. Peguei umas bananas também para mim: Macetadas com bife, ficam ainda mais deliciosas! (sussurrei).&lt;br /&gt;Surpreendi-me com o meu bom humor, o que atribuí à manifesta solidariedade dos meus convivas.&lt;br /&gt;Pensando assim, já fui fechando a casa e me dirigin-&lt;br /&gt;39&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do para a rua, agora com transbordante alegria, pois já não havia mais a sensação de estar sozinho em uma causa. E tanto que logo que cheguei ao portão, ao primeiro que vi passando já fui desejando boa noite.&lt;br /&gt;Creio que estava estampada na minha cara a frase:&lt;br /&gt;RESSUSCITADO PELA SOLIDARIEDADE!&lt;br /&gt;E assim – mais uma vez! – perambulei a noite toda pelas ruas, mas não mais me sentindo só. Eu tinha a sensa-ção de que a gata, os morcegos e todos os ratos do sótão estavam ao meu e do meu lado, passeando como em um grande parque de diversões. Mas acima de tudo companheiros; camaradas; solidários... e afinal passei uma noite pleno de contentamento como há muito não passava.&lt;br /&gt;Só faltava para completar minha alegria – e aí eu fiz questão de frisar: minha alegria e não a minha felicidade, pois não saio a buscar minha felicidade por aí, já que aonde quer que eu vá eu a levo comigo e não a busco em nada e em ninguém – então para completar a minha alegria só faltava que à tarde, lá pelas cinco e dez ou cinco e quinze, a minha colegial reaparecesse (ela desse ares de vida, como se diz), mas aonde eu iria encontrá-la senão dentro de mim mesmo?&lt;br /&gt;Não vi as ruas vazias; não vi a cidade vazia; eu não estava vazio... Eu e os meus fantasmas povoávamos a cidade – eu, pleno de mim mesmo e dos meus sonhos vela-dos nos becos, nas praças, nas esquinas, nas vielas... na contramão e a viés do que determinavam as normas estabelecidas a toque de cornetas e por forças de coturnos am-parados em baionetas e atos institucionais.&lt;br /&gt;Naquela madrugada eu levei meu bloco para a ave-&lt;br /&gt;40&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nida sem máscaras, sem fantasias e sem serpentinas. Era tudo o que eu queria: uma razão para viver, já que a ideologia estava com baionetas goela abaixo. Agora eu encontrara nova motivação. Eu não teria – por forças das cir-cunstâncias e atendendo a recomendações de amigos e familiares – que me refugiar nos porões. Não precisava me camuflar nas sombras da cidade noturna para não dar muito na cara. Eu não precisava posar de parente bonzinho passando uma temporada bem merecida na casa de familiares. Não!&lt;br /&gt;Eu tinha agora a minha colegial (anônima e desa-parecida – paradoxalmente desaparecida!) para buscar, e eu já não estava só. Acima de tudo eu me fazia acompa-nhar da esperança; dos meus fantasmas; dos meus sonhos... E fui madrugada afora povoando a cidade – não silenciosa, mas silenciada, calada, adormecida... E eu ve-lando a minha quase-certeza de que tão logo e presto eu teria a minha colhedora de flores enfeitando o meu jardim; colhendo seus cravos e jasmins e me preenchendo aqueles dias de adolescência clandestina. De adolescência fora da escola compulsoriamente, o que fazia de mim – como o faz com qualquer adolescente – um ocioso; um desocupado; um deserdado de futuro e do futuro.&lt;br /&gt;Eu não sabia onde encontrá-la – ainda! – mas cer-tamente nossos laços trançados em tão poucos minutos de uma semana de colheita de flores e plantio de amizade ou – sabe-se lá – de ardentes paixões e produtoras relações obstinavam-me a encontrá-la fosse onde fosse. Custasse o que custasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;41&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela quarta-feira eu estava chegando em casa junto com o Sol. Cheio de planos; pleno de ideias; ideal para o que desse e viesse. E viesse de onde viesse eu traria minha colhedora de flores de volta para o meu jardim. Ela voltaria a colher seus cravos e jasmins e eu – por minha vez – voltaria a ter certeza de que o futuro será sempre melhor; de que nenhum toque de recolher e tão menos as praças sitiadas impedirão a juventude de colher suas flores, construir – mesmo com gestos vagos, discretos e tímidos – um mundo melhor, baseado na amizade, fraternidade, humanismo, justiça, verdade, companheirismo... No amor, enfim.&lt;br /&gt;Oh, como eu amanhecera transbordante de entusiasmo! E oh, como esse entusiasmo juvenil me abastecia de coragem, esperança, autoconfiança e até mesmo de afoite-za; atrevimento; destemor... Eu queria a minha colegial de volta e pronto. Nada de voluntarismo, mas eu a queria de volta e isto me parecia suficiente. Quase irracionalmente suficiente, pois que sem medir consequências; sem consi-derar circunstâncias. Sem aceitar meus limites. O meu querer parecia suficiente para remover qualquer obstáculo, e isto me parecia bastar. E isto sequer me permitia lembrar de que eu era por aqueles dias apenas um adolescente for-çado a viver na clandestinidade para poder sobreviver.&lt;br /&gt;Passei aquela manhã em casa e animei-me a arrumar alguns móveis quebrados; alguns eletrodomésticos queimados... Colei – ainda com goma arábica! – algumas folhas e capas de livros descoladas (eu sempre tive esta ma-&lt;br /&gt;42&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nia – ou patologia? – de não poder ver um livro mal tratado); no sótão, me demorei mais, vendo minuciosamente se os ratos não haviam estragado nada; eu tirei, com um pano molhado, a poeira de todos os móveis, pois eu nunca concordei com o uso do espanador feito com penas de pavão, já que eu dizia sempre que em poeira e mulher nunca se deve bater: batendo no pó, ele vai para o pulmão; batendo em mulher, ela nos leva para a prisão... na melhor das hipóteses.&lt;br /&gt;Por volta do meio dia – envolvido com os afazeres que consegui com minha disposição motivada pela expectativa de reencontrar a minha colegial – ouvi voz de crian-ça a me chamar no portão. Primeiro, um bater-de-palmas frágil; quase inaudível; depois, quase aos gritos agudos de criança:&lt;br /&gt;– Vizinho!? Ó, vizinho?!&lt;br /&gt;Fui a atender. Ela me disse que a sua avó estava pedindo para que eu fosse à casa dela, pois a mesma precisaria de um favor. E pedi para que a criança fosse adiante e disse que eu iria fechar a casa e em seguida iria atender...&lt;br /&gt;Ao chegar à casa, uma mulher – pálida e frágil fisicamente – me esperava na porta:&lt;br /&gt;– Meu filho... queira entrar, por favor...&lt;br /&gt;Houve um breve silêncio enquanto eu entrava, e a mesma apontou-me uma cadeira, dizendo-me:&lt;br /&gt;– Senta aqui... Estou muito debilitada... não sei se tenho mais dificuldade em andar ou falar... qualquer coisa me cansa... Dalvinha, traga um chá de canela para o mo-ço... Você está que é uma só interrogação, não é?... Pois bem... Você me parece um bom menino, ainda que pessoas&lt;br /&gt;43&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na sua situação despertem outras opiniões... O que para mim reforça a minha simpatia por você...&lt;br /&gt;Ela fez uma pausa; uma quase-infindável pausa, ainda que tenha durado alguns segundos. E continuou:&lt;br /&gt;– Primeiro, estive internada nestes últimos cinco dias... Desculpe-me! Sequer lhe disse meu nome... Soledad... mas me chamam mesmo Soledade... por conta deles, acrescentaram o e... Sim, como eu ia lhe dizendo: estive internada por estes últimos cinco dias... Passaram-me umas injeções para tomar em casa e gostaria que você as aplicasse em mim... São só pelancas, mas você saberá dar um jeito...&lt;br /&gt;Ela tentou altear a voz se dirigindo para a neta, que estava no quarto ao lado:&lt;br /&gt;– Dalvinha? Traga a minha bolsa com meu medicamento.&lt;br /&gt;Olhei discretamente a medicação e prognostiquei de que se tratava de uma grave infecção e anemia profunda. Fiz as injeções e ela observou:&lt;br /&gt;– Mão suave... nem senti a picada da agulha... Você pode me fazer este favor amanhã, porém mais cedo? Sem querer abusar, claro...&lt;br /&gt;– Certamente... Só não digo que será um prazer nestas circunstâncias! Mas me sentirei extremamente útil.&lt;br /&gt;– Você é mesmo especial, até mais do que já ouvi de outrens sobre você.&lt;br /&gt;Ela se aproximou um pouco mais e me perguntou:&lt;br /&gt;– Não tem receio de se contagiar, não?&lt;br /&gt;– Claro que não! Pode ficar tranquila. – respondi.&lt;br /&gt;– Enquanto estive hospitalizada uma jovem (quase&lt;br /&gt;44&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;menina) foi internada às pressas... Ficamos no mesmo apartamento, se bem que por apenas umas seis horas... Tempo suficiente para conversarmos o bastante para que... – Soledad parou abruptamente com uma crise de tosse, mas logo retomou o assunto:&lt;br /&gt;– ... para que trocássemos valiosas informações... Ela me perguntou onde eu morava... Quando eu disse meu endereço, a jovem se reanimou... Disse-me que passava aqui em frente todos os dias que vinha do colégio... Perguntou-me se eu conheço você... Falei que só de vista e de histórias contadas pelos parentes e outros... Falou que o problema dela era grave e que a estavam encaminhando para a capital... mas que antes gostaria de escrever algo e me pediu que te entregasse... Dalvinha?!&lt;br /&gt;– Oi, vó?&lt;br /&gt;– Traga-me aquela sacola marrom, do zíper quebrado.&lt;br /&gt;A mulher mexeu e remexeu a sacola e não encon-trou o que procurava. Insatisfeita, esvaziou a sacola em cima da mesa e foi conferindo papel por papel. Chamou outra vez pela neta...&lt;br /&gt;– O que é agora, vó?&lt;br /&gt;– Ajuda sua vozinha a encontrar um envelopinho...&lt;br /&gt;Por fim encontraram uma espécie de envelope improvisado. Ela me passou o envelope – nada escrito por fora – e sublinhou o gesto com sua voz suave (não aquele suave de convalescente, mas suave natural) dizendo:&lt;br /&gt;– Ela me pediu para te entregar isto... Boa meni-na!... parecia mais triste do que doente... ou doente de tristeza... De fato, foi por insistência do pai dela que ela foi pa-&lt;br /&gt;45&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ra a capital. Os médicos mesmo disseram que... não seria preciso... mas como a família dele é de lá, segundo ela, e ele é funcionário público, ele preferiu... levá-la para lá. Ele ganharia uma licença remunerada... e visitaria os parentes...&lt;br /&gt;Creio que empalideci, ou algo assim, pois a Soledad me perguntou:&lt;br /&gt;– Você está se sentindo bem, meu filho?!&lt;br /&gt;Eu disse que estava ótimo, principalmente por ter notícia da jovem doente e, mais ainda, por receber alguma coisa que viesse dela.&lt;br /&gt;Agradeci com o mais profundo sentimento de gratidão e disse que no dia seguinte eu voltaria para fazer-lhe a injeção. Porém, ela disse que ela é que ficava imensa-mente grata.&lt;br /&gt;Fui para casa – nunca tive tanta vontade de ir para uma casa – ansioso para ler o que estava naquele envelope.&lt;br /&gt;– Mas não preciso de uma casa para ver o que tem em um envelopinho deste tamanho! A calçada, a rua, a praça... qualquer lugar serve. – e pensando assim, antes de chegar ao portão eu já havia lido e relido o que estava escrito em uma folha de caderno, no verso e anverso. Fiquei na calçada, com a mão no portão, como anestesiado.&lt;br /&gt;Tentando me recompor, procurei entrar em casa entre exultante e ainda incrédulo. Sem largar a folha de caderno eu lia e relia algumas frases que me pareciam ina-creditáveis. Eu procurava ler as entrelinhas. Eu procurava sentir as dores da minha colegial distante; doente; sem poder colher seus cravos e jasmins por forças e circunstâncias alheias a sua vontade.&lt;br /&gt;46&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria mesmo naquele momento era ir à procura da minha colhedora de flores atendendo apenas aos impulsos; sem atender à razão; sem avaliar as circunstâncias; sem considerar a lógica. Mas era tudo o que eu queria naquele momento; e tanto e tanto que voltei à casa da Soledad para procurar se ela sabia para qual hospital a colegial fora encaminhada.&lt;br /&gt;Não! Não sabia! Sabia apenas que ouviu o pai e a mãe da jovem falarem em hospital dos servidores públicos.&lt;br /&gt;– Ah!... Também me lembrei agora de que ela saiu chorando e disse-me que quando voltasse... me faria uma visita... Claro que aqui em casa, e não no hospital... Ela fez questão de deixar isto claro. – disse-me Soledad como se num misto de alegria e tristeza, olhando para o vazio do horizonte como se olhasse para o passado.&lt;br /&gt;Lembrei-me de que na carta, escrita singularmente numa folha de caderno, constava: domingo, 2:45h da tarde... Procurei ver as horas: 15:37h! Quarta-feira! Olhei para Soledad que, se apoiando com as mãos no encosto de uma cadeira, parecia ter o rosto de cera de tão anêmica. Aproximei-me mais dela e pedi-lhe para ver o local das injeções. Ela disse-me com um certo contentamento:&lt;br /&gt;– Nem parece que tomei injeção!&lt;br /&gt;Agradeci e lhe disse que no outro dia, por volta das oito e meia, ou se mais tardasse até as nove horas da ma-nhã, eu voltaria. Ela me perguntou:&lt;br /&gt;– Mas você não está pensando em ir à procura da... Não desobedeça ao coração, não, meu filho... As injeções...&lt;br /&gt;47&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela parecia mais cansada; mais reticente; mais próxima de mim, como se algo (que eu ainda não sabia o que) nos ligasse. E continuou:&lt;br /&gt;– As injeções, eu vou ao ambulatório... Faça o me-lhor para vocês...&lt;br /&gt;Eu estava profundamente comovido. E decidi que era melhor eu me ir. Despedi-me mais uma vez e confirmei que no outro dia (com certeza – fiz questão de frisar) eu voltaria.&lt;br /&gt;Fui para casa quase correndo. Eu queria reler aquela carta; tocar aquele papel; saber que eu tinha nas mãos algo que me veio de minha colegial, já não mais desaparecida, pois eu tinha – além de um pouco dela comigo – notícias de onde eu poderia encontrá-la. O que me impedia era a minha condição de clandestino; de pária em minha pátria - minha própria pátria! Mas mesmo assim, era só uma questão de tempo, pois o que eu estava mesmo era arquitetando um plano de forjar um disfarce e ir ao encontro de minha colhedora anônima de flores. E até mesmo pensei em levar alguns cravos e jasmins para ela. Certamente eu levaria: era nosso ponto de união. Eu já imaginava as condições em que eu poderia encontrá-la... Excesso de autoconfiança vez por outra me ajuda, outras vezes me prejudica, mas eu estava extremamente autoconfiante; só pesava a possibilidade de encontrar os pais dela... O que eu iria dizer para eles? Mas nem mesmo isto seria empecilho. Para vê-la qualquer coisa valeria a pena – se é que houvesse alguma pena...&lt;br /&gt;Decidido: eu iria. Mas quando? Já?! E o compromisso com a Soledad? Eu não seria tão irresponsável assim!&lt;br /&gt;48&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seria? Não! Não precisaria ser irresponsável. Encontrei uma solução: faria as injeções na Soledad aí pelas oito horas da manhã e logo embarcaria em um ônibus até a capital; lá, eu poderia ficar até as duas horas da madrugada do dia seguinte e viajaria de volta, chegando antes das nove da manhã para fazer as injeções em Soledad e – mais ainda – alegrá-la com a notícia de que fui visitar a nossa enferma de nostalgia.&lt;br /&gt;Reli pela enésima vez a carta! Detive-me onde es-tava escrito domingo, 2:45h da tarde... Estranhei que ela tivesse ido a minha casa depois de sair do hospital e ter deixado os cravos para mim, no cadeado. Quantas dúvi-das! Quantas interrogações! Antes de viajar para ser inter-nada com uma doença grave ela ainda conseguiu ir a mi-nha casa e deixar os cravos?! Que jovem era aquela?!&lt;br /&gt;E eu era só interrogações. Sem nenhuma resposta. Sem norte mesmo. Creio que tenha sido mergulhado neste mar de dúvidas que eu cheguei a dormir por umas duas ou três horas debruçado sobre a mesa e com a carta na mão.&lt;br /&gt;A quinta-feira já amanhecia quando acordei de sobressalto. Eu precisava tomar algumas providências para a viagem...&lt;br /&gt;Tudo pronto, restou-me aguardar o lento passar das horas. Ainda teria que aplicar as injeções na Soledad. E a ansiedade não me deixou esperar muito. Às sete horas e vinte e cinco eu fui à casa dela, o que a surpreendeu, pois eu falara que iria lá pelas oito e meia...&lt;br /&gt;– Que bom que você já veio!... pois eu já ia pedir para minha neta ir lhe chamar...&lt;br /&gt;– O que houve? – fiquei preocupado, imaginando&lt;br /&gt;49&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que ela não estivesse bem.&lt;br /&gt;– É que tenho uma surpresa para você... Entre, meu filho... Pode sentar aqui... – ela me falou isto me apontan-do um banquinho que ficava em um canto da sala, quase atrás da porta.&lt;br /&gt;Pediu-me que aguardasse um pouco enquanto ela ia buscar algo. Pensei que fosse o seu medicamento, mas vi que a sacola com o medicamento estava encima da mesa. Deduzi que ela fora buscar a seringa – ainda não havia seringa descartável; eram todas de vidro e tinham que ser esterilizadas em água fervente – mas a seringa estava sobre a mesa em seu estojo original, de metal inoxidável, pronta para uso.&lt;br /&gt;Soledad voltou e olhou-me longamente com seus olhos lânguidos e disse-me:&lt;br /&gt;– Parece estar com pressa...&lt;br /&gt;– Quero viajar tão logo eu faça as injeções. – eu disse.&lt;br /&gt;– Por que viajar?... Talvez o que buscamos esteja tão perto que não vemos, assim como o nosso próprio nariz... – ela fez uma pausa, aproximou-se mais de mim e continuou:&lt;br /&gt;– Adolescência não rima mesmo com paciência, não é?&lt;br /&gt;– Rima, sim. – respondi sem entender aonde ela queria chegar.&lt;br /&gt;– Ótimo! Pois apenas rima e nada mais em comum... A adolescência é a idade do coração... pode tudo: basta o impulso... Depois, com o tempo, os anos sobem à cabeça e vem a idade da razão... e aí, a cabeça manda mas&lt;br /&gt;50&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o corpo não obedece... Viva, meu filho, viva. A vida é viver, principalmente viver o hoje... e mais ainda: viva o momento, cada momento... Nunca sabemos o que o pró-ximo segundo nos reserva... Quanto à viagem, não tenha pressa... você nasceu para vencer; sou capaz de afirmar que se você se atrasar, o ônibus também se atrasa... Dê-me sua mão direita – ela riu seu riso franco e pálido e continuou – vou dar uma de cigana: vejo aqui na linha do destino que o seu já está traçado... Sei que você não crê nisto, mas eu creio e isto nos aproxima mais... Quero lhe confessar que lhe tenho como um filho; um filho que nunca me causou nenhuma dor, nem mesmo a dor do parto, e que nunca me causará. Tenho convicção...&lt;br /&gt;– Eu também te tenho como minha verdadeira mãe, com o privilégio e a vantagem de ter te escolhido. – eu a interrompi com profunda sensibilidade. Ela continuou, segurando-me a mão:&lt;br /&gt;– Acompanhe-me. Como um filho levado pela mão da mãe, vamos conhecer a nossa casa...&lt;br /&gt;Ao chegarmos à porta do longo corredor, ela voltou a falar:&lt;br /&gt;– Vamos beber o seu chá de canela...&lt;br /&gt;No início do corredor, no lado direito, a primeira porta era a do quarto da neta; aproximadamente no meio do corredor, à esquerda, outro quarto, e no fim do corredor uma pequena sala de mais ou menos oito metros quadrados – nove, no máximo. Na parede à nossa frente, quase no canto direito, outra porta que nos levou a uma área de serviços.&lt;br /&gt;Congelei! Não é que eu não sabia se gritava ou não:&lt;br /&gt;51&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que eu não sabia era o que gritar. Abracei Soledad. Beijei-lhe a mão e quedei-me mudo. Em nossa frente, sentada em um banquinho, com uma xícara na mão onde bebera chá, a minha colhedora de flores! A Minha Colegial já não tão anônima. Vestia um vestido que a deixava ainda mais adolescente – quase menina. Não me pareceu convalescen-te e tão menos doente. O rosto enrubescido e um largo sorriso fizeram-me vê-la diferente. Menos misteriosa. So-ledad disse:&lt;br /&gt;– Fiquem à vontade... Deem-me licença que vou à cozinha...&lt;br /&gt;Olhei a jovem por inteira. Incrédulo! Olhei profundamente nos seus olhos e ela não desviou seu olhar do meu. Eu não sabia o que dizer. Aproximei-me mais dela e ela me acompanhou passo a passo com seu olhar de vida; de felicidade; de ternura; de quase-entrega!&lt;br /&gt;Abri os meus braços como a pedir-lhe um abraço. Ela se levantou de braços abertos – ainda com a xícara na mão – e nos abraçamos forte, profundamente forte como se a fundirmos nossos corpos. Senti o pulsar do seu coração em taquicardia a denunciar emoção. Não tenho certeza se lhe sussurrei ao ouvido senti imensamente tua falta, mas foi algo assim; ela apertou-me mais. Eu disse-lhe:&lt;br /&gt;– Você adoece e eu é que quase morro! Está melhor?!&lt;br /&gt;– Adoeci de saudades. Não te vi no domingo...&lt;br /&gt;– Sequer eu sei o teu nome!... – eu disse-lhe procurando olhar nos seus olhos, assim, bem de perto, meu corpo colado ao seu.&lt;br /&gt;– Não... não me olhe assim. Fique como está... Dei-&lt;br /&gt;52&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;xe as perguntas para outra hora. Quero sentir seu respirar no meu ouvido. Quero só me sentir protegida nos teus braços. Não me faça perguntas. Nós não precisamos de perguntas, pois nós nos sentimos mutuamente. Nós deciframos nosso silêncio; compreendemos nossos mais sutis gestos e olhares. Para que ferirmos a melodia do nosso respirar com perguntas ou palavras que nada dizem diante das expressivas batidas dos nossos corações?! Por favor: por enquanto apenas procure ouvir os meus pensamentos.&lt;br /&gt;Por alguns minutos – não sei precisar quantos – ficamos ali, parados, colado um ao outro. Algumas breves e suaves carícias que trocávamos e a vontade de eterni-zarmos aquele momento nos dominavam.&lt;br /&gt;Ficaríamos ali, naquele mundo só nosso e que acabáramos de criar, sem nos darmos conta de que um mundo menos sublime, menos aconchegante, menos humano, menos maravilhoso existia, não fosse a Soledad – o único ser com direito a nos interromper, pois fora ela quem nos proporcionou as condições de torná-lo possível – quando ela, com sua voz suave e doce, porém com um misto de satisfação e deboche, nos perguntou:&lt;br /&gt;– Meninos?!... vocês ainda estão vivos?&lt;br /&gt;Eu pigarreei como se faz em situações assim, de quase embaraço, e em coro – que nem mesmo se tivéssemos ensaiado – dissemos a uma só voz:&lt;br /&gt;– Estamos, claro. Você é que nos esqueceu.&lt;br /&gt;– Fiquem à vontade. Só mais um minutinho e eu vou para aí. Não se preocupem comigo, pois estou bem.&lt;br /&gt;De fato, tínhamos mesmo era esquecido da Soledad. E mais: tínhamos esquecido o mundo! Ali era o nosso&lt;br /&gt;53&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mundo!&lt;br /&gt;– Já posso fazer algumas perguntas? – eu indaguei, com cuidado para não contrariá-la.&lt;br /&gt;– Ainda não. Por enquanto, nada de perguntas. Vou ao colégio levar meu atestado médico... Mas o que eu queria mesmo era te ver. Na volta, eu passo por aqui... Você me espera?&lt;br /&gt;Ela acariciou-me o rosto com suas mãos de veludo enquanto esperava a minha resposta. Mas diante do meu silêncio, pois eu estava numa espécie de êxtase, ela insistiu com sua voz que mais parecia uma carícia para os ouvidos:&lt;br /&gt;– Você me espera ou não?&lt;br /&gt;Dei-lhe um beijo na testa enquanto eu dizia:&lt;br /&gt;– Claro que te espero, mas não por muito tempo. Posso sair por aí, a tua procura outra vez...&lt;br /&gt;Rimos os dois e repetimos em uníssono:&lt;br /&gt;– Outra vez...&lt;br /&gt;Soledad chegou subtil e discretamente e nos acompanhou até à sala e Minha Colegial me advertiu:&lt;br /&gt;– É melhor que fique aí... Por enquanto não é bom que apareçamos juntos aqui. Bom, digo isto pela Soledad; vai que meus pais saibam que estamos nos encontrando aqui...&lt;br /&gt;Da calçada ela ainda disse, alteando a voz:&lt;br /&gt;– As injeções!... Não esquece...&lt;br /&gt;Eu olhei para Soledad com toda a minha admiração; com quase devoção. Ela permanecia calada, com aquele jeito de quem faz as coisas mais incríveis e fantásticas do mundo com a naturalidade de quem respira. Eu me&lt;br /&gt;54&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;perguntei como era possível uma mulher de compleição tão frágil, de saúde tão debilitada, de aparência tão singela ser tão gigantesca. Ser tão sábia. Ser tão sublime. Ser tão sobre-humana.&lt;br /&gt;Eu pouco sabia da vida – foi toda a minha conclusão naquele momento. E como se eu estivesse me despertando de um sonho, dirigi-me para ela:&lt;br /&gt;– Você é maravilhosa. Incrivelmente maravilhosa!&lt;br /&gt;Ela pareceu ignorar o que eu disse e apenas me estendeu o estojo com a seringa, agulhas e algodão com álcool. Nada mais precisava ser dito. Eu tinha apenas que lhe fazer as injeções, o que era, a meu ver, um gritante e cruel paradoxo: eu tinha que ferir uma pessoa que acabara de me curar feridas; de me estancar sangrias; de me sarar dores; de me acender um farol quando eu naufragado me debatia às escuras; de me devolver a vontade de continuar vivendo.&lt;br /&gt;Concluí as injeções, agradeci mais uma vez à Soledad e me despedi, dizendo que precisava ir para casa. Ela me perguntou:&lt;br /&gt;– E a menina? Você ficou de esperá-la!...&lt;br /&gt;– Preciso cuidar de algumas coisas em casa e depois eu volto.&lt;br /&gt;– Eu tenho certeza de que ela não demora, não.&lt;br /&gt;– Eu também não me demoro. – eu disse já chegando à calçada e indo rápido para casa extremamente eufórico.&lt;br /&gt;Mas mal acabei de chegar em casa e já fui me perguntando:&lt;br /&gt;– O que é que eu vim fazer aqui?&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei umas frutas para levar para Soledad, fechei a casa novamente, dei meia volta e fui para a casa dela. Lá, tinha o que fazer; eu tinha a quem esperar. Lá, eu me curava da minha crise de misantropia. Eu voltara a sonhar, pois descobri que a vida é feita de compensações: o eterno ganha-e-perde-perde-e-ganha. Foi desde então que aprendi que posso ser uma exceção nesse jogo nefasto: aprendi que ao invés de perder ou ganhar posso tão simplesmente substituir. E desde então sou mais feliz. Bem mais feliz!&lt;br /&gt;Cheguei à casa da Soledad pensando alto (como dizem: falando sozinho):&lt;br /&gt;– ... e assim sou bem mais feliz!&lt;br /&gt;A Minha Colegial já voltara e estava na sala conversando com a Soledad sobre a sua internação. Sobre a viagem.&lt;br /&gt;E eu fiquei meio sem jeito quando as duas riram e perguntaram-me:&lt;br /&gt;– Assim como, você é mais feliz?&lt;br /&gt;Soledad – como sempre – aproveitou a deixa para filosofar:&lt;br /&gt;– Eis a vida. Na adolescência, quando falamos sozinhos, é sinal de forte e dominante paixão. Na minha idade, é sinal de caduquice mesmo. Minha neta que o diga...&lt;br /&gt;A Minha Colegial ainda foi gentil:&lt;br /&gt;– Você ainda é nova, minha tia.&lt;br /&gt;– Fui, minha filha. Sou consciente disto, mas mesmo assim eu fico lisonjeada e grata com a sua bondade.&lt;br /&gt;Eu exclamei interrogante:&lt;br /&gt;– Vocês são parentas?! Mais exatamente tia e so-brinha?!&lt;br /&gt;56&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Assim como você é meu filho... Não é, minha filha? – disse Soledad, dirigindo-se para a Minha Colegial, e depois acrescentou:&lt;br /&gt;– Por mim ela também me chamaria de Mãe Soledad, assim como você.&lt;br /&gt;Eu deixei a minha afoiteza aflorar; deixei meu atrevimento prevalecer; deixei minha impulsividade me dominar e disse com a cara mais sinicamente cênica:&lt;br /&gt;– Pois é... quando as sogras são boas, as noras as tratam por mãe e como a uma verdadeira mãe.&lt;br /&gt;As duas riram. Cada uma a seu modo; cada uma com seus motivos; cada uma com seu jeito próprio de rir. Eu, por minha vez, senti-me aliviado pensando que as duas haviam esquecido o meu ... e assim sou bem mais feliz! e a pergunta delas “Assim como, você é mais feliz?”. Mas não. Insistiram em que eu dissesse o que aquilo significava. As duas tinham interesses pessoais na resposta, pois cada uma supunha que fosse exatamente pelo fato de tê-las agora em minha vida. De tê-las como parte do meu restrito mundo. E estavam certas.&lt;br /&gt;Eu disse para elas que estava pensando o quanto eu estava me sentindo feliz por ter substituído minha atividade revolucionária, meu curso em uma escola pública fede-ral, minha liberdade plena e outras coisas mais pela amizade, carinho, companhia, e tudo de bom que elas me proporcionavam. E enquanto eu falava isto elas se entreolha-vam e tinham nos rostos um incontido riso de alegria ínti-ma.&lt;br /&gt;Eu perguntei para as duas:&lt;br /&gt;– E eu precisaria de mais para ser feliz?! Claro que&lt;br /&gt;57&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não. Seria exagero. Seria paroxismo. Agora são vocês duas tudo que eu tenho, e não preciso de mais. Portanto é assim que sou bem mais feliz.&lt;br /&gt;Eu disse isto e abracei a Minha Colegial. Abracei-a num abraço pleno e me senti como se abraçasse o mundo inteiro. Como se pudesse ter o mundo inteiro nos meus braços. E de fato ter aquela jovem em meus braços era tudo para mim que há poucos meses perdera quase tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;58&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Soledad e a Minha Colegial já haviam combinado que ela passaria a manhã ali, conosco. Eu vibrei com a ideia. Sugeri que almoçássemos juntos e me ofereci para fazer o almoço, o que soou como um petardo:&lt;br /&gt;– Você sabe cozinhar?! – vibraram as duas.&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– E o que é que você não sabe fazer? Já que é mais fácil dizer o que não sabe... – disse Soledad.&lt;br /&gt;Concordamos os três com minha sugestão e fomos para a cozinha, ainda que eu tenha insistido em ir fazer o almoço em minha casa; ideia que provocou várias objeções.&lt;br /&gt;A Soledad argumentou:&lt;br /&gt;– Não fica bem uma velha e uma adolescente sós na casa de um estranho, pois para muitos você ainda é um...&lt;br /&gt;A Minha Colegial se adiantou:&lt;br /&gt;– Não quero ser feliz somente hoje. Vamos com calma. Vai que algum conhecido passa e nos ver lá e conta para meus pais... a coisa complica. Eles ficaram no litoral e só vêm no próximo fim de semana. Eu vim com uma prima minha, pois ela veio para um congresso; por isto que estou com esta folga toda, mas não ao ponto de ir tão longe. Meus pais, quando me fizeram, não queriam uma filha, mas sim uma santa. Todos os dias (e várias vezes ao dia) eu tenho que ouvir os sermões deles de que eu devo fazer primeiro uma faculdade e nada de namoricos, conforme dizem eles. Parece até que eu não sou capaz de fazer&lt;br /&gt;59&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;duas coisas ao mesmo tempo ou que não tenho vontade própria.&lt;br /&gt;– Pais são assim mesmo. Quando você for mãe, você vai compreender. Não fazem por mal... é o que eles entendem que seja o melhor para a filhinha... – interveio Soledad.&lt;br /&gt;– Eu penso que os pais nunca confiam nos filhos e nunca veem que os filhos cresceram. É... é isto mesmo.&lt;br /&gt;As duas conversavam entusiasticamente enquanto eu cuidava do almoço, de modo que me sentia constrangido quando tinha que interrompê-las perguntando para a dona da casa onde estava isso e aquilo:&lt;br /&gt;– Olha eu novamente, gente, interrompendo a conversa de vocês! Agora é o orégano... onde está, Soledad? – perguntava eu já meio sem jeito.&lt;br /&gt;Quando anunciei que o almoço estava pronto, as duas exclamaram de uma só vez:&lt;br /&gt;– Já!!!!!!!!&lt;br /&gt;– Pois é... vocês se empolgaram tanto nas filosofias de vocês que até esqueceram de que havia um cozinheiro aqui. – disse eu com indisfarçável ciúme, ou inveja que seja.&lt;br /&gt;As duas fizeram estrênuo esforço para me consolar. Encontraram explicações sagazes. Algumas até dentro da lógica e, portanto, críveis. Mas o fato é que eu me senti mesmo meio que jogado de lado, tipo brinquedo de menor importância. E eu disse isto para elas, o que fez com que elas cressem que eu estava mesmo profundamente magoa-do.&lt;br /&gt;Que ótimo foi o resultado daquela minha reação, pois&lt;br /&gt;60&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ganhei palavras doces, amáveis e confortantes da Soledad, tipo você sabe que nós te queremos muito bem; e da Minha Colegial eu ganhei um quase condolente abraço, mas com os afagos e um suave beijo no rosto o abraço se prolongou com carícias, elogios mútuos e, se não fosse a neta da Soledad que inoportunamente chegou, ficaríamos ali, colado um ao outro indefinidamente. Ficamos lado a lado, com os braços na cintura um do outro; ela – com a mão que ficara livre – puxou seus longos cabelos para o lado direito, de modo que os mesmos pareciam acariciar-me a cada movimento que ela fazia. Ela inclinou a cabeça e me olhou de soslaio, assim como se olha de lado, e com a mão esquerda que mantinha em minha cintura ela fez suaves movimentos em mim, enquanto o perfume dos seus cabelos me incendiava.&lt;br /&gt;Almoçamos os quatro (Soledad, sua neta, Minha Colegial e eu) como se fôssemos uma harmoniosa e exemplar família. Algumas exclamações “Hum! Está uma delícia” ou coisas assim, ditas de boca cheia (figurativa e literalmente), afagaram a minha vaidade; o meu orgulho.&lt;br /&gt;A Minha Colegial repentinamente parou de comer, pôs os talheres sobre o prato (deixando transparecer uma inesperada mudança de humor ou temperamento), esfregou uma mão na outra e estalou alguns dedos – o que sugeria nervosismo – olhou-nos um a um e fitou-me profundamente, e tão profundamente que me senti violado, ra-diografado. Fez um leve ar de sorriso e me perguntou:&lt;br /&gt;– E se eu não quisesse mais voltar para casa?&lt;br /&gt;Senti que todos deixaram os talheres caírem.&lt;br /&gt;Não! Não entendemos nada. Carecíamos de esclare-&lt;br /&gt;61&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cimento. Como se eu não quisesse mais voltar para casa?? Que casa? Por que não querer voltar para casa?! Não! Não entendemos nada! Soledad, com todo seu equilíbrio (principalmente emocional) foi a primeira que se recuperou:&lt;br /&gt;– Que casa, minha filha?&lt;br /&gt;– Dos meus pais, ora!&lt;br /&gt;– Mas por quê? O que está havendo?...&lt;br /&gt;– Eu queria mesmo era morar aqui, com vocês. Aqui é tudo diferente. Não sou tratada como uma criança ou uma imbecil. Sinto que vocês gostam de mim. Não me cobram nada. Aceitam-me como sou, ou melhor: nem pro-curam saber como eu sou. Sinto-me gente de verdade e não um brinquedo; uma marionete. Meus pais fazem sentir-me como um investimento deles a curto e médio prazo. Querem concretizar os sonhos frustrados deles através de mim, como se eu não tivesse meus próprios sonhos. Sinto-me uma espécie de seguro de vida e garantia de uma gorda aposentadoria para eles. Eu adorava estudar, mas de tanto eles cobrarem de mim que eu faça uma faculdade para garantir meu futuro...&lt;br /&gt;Soledad a interrompeu, com visível preocupação:&lt;br /&gt;– Ó, minha filha! Você é tão nova para ser tão amargurada assim! Confesso que estou surpresa, pois te vejo tão doce e amável.&lt;br /&gt;E tentando desconversar, a dona da casa perguntou:&lt;br /&gt;– Você não está gostando da comida do seu...&lt;br /&gt;– Claro que estou!&lt;br /&gt;– Então?... Vamos comer e repetir esta delícia.&lt;br /&gt;A magia da Soledad funcionou.&lt;br /&gt;62&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lentamente a Minha Colegial pegou seus talheres e voltou a comer, o que nos induziu a fazermos o mesmo.&lt;br /&gt;Mas estávamos surpresos. Aquele desabafo de adolescente nos deixou a todos – e em particular a mim – estarrecidos. Eu estava desorientado; estonteado; nocauteado. Sem saber o que dizer ou fazer diante de tão grave inesperado.&lt;br /&gt;Mãe Soledad, com toda a sua experiência e sagacidade, para não deixar que a colhedora de flores ressuscitasse aquele inoportuno desabafo, disse:&lt;br /&gt;– Já estou pensando na janta... Todos aqui, novamente? Combinado? Só que já vou adiantando: não tenho dotes tão apurados para culinária, portanto sugiro que vo-cês dois tomem conta da cozinha... – ela disse isto olhando para mim e para a Minha Colegial, simultaneamente.&lt;br /&gt;De pronto e deixando transbordar todo meu entusiasmo eu disse que sim, mas a adolescente amargurada apenas nos olhou com um discreto sorriso que (sempre e em quaisquer circunstâncias) a deixava mais adorável. Nada disse com palavras, mas ficou pensativa e introspectiva, o que por si só já dizia tudo. Percebi que seus olhos começaram a brilhar bem mais do que o habitual, e logo vi que estavam úmidos, bem úmidos, como se uma lágrima se anunciasse. Eu acariciei seu rosto com o dorso da minha mão direita, de maneira que minha mão passou no canto esterno do seu olho esquerdo e eu pude constatar que de fato seus olhos estavam molhados. Sim, molhados! Sem dúvida, o prelúdio de uma lágrima; e aquela lágrima doeu-me em minhas entranhas como golpes de punhais. Ela olhou a mim e a Soledad como se quisesse fazer uma&lt;br /&gt;63&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;confissão. Como se quisesse nos arrancar um sim. Como se – no naufrágio – buscasse uma mão.&lt;br /&gt;Falando para nós dois, ela disse:&lt;br /&gt;– Quero vocês para toda minha vida.&lt;br /&gt;Depois, olhando bem fixamente para mim, seus olhos nos meus olhos, ela me disse:&lt;br /&gt;– Não quero mais... – quando ela disse “Não quero mais” eu gelei – Não quero mais teus cravos e jasmins (gelei novamente!) pelas grades. Eu queria mesmo era um pretexto para me aproximar de ti, mas é claro que eu quero também as flores, só que eu gostaria de recebê-las de ti. Cuidadas por ti, colhidas por ti e entregues a mim por ti. Por todos estes dias eu tenho sonhado com isto. Pode fazer isto por mim?&lt;br /&gt;Ela aproximou seu rosto ao meu e deslizou sua boca e nariz nos meus, vagarosamente; lentamente; calmamente; subtilmente; docemente...&lt;br /&gt;– Claro que sim! Além do mais, desde que te vi pela primeira vez eu não tenho feito nada se não por ti. E para que você tenha uma ideia do que estou te dizendo, basta que eu te diga que na sexta-feira, quando você deixou as flores enfiadas no ferrolho do portão eu as recolhi e saí quase correndo atrás de ti. Quase que te alcancei, mas como eu não sabia que as tinhas deixado para mim e você sequer olhou para trás, eu, depois de ficar alguns minutos no meio da rua feito um tonto, resolvi voltar em um misto de feliz pelas flores (que não tenho certeza de que eram para mim) e desgostoso da vida por não ter falado contigo. E além do mais, de domingo para cá tudo que tenho feito é te procurar, até mesmo nos hospitais, na tua escola, nas&lt;br /&gt;64&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ruas... E Soledad pode muito bem te confirmar que eu, depois de aplicar as injeções nela, viajaria à tua procura!... sabendo eu apenas que haviam te levado para a capital e que, segundo Soledad, talvez você estivesse no hospital dos servidores públicos, pois foi tudo que ela pode ouvir e me informar... Na terça-feira, logo pela manhã cedo, eu fui à tua escola; falei com as alunas, a diretora (que me sugeriu ir à secretaria) procurando por ti, feito um louco, pois nem mesmo eu sabia (assim como ainda não sei) o teu nome. Contei horas, minutos e segundos que passei sem te ver... Aliás, agora são 11 horas e 43 minutos, o que somam 115 horas e 26 minutos que, por conseguinte, perfazem 6915 minutos e 6 segundos, totalizando 414936 segundos desde a última vez que te vi, que foi no sábado, às 4:17h daquela tarde!!! E, infelizmente, tantos números não dizem nada, não mensuram nada do que sofri sem ti... E para ser mais incisivo, eu nem mesmo creio que estou vivendo este momento, principalmente mais inimaginável por você ser tão misteriosa e inacessível e por saber que tinhas ido para a capital, para ser internada com uma “doença grave”.&lt;br /&gt;– Gravíssima! Raríssima! Aliás, único caso no mundo, pois eu adoeci porque não te vi no domingo. Foi uma febre repentina, com ânsias de vômito e síncopes... – a Minha Colegial me interrompeu como se quisesse me mostrar que o seu sofrimento fora maior que o meu.&lt;br /&gt;Oportunamente Soledad interveio:&lt;br /&gt;– Minhas crianças! Neste momento tão sublime, para que falarmos de coisas tristes? E que, além do mais, já passaram. Vamos aproveitar o agora, pois o amanhã é incerto.&lt;br /&gt;65&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Minha Colegial disse que precisava ir à casa dos seus pais, pois assim ficara combinado, já que a prima poderia chegar para o almoço, visto que elas não sabiam se o Centro de Convenções iria oferecer as refeições; portanto era “menos problemático” que ela estivesse em casa quando a prima chegasse, considerando que a mesma era demais rigorosa e contaria tudo ao tio. Ela anunciou também que naquela tarde não iria à escola, pois não estava com a menor vontade.&lt;br /&gt;Eu disse:&lt;br /&gt;– Então vem colher flores comigo em nosso jardim.&lt;br /&gt;Soledad sugeriu:&lt;br /&gt;– Venham os dois passar a tarde aqui em casa. Será ótimo para todos.&lt;br /&gt;A Minha Colegial puxou sua cadeira para perto de mim e eu a abracei como se abraçasse a única chance de eu continuar vivendo. Como se aquele abraço fosse tudo que alguém necessitasse para ser plenamente feliz.&lt;br /&gt;Soledad, com toda a sua discrição, nos pediu licença, se levantou e, enquanto empurrava a cadeira para perto da mesa, ela disse:&lt;br /&gt;– Fiquem à vontade e considerem o meu convite... de virem os dois passar a tarde aqui em casa...&lt;br /&gt;Ficamos sós pela segunda vez na vida e no mesmo dia. Minha Colegial me disse que apenas ia à sua casa e que não demoraria, mas me pediu que eu a esperasse no jardim de minha casa, pois ela “estava com saudades daqueles dias” de colhedora de flores e que, ainda segundo ela, guardaria para sempre em sua memória as lembranças&lt;br /&gt;66&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;daqueles momentos. E ela lembrou ainda:&lt;br /&gt;– Foi quando nos vimos pela primeira vez. Lem-bras?&lt;br /&gt;– Oh, se lembro! E quanto! – eu respondi, enquanto ela se levantava e me dizia:&lt;br /&gt;– Eu já vou. Passei a manhã toda aqui... Consegue perceber o que você fez comigo?&lt;br /&gt;Dirigimo-nos para a porta de saída e ela, alteando a voz, disse:&lt;br /&gt;– Mãe Soledad? Eu já vou. Obrigada por tudo. Mais tarde eu volto...&lt;br /&gt;Ela me abraçou forte – bem forte –, beijou-me no rosto e me fez confirmar que a esperaria no jardim, e me disse, ainda segurando a minha mão:&lt;br /&gt;– Não sai agora, não. E me espera mesmo, ‘tá?&lt;br /&gt;Eu agradeci a Soledad e fui para casa. Da calçada eu ainda vi a Minha Colegial já bem distante, quase sumindo no horizonte. Apenas um vulto. Fiquei no portão até ela sumir totalmente e permanecer apenas na minha mente, da qual ainda hoje ela faz parte inseparável. E tanto que ao escrever estas memórias às vezes eu me pergunto se são memórias ou se eu ainda não estou vivendo esses dias da adolescência que não querem passar e que jamais passarão.&lt;br /&gt;Entrei em casa, por fim. Agora eu tinha o que fazer naquela casa. Por via das dúvidas voltei e resolvi deixar o portão semiaberto.&lt;br /&gt;Era profundo o silêncio em casa. Estranho silêncio. O sótão que (possivelmente pelo barulho dos ratos) era famoso como mal-assombrado pelo constante barulho que&lt;br /&gt;67&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;metia medo em quase todos e ninguém se atrevia subir para passar a limpo qual a causa, contribuindo para que a lenda prevalecesse, estava inexplicavelmente silencioso. A gata – que dormia sobre uma cadeira – apenas me olhou como de espreita e continuou o seu sono. Eu me perguntei:&lt;br /&gt;– Isto será o silêncio da tão esperada e almejada – não sei se merecida – paz?!?!?!&lt;br /&gt;Mas aquele silêncio estava me estonteando e resolvi ir para o jardim, porém não sem antes, quase gritando, dizer para todos que por ali estivessem, mesmo que ocultamente:&lt;br /&gt;– Bem comportados e compreensivos vocês todos. Só porque estamos esperando visita especial... vocês estão ainda mais bem comportados.&lt;br /&gt;E saí, olhando meio que de lado para a gata, que novamente entreabriu os olhos, mudou de posição, disse lá alguma coisa que eu não compreendi muito bem, e conti-nuou a dormir.&lt;br /&gt;Ao chegar à porta da frente já fui ouvindo:&lt;br /&gt;– ‘Tá acompanhado? Eu vou para a casa da Mãe Soledad e volto depois.&lt;br /&gt;Era a Minha Colegial que, confesso, me surpreendeu, pois eu não imaginava que ela voltaria tão logo.&lt;br /&gt;Corri ao seu encontro, peguei-lhe pela mão e disse que eu estava só:&lt;br /&gt;– Quero dizer: com meus amiguinhos. Por quê? – disse-lhe eu, convidando-a para entrar.&lt;br /&gt;– Só até aqui mesmo. – disse ela quando adentrou o jardim.&lt;br /&gt;– Já é muito para quem esperava tão pouco, pois con-&lt;br /&gt;68&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fesso que eu não tinha muita esperança de que um dia tivesse o privilégio de estar do lado de cá das grades do jardim contigo. Não alimentei esperança (que diante dos teus mistérios poderia ser ilusão) de que um dia estaria aqui, conversando contigo; tão próximos; podendo te abraçar; sentir teu corpo no meu; acariciar-te, já que eu podia apenas acariciar as flores que você deixou no ferrolho na sexta-feira da semana passada, lembras?...&lt;br /&gt;– E como esquecer?! – ela me olhou sem nenhum sinal do seu característico sorriso; taciturna mesmo; e continuou:&lt;br /&gt;– ... Mas quem são os teus amiguinhos com quem você estava falando lá dentro?!&lt;br /&gt;– Pois é... Este momento era inimaginável para mim que vi em ti alguém inacessível; digamos assim: às vezes eu tinha dúvida se você existia mesmo; se não era apenas fruto de minha imaginação, principalmente por estes últimos meses que minha vida foi transformada em um pesadelo que, a partir de hoje, você (com a ajuda da Soledad) transformou em um delicioso sonho do qual eu quero jamais acordar.&lt;br /&gt;Eu a abracei forte. Ela me abraçou forte. Nossos corpos colados como geradores de energia quase em explosão aumentavam nossa transpiração de efervescência e nervosismo juvenis, acelerando a nossa produção de hormônios. E foi assim que nossos rostos colados foram deslizando!... de modo que nossos lábios se encontraram; nossas bocas se encontraram; nossas línguas se encontraram... ardentes; abrasivos; excitantes!... O cheiro da saliva dela assim friccionada nos nossos lábios deflorou-me as na-&lt;br /&gt;69&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rinas e subiu-me rápido ao cérebro e acelerou o metabolismo da produção de todos os hormônios essenciais à libido, que por sua vez determinou a explosão de todas as excitações e desejos como somente se dá em adolescentes enamorados.&lt;br /&gt;Cravos, jasmins, flores, buquês, palavras (ditas e não ditas, engolidas a seco, retidas na garganta), gestos tímidos e não assumidos (como se disfarçados), acenos retidos no ar como se a reprimir sentimentos incontroláveis, olhares fortuitos, sorrisos encortinados pelos cabelos ou mãos, uma quase-indiferença para disfarçar o indisfarçável... Tudo que marcou nossos fortuitos encontros na semana que passara explodia ali no nosso jardim, à sombra das árvores, com pétalas caindo sobre nossas cabeças desprendidas pelo vento que, como num ato de atrevimento e indecência, rodopiou de modo que suspendeu a saia da Minha Colegial que, envolta em meus braços e na simbiose dos nossos beijos, sequer percebeu aquele ato quase obsceno do vento que também nos afagava; que parecia querer ser cúmplice. Ser partícipe.&lt;br /&gt;Percebemos que a rua voltava a ficar movimentada, com as pessoas retornando para o trabalho depois do intervalo proletariano para o almoço; e por segurança eu insisti para que entrássemos em casa, com toda a retórica de um adolescente apaixonado e com os hormônios à flor da pele. Ela mais uma vez se recusou a aceitar, dizendo que queria ficar mais um pouco, porém ali mesmo no jardim, mas sugeriu que mudássemos de lugar. Olhou em derredor e viu que ao fundo do jardim, lá num canto, as roseiras eram mais densas, e sugeriu que fôssemos para lá,&lt;br /&gt;70&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas fazendo questão de deixar claro que somente por mais alguns minutos e que depois iríamos para a casa da Mãe Soledad.&lt;br /&gt;Pela primeira vez a Minha Colegial estava pelo lado de dentro do meu jardim e não vestia o seu uniforme escolar: saia pinçada, sapatos pretos e meias e blusa brancas, nem prendia livros contra os seus seios como se denunciasse pudicice. Não! Ela agora apertava contra si o meu corpo febril de desejos. Invés de seu uniforme de colegial, o seu vestido de pano fino e leve que permitia que eu sentisse todos os detalhes da anatomia do seu corpo escultural no meu, como se nada houvesse entre nós.&lt;br /&gt;O seu hálito, a sua saliva, a meiguice da sua voz, seu corpo colado ao meu, suas suaves mãos deslizando meigamente pelo meu corpo... Tudo nela era uma total entrega. Um prelúdio à felicidade plena. E eu a abraçava e a beijava com sofreguidão; com todo o fervor da minha paixão juvenil.&lt;br /&gt;A pupila de Soledad, com os seus 16 anos e seu vestido florido, não me fez esperá-la entre as cinco e dez e cinco e quinze da tarde – com exceção dos domingos e feriados – no portão da minha casa. Ela agora era a flor mais bela do meu jardim. Ela ultrapassara o meu portão espontânea e inesperadamente para, sem palavras, anunciar que estava ali toda minha sem nada pedir; sem restrições a fazer; sem regras a impor; sem nada em troca a querer... E me beijava e me abraçava sem perguntas a fazer.&lt;br /&gt;Ela deslizou o seu corpo no meu em um movimento rotativo de cento e oitenta graus, de modo que ela ficou de costas para mim e eu a abracei e senti todo o seu corpo&lt;br /&gt;71&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em minhas mãos. Seus seios rígidos e febris eram a medida certa de minhas mãos em conchas. Nossos corpos se encaixavam numa exatidão geométrica. Ela levou as mãos para trás de sua cabeça e suspendeu seus cabelos, sugerindo que eu a beijasse na sua nuca, e eu pegava seus pelos com os meus lábios e ela me mostrando um dos braços me disse:&lt;br /&gt;– Olha como você me deixa!... Toda arrepiada! Sensações que até agora eram desconhecidas por mim.&lt;br /&gt;Minha Colegial, na plenitude da sua adolescência e criada na rigidez de quem estava sendo preparada apenas para o ingresso em uma universidade, mantida longe do universo tão comum aos demais jovens de sua idade, era só pureza – quase inocência e ingenuidade mesmo – e ali, naquele momento, era só instinto e emoções. Ela quase nada sabia sobre o sexo, a paixão e o amor, senão o que lera em romances clássicos. Mas agora ela estava vivendo e aprendendo tudo isto na prática.&lt;br /&gt;Ela estava naquele momento descobrindo o mundo das emoções e dos prazeres. Descobrindo os pontos mágicos do seu próprio corpo. Contagiando-se de rebeldia, subvertendo as ordens e os caprichos dos pais. Afrontando as regras do bom comportamento estabelecidas pela socie-dade (principalmente pelos de sua categoria social).&lt;br /&gt;A Minha Colegial iniciava ali sua preparação ritualística para o dia em que ela se faria mulher sob os meus lençóis e inauguraria uma manchinha sobre a sua reputação.&lt;br /&gt;– Mas com água e sabão ninguém perceberá em casa. – dir-me-ia ela depois.&lt;br /&gt;72&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já passava das quatro horas da tarde quando nos demos conta do tempo (mas o que se pode saber sobre tempo depois de uma tarde de beijos, abraços, carícias, toques intimamente íntimos, afagos, sussurros de prazer?...) e resolvemos (aliás, nos lembramos) ir à casa da Soledad (claro que um de cada vez: primeiro ela; depois, eu, pois não era nada prudente que saíssemos os dois juntos)...&lt;br /&gt;Ela, ao se aproximar do portão, olhou para trás, fitou-me languidamente, inclinou a cabeça e quase como um soluço, disse-me:&lt;br /&gt;– A vontade é de ficar...&lt;br /&gt;– A minha vontade é que você fique. – eu disse, dando alguns passos em direção dela, com vontade de prendê-la para sempre em meus braços.&lt;br /&gt;Ela me perguntou, andando em minha direção:&lt;br /&gt;– Você quer que eu fique?&lt;br /&gt;– Sim. E muito!&lt;br /&gt;– Então eu fico, e para sempre. – disse-me ela já me abraçando novamente e sorrindo o seu sorriso de quase-sedução.&lt;br /&gt;– Mas não é bem assim... Acima de tudo temos nosso compromisso com a Mãe Soledad; e depois...&lt;br /&gt;Eu não tinha o que dizer. Tudo que eu queria era que ela ficasse, e para sempre. Quase irracionalmente era tudo que eu queria. Mas num relampejo de racionalidade me passou pela cabeça a minha condição de clandestino (que, talvez, ela nem soubesse); nossas condições cíveis (e&lt;br /&gt;73&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;principalmente a dela) de menores de idade; a reação e a decepção dos seus pais; a minha condição de subversivo procurado pelos órgãos de repressão e quase-vivendo de favores em casa de parentes.&lt;br /&gt;O que eu poderia oferecer àquela jovem senão o meu-quase-eterno-amor?! A minha-quase-eterna-paixão?!&lt;br /&gt;Tudo o mais na minha vida, por aqueles dias, era incerto. Então, que certezas eu poderia dar àquela jovem? Que conforto, que vida eu poderia lhe dar?! Quando a minha própria vida era um pesadelo, que sonhos teria eu a oferecer?! Não seria amor tirá-la do bem-estar e aconchego do seu lar para transformá-la no que eu era. Não! Sexti-lhões, zilhões de vezes não! Isso não seria amor. E eu a amava, portanto naquele instante cheguei até mesmo a pensar em renúncia. Em contar para ela toda minha situa-ção. Abrir o jogo, como se diz. E naquele impasse, restou-me dizer:&lt;br /&gt;– Vamos cumprir nosso compromisso com Soledad e aproveitaremos para falarmos sobre este assunto.&lt;br /&gt;Ela, com profunda tristeza na voz, me disse:&lt;br /&gt;– Então você não me quer. É isso... Pode dizer...&lt;br /&gt;– Não, não é nada disso...&lt;br /&gt;– E o que é, então? Você não se dá conta de que está me rejeitando? E amor para você é isso?&lt;br /&gt;Havia em sua voz um profundamente marcante tom de desgosto e revolta.&lt;br /&gt;Eu, com denodado esforço, tentei explicar:&lt;br /&gt;– Você não tem a menor ideia de quem sou eu; e eu sequer sei o seu nome! Há um pouco mais de uma semana que nos conhecemos... É possível que quando você souber&lt;br /&gt;74&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por que estou aqui, você não queira nunca mais me ver...&lt;br /&gt;– Não! Não! E não! Não quero você agindo como meus pais: pensando por mim; falando por mim; decidindo por mim... Não! Por favor, não. E para o seu governo, fique sabendo que sei quase tudo sobre você. Ou você é tão ingênuo que não vê, ou não quer ver, que quando você passa na rua as pessoas ficam cochichando ao seu respeito? E lá na escola um dia houve uma reunião para a madre superiora contar-nos sobre o que está havendo... O perigo de o comunismo tomar conta do país... e nos disse o que você faz aqui, seu bobo. E sabe o que ela conseguiu? Deixar todas as alunas curiosas... ao seu respeito. Só não sei se foi comigo que a sua ficha mexeu mais, mas com certeza eu sou a mais atrevida. Você só teve olhos para mim, isto é fato, na semana passada, graças aos cravos e jasmins, quando eu decidi pegá-los pela primeira vez, e só peguei porque você estava aqui no jardim e eu queria ver você e sua reação. E eu fiquei furiosa porque você apenas me ignorou; eu esperava que você pelo menos dissesse: Ei, moleca! Não mexe aí não! Mas você apenas me ignorou! Faz quase um mês que eu passava aqui em frente, só que eu te vi duas vezes saindo. Foi somente na semana passada que eu consegui te encontrar em casa, aliás, no jardim; e que ótimo que foi no jardim. Bom... já nem sei se foi ótimo. Meus pais também sabem quem é você; eles comenta-ram em casa já várias vezes; parece até que querem meter medo em mim. Não querem que eu passe aqui em frente. Eu só respondo que é o meu caminho (mas eu digo meu caminho com duplo sentido e eu creio que eles percebem o sentido figurado).&lt;br /&gt;75&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos para a casa de Soledad. – eu a interrompi.&lt;br /&gt;– Primeiro, diz que me quer!&lt;br /&gt;– Mais do que a mim mesmo e mais do que a qual-quer coisa neste mundo. Vamos. Lá, conversaremos me-lhor. Ou resolveu querer ser feliz somente hoje?! – eu fui sarcástico.&lt;br /&gt;– Você, hein? Quando quer, sabe ser...&lt;br /&gt;Ela deu-me um beijo e disse:&lt;br /&gt;– Eu já vou, e não demora não, tá? – disse ela, soltando vagarosamente a minha mão como quem sem querer soltar.&lt;br /&gt;Pôs antes a cabeça para fora e olhou para todos os lados da rua; voltou-se para mim e, lançando um beijo no ar em minha direção com sua mão delicada, disse:&lt;br /&gt;– Não demora. Estarei impacientemente te esperando. Te aammmoooo! Não se esquece disto, tá? Ah... quando você vier, traga umas flores para mim, pois estou com saudades...&lt;br /&gt;Não me demorei. E claro que levei as flores para a minha flor predileta: a mais recente flor brotada no meu jardim. Mal fechei o portão (a bem dizer, nem lembro mesmo se fechei o portão) e já corri para a casa da Soledad. As duas estavam na sala, sentadas bem próximas e conversando a meia voz. Ao perceberem a minha presença as duas se voltaram para a porta e Soledad convidou-me a entrar.&lt;br /&gt;Entreguei as flores para Minha Colegial e ela, amável e gentilmente, deu umas para Soledad, que disse:&lt;br /&gt;– Sabe, minha filha, que esta é a segunda vez em toda a minha vida que ganho flores!? Obrigada de coração.&lt;br /&gt;76&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Minha Colegial voltou-se para a dona da casa e, como se se queixasse, me abraçou e disse:&lt;br /&gt;– Pois é, Mãe Soledad, como eu estava lhe dizendo, ele não gosta de mim.&lt;br /&gt;– Gosta sim, minha filha.&lt;br /&gt;– Como gosta se ele acabou de me dispensar? Deu-me um fora daqueles... Eu disse que queria ficar com ele (eu ia só em casa, pegar algumas coisas, e voltaria logo para ficar morando com ele já a partir de hoje).&lt;br /&gt;– Oh, minha filha! As coisas não são simples assim, não. Vocês devem se conhecer mais. Você já sabe mais ou menos a situação em que ele se encontra... Quando toda essa perseguição contra ele passar, aí sim, vocês podem assumir um compromisso com tranquilidade e paz; pois do jeito que o país está, ninguém tem segurança com nada, principalmente ele... E além do mais, acabam envolvendo você também. Aí, invés de um, serão dois clandestinos. Vocês continuam se encontrando aqui... Cá pra nós: o dia, hoje, não foi ótimo? Então? A continuar assim, vocês terão pelo menos um pouco de paz; mas se você foge de casa, complica tudo. Seus pais ficarão furiosos e irão te procurar... e sabendo que vocês estão juntos, pior ainda. Ele é caçado pelas forças armadas, como você já sabe, e certamente será cassado! E nem estudar o coitado já não pode mais...&lt;br /&gt;Soledad se referia a mim como se eu não estivesse presente, enquanto a Minha Colegial ouvia tudo calada e cabisbaixa, ao mesmo tempo em que me abraçava com mais e mais força; aquele abraço de criança com medo buscando proteção. Ela encostou seu rosto em meu peito e&lt;br /&gt;77&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ficou encaracolando uma mecha do seu cabelo no dedo indicador direito, enquanto Soledad continuava o seu discurso:&lt;br /&gt;– O amor não se desespera quando a gente diz: espera! O amor não se esvai quando a gente diz: vai! Não, minha filha. O amor é a racionalidade, a prudência, o altru-ísmo, a paciência, a persistência e o carinho que dedicamos ao outro. Isto é que é o amor, meus filhos. Sendo que para tanto às vezes nos é exigida a própria renúncia.&lt;br /&gt;A Minha Colegial olhou para Soledad sem ao menos erguer a cabeça, assim meio que de viés, dando a en-tender que algo do que a Soledad falava não estava lhe agradando.&lt;br /&gt;– Quando eu digo que o amor não se desespera quando a gente diz: espera! é claro que eu não estou me referindo a vocês; principalmente a você, minha filha. Es-tou esclarecendo por que você me olhou assim, por baixo, meio que chateada. Mas pense comigo: se vocês continuam assim, como hoje (e ninguém precisa ficar sabendo), vai que as coisas se resolvem para o lado dele e ele volta a ter uma vida normal, aí vocês podem viver em paz; ele pode lhe dar a vida que você merece. Mas digamos que você foge de casa... Seus pais vão enlouquecer! Não vão se conformar... e é mais um motivo para caçarem ele... Tá compreendendo? Pois é... Põem tudo a perder. E por quê? Juízo vocês têm, mas também é preciso ter paciência.&lt;br /&gt;– Mas se ele for embora – sumir de repente – eu sei que nunca mais eu vou encontrá-lo. É adeus para sempre. A primeira coisa que ele faz é esquecer-se de mim!... Sei não... Claro que seu raciocínio tá certo, mas por mim eu ar-&lt;br /&gt;78&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;riscava...&lt;br /&gt;Senti-me isolado; como se ausente ou mesmo inexistente. Elas discutiam o meu presente e futuro (ante mim!), mas como se eu não tivesse capacidade e direito de participar ou, ao menos, de opinar; e reagi:&lt;br /&gt;– Pessoal! Eu estou aqui. Posso participar e opinar... Digamos que, ao final, vocês são quem decidem, mas tenho direito a voto. – eu disse, tentando quebrar aquele mal-estar.&lt;br /&gt;A Minha Colegial olhou-me sem o seu sorriso (algo que me doía, digamos assim, como uma punhalada no peito) e me sufocou com suas interrogações:&lt;br /&gt;– Não é mesmo? Se você for embora (sumir de repente) nunca mais eu vou te encontrar? É adeus para sempre, não é? Pode dizer... Mal dá tempo de você me virar as costas, já põe outra no meu lugar, não é mesmo? Vamos! Pode falar... Eu sei que você tem coragem suficiente para dizer a verdade... Portanto mesmo que me machuque, mas diga que é verdade o que estou falando... Pois eu sei que você não está nem aí para o que eu sinto por você! Foram quantos dias de gelo, eu (quando voltava do colégio) colhendo flores no teu jardim e você apenas me ignorava?! Você diz que saiu por aí, me procurando pelos hospitais, escola, ruas... Que hoje mesmo viajaria à minha procura! Sabe como se chama isso? Peso de consciência! Esse é o verdadeiro nome que se dá a isso!...&lt;br /&gt;– Não! Isto se chama amor, paixão, loucura... qualquer coisa assim, mas com certeza minha consciência (pelo menos a este respeito) está tranquila. Pode ficar certa disto. Mas se tudo for pouco, pode dizer o que você quer&lt;br /&gt;79&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que eu farei, menos algo que te machuque; que te envolva com meus problemas; que te transforme em uma caça. Isso, jamais! E a tua revolta não se justifica. Além do mais, volto a repetir: nem ao menos eu sei o teu nome...&lt;br /&gt;A Minha Colegial rápida e impetuosamente ficou de pé, pôs as mãos nos quadris e me fitou como se fosse explodir de raivosa; de revoltada; de inconformada:&lt;br /&gt;– Não amamos os nomes e tão menos os dados pessoais, mas sim as pessoas naquilo que elas são na sua essência; no seu caráter; no seu humanismo; na sua sensibilidade; na sua capacidade de sentir o mundo em sua volta, principalmente o seu semelhante. Pelo menos foi isto o que os meus pais me ensinaram desde cedo. O respeito por tudo e por todos é o que conta... Que importância tem um nome, ainda mais o meu?! – ela disse isto como se despre-zasse o próprio nome ou a si mesma, e continuou:&lt;br /&gt;– O que importa é o que sentimos. O que sentimos é mais importante do que o que somos (e nem se compara o que temos), pois nós somos apenas o que sentimos. E você não tem a menor ideia sobre os meus sentimentos, principalmente quanto a você. Eles me dominam, e não tenho o menor constrangimento em dizer isto; pelo contrário: tenho orgulho. Agora se você não acredita, não posso fazer nada senão ficar profundamente triste, profundamen-te sentida. Resta-me apenas lamentar...&lt;br /&gt;– Oh, minha filha! Sabe que estou demasiadamente preocupada com esse seu jeito amargo de ver a vida, prin-cipalmente uma menina tão nova como você, pois você ainda é praticamente uma criança... Tem boa educação... Parece ter um bom e bem estruturado lar... Coisas que não&lt;br /&gt;80&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;combinam com esse seu jeito (bom, eu não sou muito de rotular nada), mas esse seu jeito meio pessimista; meio derrotista... – disse Soledad, e depois de uma breve pausa continuou:&lt;br /&gt;– Paciência!... Paciência, meus filhos! Este é, tal-vez, o grande segredo da vida. Conhece aquele ditado que diz: “O apressado come cru”? – indagou Soledad, se diri-gindo à colhedora de flores agora candidata a fugitiva, principalmente dos pais que, no seu modo de dizer, tratavam-na como tiranos.&lt;br /&gt;E isto para ela estava sendo insuportável, pois era transparente e clara sua neurose em ter que fazer os ditames e caprichos dos seus pais, principalmente no que se referia a ter que cursar uma universidade, ao ponto de ela nem ao menos querer mais estudar.&lt;br /&gt;Soledad continuou, mas não sem antes fazer um breve cerimonial, se levantando e caminhando vagarosamente em direção da Minha Colegial e a abraçando forte (com o seu abraço forte de uma mulher fisicamente fragilizada pelos tropeços na vida ao longo dos anos e agora com o complicador da enfermidade e a cruel luta pela so-brevivência) e acariciou os cabelos da sua pupila, e disse:&lt;br /&gt;– São lindos os seus cabelos! Muito bem cuidados. Parabéns. Bela menina você, por dentro e por fora...&lt;br /&gt;Fez uma pausa enquanto acariciava aqueles longos cabelos e continuou:&lt;br /&gt;– É... vocês me veem neste estado, mas é claro que já fui jovem também, assim como vocês... Tinha meus sonhos que, às vezes, se transformavam em pesadelos. E olhem que no meu tempo de juventude as coisas eram bem&lt;br /&gt;81&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mais rigorosas. Tive grandes desilusões também, pois afinal de contas a vida não é apenas um mar de rosas (mas, por favor! Não pensem que estou fazendo nenhuma alusão às flores de vocês que, por sinal, eu fico encantada com esse gesto de vocês; esse ponto de união entre vocês criado e mantido pelas rosas!). Então... Como eu ia dizendo, eu já vivi o que hoje vocês estão vivendo. Já vivi o fulgor impulsivo da juventude, portanto sei de cátedra o que vocês estão passando. Mas aqui pra nós: espero que esse sentimento lindo que une vocês não arrefeça nunca. E mais (sem querer ser repetitiva) quero lembrar que tenho vocês como meus verdadeiros filhos, portanto quero o melhor para vocês e uma união plena de felicidades. Mas olhem aqui... Ouçam meu pedido: conversem mais, pois é da conversa que nasce a compreensão. Sem pressa e sem desesperança, procurem se entender. Vocês têm todo o futuro pela frente. A casa é de vocês. E eu gostaria que todos os dias vocês se encontrassem aqui, pois creio (com a experiência que os anos me trouxeram) que logo-logo tudo estará bem resolvido a favor de vocês. É só uma questão de tempo.&lt;br /&gt;A Minha Colegial deitou sua cabeça no ombro da Soledad, fechou os olhos, acariciou-lhe os seus cabelos de quase-algodão, beijou-lhe a face e estendeu-me a mão, como se a me convidar para participar daquele ato de quase-comunhão. Juntei-me às duas e não me contive:&lt;br /&gt;– Enfim, tenho uma família!&lt;br /&gt;Soledad retrucou:&lt;br /&gt;– Enfim, somos uma harmoniosa família!&lt;br /&gt;A Minha Colegial continuou meio amarga:&lt;br /&gt;82&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E como eu gostaria que isto tudo fosse verdadeiro e para sempre! Que o amor fosse para sempre; que a felicidade fosse para sempre; que as amizades fossem para sempre; que a paz fosse para sempre! Que o ódio não existisse nem mesmo nos dicionários...&lt;br /&gt;Eu tive uma vontade quase incontrolável de dizer que nada é para sempre, mas preferi não complicar mais as coisas e tentei contornar:&lt;br /&gt;– Bom... cabe somente a nós mesmos fazermos com que os amanhãs sejam iguais ou melhores do que o hoje. Para isto, não podemos é ficar esperando que um manipulador de marionetes nos faça sempre dançar na vida; que um jogador de dados nos lance à sorte; que um jogador de cartas nos determine o destino. Façamos nós mesmos, segundo a nossa vontade, o nosso próprio destino.&lt;br /&gt;As duas apenas sorriram como-quem-sem-querer-sorrir. Um sorriso pálido, e tão pálido que creio que eu também empalideci.&lt;br /&gt;Procurei compreender por qual causa (ou causas) as duas não viram a menor graça no que eu falei. Não me atrevi a perguntar, mas bem que vontade é o que não fal-tou. Olhei para as duas. Elas fizeram seus olhos fugirem dos meus.&lt;br /&gt;Olhei para todos os cantos da sala. Ah! Somente aí eu comecei a compreender: em todas as paredes havia imagens de ícones católicos! Estava, pois, explicada a si-lenciosa reação da Soledad, que certamente cria em um ser supremo que determina tudo; que tudo pode; que tudo faz. Mas quanto à reação da Minha Colegial? Que explicação&lt;br /&gt;83&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;teria?&lt;br /&gt;Não! Não consegui descobrir sozinho. Apelei a ela:&lt;br /&gt;– O que houve? Falei mais do que devia?!&lt;br /&gt;Ninguém respondeu nada. Ninguém disse nada. Um profundo silêncio dominava o ambiente.&lt;br /&gt;Voltei a perguntar para a Minha Colegial, com um tom de quase-desespero:&lt;br /&gt;– Mas afinal, o que houve? O que foi que eu disse além da conta e da cota?!&lt;br /&gt;– Se você não está conseguindo perceber (quero dizer: ter a consciência de que desrespeitou a fé de nossa mãe), aí tá complicado. E além do mais, creia você ou não, nossos destinos já estão traçados; pré-determinados... O que tiver de acontecer, principalmente entre nós dois, acontecerá, queiramos ou não. – disse-me a Minha Colegial com um misto de convicção e rancor.&lt;br /&gt;– Não, minha filha! Não me ofende não. E creio que não foi essa a intenção dele, não. – disse Soledad, com toda a sua capacidade de compreender o seu semelhante, ainda que na diferença e na adversidade.&lt;br /&gt;Eu, para quebrar o mal-estar que gerei, olhei as horas e anunciei que já eram seis horas e quarenta e sete minutos da tarde-noite! Foi quando que, a uma só voz, exclamamos:&lt;br /&gt;– Já é noite! Nem mais um arrebol!&lt;br /&gt;Em seguida, lembrei para a Minha Colegial que a sua prima já estaria para chegar em casa e que, portanto, ela deveria ir para não criar problemas. Soledad preferiu não opinar, o que me fez deduzir que ela se magoara com minha filosofice dita há bem pouco.&lt;br /&gt;84&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prevalecia agora um pesado silêncio; um intruso silêncio! Um intraduzível silêncio que, para meu desconforto e descontentamento, ninguém se dispunha a quebrar. Parecia mesmo ser algo sagrado: temerosamente intocável. Até se ouvia o respirar quase-ofegante da colhedora de flores, agora com cravos e jasmins murchos nas mãos. Cravos e jasmins que não foi preciso que ela colhesse por entre as grades de ferro do meu jardim, mas que já estavam murchos. E eu falei para ela:&lt;br /&gt;– As rosas murcharam.&lt;br /&gt;Ao que ela retrucou:&lt;br /&gt;– De tristeza com certeza! Saudade por antecipação é bem doído... Você nem imagina. As que eu colhia, eu as colocava em uma jarra com água. Nem mesmo as primeiras murcharam totalmente ainda. Aliás, estão bem mais vivas do que estas que, por sinal, já faz horas que estão sofrendo com o calor e o suor de minhas mãos (que nunca suaram tanto como hoje!).&lt;br /&gt;Fez uma pausa, passou as flores para uma só mão e secou o suor da mão vazia na saia do vestido; depois, trocou as flores de mão e também secou o suor da outra mão na saia do vestido, o qual, diferentemente da sua saia do uniforme colegial, destacava todas as linhas do seu corpo escultural, fazendo-a parecer mais ainda uma menina-mulher. Despretensiosamente sedutora. Sublimemente mulher-menina sendo apenas uma jovem adolescente, ainda que sua inteligência incomum a fizesse parecer bem mais adulta.&lt;br /&gt;Com o pretexto silencioso de lembrá-la ou mesmo de induzi-la a ir para sua casa, até mesmo pelo motivo de&lt;br /&gt;85&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;podermos (àquela altura das horas e termos tomado todo o dia da dona da casa) estar constrangendo a nossa adorável anfitriã, eu disse para ela enquanto a beijava:&lt;br /&gt;– Vamos... Deixe-me te levar até às proximidades de tua casa... Ninguém me conhece mesmo por aquelas ruas.&lt;br /&gt;– Você é quem pensa!&lt;br /&gt;Ela inclinou a cabeça para trás e eu a mantive próxima a mim com os meus braços em volta de sua delgada cintura. Ela olhou-me fixa e profundamente e disse:&lt;br /&gt;– Eu deixo, mas só se você deixar que eu volte contigo. Minha prima só vem em casa tomar banho e trocar de roupa, mas volta para o congresso; aí só volta lá pelas onze e quarenta... Combinado?! Mãe Soledad é testemunha, não é? – ela indagou, virando o rosto na direção da dona da casa, que disse um Pois é... sonolento.&lt;br /&gt;Eu aproveitei para dizer na forma mais apelativa que pude:&lt;br /&gt;– Ah, não! A pobre coitada está convalescendo e teve hoje um dia muito cansativo... Veja só como ela está!... Quase dormindo sentada...&lt;br /&gt;– Então vai na frente e fica no portão que eu passo já por lá.&lt;br /&gt;Beijamo-nos; eu agradeci a Soledad por tudo (aquele por tudo que não diz nada ou pouco diz do muito que se quer dizer); desejei-lhe uma boa noite e muita saúde, dei-lhe um abraço e me dirigi para a porta de saída. A Minha Colegial me acompanhou até a porta, acariciou-me a face e depois, com as duas mãos, pegou meu rosto e deu-me um beijo com sofreguidão. Separamo-nos como-quem-&lt;br /&gt;86&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-sem-querer-separar e eu fui, mais uma vez, esperar no portão a passagem de minha colhedora de flores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;87&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos! Siga-me de perto... mas não tão perto. Deixa-me ir um pouco à frente, pois podemos encontrar algum conhecido dos meus pais. E quando for pra chegar à minha rua, bem na esquina, tem uma sorveteria... Você pede dois sorvetes: um para mim e outro para você, mas claro que você vai tomar os dois (mas pensando em mim, hein?!) enquanto eu vou à minha casa e quando a minha prima sair eu volto. Só que não vai na onda das meninas que frequentam a sorveteria, não; elas são muito atiradi-nhas e vão dar encima de você... Mas fica na calçada me olhando para você ficar sabendo onde é minha casa.&lt;br /&gt;Disse-me a Minha Colegial ao passar por mim e tendo diminuído os passos quando me viu quase pendurado no portão enquanto eu a esperava.&lt;br /&gt;A casa estava toda às escuras, pois eu não havia ligado nem mesmo as lâmpadas da área da frente, que serviam para iluminar o jardim, a entrada pelo portão e boa parte da calçada. O que havia era uma quase-nada claridade vinda dos postes da rua, o que nos favorecia uma penumbra que nos camuflava, diminuindo assim a possibili-dade de sermos reconhecidos.&lt;br /&gt;Eu segui a minha colhedora de flores a uma distân-cia de mais ou menos dois metros, de modo que seguimos conversando a meia voz quando não cruzávamos com nenhum transeunte, que eram raros àquela hora de início de aulas do turno noturno para uns e de janta e televisão para outros.&lt;br /&gt;Porém não demorou muito para que ela olhasse rá-&lt;br /&gt;88&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pida e discretamente para trás (possivelmente não conseguindo me ver, mas somente o vulto que a escuridão da rua permitia) e me advertiu:&lt;br /&gt;– É na próxima esquina, à direita.&lt;br /&gt;Eu disse:&lt;br /&gt;– Espera por mim... pára aí... ou diminua os passos para que eu passe à frente e rapidamente te dê um abraço e um beijo para aguentar a espera.&lt;br /&gt;– Não pode!...&lt;br /&gt;– Pode sim.&lt;br /&gt;– Teimoso!&lt;br /&gt;Eu acelerei os passos para alcançá-la e quase-parando-mas-sem-parar eu a abracei e dei-lhe um beijo molhado. Nossos corpos colados caminhando a passos lentos no meio da noite de penumbra suburbana da adolescência sem amanhãs (ou pelo menos sem nenhuma certeza do porvir) sugeriam talvez um só vulto na noite dos que, já acostumados com a escuridão, ficam ofuscados na penumbra; ou aparições fantasmagóricas como murais andantes onde escritos estavam os direitos do homem e da mulher, na unificação sublime de corpos que ardem de desejos. E, no meio daquela noite, parecíamos colher o choro de todas as crianças humilhadas e ofendidas; os so-luços abafados de todos os órfãos da Igualdade e da Justiça; a indignação de todos os deserdados da Liberdade; e compúnhamos ali mesmo, com os nossos corpos e sussur-ros, uma nova CANÇÃO DE LIBERDADE; o hino de amor e paixão dos que se reencontram consigo mesmos ao encontrar seu par.&lt;br /&gt;Sussurros intraduzíveis ecoados no silêncio dos be-&lt;br /&gt;89&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cos noturnos pareciam cânticos de louvor à rebeldia exclu-siva da adolescência indomável que nem mesmo os tambores de guerra silenciam ou sequer conseguem abafar.&lt;br /&gt;Que magnetismo, que magia, que mistério há em dois corpos que-quase-se-fundem e subvertem as ordens, quando simplesmente ignoram as regras do bom compor-tamento ditadas e estabelecidas por tiranos da ordem social?! Que sublimação mais eloquente, que êxtase mais supremo, que enlevo mais sobre-humano, que purificação mais cristalina para dois seres quando se dão mesmo a desprezar a bestial ameaça de arder no fogo eterno, se o que importa mesmo é o momento em que se arde de dese-jos e paixão?!&lt;br /&gt;Arder! Arder e arder até se consumir ou consumir seria loucura?! Seria amor? Seria paixão? Mas o que são o amor e a paixão senão os resultantes da doce loucura no momento certo com a pessoa certa?!?! E ali estava eu, no momento certo, com a pessoa certa à busca (talvez!) apenas do lugar certo. Ardíamos de paixão e desejos... e tanto que não nos enquadrávamos na racionalidade nem no temor. Queríamo-nos!!! E isto era tudo (ou o suficiente para tudo).&lt;br /&gt;E assim seguimos além da esquina (os apaixonados desconhecem esquinas; só conhecem a retidão) e nos atre-vemos a ir juntos até a calçada da casa dela.&lt;br /&gt;Fui para a sorveteria e fiquei a esperá-la como se esperar fosse o pior de todos os castigos. Foram (pelo relógio, que me pareceu enlouquecido no meu entender, porém eu não) trinta e seis minutos e vinte e sete segundos (isto, a partir do momento em que eu comecei a marcar o&lt;br /&gt;90&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tempo de espera) até que ela apareceu atravessando a rua.&lt;br /&gt;Fui ao seu encontro já sem nenhuma discrição e tampouco ela demonstrou qualquer preocupação. O que transbordava ali era a nossa felicidade: dela, por constatar que eu estava esperando-a; de mim, por vê-la voltar. A-braçamo-nos e beijamo-nos já sem nada a temer. Como se ninguém mais houvesse no mundo além de nós dois.&lt;br /&gt;Seguimos o caminho de volta para minha casa e logo ela me desnorteou:&lt;br /&gt;– Não vou voltar para a casa dos meus pais!&lt;br /&gt;– Ah, não! Então não vamos daqui para lugar algum.&lt;br /&gt;– Você está confirmando que não me quer? Que não me ama?&lt;br /&gt;– Claro que te amo e te quero, mas assim é loucura!&lt;br /&gt;– Quanta contradição! Ou quanta amnesia?! Pois só hoje eu ouvi duas vezes você dizer que amar é fazer loucuras.&lt;br /&gt;– Vamos... Em casa conversaremos melhor. Ficarmos aqui, no meio da rua, também é loucura; só que existem vários tipos de loucura. E que sacola é essa?&lt;br /&gt;Ela nada respondeu. Apenas pegou minha mão e começamos a andar. Estávamos em silêncio; tensos, como se a querer um descobrir o que se passava pela cabeça do outro.&lt;br /&gt;Ela, quase gritando, disse, apontando para o imenso cosmo:&lt;br /&gt;– Uma estrela cadente!&lt;br /&gt;Depois de um breve silêncio, ela voltou-se para mim:&lt;br /&gt;91&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já fiz o meu pedido; você fez o seu? O meu nem precisa perguntar qual, pois você já sabe...&lt;br /&gt;– As rosas me dizem mais do que fragmentos de corpos celestes. – eu disse secamente, demonstrando ten-são; aborrecimento, talvez.&lt;br /&gt;Ela disse, com a voz embargada, magoada mesmo:&lt;br /&gt;– Também, hein!?... não precisa tanto...&lt;br /&gt;Mantivêmo-nos em silêncio até chegarmos em casa. Mal abri o portão e ela já foi entrando e perguntando:&lt;br /&gt;– Você me ama?&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;– Sim é muito pouco.&lt;br /&gt;– Diz que me ama. – insistiu ela, abraçando-me forte, depois de uma breve pausa.&lt;br /&gt;– Se sim é muito pouco, então eu te amo feito um louco.&lt;br /&gt;– E se eu disser que ainda é pouco?&lt;br /&gt;– Aí eu precisaria de que você me dissesse quanto quer de amor.&lt;br /&gt;– Poderia ser a metade do meu?&lt;br /&gt;– Qual o tamanho do teu amor?&lt;br /&gt;– Do tamanho do mundo... Grandão assim!&lt;br /&gt;– Então é impossível...&lt;br /&gt;– Impossível?!?! Por quê?&lt;br /&gt;– Porque o meu não cabe no mundo.&lt;br /&gt;Falei isto quando já entrávamos na sala de minha casa (que não era minha) e ela se assustou com o barulho vindo do sótão, que teve seu efeito tenebroso potencializa-do pelo escuro total no interior da casa, com o qual eu já me acostumara.&lt;br /&gt;92&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pediu que eu ligasse logo as lâmpadas, porém eu sugeri que melhor seria eu tentar encontrar uma vela para evitar chamar a atenção, visto que eu quase não usava a casa à noite, o que a deixou extremamente curiosa. Convidei-a para irmos para a área de serviço e sob a luz de um pedaço de vela tentei conversar com a Minha Colegial (agora tão minha!). Expliquei que se ela ficasse definitivamente comigo a partir daquele momento eu não poderia mais ficar na cidade; e que eu não tinha opção, pois todas as portas estavam fechadas para mim. Ali ainda era o único lugar que me oferecia um mínimo de segurança graças à cumplicidade de amigos de alguns parentes. Pedi-lhe um tempo para que eu pelo menos sondasse outro lugar para morarmos (um exílio, talvez, já que o comitê do Partido estava tratando deste assunto). Ela compreendeu e mos-trou-me o que tinha em sua sacola, da qual não se desgrudava. Então eu pude ver que a Minha Colegial tinha corpo de adulta, responsabilidade e inteligência de gente grande, mas de uma pureza de quase-criança: em sua sacola-mala-de-fugir-de-casa havia uma fofolete (uma miniboneca muito em voga na época e que era sonho de consumo de crianças a adultos); um diário; uma caneta e algo parecido com um pedaço de trapo que, segundo ela, só conseguia dormir com ele, o que quase me fez perder o controle e rir de forma tão inconveniente que me senti desumano.&lt;br /&gt;– Então está ótimo. Vamos seguir os conselhos de mãe Soledad e dar tempo ao tempo. Mas quando for onze e quinze eu vou te levar em tua casa. Combinado? E me desculpa por eu ter rido de tua bagagem para fuga, tá? – eu disse, dando-lhe um beijo e um abraço.&lt;br /&gt;93&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como as coisas são fáceis para você, hein?!&lt;br /&gt;– Não... Não são nada fáceis. É a força que você me dá e a esperança de ter você em meus braços todos os dias, e definitivamente muito em breve.&lt;br /&gt;– É... Uma coisa eu quero te pedir: não me deixa acordar deste sonho, por favor! – disse-me a Minha Colegial se entregando totalmente em meus braços enquanto a vela acabava de emitir sua última luz, consumida até o fim; fato que passou quase despercebido se não fosse para observarmos quase que uníssonos:&lt;br /&gt;– Fica melhor assim!&lt;br /&gt;– Ah! Mas eu queria te mostrar o meu diário!&lt;br /&gt;– Hoje!?!?! Agora!!?!?!? Deixa-o comigo. Depois eu o devolvo. Agora eu só quero te amar, amar, amar, e amar... Amar como se nada mais eu tivesse para fazer. Como se nada mais eu soubesse fazer. Como se a ninguém mais eu pudesse amar. Antes de conhecer o diário, eu quero conhecer a dona do diário. Quero sentir teu corpo como parte inseparável do meu corpo. Quero sentir o teu corpo latejante como uma caldeira de hormônios em ebulição...&lt;br /&gt;– Antes, precisávamos bem menos de palavras para nos comunicar... Aliás, nem precisávamos de palavras. Agora eu quero só que me sintas e que eu te sinta. Que me ames e que eu te ame. – interrompeu-me ela e arrematou:&lt;br /&gt;– Agora eu quero apenas calar tua boca com a minha boca.&lt;br /&gt;Sob a claridade pálida e mortiça da Lua em quarto crescente esquecemos o mundo lá fora para construirmos o nosso próprio mundo. Um mundo sem limites; sem barreiras; sem modismos e regras; sem etiquetas ou moralismos e&lt;br /&gt;94&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;hipocrisias a nos velar.&lt;br /&gt;E, no tablado da noite, à luz mortiça daquele luar raquítico, sem partitura para executarmos; sem roteiros para seguirmos e sem ensaios prévios para o grande espetáculo de dois corpos em improvisos de loucuras, juramos amor eterno. Juramos que mesmo se uma tragédia nos separasse, jamais (jamais!) deixaríamos de nos amarmos.&lt;br /&gt;Creio que mais de duas horas se passaram em que a única linguagem que usáramos para nossa comunicação e entendimento fora a linguagem universal dos corpos de dois adolescentes no enlevo máximo dos desejos e da excitação. No paroxismo do amor e no arder incontrolável da paixão.&lt;br /&gt;Nossos corpos colados como um só corpo; nossas bocas como uma só boca no linguajar dos desejos; nossas mãos irrequietas na carícia silenciosa dos que buscam na carne a sublimação dos sentimentos; nossos corações em taquicardia como tambores tribais; nossas salivas unificadas umedecendo nossos lábios para, na fricção labial dos beijos extasiantes, transformarem-se em afrodisíacos aromas... Tudo! Tudo ali entre nós clamava por eternidade; reivindicava pelo para-sempre.&lt;br /&gt;Eu tive que violar aquele estado de sublimação; violentar aquele silêncio; macular aquela entrega... pois de outro modo não poderia ser: já passavam das onze horas e a prima da Minha Colegial não poderia chegar em casa e não encontrá-la.&lt;br /&gt;Suavemente eu deslizei minha boca na sua chegan-do até ao seu ouvido e aí aproveitei para sussurrar ternura:&lt;br /&gt;– Eu te amo! Acima de tudo eu te amo! Gostaria de&lt;br /&gt;95&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;poder eternizar esta noite...&lt;br /&gt;Fiz uma pausa e temeroso continuei:&lt;br /&gt;– Mas infelizmente temos que ir. Amanhã podere-mos repetir estes doces momentos ao invés de estarmos sofrendo o pesadelo dos foragidos.&lt;br /&gt;– É... infelizmente parece que é melhor assim. Ah! Amanhã, às cinco horas da manhã, eu tenho educação físi-ca. Posso passar por aqui?&lt;br /&gt;– Eu te esperarei no jardim. O portão estará aberto: é só entrar. Vamos.&lt;br /&gt;– Sim...&lt;br /&gt;Ela disse um sim tão seco e amargo que não sei a que ela estava se referindo, mas abraçando-a por trás e beijando sua nuca por entre os cabelos, eu fui conduzindo-a até a sala da frente. Já na porta de saída nos abraçamos de frente e nos beijamos como se tudo fosse simplesmente continuar.&lt;br /&gt;– Agora, vamos! – insisti.&lt;br /&gt;Mas ela nada disse. Apenas ela fez aquela carinha de não-estou-indo-estão-me-levando. Eu tranquei a casa e saímos de mãos dadas como se fôssemos os donos da li-berdade.&lt;br /&gt;A cidade esmaecida do corre-corre diário dos seus habitantes parecia já agonizar seus pesadelos: as ruas estavam desertas! Tive a sensação de que éramos os únicos habitantes daquela urbe fantasmagórica. E assim chegamos à rua da casa dela. Eu quis parar e disse:&lt;br /&gt;– Eu fico aqui te cuidando à distância até você entrar em casa.&lt;br /&gt;– Não! Vamos comigo até lá! – ela fez biquinho e&lt;br /&gt;96&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;bateu o pé e me puxou pela mão:&lt;br /&gt;– Vamos! Minha prima ainda não chegou...&lt;br /&gt;Restavam apenas alguns minutos para findar aquela quinta-feira que jamais saiu ou sairá do calendário de minhas reminiscências.&lt;br /&gt;Despedimo-nos com beijos e abraços e sem querer nos separarmos nos separamos, enquanto ela dizia:&lt;br /&gt;– Até amanhã de manhã, as dez para as cinco...&lt;br /&gt;– Te amo! – foi tudo o que eu consegui dizer.&lt;br /&gt;– Eu também te amo muitão! – ela disse e perma-neceu de pé, na porta, me olhando até que eu sumi na penumbra das ruas de iluminação pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;97&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivi cada fração de segundo daquela noite de quin-ta para sexta-feira como se renascido (não das cinzas) das brasas ardentes das últimas horas que convivi com a Minha Colegial (agora sem mistérios); agora totalmente entregue a mim; de amores confessos; de paixões dominantes e enlouquecedoras; de atitudes imprevisíveis; de vontades impulsivas! Enfim, desvendada; decifrada. Nos meus braços (como se diz: na palma da minha mão).&lt;br /&gt;Eu exultava pela felicidade vivida e compartilhada no dia anterior e sofria a ansiedade da espera pelo dia seguinte madrugada a dentro. Eu não me continha. A casa (que não era pequena) me parecia pequena; a rua me parecia pequena; a cidade me parecia pequena, e menor ainda era o meu país (tão pequenino que não me cabia com o meu amor! Tão pequenino que não cabia a minha rebeldia! Tão miseravelmente pequenino que não cabia a mim com a minha amada! Tão insignificantemente pequenino que sequer cabia os meus sonhos!). O mundo, também, certamente seria pequeno para a minha inquietude e minhas paixões inquietantes e irrequietas.&lt;br /&gt;Lembrei-me várias vezes naquela madrugada que há bem poucos dias eu precisava acariciar as pétalas das rosas para ter uma imaginária, imprecisa e delirante sensação da suavidade da pele da minha amada, mas agora não: eu ainda tinha o perfume do seu corpo em minhas mãos (docemente impregnado em minhas mãos e narinas!). Eu tinha inolvidável e marcantemente gravada em meu cérebro a maciez do corpo de Minha Colegial, sem precisar re-&lt;br /&gt;98&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;correr às pétalas das flores para imaginar esta doce (e tão exclusivamente minha) sensação.&lt;br /&gt;Fui ao jardim. Demorei-me, nem sei mesmo por quanto tempo, no exato lugar onde estivemos em total entrega na tarde anterior: revivi beijos ardentes, carícias enternecidas, afagos que se confundiam entre pueris e profanos, respirar arfante violando os ouvidos para acionar o cérebro a determinar e comandar excitações... E era tudo tão forte que tive a impressão de que a Minha Colegial estivesse ali, presente, participante, cúmplice, minha (apaixonadamente minha).&lt;br /&gt;Naquela madrugada, quase rompendo aquela noite de espera, diferentemente das minhas últimas noites que foram de desespero e desesperança, eu tinha agora uma convicção (quase-certeza!): a vida, simplesmente só pelo ato de existir e ter esperança, já vale a pena. Ou o simples fato de existir uma jovem tão sublimemente maravilhosa como aquela para amar e por ela ser amado, a vida já se prenunciava maravilhosamente sublime.&lt;br /&gt;Vaguei pelo jardim me demorando em cada lugar em que estivemos na última tarde e revivi todo o ardor de nossas paixões (pela primeira vez, desde que me refugiei naquela casa, sequer pensei em sair para a rua – o meu palco favorito!). Eu esperava que a qualquer hora a Minha Colegial aparecesse como um vendaval de desejos; como um rio caudaloso de amor. E eu deveria estar ali, de braços abertos, para recebê-la; para senti-la nos meus braços; para tocá-la como se a felicidade fosse feita de carne (de delicada e suave carne!).&lt;br /&gt;Eu comecei a colher alguns cravos e jasmins como se&lt;br /&gt;99&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por acaso, mas logo me veio a ideia de entregá-los à Minha Colegial quando ela chegasse. E o que mais faltaria para que eu lhe entregasse?!&lt;br /&gt;– Oi! Bom dia!&lt;br /&gt;Eu vivia o meu devaneio (sem noção de nada, nem de mim mesmo!) quando ouvi aquela suave e doce voz. Fui às nuvens! Ela não esperou que eu falasse nada nem que nada eu fizesse, e foi entrando e caminhando com a mais jovial elegância em minha direção, de braços abertos. Eu me dirigi a ela tentando também lhe desejar um bom dia, mas a minha voz saiu como se meio-engasgada, en-quanto eu estendia as mãos com o intuito de lhe oferecer as flores (pobres flores!) que resultaram esmagadas entre nós dois naquele abraço incontido e marcado de saudades depois de umas quase-eternas seis horas de separação.&lt;br /&gt;Nada mais foi possível falar. Nossas bocas colaram e não se separavam por minutos a fio como se ávida uma da outra. Como se dependente uma da outra. Como se sedenta e faminta uma da outra. E mais uma vez o delicioso aroma de sua saliva assim a nos lambuzar me enlevava ao êxtase. Eu carecia daqueles beijos; daquele cheiro; daquele corpo; da maciez daquela pele; daquela saliva; daquele respirar que me era então meu único sopro de vida!&lt;br /&gt;Quando tudo se me anunciava perdido, eu me reencontrei naquela jovem que significava a minha própria vida; mesmo que fosse uma vida louca, aventureira, bei-rando a irresponsabilidade, mas era a minha própria vida. Meu único norte. Minha tábua de salvação com leme e remos, para que eu já não mais me sentisse o náufrago de âncoras no pescoço.&lt;br /&gt;100&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Minha Colegial fez-que-ia-parar-mas-sem-parar e dando-me beijinhos intercalados por sílabas pronunciadas dentro de minha boca, disse-me:&lt;br /&gt;– Eu... não... vou... pa...ra... a... e...du...ca...ção... fí...si...ca... não... – ela pronunciou o ão meio aum, pois o fonema não pode ser articulado linguodental, já que nossas bocas estavam novamente coladas. Nada mais se podia dizer: éramos apenas sentidos.&lt;br /&gt;Já era dia. O sol sem discrição (intruso mesmo!) iluminava nossas faces, denunciando-nos a quem quer que passasse na rua. Já não nos importávamos mais com nada que não dissesse respeito única e exclusivamente a nós dois. Mas a loucura tem seus lapsos de lucidez. Tem seus descuidos. Naquele momento eu pensei não na Minha Colegial, mas na jovem estudante que era a garantia de um próspero futuro para seus pais. Que universidade ela cur-saria ali comigo?! Que futuro eu poderia lhe dar a partir do meu jardim? (que nem mesmo era meu!).&lt;br /&gt;Num impulso, eu interrompi nosso momento de ternuras e lhe disse:&lt;br /&gt;– Sim!...&lt;br /&gt;– Sim o quê?&lt;br /&gt;– Você vai sim para a aula de Educação Física... e para as aulas a tarde, também.&lt;br /&gt;– Por favor! Não fala assim comigo! – pediu-me ela com carinho.&lt;br /&gt;– Assim como?&lt;br /&gt;– Como meus pais... Não me força a fazer o que eu não quero. Tenta me convencer, ao menos; se você me convencer eu faço tudo que você quiser... Mas assim não!&lt;br /&gt;101&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olhou com o seu olhar de tristeza, fez um biquinho, inclinou a cabeça (e eu adorava vê-la inclinar a cabeça, pois o seu volumoso cabelo pendia todo para um lado, deixando-a mais jovial, e eu não resistia; abraçava-a com entusiasmo) e, incontido, eu dizia:&lt;br /&gt;– Minha meninona!&lt;br /&gt;– Vamos. Diga-me o que seria mais interessante ou mais importante do que ficar aqui contigo.&lt;br /&gt;– Você continuar frequentando normal e regularmente as suas aulas. Isto nos dará as condições necessárias para continuarmos nos encontrando pelo menos duas vezes ao dia. Mas vai que você começa a faltar às aulas, isso logo chega ao conhecimento dos teus pais, e aí complica... Já tem professora preocupada com sua quase-dislexia em sala. Você vai para a Educação Física e volta por aqui. E assim vamos levando até que as coisas se resolvam para mim ou estourem para você, o que justificará uma tomada de atitude radical por nós dois, qualquer que seja...&lt;br /&gt;– Agora sim. Não é nada do que eu queria, mas você me convenceu.&lt;br /&gt;Ela deu-me um abraço e um beijo, pegou-me pelas mãos e disse:&lt;br /&gt;– Então, vamos comigo.&lt;br /&gt;– Não é nada prudente...&lt;br /&gt;– E eu ‘tou nem aí pra o que é ou não é prudente. Vamos. Leva-me até a escola.&lt;br /&gt;– Até próximo... na esquina. Está bem assim?&lt;br /&gt;– O que está bem pode sempre ser melhorado. Concorda comigo? Então vamos melhorar esta nossa situação. Você pode e sabe como. É só querer... Confio tanto em&lt;br /&gt;102&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você.&lt;br /&gt;– Mas não é só querer, minha meninona! Querer é o que não falta, mas o meu querer conflita com sextilhões de outros quereres. É a vida: cruel com o indivíduo. E vamos, senão você fica com falta (aliás, mais uma falta, hein?!).&lt;br /&gt;– Vamos! – disse ela feliz da vida, e saímos abraçados pelas ruas da cidade ainda sonolenta; e nós dois a pincelarmos os desejados horizontes ainda imprecisos do nosso porvir.&lt;br /&gt;Quando nos demos conta, já estávamos na esquina da rua do colégio e eu disse:&lt;br /&gt;– Eu fico por aqui.&lt;br /&gt;Ela me puxou pela mão, dizendo:&lt;br /&gt;– Nada disso! Já que estamos aqui, vamos até lá. Problema de quem se incomodar.&lt;br /&gt;Fomos até o portão da quadra da escola e já não mais havia alunas do lado de fora. Eu disse que já começara a aula e que era possível ela ter ficado com falta, e tentei apressá-la (em vão!). Beijamo-nos e ela disse:&lt;br /&gt;– Então me espera aqui, pois se a professora pôs falta para mim eu volto contigo.&lt;br /&gt;Ela disse isto e saiu correndo. Em poucos segundos ela estava de volta com sua carinha de tristeza:&lt;br /&gt;– Pois é... a professora ainda não fez a chamada... Deixa-me voltar contigo; eu só respondo a chamada e digo que não estou passando bem. Ela me libera.&lt;br /&gt;– Não, minha teimosinha. Depois da aula você passa lá em casa. Certamente estarei te esperando. Mas larga de ser tão teimosa, tá?! Te amo... muitão! Vou te esperar...&lt;br /&gt;Eu fui falando e saindo, pois de outro modo ela não&lt;br /&gt;103&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ficaria na escola. De outro modo ela sequer voltaria para a quadra para responder o seu presente, professora! mesmo estando tão ausente em pensamentos. De outro modo eu a levaria comigo como parte inseparável de mim mesmo.&lt;br /&gt;Voltei para casa, acompanhado das melhores lembranças de Minha Colegial que me marcariam para sempre. Lembranças que nos momentos mais críticos de minha vida (por toda a minha existência) me ajudaram a superar as amarguras e me mantêm vivas as convicções de que há pessoas melhores; superiores, melhor direi. Sublimes! Imprescindíveis e inesquecíveis!&lt;br /&gt;Em casa eu não consegui fazer nada! Foram uns-quese-infindáveis-quarenta-minutos de espera. De ansiedade fazendo o coração embalar o peito como um cavalo selvagem em doidivanas viagem.&lt;br /&gt;Mas por fim ela chegou! Aparentando um discreto cansaço e algumas gotas de suor escorrendo pelo seu rosto, como se a me provocarem SOLVA-ME!; e foi o que eu fiz: solvi-lhe cada gota do seu agridoce suor.&lt;br /&gt;Eu a convidei a ir comigo à casa da mãe Soledad, pois eu tinha as injeções a lhe fazer, e ademais eu argu-mentei:&lt;br /&gt;– Seria muita ingratidão se agora nos esquecêsse-mos daquela que foi e é a principal responsável pelo nosso primeiro encontro. Concorda?&lt;br /&gt;– Com certeza. Eu mesma jamais irei esquecer-me da mãe Soledad. E tampouco conseguirei retribuir o que ela fez por mim.&lt;br /&gt;– Por nós! – eu disse.&lt;br /&gt;Fomos para a casa da Soledad e antes de passarmos&lt;br /&gt;104&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pelo portão ela foi logo me dizendo:&lt;br /&gt;– Eu vou passar o dia contigo. Ouviu bem? Se não, vou repetir: eu vou passar o dia contigo.&lt;br /&gt;– Onze e meia você vai para tua casa...&lt;br /&gt;– Não é minha casa.&lt;br /&gt;– Tudo bem. Onze e meia você vai para a casa dos teus pais, devido a tua prima. Quando ela sair você vai para a escola, mas passa lá por casa. E na volta da escola também. Fica bom assim?&lt;br /&gt;– E à noite também? Claro, né?&lt;br /&gt;Soledad ficou feliz em nos ver e eu perguntei:&lt;br /&gt;– Já pensava que eu havia me esquecido de você e de tuas injeções, não é? – eu disse, dando-lhe um abraço e o desejo de um bom dia.&lt;br /&gt;Ao abraço também se juntou a Minha Colegial, o que deixou a Soledad mais alegre, e eu percebi uma me-lhora considerável em seu aspecto geral e comentei com ela, ao que ela disse:&lt;br /&gt;– Também... com os cuidados e os carinhos de vocês!... E estou me sentindo bem melhor mesmo...&lt;br /&gt;Quando eu ia fazer as injeções na Soledad, a Minha Colegial se aproximou e pediu:&lt;br /&gt;– Deixa-me aprender aplicar injeção. Deixa?&lt;br /&gt;Soledad me olhou com um olhar de pavor e percebi claramente que ela empalideceu e lançou sobre mim uma imensa e silenciosa interrogação; um desesperado apelo. Era como se ela estivesse me pedindo: “Não me faz de cobaia não!”.&lt;br /&gt;– Não, mãe Soledad. Ela vai aprender só olhando. Depois ela pratica em mim. Pode ficar tranquila.&lt;br /&gt;105&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demoramo-nos um pouco e eu, a meia voz, quase sussurrando, lembrei para a Minha Colegial que ela ainda estava em jejum e que já eram mais de dez horas da manhã. Sugeri-lhe que eu iria pegar algumas frutas para ela, em casa, de maneira discreta para que Soledad de nada desconfiasse e isto não lhe levasse preocupação. Porém, a minha meninona teimosa não quis perder a pose nem a fama e foi logo dizendo em voz alta:&lt;br /&gt;– Eu vou contigo.&lt;br /&gt;– Para aonde vocês já vão?! O que foi que aconteceu?! Eu disse alguma coisa que magoou vocês? Podem dizer. Se eu disse ou fiz, me desculpem...&lt;br /&gt;Não me deixou alternativa senão ser claro:&lt;br /&gt;– É que ela ainda está em jejum a esta hora, mãe Soledad! E quando eu disse que eu iria pegar algumas frutas em casa para comermos aqui, ela disse que quer ir comigo também.&lt;br /&gt;– Oh, meus filhos! Isso é uma desfeita. Tem comida aqui. Comida de pobre, isto é verdade, mas que alimenta e mata fome.&lt;br /&gt;– Então eu vou a minha casa pegar alguns-de-comer e volto logo. Juntaremos tudo e comeremos aqui mesmo, como uma boa e bem unida família.&lt;br /&gt;As duas concordaram e rápido eu estava de volta. E comemos com um comer de bom apetite&lt;br /&gt;Conversamos um pouco; Soledad pareceu-me curiosa, ainda que contida, e perguntou como estávamos indo. Se a minha bem amada (conforme ela se referia à Minha Colegial quando conversava comigo) estava mais calma e se já havia compreendido as dificuldades da minha situação.&lt;br /&gt;106&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondemos que estávamos nos entendendo excelentemente em uns assuntos, mas que no mais estávamos tentando nos entender; conversando... E que tínhamos esperança (quase-certeza) de que nos entenderíamos, pois havia a base fundamental para este entendimento, e fize-mos questão de deixar claro que base era esta, e dissemos para ela:&lt;br /&gt;– Amor e compreensão existem; o mais é mesmo como você diz: é questão de tempo. Só uma questão de tempo!&lt;br /&gt;– Vocês sabem muito bem que tudo o que eu mais quero é a felicidade de vocês. No que depender de mim... Não se acanhem. A casa é nossa, eu repito. Podem ficar à vontade... Aliás, já que a casa é de vocês, não tenho nem por que está dizendo quais os seus direitos, não é mesmo? Seria um contrassenso...&lt;br /&gt;Mas já passavam das onze horas da manhã, o que significava que em alguns minutos a prima da Minha Colegial chegaria em casa e deveria encontrá-la arrumada para, às quinze para as treze horas, ir para o colégio, o que no acertar-dos-ponteiros significava que as duas sairiam de casa juntas. Apressei a Minha Colegial para ir, mas como eu já havia aprendido, com argumentos e não com autoritarismo. Daí eu ter dito:&lt;br /&gt;– Se você puder sair uns cinco minutos antes, me-lhor. Desfrutaremos desses cinco minutos juntos, lá em casa, no nosso jardim.&lt;br /&gt;Claro que surtiu efeito: ela rapidamente se levantou, pegou minha mão, nos dirigimos até Soledad e lhe demos um grande e duplo abraço de agradecimento.&lt;br /&gt;107&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos os dois já abraçados, sem nada a temer; nada que lembrasse o exagerado cuidado do dia anterior para que um só saísse depois do outro, para não sermos vistos juntos. Quando nos aproximamos do portão de minha casa ela fez birra e queria-porque-queria que eu fosse levá-la em sua casa. Tentei resistir; argumentei (desta vez em vão) que poderíamos ser vistos por sua prima (vai lá que ela tenha chegado mais cedo, pois nunca se sabe...) mas qual o quê?! Sem acordo.&lt;br /&gt;– Mas você, hein!? Não aprendeu mesmo a desistir nunca? Tudo bem... Eu vou contigo seja aonde for hoje e sempre. Vamos.&lt;br /&gt;Ela pulou (literalmente ela pulou!) em cima de mim e se pendurou no meu pescoço, quase cruzando suas pernas em volta da minha bacia pélvica e me beijando; quase gritando de alegria. Eu ainda consegui andar alguns metros com ela assim, como uma medalha pendurada em meu pescoço, mas por fim ela desceu de mim e caminhamos abraçados pelas ruas da cidade incandescente ao meio dia e fervilhante de pessoas que iam e vinham para seus postos de sobrevivência. Eu até pensei:&lt;br /&gt;– Eles não sabem amar?!&lt;br /&gt;– O que foi que você perguntou?&lt;br /&gt;– Só pensei alto. Nada importante.&lt;br /&gt;– Ah, não! Pode ir logo dizendo o que foi. Tudo é importante.&lt;br /&gt;– Eu só vi que as pessoas não vivem. Correm, correm... e é um corre-corre sem fim. Uma competição louca pela sobrevivência ou pela ganância de encher o saco-sem-fundo do egoísmo.&lt;br /&gt;108&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah! – ela disse assim meio sem ver muita importância nisto e continuou:&lt;br /&gt;– Já chegamos!?!&lt;br /&gt;– Pois é... Já é quase hora de você ir para a tua escola. Vou te esperar passar... E tua prima deve ter chegado, pois a casa está aberta.&lt;br /&gt;– Tudo bem... No máximo em oito minutos eu che-go lá. Aliás, por que você não me espera? Já vamos juntos. Vem. Entra em casa comigo, só assim eu te apresento à minha prima. – fez uma pausa, como se estivesse esperando alguma resposta minha, e continuou:&lt;br /&gt;– Exibida! Eu creio que ela ainda não descobriu que é feita de carne e osso. Aliás, se olhar bem parece ser de couro e osso. Coitada! Sonhava em ser modelo, só não sei de que. Passa até fome para não engordar... Mas vamos; entra em casa comigo. Vem?&lt;br /&gt;– Não gosta da prima. – eu observei.&lt;br /&gt;– Não gosto de gente metida.&lt;br /&gt;– Mas eu prefiro te esperar lá em casa. A ansiedade da espera; a incerteza; o contar os segundos deixam-me mais vivo. Já vou...&lt;br /&gt;– Cadê o beijo e o abraço?&lt;br /&gt;Abraçamo-nos e beijamo-nos e eu me fui só para continuar esperando-a. Eu estava viciado naquela adrena-lina da espera e da incerteza. Mas nem mesmo deu tempo para que eu colhesse algumas flores para ela quando a vi a uns cento e trinta metros, acompanhada por uma jovem de mais ou menos uns vinte e três anos. Fato que me chamou a atenção, enquanto corri para colher-lhes alguns cravos vermelhos, já que a única vez que eu a vi acompanhada foi&lt;br /&gt;109&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com os seus pais, naquela tarde de sábado.&lt;br /&gt;As duas chegaram até ao portão e eu as convidei para entrar. A Minha Colegial entrou na frente e foi em minha direção me beijando e me abraçando, permanecendo com o braço direito em volta de minha cintura; a sua acompanhante entrou em seguida desejando-me um boa tarde! meio-que-aristocrático e agradecendo pelo convite que eu fizera para que entrassem. Entreguei os cravos para a Minha Colegial e a sua acompanhante exclamou:&lt;br /&gt;– Que romântico, hein?!&lt;br /&gt;Minha Colegial simulando descaso disse secamen-te:&lt;br /&gt;– Ah! Já ia me esquecendo: essa é a minha prima; prima, este é... Ah! Você já sabe... O congresso dela ter-mina hoje à noite e ela quer viajar amanhã cedo. Os meus pais só chegam depois de amanhã, lá pela tarde...&lt;br /&gt;– Não sobrou nem uma flor para mim?&lt;br /&gt;– Hum!!! Já vai aí?! Não sobrou, mas eu vou te dar uma das minhas. Pega. E guarda de lembrança da priminha querida, tá? – disse a Minha Colegial com incomum sarcasmo para a sua idade. E tanto que a sua prima ficou desnorteada e se apressou:&lt;br /&gt;– Vamos, Dry. Assim chegaremos atrasadas. – dirigindo-se para mim, abraçou-me e falou-me da satisfação em ter-me conhecido. Que gostaria de nos vermos antes dela viajar, e sugeriu que à noite eu fosse para a casa do tio dela, pois assim faria companhia à sua prima e eu esperaria até que ela chegasse.&lt;br /&gt;A Minha Colegial (Dry! Agora eu sabia pelo menos um apelido ou uma sílaba do seu nome pelo qual os seus&lt;br /&gt;110&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;familiares a chamavam; ou quem sabe fosse este o seu verdadeiro nome?) concordou-mas-sem-muito-concordar, cujos motivos-razões eu não consegui identificar.&lt;br /&gt;As duas se foram e a solidão voltou a me rondar. Solidão de hora marcada. Até me lembrei de algo que fora tão marcante para mim desde que vi a Minha Colegial (Dry o quê? Ou de quê?) pela primeira vez:&lt;br /&gt;Entre as cinco e dez e cinco e quinze da tarde – com exceção dos domingos e feriados – quase que pontualmente, passava por minha calçada com seu uniforme de colegial: saia pinçada, sapatos pretos e meias e blusa brancas, alguns livros contra os seios como se denunciasse pudicice, bem apertados contra si pelos braços cruzados sobre os mesmos; cabelos longos esvoaçando ao vento – o que a obrigava a fazer bruscos movimentos com a cabeça para reordenar os cabelos – uma jovem de passos firmes e lentos como se a nada temesse e tampouco tivesse pressa de chegar a lugar algum, pára diante das grades do meu jardim e por entre as hastes de ferro colhe um cravo e o põe no canto esquerdo da boca e prende-o com seus dentes brancos que me lembram teclados de pianos. Calma e altivamente por entre as hastes de ferro colhe também alguns ramalhetes de jasmim; dá meia volta olhando-me por entre os cabelos, cheira os jasmins e segue pela calçada como se somente ela existisse.&lt;br /&gt;Confesso que naquele momento bateu saudade de um passado tão recente, mas que parecia já tão distante! E comecei contar o tempo:&lt;br /&gt;– Quatro e cinquenta e três minutos da tarde! Ainda faltam mais ou menos vinte minutos para que eu reveja a&lt;br /&gt;111&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha Colegial!&lt;br /&gt;O jardim já não era o mesmo. Os cravos já não eram os mesmos. Os jasmins já não eram os mesmos. Eu já não era o mesmo. A Minha Colegial já não era a mesma. Agora, as dúvidas, mistérios e incertezas deram lugar a prenúncios de alegria, felicidade, prazeres, desejos...&lt;br /&gt;– Oi! Posso colher alguns jasmins? – surpreendi-me com Dry (a minha eterna colegial) tentando se passar por outra pessoa.&lt;br /&gt;– Oh, engraçadinha! Vem logo me dar meu abraço antes que eu me dilacere de saudades, Dry.&lt;br /&gt;Abraçados, colhemos alguns cravos e jasmins e eu perguntei:&lt;br /&gt;– Dry o quê?&lt;br /&gt;– Hum! Deu muita atenção àquela exibida.&lt;br /&gt;– Dry o quê? – insisti.&lt;br /&gt;– Pergunta com carinho... que talvez eu diga. Ou pergunta para ela, à noite.&lt;br /&gt;– Sim, vida da minha vida: Dry o quê?&lt;br /&gt;– Deirdry. Horrível! Simplesmente não gosto do meu nome. Ainda bem que as pessoas têm preguiça até de falar e me chamam apenas assim...&lt;br /&gt;– Assim como?&lt;br /&gt;– Ai! Resolveu não deixar nenhuma pergunta para amanhã? – ela me surpreendia com pensamentos profundos sobre coisas aparentemente singelas.&lt;br /&gt;– Dry. – disse ela, depois de fazer um biquinho e receber uns carinhos.&lt;br /&gt;Como eu estava convidado pela prima de Deirdry a fazer companhia à Minha Colegial até que ela voltasse do con-&lt;br /&gt;112&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gresso, eu convidei a Minha Colegial a irmos visitar Soledad e depois ela iria para a casa dos seus pais. Lá pelas dezenove horas eu iria para a casa dela até sua prima chegar – argumentando assim, tudo ficava fácil com a Deirdry. E assim fizemos.&lt;br /&gt;Atrasei-me um pouco (trouxeram-me notícias desagradáveis – ainda que não imprevisíveis – dando contas de que bombardeiros estadunidenses haviam destruído arrozais no Vietnam, com armas químicas; e que cartazes com fotos de subversivos procurados estavam sendo afixados em repartições públicas...).&lt;br /&gt;Quanto ao Vietnam, a notícia me abalou imensamente, mas as horas que se seguiram ao lado de Deirdry e depois somada a companhia de sua prima aliviaram-me o pesar, ainda que até hoje sinto remorso quando me lembro que enquanto eu me divertia meus camaradas morriam...&lt;br /&gt;Já na casa da Deirdry, ela me perguntou o que estava acontecendo, pois eu estava diferente; parecendo distante. Insisti em afirmar que era apenas impressão dela, no que creio que não a convenceu e ela desistiu de saber o que estava acontecendo e me pegou pela mão e me convidou:&lt;br /&gt;– Faz favor... Vamos lá dentro para eu te mostrar onde eu guardo as flores.&lt;br /&gt;Lá dentro era o quarto dela.&lt;br /&gt;Logo na porta eu já senti um suave cheiro de talco e vi uma quantidade de flores que eu nem imaginava que fossem tantas dentro de uma espécie de ânfora grande feita de cerâmica em cima do seu criado-mudo.&lt;br /&gt;– Viu que eu guardo tudo que foi seu?&lt;br /&gt;113&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa era estranhamente silenciosa. Nada que me lembrasse a gata sempre miando quando não estava dormindo em algum lugar, os ratos do sótão e os morcegos comendo e derrubando meus figos. No quarto dela havia uma pequena estante com alguns livros e três bonecas. Sobre a penteadeira apenas um pente e uma escova para cabelos e dois cadernos.&lt;br /&gt;Ela ainda insistiu:&lt;br /&gt;– Você pode não querer dizer, mas você está diferente.&lt;br /&gt;E insinuou com um misto de malícia e ciúmes:&lt;br /&gt;– Ou será que já está triste porque a minha prima vai embora?&lt;br /&gt;– Estou encantado com a organização do teu quarto. Só você mesma.&lt;br /&gt;E falei isto e a abracei por trás e perguntei:&lt;br /&gt;– Podemos sentar em tua cama?&lt;br /&gt;– Precisa perguntar?&lt;br /&gt;Eu sentei com ela no colo e... não vimos quando a prima dela chegou senão o toc-toc dos saltos do seu calçado já corredor a dentro.&lt;br /&gt;Ficamos os três conversando ali mesmo até uma e quinze da madrugada de sábado. Aleguei que já estava perto de amanhecer o dia e que ela precisaria acordar cedo para viajar. Ela nos convidou para irmos com ela até a estação rodoviária, com o que concordamos.&lt;br /&gt;A Minha Colegial ainda me acompanhou até a saí-da e nos demoramos por mais alguns minutos nos amando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;114&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pareceu-me que queríamos mesmo era termos cer-teza de que a Lena, a prima da Minha Colegial, viajara de fato e que:&lt;br /&gt;– Enfim, sós!&lt;br /&gt;– Pelo menos até amanhã, quando teus pais chega-rão. Aí...&lt;br /&gt;– Aí...? – perguntou-me Deirdry, quase pendurada no meu pescoço.&lt;br /&gt;– Aí, será impossível imaginarmos como será nossa vida; como serão nossos encontros; como será a tua convivência com eles...&lt;br /&gt;– Nossa vida será como nós dois quisermos! Não dependerá de mais ninguém. A não ser que você... tenha apenas se divertido comigo; no que eu não quero e não tenho motivos para crer.&lt;br /&gt;Falando assim, pendurada em meu pescoço, com seus olhos dentro dos meus, com sua boca roçando na minha, com o seu hálito deliciosamente excitante... eu fui tomado de um forte desejo de levá-la para minha casa e apenas sermos felizes. Mas eu não conseguia me desvencilhar dos fatos: eu nem mesmo tinha casa. Eu não sabia sequer o que seria o meu próximo minuto, principalmente nos dois últimos dias em que as notícias eram ainda mais desesperantes: publicação de mais um Ato Institucional (o que chamávamos de AI para expressarmos o quanto eles doíam); a invasão de mais uma célula resultando na morte de vários camaradas; a iminência do meu exílio... Tudo, nos momentos de lucidez, de razão pura, transformava meus&lt;br /&gt;115&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sonhos com Deirdry (A minha COLEGIAL NO MEU JARDIM) em doídos e amargos pesadelos. Mas o bom da vida é viver cada momento, e o momento era de amor, paixões... Corpos febris de desejos. Aquela agradável (deliciosa mesmo) sensação de estarmos os dois sozinhos num mundo só nosso, sem a nada temermos.&lt;br /&gt;O ônibus com a Lena (a prima da Minha Colegial) já saíra fazia mais de meia hora, e nós dois ali, conjecturando, sonhando... nos saboreando, e por que não?! Por fim nos lembramos de ir para casa (a esta altura, qualquer casa: a dela, a minha...) e que diferença fazia? Apenas um lugar aconchegante para nossos corpos em frenesim.&lt;br /&gt;– Vou passar o dia todo contigo, seja onde for.&lt;br /&gt;– E a noite toda também. – eu acrescentei.&lt;br /&gt;– E por toda a vida, amém! – Deirdry gostava de quando e vez fazer umas rimas que, dependendo do assun-to e das circunstâncias, eram engraçadas.&lt;br /&gt;– Sim. E por que não? – concordei, acrescentando uma interrogação.&lt;br /&gt;– Porque você não quer.&lt;br /&gt;– Vamos para casa. – eu a chamei.&lt;br /&gt;– Qual?&lt;br /&gt;– Puxa! Como estamos bem de casa: até podemos escolher! – eu tentei ser otimista sem ser cômico.&lt;br /&gt;– Então escolha você.&lt;br /&gt;– Primeiro, para a tua...&lt;br /&gt;– Eu já disse que ali não é a minha casa.&lt;br /&gt;– Tudo bem: primeiro, para a casa dos teus pais, pois você já pega o uniforme e o material escolar, pois à tarde você tem aulas, e eu não gostaria que você faltasse.&lt;br /&gt;116&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, meu pai! – Deirdry foi irônica, o que me deixou meio desconcertado e tentei consertar:&lt;br /&gt;– Não custa nada. São apenas duas aulas no sábado. Logo você estará de volta, e aí fica comigo até amanhã. E ainda temos as injeções da Soledad...&lt;br /&gt;– É... Vamos. – ela disse, sem muito entusiasmo.&lt;br /&gt;Já na casa dela, eu pedi para que somente ela entrasse e pegasse seu material para ir ao colégio, à tarde, pois devido ao adiantado da hora (eu argumentei) deveríamos nos apressar, pois já passava da hora da medicação da nossa mãe Soledad. E ela foi extremamente compreensiva.&lt;br /&gt;Rápido, chegamos à casa da Soledad e ela nos recebeu com euforia:&lt;br /&gt;– Sabem que eu cheguei mesmo a pensar que vocês haviam fugido? Eu já tava torcendo para que tudo desse certo com vocês aonde quer que vocês fossem... Mais do que minha própria saúde eu quero que vocês sejam felizes. Que tudo dê certo entre vocês...&lt;br /&gt;E virando-se para Deirdry:&lt;br /&gt;– Oh, minha filha! Já faz um tempão que você está aí de pé e ainda mais com essa mochila pendurada na mão. Desculpa-me, por favor. Ponha-a aqui, em cima da mesa e sentem os dois. Aqui, pertinho de mim. Sabem que eu senti falta de vocês? Aquele vazio! Eu penso que foi por causa de eu está com uma intuição de que vocês haviam fugido. Mas era aquela falta misturada com alegria: a falta era egoísmo mesmo, a gente tá sempre pensando na gente; e a alegria era por pensar que vocês a essa altura dos acontecimentos já estavam em um lugar seguro, tranquilo; e felizes, o que é o mais importante.&lt;br /&gt;117&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que a Soledad já não falava mais com o seu cansaço reticente, o que dizia da sua grande melhora, e comentei com ela sobre isto com profunda alegria.&lt;br /&gt;A Minha Colegial (quase sussurrando em meu ouvido) me pediu:&lt;br /&gt;– Nós podemos levar as minhas coisas lá para sua casa?&lt;br /&gt;– Claro. Mas agora?&lt;br /&gt;A Soledad pôs a sua mão em cima da mão da Deirdry (que repousava sobre a mesa) e denotando preocupação ou zelo perguntou-nos:&lt;br /&gt;– O que é que está acontecendo? Minha filha não quer ficar aqui?&lt;br /&gt;Eu tentei logo de explicar para que não perdurasse a preocupação e a contrariedade da nossa anfitriã:&lt;br /&gt;– Está tudo bem, mãe Soledad. É que a Deirdry está me pedindo para deixar a mochila dela lá em casa, pois à tarde ela irá para a escola e já trouxe o uniforme e os livros.&lt;br /&gt;– Ah! Eu fiquei preocupada. Mas vocês vêm almoçar aqui, não é?&lt;br /&gt;– Não, mãe Soledad. Nós nos arrumaremos por lá. Chega de te dar tanto trabalho e preocupação. – eu tentei ser meio-que-diplomático.&lt;br /&gt;Nem bem terminei de falar e a Minha Colegial já estava de pé, com sua mochila a tiracolo e dando beijinhos de despedida na Soledad, enquanto pegava a minha mão e foi quase-que-me-puxando para irmos embora.&lt;br /&gt;Logo que entramos em casa a Deirdry foi me perguntando onde poria a sua mochila e dizendo que precisava&lt;br /&gt;118&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;retirar o uniforme de dentro da mesma, pois a essa altura já estava todo amarrotado.&lt;br /&gt;– No quarto. É todo seu.&lt;br /&gt;– E você não vai me acompanhar?&lt;br /&gt;– Claro. É que eu estou impressionado com a bagunça que virou isto que era uma casa. E antes, me faz um favor?&lt;br /&gt;– O que é?&lt;br /&gt;– Vem primeiro comigo por comida e água para a gata, a felina, que eu esqueci por causa da minha gatinha Dry. – eu disse isto abraçando a Minha Colegial (agora gata), e ela transbordou de felicidade e prontamente foi me ajudar.&lt;br /&gt;Depois, peguei sua mochila e abraçados fomos para o quarto, onde ela se acomodaria. E tudo com a mais profunda naturalidade que não me contive e comentei com ela – também com a mais profunda naturalidade:&lt;br /&gt;– Parecemos até um casalzinho que faz isto rotinei-ramente, não é?&lt;br /&gt;– Que somos um casalzinho, não parece: somos. E que fazemos isto rotineiramente... Quem sabe? Talvez façamos, só que mentalmente. Não é?&lt;br /&gt;Devo admitir (ou confessar?) que era a inteligência incomum daquela jovem o que mais me fascinava nela. E era uma inteligência sábia, o que quer dizer singela, sem arrogância e sem frieza. Uma inteligência humana e humanista e não aquela inteligência das máquinas e dos pe-dantes. E foi somente aí que eu compreendi por que ela não precisava de muito falar (ou quase nenhum falar!): para compreender o mundo em sua volta e até mesmo para&lt;br /&gt;119&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;_____________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se comunicar ela precisava apenas sentir e ser sentida.&lt;br /&gt;Estaria ela em um estágio superior da Evolução? Foi o que eu me perguntei. E isto me deu, ou me facilitou, a compreensão por que ela reclamava de que eu falava demais; que melhor era senti-la...&lt;br /&gt;Eu disse isto para ela, mas simplesmente ela disse tão pouco quando eu esperava que, envaidecida, ela se desmanchasse em palavras:&lt;br /&gt;– Para você me amar ou para eu te amar não é preciso que você me diga eu te amo e tampouco que eu te peça que você me ame: basta amar. Sentir.&lt;br /&gt;Fiquei tão desnorteado que rapidamente mudei de assunto:&lt;br /&gt;– Ih! Já são doze e quarenta e seis. Vamos comer algum-de-comer para você não ir ao colégio com fome.&lt;br /&gt;– Liga pra isso não. Dá-me só um abraço... é tudo o que eu quero no momento. Aproveita enquanto eu estiver na escola e lê o meu diário e, se for interessante, comenta.&lt;br /&gt;Percebi que o que ela queria mesmo era me dar uma ocupação para que eu ficasse em casa esperando por ela, e pensando assim eu concluí que a Minha Colegial era muito insegura em relação aos meus sentimentos. Ela foi para seu colégio e enquanto isso eu reli o seu diário e escrevi alguns parágrafos em que eu comentava sobre o mesmo. Quando ela chegou eu a esperava no jardim com um cravo vermelho na mão para ela e de braços estendidos para recebê-la com um grande e efusivo abraço.&lt;br /&gt;Ela foi logo perguntando:&lt;br /&gt;– Você saiu?&lt;br /&gt;– Não. Reli teu diário. Escrevi algo... está dentro...&lt;br /&gt;120&lt;br /&gt;A COLEGIAL NO MEU JARDIM&lt;br /&gt;____________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela gritou:&lt;br /&gt;– Que ótimo! Vamos entrar... Eu quero ler... – eu estranhei tanta euforia nela, mas creio que foi mais pelo fato de eu não ter saído do que pela notícia de que eu reli seu diário e o comentei por escrito.&lt;br /&gt;Ganhei tantos beijos, abraços e carinhos que até pensei que a vida fosse só um mar de rosas.&lt;br /&gt;Lá pelas nove horas da noite é que ela se sentiu no mundo dos fatos, postergando assim o mundo dos sonhos, fantasias e desejos:&lt;br /&gt;– Quero tomar um banho. Posso usar qual banheiro?&lt;br /&gt;– O que você quiser. Não quer antes comer algo?&lt;br /&gt;– Obrigada. Depois...&lt;br /&gt;E foi naquela noite ímpar que a Minha Colegial (de pureza e ternura que jamais vi nem antes e tampouco depois dela) se fez mulher sob os meus lençóis e se fez perpétua em minhas melhores reminiscências!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;121&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EPÍLOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tanto tempo, bem por estes dias, reme-xendo meus guardados, encontrei algumas flores desidra-tadas entre meus papéis amarelados – antigos confidentes silenciosos! – e vi ante mim, escultural e misteriosa, a mi-nha colhedora de flores, como se o tempo não houvesse passado. Aliás, como se tempo só existisse no presente. Ou como se nada do que vemos existisse além de nossas imaginações e desejos.&lt;br /&gt;Não me atrevi a ler nada do que ali estava escrito. Continuei contemplando as flores desidratadas, como se eu estivesse no meu jardim contemplando a Minha Cole-gial colhendo os seus cravos e jasmins.&lt;br /&gt;Não vi o voar das horas. Já era madrugada. A luz da rua iluminava o sobrado inumano em que eu passava meus monótonos dias, sem roseiras para regar; sem flores para oferecer; sem beija-flores para me visitar; sem uma colegial sequer para contemplar... E sussurrei como quem dá o último suspiro:&lt;br /&gt;– O que faremos das cinzas dos nossos sonhos?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deirdry, eu não quero ficar esperando que aquele teu desejo de ao cair uma estrela, se cumpra. Não quero descansar sobre os lauréis da espera. E não é verdade que o tempo nos dará a razão: vou buscar a razão, gastar o meu tempo, viajar sem destino, encharcar-me na chuva, molhar a roupa, enlamear os sapatos... porque assim me sentirei mais humano, mais gente. Eu quero é sair por aí, andar, descobrir o infinito, e no infinito reencontrar o teu corpo, assim como recentemente tenho voltado à adolescência para reencontrar-me em teus braços.&lt;br /&gt;122&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da Minha Colegial no Meu Jardim permaneceu apenas nas minhas reminiscências e permanecerá sempre em mim – e principalmente nos momentos das melhores lembranças – A COLEGIAL, não mais minha e nem mais no meu jardim. Mas esta que trago cá dentro será só e sempre MINHA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, eu caminhava por entre os cactos e para onde eu olhava só via espinhos; até que olhei bem para frente, rumo à outra extremidade do campo, e vislumbrei uma flor. Daí em diante eu não mais vi os espinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Soledad, minha única e verdadeira mãe, que nos adotamos mutuamente a partir da minha adolescência marcada pela rebeldia e a subversão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;123&lt;br /&gt;AUTORIZAÇÃO:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não reconhecer a autoridade do Estado burguês;&lt;br /&gt;Por crer que o conhecimento, a cultura e a Ciência são patrimônios de toda a humanidade;&lt;br /&gt;Por condenar visceralmente a propriedade privada;&lt;br /&gt;Por ignorar as fronteiras – principalmente geográficas;&lt;br /&gt;Por não reconhecer a legitimidade dos governantes serviçais;&lt;br /&gt;Por entender que a verdadeira pirataria é estudar em uma escola pública, frequentar bibliotecas públicas, acumular conhecimentos e bens materiais e intelectuais oriundos do povo e se arvorar proprietário desses bens;&lt;br /&gt;Por crer na inalienável liberdade de pensar e no poder da escrita:&lt;br /&gt;eu, F. Antenor Gonsalves, in fine assinado, autorizo a todo cidadão de qualquer parte do mundo a reproduzir e divulgar este livro por todos e quaisquer meios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;124&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contatos:&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:fantenorgonsalves@gmail.com"&gt;fantenorgonsalves@gmail.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://twitter.com/fantenorgonsalv"&gt;http://twitter.com/fantenorgonsalv&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:antenorgonsalves@yahoo.com.br"&gt;antenorgonsalves@yahoo.com.br&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:f_antenorgonsalves@hotmail.com"&gt;f_antenorgonsalves@hotmail.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.fantenorgonsalves.blogspot.com/"&gt;http://www.fantenorgonsalves.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.antenorsuperstite.blogspot.com/"&gt;http://www.antenorsuperstite.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.fantenorgonsalves.zip.net/"&gt;http://www.fantenorgonsalves.zip.net/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/TI7Rd5qVHQI/AAAAAAAAAJg/BbaoKtt5MSU/s1600/Fotos+adolescente+blog.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5516576905200213250" style="float: left; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 209px; height: 320px;" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/TI7Rd5qVHQI/AAAAAAAAAJg/BbaoKtt5MSU/s320/Fotos+adolescente+blog.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retrato do escritor aos doze anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;125&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1921936460589028745-3894752379699689431?l=fantenorgonsalves.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/3894752379699689431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1921936460589028745&amp;postID=3894752379699689431' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/3894752379699689431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/3894752379699689431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/2010/09/colegial-no-meu-jardim.html' title='A COLEGIAL NO MEU JARDIM'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/TIo6aTLWA5I/AAAAAAAAAJI/-9qI5cCEm2k/s72-c/Capa+da+Colegial+definitava.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-5665754331773791338</id><published>2007-08-17T13:54:00.000-07:00</published><updated>2010-09-21T08:23:10.060-07:00</updated><title type='text'>PELOS CAMINHOS DO MUNDO - AS GUERRILHEIRAS DAS FARC</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Falam e escrevem muito dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – quase sempre para caluniá-los – e pouco das guerrilheiras. A maioria das pessoas ignora que milhares de mulheres combatem nas 60 Frentes em que as FARC lutam naquele país.&lt;br /&gt;Conheci muitas em 2002, nas semanas vividas num acampamento amazônico dessa organização revolucionária com mais de quarenta anos de resistência armada.&lt;br /&gt;Como transmitir no breve espaço de uma crônica, o que em mim ficou do contato com essas guerreiras de novo tipo?&lt;br /&gt;Encontrei ali moças tão diferentes que seria redutor o esforço para esboçar o choque emocional provocado pelo descobrimento das combatentes das FARC. De comum entre elas apenas a coragem, a capacidade de adaptação a condições de vida duríssimas e uma confiança total na justiça da luta das FARC e na vitória final, sem data.&lt;br /&gt;No meu acampamento somente uma não tinha companheiro. Entre as mulheres, apenas Eliana ultrapassara os 40 anos de vida. A maioria não atingira os 25 anos. A ética da guerrilha impunha normas que eram respeitadas. Se dois namorados pretendiam estabelecer uma relação amorosa informavam o comandante. A infidelidade não era tolerada pelo código da guerrilha. A &lt;span style="font-style: italic;"&gt;pareja&lt;/span&gt; era autorizada a dormir na mesma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;caleta&lt;/span&gt;, o estrado-cama que, sob um toldo de plástico, na grande floresta, fazia as vezes de casa. O regulamento proibia também que os guerrilheiros, homens ou mulheres, mantivessem relações sexuais com hóspedes das FARC.&lt;br /&gt;Mas não havia moralismo. Se um casal decidia pôr termo à relação, comunicava essa decisão ao comandante. O gesto consumava a separação.&lt;br /&gt;As mulheres realizavam os mesmos trabalhos que os homens, desde o treinamento militar à abertura das latrinas. Iguais direitos, tarefas idênticas.&lt;br /&gt;O quotidiano dos acampamentos não permitia a privacidade a que hoje estamos acostumados no dia-a-dia urbano. Na selva, infestada por transmissores de doenças perigosas, o banho diário é imprescindível à defesa da saúde. As mulheres banhavam-se no rio ao lado dos homens numa atmosfera de camaradagem e respeito que me impressionou. Elas de calcinhas, eles de cuecas. As normas do pudor, tal como as conhecemos, não podiam funcionar ali. Mas nunca, nem nos olhares nem nas palavras, testemunhei atitudes da qual transparecesse um comportamento machista.&lt;br /&gt;Elas, tal como eles, tinham diferentes origens sociais. Algumas tinham vindo de grandes cidades, outras dos &lt;em&gt;llanos&lt;/em&gt; ou dos vales quentes; outras ainda das terras frias da Cordilheira. A origem social transparecia mais no diálogo do que no comportamento, porque moças de famílias camponesas haviam adquirido uma sólida formação ideológica.&lt;br /&gt;Para surpresa minha, quase todas eram bonitas.&lt;br /&gt;Na Aula – o lugar onde à noite o coletivo da guerrilha se reunia para assistir a palestras e debater o tema com o “professor” convidado – tive a oportunidade de falar mais demoradamente com algumas que mal conhecia, como a Adriana e a Jenny.&lt;br /&gt;O meu trabalho exigiu contatos muito freqüentes com quatro: a Glória, a Eliana, a Yurleni e a Isabel.&lt;br /&gt;Glória era a secretária sem título do comandante Raul Reyes. De origem pequeno-burguesa, adquirira uma formação marxista ampla, pouco comum. Era a responsável pelos computadores e pelas transmissões por rádio, serviços instalados num “escritório” que se diferenciava das &lt;span style="font-style: italic;"&gt;caletas&lt;/span&gt; apenas por sua maior dimensão. Enviava mensagens codificadas e decifrava as recebidas. A sua intimidade com o mundo da informática fazia de mim um aprendiz bisonho.&lt;br /&gt;Era muito bonita e nem o uniforme lhe afetava a feminilidade. Foi durante as lentas viagens para El Caguan, através de uma estrada imprevisível que rompia as matas da região – ela guiava carros pesados como uma profissional – que do seu passado soube aquilo que me contou. O suficiente para eu entrever nela uma personagem de novela que irradiava uma intensa alegria de viver.&lt;br /&gt;Em Eliana encontrei uma revolucionária de outro tipo. Responsável pela intendência, ocupava-se com zelo de tudo o que se relacionava com o abastecimento do acampamento. A sua beleza não era física. De meia idade, entroncada, brusca nos movimentos, alcançara o grau de sub-comandante e o seu currículo de combatente dissipava dúvidas sobre os méritos da guerrilheira. Era de poucas falas, mas, ao volante de um caminhão, respondia com rapidez e segurança às perguntas que eu formulava sobre a história das FARC e a organização do acampamento.&lt;br /&gt;Yurleni, a rancheira, projetava a imagem de uma jovem camponesa desinibida, faladora, com uma espontaneidade tocante. Passava o dia na cozinha preparando as refeições dos convidados. Quando apreciávamos um prato de caça ou uma especialidade colombiana, reagia tão efusivamente que até comunicava o fato ao seu papagaio palrador, empoleirado num arbusto, ao lado do bidão da água, no terreiro por onde deambulavam galinhas e o quati, mascote da guerrilha. Yurleni tinha um companheiro, John, e dizia ser mais feliz do que algum dia pudera imaginar. Menina, tinha uma obsessão: ser soldado. Mas acabou nas FARC quando percebeu que era mentira o que delas contavam e que a guerrilha era, essa sim, um exército de heróis, como outro não existia.&lt;br /&gt;Em Isabel, a historiadora, descobri uma romântica. Foi a ideologia, absorvida na universidade, que a empurrou para as FARC. Encontrava-se no umbral de uma vida de comodidades, já com um mestrado e trabalhando numa organização internacional que lhe garantia um salário mensal de quase 2000 dólares quando...&lt;br /&gt;Ela hesitava ao chegar aí e eu interrompia, tentando descer às raízes da opção que a fizera mudar de rumo.&lt;br /&gt;– O tempo de reflexão foi breve – respondia –. Eu sentia um nojo crescente pelo tipo de vida que se abria para mim. Não queria ser triturada pelo sistema. O apelo foi irresistível. Ajudada por amigos, vim para às FARC, que eu admirava sem as conhecer...&lt;br /&gt;Isabel mantinha longas conversas comigo. Os temas ideológicos fascinavam-na e encontrou em mim um interlocutor. Após um ano, sentia-se ainda uma iniciada. Cumpria exemplarmente todas as tarefas, verifiquei que atirava muito bem, mas a insegurança atormentava-a.&lt;br /&gt;A beleza de Isabel chamava a atenção pela suavidade. Tinha uma pele muito branca, uns olhos enormes, luminosos, e um corpo onde tudo parecia certo pela forma e a proporção. Do conjunto desprendia-se irrealidade.&lt;br /&gt;Um dia, perguntei-lhe porque, sendo tão bela, não tinha companheiro. Levou tempo a responder:&lt;br /&gt;– Sabes, isso faz-me sofrer. Mas não pelo que possas pensar. Alguns camaradas já me perguntaram por que os recusei. Pensam que é uma atitude de classe, mas o motivo é outro. Eu faço uma idéia muito grande do amor e ainda não encontrei alguém que me abra ao amor...&lt;br /&gt;Naturalmente Glória, Eliana, Jenny, Adriana, Yurleni, Isabel eram nomes de guerra. Desconheço-lhes os nomes verdadeiros.&lt;br /&gt;Na sede das FARC, em San Vicente del Caguan, conheci outra guerrilheira, a Nora, da qual conservo, nítida, na memória a lembrança de alguém que me apareceu como símbolo das mulheres das FARC.&lt;br /&gt;Ela estava então na legalidade relativa da época e por isso publiquei-lhe o retrato numa reportagem. O companheiro tinha caído em combate pouco antes.&lt;br /&gt;Nora atendia na recepção todos os estrangeiros que chegavam à Zona Desmilitarizada. Apareciam ali muitos jornalistas que pretendiam entrevistas com os dirigentes mais destacados das FARC, incluindo Manuel Marulanda, o legendário &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Tiro Fijo&lt;/span&gt;, cuja morte fora anunciada vinte vezes por sucessivos governos. Era difícil a tarefa, mas Nora resolvia os problemas mais delicados. A voz e a doçura da guerrilheira desarmavam o protesto, quando os visitantes não obtinham o que pretendiam. Fundia uma suavidade tocante numa firmeza de combatente veterana.&lt;br /&gt;Fechava-se quando as minhas perguntas incidiam sobre o seu mundo interior. Nunca me falou do companheiro perdido, mas a palavra tristeza subia na minha memória quando a escutava. No dia em que me despedi, dei-lhe um par de botas e uma lanterna. Indispensáveis na selva, não teriam mais utilidade para mim.&lt;br /&gt;– Podem ser úteis para algum camarada – comentei quase envergonhado.&lt;br /&gt;Nora abraçou-me, sem uma palavra, e o seu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;gracias compañero&lt;/span&gt; chegou acompanhado do único sorriso que lhe vi esboçar naqueles dias.&lt;br /&gt;Hoje, quando leio ou escuto calúnias sobre as FARC, o meu pensamento viaja para as selvas e montanhas da Colômbia. No turbilhão de imagens que então me envolve não é sem comovida admiração que revejo as guerrilheiras que ali conheci. Aquelas mulheres aparecem-me como símbolo da confiança na transformação revolucionária da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.avante.pt/noticia.asp?id=6514&amp;amp;area=19&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://resistir.info/ &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-20f089985425734b" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v2.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3D20f089985425734b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1330273100%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3DBB3FA5224CBFA030F4E53187AFD159F134FCB4E.533C448E274547236064A8C0F2110072204D4E16%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D20f089985425734b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DRZ6GqWIyKoB15boOOyjSHfvl10A&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v2.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3D20f089985425734b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1330273100%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3DBB3FA5224CBFA030F4E53187AFD159F134FCB4E.533C448E274547236064A8C0F2110072204D4E16%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D20f089985425734b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DRZ6GqWIyKoB15boOOyjSHfvl10A&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(CARTA CRUEL A UMA AMIGA)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUERIDA DEIZI:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, 19 d’abril de 1994, terça-feira...&lt;br /&gt;Levianamente decretaram que este dia é dia de índio (os demais dias são dias de cara-pálida), e assim está decretado: índio tem apenas um dia para ser comemorado pelas instituições assistencialistas.&lt;br /&gt;Hoje, porém, depois de tantos anos estou longe da selva; longe de nativos; longe de igarapés; longe de garimpos; longe de guajarás; longe de jacarés... longe de mim mesmo... Também, longe de ti... dos nossos.&lt;br /&gt;Já aqui, indescritíveis formas, intraduzíveis vultos, enigmáticas figuras apenas confirmam o que já era certeza: homo-reshus, primatas preênseis, compatibilidade cromossomática, idêntico desprendimento de amônia, órgãos vitais intercambiáveis, comportamentos sócio-comunitários idênticos – antropóides ramapthecus – resumidamente é isto que somos: MACACOS. Com a única diferença: somos os únicos que se encarceram uns aos outros.&lt;br /&gt;Estas reflexões têm me possuído desde o dia quinze último, quando correu por aqui a notícia: “Dona Leonildes Cruz da Silva, 63 anos (eles adoram números!), é manchete na imprensa internacional – DE OLINDA PARA O MUNDO”.&lt;br /&gt;Dona Leonildes, há oito anos, sobrevive (juntamente com toda a família) comendo carne humana – antropofagia? Digamos: canibalismo?! – Não!!! miséria humana mesmo!&lt;br /&gt;A carne humana com que Dona Leonildes sobrevive com a família é catada do lixo hospitalar de Olinda. São “dejetos cirúrgicos” (restos humanos): placentas, seios, coxas, pernas, braços... fetos, recém-nascidos...&lt;br /&gt;Te choca, Amiga, se eu disser que esta notícia não me chocou tanto?&lt;br /&gt;Já presenciei monstruosidades piores produzidas pela miséria capitalista.&lt;br /&gt;Mas não justifica eu não me chocar tanto? e eu deveria me chocar assim mesmo?&lt;br /&gt;Sim, Amiga; porém, não tanto quanto me choca ver que o que foi notícia não foi a miséria e suas vítimas... Não, Amiga! Isto por aqui já não é mais notícia. O que mereceu destaque da mídia foi que Dona Leonildes teve o atrevimento de adoecer e reclamar de um seio humano – e aqui deve ter pairado uma terrível dúvida, pois não se sabe se era de moça virgem ou de moça mulher! – que comera e lhe fizera mal.&lt;br /&gt;Segundo Dona Leonildes, quando aferventava o seio notou que o mesmo espumava “além do normal”, Amiga. E onde está o anormal, Amiga? Manda-me dizer que eu já não o sei. Mas Dona Leonildes argumentou: “Eu comi porque todos comeram e não fez mal a ninguém, nem ao pequeno de braço. Então, não foi o peito não; é que eu já tô velha mesmo”!!!&lt;br /&gt;Vê só, Amiga, que atrevimento; que vexame logo em ano eleitoral?!?! Pobre é mesmo inconveniente, não é? e isto deve ser coisa de comunista só para badernar o democrático processo eleitoral brasileiro – quiçá mundial!&lt;br /&gt;Seria preferível, Amiga, crer que isto é coisa de subversivo ameaçando a segurança nacional da pátria-livre...&lt;br /&gt;Pensei – mesmo necessitando muitíssimo – em não te escrever estas imundícies, mas tenho aprendido muito contigo, como por exemplo: “não se filtra notícias para os amigos”.&lt;br /&gt;Então, divido contigo o mal-estar, Amiga.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1921936460589028745-5665754331773791338?l=fantenorgonsalves.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=20f089985425734b&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/5665754331773791338/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1921936460589028745&amp;postID=5665754331773791338' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/5665754331773791338'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/5665754331773791338'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/2007/08/carta-antropofolgica.html' title='PELOS CAMINHOS DO MUNDO - AS GUERRILHEIRAS DAS FARC'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-8235621808137852172</id><published>2007-07-05T04:06:00.000-07:00</published><updated>2008-05-08T20:24:32.829-07:00</updated><title type='text'>CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE E OUTRAS AGONIAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/RpK5NI_qtkI/AAAAAAAAAAs/qojs5MJUq4E/s1600-h/capaCAN%C3%87%C3%83O+DA+AGONIA+E.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/RpK5NI_qtkI/AAAAAAAAAAs/qojs5MJUq4E/s200/capaCAN%C3%87%C3%83O+DA+AGONIA+E.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5085330564658673218" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONSALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANÇÃO DA AGONIA&lt;br /&gt;DA NOITE&lt;br /&gt;E OUTRAS AGONIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEMAS&lt;br /&gt;Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional&lt;br /&gt;(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gonçalves, F. Antenor&lt;br /&gt;G626c Canção da agonia da noite e outras agonias / F. Antenor Gonsalves.&lt;br /&gt;São Paulo: EDICON, 1986.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Poesia brasileira I. Título.&lt;br /&gt;86-2132&lt;br /&gt;CDD-869.915&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Índice para catálogo sistemático:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Poesia: Século 20 – Literatura brasileira 869.915&lt;br /&gt;2. Século 20: Poesia – Literatura brasileira 869.915&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os direitos reservados de acordo&lt;br /&gt;com a legislação em vigor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impresso no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ref.: 8.692.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Leitor, se não tens desprezo&lt;br /&gt;De vir descer às senzalas,&lt;br /&gt;Trocar tapetes e salas&lt;br /&gt;Por um alcouce cruel,&lt;br /&gt;Vem comigo, mas... cuidado...&lt;br /&gt;Que o teu vestido bordado&lt;br /&gt;Não fique no chão manchado,&lt;br /&gt;No chão do imundo bordel.”&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Castro Alves.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este livro tem um destino: aos que crêem na paz, no socialismo e no ser humano – especialmente para quem me deu apoio necessário quando fui seqüestrado, a mando do juiz (de direito?) Donado Ojeda, da 1ª vara da comarca de Cáceres – MT. Para quem não se curvou aos gritos de terror do ten. coronel Zamith, então comandante do 66º Batalhão de Infantaria Motorizado, quando pelo serviço de som daquele quartel, alertava os seus subordinados para o “perigo” que eu representava naquela “área de segurança nacional”, e quando, despoticamente, mandou recolher o meu livro ANACORETAS.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;O autor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O BICHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi ontem um bicho&lt;br /&gt;Na imundície do pátio&lt;br /&gt;Catando comida entre os detritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando achava alguma coisa&lt;br /&gt;Não examinava, nem cheirava&lt;br /&gt;Engolia com voracidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bicho não era um cão&lt;br /&gt;Não era gato&lt;br /&gt;Não era rato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bicho, meu Deus, era um homem!”&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Manuel Bandeira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Denúncia.................................................................................. 11&lt;br /&gt;Cartas de Pedro Casaldáliga...................................................... 13&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canção da Agonia da Noite........................................................ 18&lt;br /&gt;Dilaceradamente....................................................................... 19&lt;br /&gt;Funeral de Setembro................................................................. 20&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando Estávamos Sós............................................................. 21&lt;br /&gt;Estás em Mim.......................................................................... 22&lt;br /&gt;Era Antes................................................................................. 23&lt;br /&gt;Um Louco Querer...................................................................... 24&lt;br /&gt;Aversão.................................................................................... 25&lt;br /&gt;Si La Ban Do............................................................................ 26&lt;br /&gt;Voltaseca................................................................................. 27&lt;br /&gt;Um Poema Erótico Pela Revolução Brasileira.............................. 29&lt;br /&gt;Porque Parti............................................................................. 30&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...E OUTRAS AGONIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoteose de Uma Lágrima......................................................... 32&lt;br /&gt;Faca de Corte........................................................................... 34&lt;br /&gt;O Canto das Raças (Poema Negro)............................................ 35&lt;br /&gt;Perfil........................................................................................ 36&lt;br /&gt;Último Samba em Nova Iorque ou: O Último subversivo.................37&lt;br /&gt;José e o Rei (Sete Vacas Magras) e... (Sete Vacas Gordas).........38&lt;br /&gt;Operariopatrão.......................................................................... 40&lt;br /&gt;Temporada............................................................................... 41&lt;br /&gt;Os Homens do Torto.................................................................. 42&lt;br /&gt;Mãos........................................................................................ 43&lt;br /&gt;Sangria..................................................................................... 44&lt;br /&gt;Entre Mortos e Desaparecidos................................................... 46&lt;br /&gt;Prelúdio Para Depois.................................................................. 48&lt;br /&gt;Prece Pela América Latina......................................................... 49&lt;br /&gt;Que País É Este?...................................................................... 51&lt;br /&gt;Mãos Opostas........................................................................... 53&lt;br /&gt;Um Canto de Dor...................................................................... 55&lt;br /&gt;Reação.................................................................................... 57&lt;br /&gt;Vultos da Seca.......................................................................... 58&lt;br /&gt;O ABC do Capital e da Reação.................................................. 61&lt;br /&gt;Mugem as Vacas e os Coronéis.................................................. 62&lt;br /&gt;Mal Crônico............................................................................... 63&lt;br /&gt;Palmares em Outros Dias.......................................................... 64&lt;br /&gt;A los Mineros de la Sierra......................................................... 65&lt;br /&gt;Nos Confins dos Brasis.............................................................. 66&lt;br /&gt;Metalética e Diafísica................................................................ 67&lt;br /&gt;No Bagaço do Engenho............................................................. 68&lt;br /&gt;Contagem Regressiva............................................................... 69&lt;br /&gt;Sombras Noctívagas.................................................................. 70&lt;br /&gt;Ao Poeta do Povo...................................................................... 72&lt;br /&gt;Há Um Povo.............................................................................. 73&lt;br /&gt;A Velha História de Um Povo..................................................... 74&lt;br /&gt;Mote Nº 1.................................................................................. 75&lt;br /&gt;Mote Nº 2.................................................................................. 77&lt;br /&gt;Mote Nº 3.................................................................................. 79&lt;br /&gt;A Bem Dizer Não Há História..................................................... 81&lt;br /&gt;Os Retirantes............................................................................ 82&lt;br /&gt;A Guerrilheira........................................................................... 83&lt;br /&gt;Pagarás o Dízimo?.................................................................... 84&lt;br /&gt;Deusote.................................................................................... 86&lt;br /&gt;Assim É o Meu Deus................................................................ 87&lt;br /&gt;Antagonismo............................................................................. 88&lt;br /&gt;Festa Latina.............................................................................. 89&lt;br /&gt;O Canto da Terra-Ninguém........................................................ 91&lt;br /&gt;Made in Brazil........................................................................... 92&lt;br /&gt;Prenúncio de Um Novo Dia........................................................ 93&lt;br /&gt;Populoris................................................................................... 95&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DENÚNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Aos Chilenos e Paraguaios)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde “sempre livre”&lt;br /&gt;é absorvente para higiene feminina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde a justiça é cega,&lt;br /&gt;o parlamento é mudo e o executivo é surdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como já disse, eu sou de um país onde a “justiça é cega”:&lt;br /&gt;(vistes o caso dos inocentes condenados a vinte anos de prisão&lt;br /&gt;nos cárceres da burguesia,&lt;br /&gt;por interesses escusos de juízes também cegos e escusos?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde “liberdade” é nome de praça&lt;br /&gt;(e o pior é que em meu país a praça não é do povo&lt;br /&gt;“como o céu é do condor”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde os três poderes são exercidos pelas três&lt;br /&gt;armas&lt;br /&gt;e o “quarto poder” é paramilitar:&lt;br /&gt;bichos encapuzados metidos nos porões,&lt;br /&gt;agindo na noite – torturando, trucidando, matando...&lt;br /&gt;matando... matando... matando... matando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde é tão grande a quebradeira&lt;br /&gt;que os mandatários governam por “emendas”&lt;br /&gt;ou simplesmente decretam leis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde infância e marginalização se confundem&lt;br /&gt;nas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde policiais e marginais exercem a mesma&lt;br /&gt;atividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país tão frágil e inseguro que um simples operário&lt;br /&gt;(poeta nas horas vagas – subversivos todas as horas)&lt;br /&gt;pasmem vocês! foi acusado de ameaçar a “segurança nacional”&lt;br /&gt;da pátria-colônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde, não faz muito tempo, me proibiram ser&lt;br /&gt;do meu país.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;O autor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Félix do Araguaia, MT.&lt;br /&gt;1º de março, 1986&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. Antenor Gonsalves&lt;br /&gt;Guajará-Mirim – RO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querido amigo e companheiro de Esperança,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, teu livro; e minha carta. Obrigado pelo envio e pela confiança que você deposita em mim; pela amizade já.&lt;br /&gt;Canção da Agonia da Noite e Outras Agonias é um livro intenso e diferente e diversificado. Nos teus poemas há valores diversos: o social/político (sempre legitimamente amargo e pela experiência vivida!) é mais intenso, mais real.&lt;br /&gt;Importante – para mim – esse acento latino-americano que perpassa tua obra. Somos o Continente.&lt;br /&gt;A terra, as vacas, presentes, vividas.&lt;br /&gt;E a Ditadura dos coronéis e generais!&lt;br /&gt;E o Nordeste!&lt;br /&gt;Sei que essa Amazônia não está fácil, com as migrações e a politicagem local e a violência. Agora o país todo, de “cruzado”. Vamos ver...&lt;br /&gt;Em todo caso, irmão, a esperança seja maior.&lt;br /&gt;Com um abraço do amigo,&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Pedro Casaldáliga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;CARTA II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Goiânia, 17, maio, 86&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. Antenor Gonçalves&lt;br /&gt;Guajará-Mirim, RO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querido amigo e companheiro de luta e de esperança sempre. Estou escrevendo desde Goiânia, de passagem, regressando do Norte de Goiás, onde enterramos mais um mártir da Terra, o companheiro de todas as horas, Pe. JOSIMO MORAIS TAVARES. E estou indo para o interior da Prelazia, em visita pastoral.&lt;br /&gt;Antes de sair para o Bico do Papagaio, busquei e rebusquei teus originais. Andava eu muito atarefado, nestes dias, porque além do serviço de rotina, estava ultimando o meu livro sobre a Nicarágua. E... não consegui encontrar os originais. Entre o correio, primeiro, e a bagunça circunstancial depois, você, teu livro, saíram apanhando. Me desculpa, Antenor!&lt;br /&gt;Para não demorar mais, com novos envios tão demorados sempre nas nossas regiões, eu te sugiro uma solução: publica como apresentação minha carta. Certo?&lt;br /&gt;Seguimos na batalha diária.&lt;br /&gt;Unidos, sempre perto do Povo e a Esperança sempre maior do que o cansaço.&lt;br /&gt;Antenor, recebe mais uma vez o abraço da amizade deste companheiro de caminhada,&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Pedro Casaldáliga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O pior uso que se pode fazer da liberdade é abdicar dela.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Victor Hugo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Outrora, na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentaram. Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim mesmo, imediatamente intervir na política.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Platão (cerca de 354 anos antes desta era).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Che Guevara.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puedo escribir los versos más tristes esta noche.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qué importa que mi amor no pudiera guardala.&lt;br /&gt;La noche está estrellada y ella no está conmigo.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Pablo Neruda.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Noites.&lt;br /&gt;Sorumbáticas noites.&lt;br /&gt;Melancólicas noites não dormidas.&lt;br /&gt;Noites veladas, choradas, sofridas.&lt;br /&gt;Noites sem mim, sem ti, sem nós, sem ELA.&lt;br /&gt;Noites de solidão;&lt;br /&gt;De imagens fantasmagóricas velando-me os passos.&lt;br /&gt;Sombrias – infinitas noites!&lt;br /&gt;Noites de um só.&lt;br /&gt;E se morrer em meio à noite quem me dará o último adeus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noites.&lt;br /&gt;Nostálgicas noites.&lt;br /&gt;Hipocondríacas noites de um só.&lt;br /&gt;Noites de tempestades íntimas e calmarias hibérnicas.&lt;br /&gt;Noites triturantes, desgastantes, corrosivas, deflorantes.&lt;br /&gt;Minhas negras noites escuras passadas em claro&lt;br /&gt;Onde sempre (infalivelmente) me deparo&lt;br /&gt;Com todos os fantasmas dos meus sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a angústia dos que ficam sós na noite&lt;br /&gt;E em meio à noite não conseguem povoar a sua solidão&lt;br /&gt;Com as imagens desvanecidas do passado e do porvir.&lt;br /&gt;É o filho da noite que, agonizante,&lt;br /&gt;Chega ao proscênio telúrico do teatro vazio&lt;br /&gt;Quando já não há mais ninguém para lhe aplaudir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é noite – a noite das noites tristes!&lt;br /&gt;A noite do filho da noite que, ao som melodramático&lt;br /&gt;Do vento da noite, canta o seu canto noturno.&lt;br /&gt;Pois é noite!&lt;br /&gt;A noite dos tristes. Dos sós.&lt;br /&gt;A noite dos que cantam a&lt;br /&gt;CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 21 de abril de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DILACERADAMENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se os meus olhos te incomodam... fura-os.&lt;br /&gt;Assim te amarei: cegamente!&lt;br /&gt;Se o meu amor te incomoda... odeia-me.&lt;br /&gt;Pois mesmo assim te amarei: loucamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o nosso encontro te incomoda... esconde-te.&lt;br /&gt;Assim te amarei: perdidamente!&lt;br /&gt;Se crês que o meu amor é pequeno... pede-me mais.&lt;br /&gt;Assim te amarei: infinitamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se te parece cedo o meu amor... repudia-me.&lt;br /&gt;Mas te amarei assim mesmo: eternamente!&lt;br /&gt;Se o meu coração te incomoda... parte-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim te amarei: dilaceradamente!&lt;br /&gt;Se o meu amor não te agrada... mata-me.&lt;br /&gt;Pois morrerei assim mesmo: apaixonadamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Patos, 19 de julho de 1979.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do verso livre e da insujeição às formas clássicas do soneto (petrarquiano, espanhol, inglês), este seu “soneto” é excelente pela originalidade das imagens líricas. Trata-se de um belo trabalho pela força expressional – singular do poeta.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;10/IV/84&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;J. G. de Araújo Jorge.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUNERAL DE SETEMBRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou só – amargamente só!&lt;br /&gt;Cadavericamente só!&lt;br /&gt;Milenarmente só!&lt;br /&gt;Estatuamente só!&lt;br /&gt;Unicamente só!&lt;br /&gt;Só de mim mesmo, e pasmo!&lt;br /&gt;Contemplo um casal de mosquitos pateticamente&lt;br /&gt;E vejo-os no sacrossanto instante do orgasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E continuo só e amargamente só.&lt;br /&gt;Só na dor; só na tristeza;&lt;br /&gt;Só na alegria; só no prazer...&lt;br /&gt;Só como um leproso de quem todos fogem.&lt;br /&gt;E subitamente descubro que, a contragosto,&lt;br /&gt;É melhor mal acompanhado do que só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 07 de setembro de 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUANDO ESTÁVAMOS SÓS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos sós – sós no mundo.&lt;br /&gt;E sós éramos tudo.&lt;br /&gt;Éramos tudo entre todos.&lt;br /&gt;Eu, todo teu – só teu!&lt;br /&gt;Tu, toda minha – só minha!&lt;br /&gt;E assim tínhamos tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos tudo, então:&lt;br /&gt;Eu, teu amor e teu corpo;&lt;br /&gt;Tu, meu corpo e meu amor.&lt;br /&gt;E o instante, quando sozinhos,&lt;br /&gt;Era tudo: amor, loucura e sexo.&lt;br /&gt;E aí, então, sozinhos,&lt;br /&gt;Nos enchíamos de nós dois mesmos&lt;br /&gt;E nosso mundo se povoava de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos sós – não de nós mesmos, –&lt;br /&gt;Que era, então, tudo para nós.&lt;br /&gt;E assim, a sós,&lt;br /&gt;Eu me povoava de ti&lt;br /&gt;E tu te povoavas de mim.&lt;br /&gt;E assim, a sós, tínhamos tudo.&lt;br /&gt;Éramos tudo, então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paraguai, 25 de janeiro de 1981.&lt;br /&gt;(domingo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTÁS EM MIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho em minhas noites tristes de solidão&lt;br /&gt;Povoado a casa vazia com a imagem do teu ser distante&lt;br /&gt;E nestas horas de saudade angustiante&lt;br /&gt;Tenho procurado desvairadamente abraçar&lt;br /&gt;O teu corpo febril de desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho em minhas noites tristes&lt;br /&gt;A companhia consoladora do teu fantasma&lt;br /&gt;Pois estás aqui: posso te ver, te sentir...&lt;br /&gt;Estás ao meu lado.&lt;br /&gt;És minha sombra que me acompanha passo a passo.&lt;br /&gt;Agora mesmo estás aqui – indubitavelmente estás aqui –&lt;br /&gt;Pois és todo o meu pensamento e todos os meus sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora mesmo estás aqui, pois o coração pulsa por dois&lt;br /&gt;Numa taquicardia que também só me lembra de ti.&lt;br /&gt;Estás aqui comigo e estarás até a minha morte.&lt;br /&gt;Estás aqui e aonde quer que eu vá irás também comigo&lt;br /&gt;Como uma cicatriz, como uma tatuagem, como uma marca&lt;br /&gt;profunda,&lt;br /&gt;Como pegadas ou mesmo como o sangue que segue&lt;br /&gt;infalivelmente o corte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sabes por que estás comigo agora e estarás sempre?&lt;br /&gt;É porque eu sou aquele que não conseguia dormir&lt;br /&gt;Com o barulho enlouquecedor dos grilos&lt;br /&gt;E sou também aquele que, matando os grilos,&lt;br /&gt;Não mais conseguiu viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estás e estarás sempre comigo&lt;br /&gt;Porque me és a própria vida&lt;br /&gt;E te esquecer seria o mesmo que morrer por dentro.&lt;br /&gt;E te esquecer seria como marchar sobre uma ponte caída.&lt;br /&gt;E te esquecer seria antes morrer em vida e só&lt;br /&gt;Ou mesmo ser consumido aos pedaços, lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santa Inês (MA), 26 de agosto de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ERA ANTES...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era antes um ponto invisível num infindável infinito&lt;br /&gt;E foi-se avolumando e tomando forma;&lt;br /&gt;E foi ocupando um espaço cada vez maior;&lt;br /&gt;Ε foi-se avolumando... avolumando...&lt;br /&gt;E hoje é este gigante imenso&lt;br /&gt;Que às vezes até mesmo penso&lt;br /&gt;Que seja a isto que chamam “amor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram antes os teus braços, tua boca entreaberta,&lt;br /&gt;Teus olhos cerrados, tuas mãos pelo meu corpo,&lt;br /&gt;As palavras sussurradas entre beijos ardentes&lt;br /&gt;E afagos enlouquecedores&lt;br /&gt;Que nos enchiam do mais gostoso prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos antes um só corpo em uma só cama;&lt;br /&gt;Uma única vontade e um só sentimento.&lt;br /&gt;Era antes o desejo louco – sem escolher o momento,&lt;br /&gt;Sem admitir desculpas, sem entender razões.&lt;br /&gt;Eram antes dois descontrolados corações&lt;br /&gt;Pulsando no mesmo ritmo e compasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas hoje!...separados como cristais partidos&lt;br /&gt;Nem sei se cada fragmento conserva o gosto do licor&lt;br /&gt;Que antes, no banquete fora servido.&lt;br /&gt;Nem sei se para outro murmuras os teus doces gemidos&lt;br /&gt;Como antes murmuravas nos meus ouvidos&lt;br /&gt;E que me deixavam louco de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas hoje!... há um oceano que nos separa,&lt;br /&gt;Um mar que naufraga nossos sonhos e desejos&lt;br /&gt;E há ainda a marca profunda e indelével&lt;br /&gt;De uma mulher incomum, única, rara.&lt;br /&gt;Há hoje tua imagem que me persegue&lt;br /&gt;E uma lacuna imensa a que nada socorre,&lt;br /&gt;E neste vazio, um eco: – “Corre! Corre! Corre!”&lt;br /&gt;Para os braços dela?! – “Sim. Corre! Corre! Corre!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12 de setembro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM LOUCO QUERER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feito a aranha que devora o macho quando sacia o sexo&lt;br /&gt;É assim que tu me queres e é assim que eu te quero.&lt;br /&gt;Feito um potro pelos campos vastos e ermos&lt;br /&gt;Desvairadamente correndo atrás da fêmea no cio&lt;br /&gt;É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feito fera com as garras enterradas em minhas carnes&lt;br /&gt;Me retalhando assim, me rasgando assim,&lt;br /&gt;É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.&lt;br /&gt;Feito animal lambuzado de saliva e sexo&lt;br /&gt;É assim que tu me queres e é assim que eu te quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como serpente contorcendo-se de prazer na cama,&lt;br /&gt;Em movimentos insinuantes e sensuais&lt;br /&gt;É assim que eu te quero e é assim que tu me queres.&lt;br /&gt;Como loucos ou mesmo como animais&lt;br /&gt;É assim que nos queremos iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como abismo escancarado ante mim&lt;br /&gt;Onde a ânsia, o desejo e o prazer de penetrá-lo&lt;br /&gt;São maiores que o medo de morrer,&lt;br /&gt;Assim é teu corpo na cama&lt;br /&gt;Em noites de prazeres incontidos e desenfreados desejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como punhais assassinos e traiçoeiros&lt;br /&gt;São os teus braços quando me abraçam&lt;br /&gt;Mas é assim que eu quero e é assim que tu me queres.&lt;br /&gt;Como chamas que devoram a madeira seca&lt;br /&gt;É esta paixão (este sentimento misterioso – este amor?)&lt;br /&gt;Que me devora com suas ardentes chamas,&lt;br /&gt;Pois é assim quando eu te quero e quando tu me amas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como náufragos que buscam a praia&lt;br /&gt;É assim que nos buscamos ansiosamente.&lt;br /&gt;Como o faminto que pega o substancioso prato&lt;br /&gt;Assim nos devoramos louca e avidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AVERSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um poema e outro poema&lt;br /&gt;Correm rios de sangue.&lt;br /&gt;Entre uma mão e outra mão&lt;br /&gt;Correm versos de aço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um rio e outro rio&lt;br /&gt;Correm poemas de sangue.&lt;br /&gt;Entre um verso e outro verso&lt;br /&gt;Correm mãos de aço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um sangue e outro sangue&lt;br /&gt;Correm rios de poemas.&lt;br /&gt;Entre um aço e outro aço&lt;br /&gt;Correm mãos de versos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre uma mão e um poema&lt;br /&gt;Há um verso de sangue.&lt;br /&gt;Entre o sangue e o rio&lt;br /&gt;Há uma mão de aço e um poema sem verso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 03 de janeiro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SI LA BAN DO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Igual ao rifle, à metralhadora e ao punhal, a poesia é também uma arma do povo.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Jorge Amado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Poema é pá&lt;br /&gt;Poema é pé&lt;br /&gt;Poema é pi&lt;br /&gt;Poema é pó&lt;br /&gt;Poema é pu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema é sangue&lt;br /&gt;Poema é suor&lt;br /&gt;Poema é terra&lt;br /&gt;Poema é luta&lt;br /&gt;Poema é chão&lt;br /&gt;Poema é meta&lt;br /&gt;Poema é pão&lt;br /&gt;Poema é povo&lt;br /&gt;Poema é garra&lt;br /&gt;Poema é arma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema é pu&lt;br /&gt;Poema é pó&lt;br /&gt;Poema é pi&lt;br /&gt;Poema é pé&lt;br /&gt;Poema é pá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema é tudo porque&lt;br /&gt;Poema é VIDA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teresina (PI), 12 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VOLTASECA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rios caudalosos – já no ano atrasado, –&lt;br /&gt;Transbordando sequidão e sede de chuva.&lt;br /&gt;Braços quebrados – a terra se rachou – .&lt;br /&gt;Leito de esperanças onde repousei&lt;br /&gt;– Mais uma vez – com a última amante,&lt;br /&gt;Sequiosa de amor e sexo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rios de esperanças ressequidas;&lt;br /&gt;E como se tivesse absorvido a última lágrima&lt;br /&gt;Já não resta mais nem mesmo a esperança.&lt;br /&gt;O rio transbordou (no ano atrasado!)&lt;br /&gt;E levou consigo todo o verde.&lt;br /&gt;(O rio transbordou de esperanças e desilusões!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não havia rio – havia apenas o leito,&lt;br /&gt;No qual repousei quando da última vez –&lt;br /&gt;Já que era a noite nupcial dos desvalidos;&lt;br /&gt;E como dois desvalidos&lt;br /&gt;Nos sorvemos a um só trago&lt;br /&gt;Já que era a nossa última noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não restou nada! qualquer que fosse esse nada.&lt;br /&gt;Qualquer que fosse esse nada&lt;br /&gt;Do rio que foi aquele só areia restou.&lt;br /&gt;E cada grão é equivalente a uma ilusão ressequida.&lt;br /&gt;Rio que passou como a última enchente&lt;br /&gt;E levou consigo toda a pastagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi no ano atrasado, quando houve o último inverno...&lt;br /&gt;Desde aí, quantas lágrimas já se foram!&lt;br /&gt;E cujas lágrimas teriam dado para transbordar quantos rios!?&lt;br /&gt;Já passaram quantas dores!? Quantas lágrimas!?&lt;br /&gt;E quantos amantes já morreram de fome&lt;br /&gt;Desde que os rios secaram!!!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Advieram tristezas – é certo! –&lt;br /&gt;Umas permaneceram, outras passaram; advieram outras.&lt;br /&gt;Umas deixaram cicatrizes; outras levaram membros;&lt;br /&gt;Outras nem foram levadas em conta;&lt;br /&gt;Outras arrombaram açudes&lt;br /&gt;Mas nem por isto mesmo&lt;br /&gt;As águas deixaram de correr para o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pombal, 18 de maio de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM POEMA ERÓTICO PELA REVOLUÇÃO BRASILEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que não me farto dos teus seios belos e fartos&lt;br /&gt;Que dão a grata sensação&lt;br /&gt;De quem tem muito ou quase tudo nas mãos,&lt;br /&gt;E muito menos desse teu corpo feminino&lt;br /&gt;Onde eu brinco feito um menino&lt;br /&gt;E tenho a sensação de ter o mundo nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que toda vez que percorro febril&lt;br /&gt;Todas as minúcias do teu corpo&lt;br /&gt;Eu enlouqueço de prazer e desejos.&lt;br /&gt;E é no delírio do sufoco dos teus beijos&lt;br /&gt;Que eu encontro fôlego para mais uma jornada&lt;br /&gt;Quando nossos corpos se esfregam&lt;br /&gt;Indiferentes ao sono e à madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É na cama, é no chão, é na mesa...&lt;br /&gt;Em qualquer lugar que o teu corpo esteja.&lt;br /&gt;É assim feito a fera e a presa:&lt;br /&gt;– Vou te devorar todo, toda, tudo...&lt;br /&gt;E só largarei quando saciada, saciado...&lt;br /&gt;E é assim como a gata e o gato no telhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abres as pernas e te montas em mim&lt;br /&gt;E já ávidos de desejos nos buscamos&lt;br /&gt;E tu te contorces assim... assim... assim...&lt;br /&gt;E nesta loucura, nesta ânsia, neste êxtase supremo&lt;br /&gt;Os nossos corpos são apenas um,&lt;br /&gt;Onde eu te aperto e tu me apertas&lt;br /&gt;E assim, metido entre tuas pernas abertas,&lt;br /&gt;Concluímos que nada há além do que há entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santa Inês (MA), 27 de agosto de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PORQUE PARTI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando no teu despertar matinal&lt;br /&gt;Não vires mais meus olhos nos teus&lt;br /&gt;Nem minha roupa estendida no varal,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não houver mais ninguém te esperando na cama&lt;br /&gt;Com os olhos cheios de amor e esperanças,&lt;br /&gt;Assim, atirado aos teus pés, feito um cão que te ama,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não houver ninguém para quebrar tua rotina,&lt;br /&gt;Quando não houver ninguém nem mesmo para te aborrecer,&lt;br /&gt;Quando não houver ninguém nem mesmo para te pedir uma&lt;br /&gt;aspirina,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não houver ninguém te esperando pelo caminho,&lt;br /&gt;Por aí, feito um louco atrás de ti,&lt;br /&gt;Ou mesmo no ouvido te falando baixinho,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não houver ninguém para te amar&lt;br /&gt;Com o amor mais louco que houver,&lt;br /&gt;Ou quando não houver ninguém para olhar no teu olhar,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não houver mais ninguém para te sorrir e te querer&lt;br /&gt;Assim como eu te quero loucamente&lt;br /&gt;E quando a saudade fizer parte do teu ser,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando do teu pedestal&lt;br /&gt;Vires que não há ninguém te amando à minha maneira,&lt;br /&gt;Assim, louco, feito animal,&lt;br /&gt;É porque parti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28 de maio de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... E OUTRAS AGONIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Inútil terra que só tem servido para enterrar os seus mortos.)&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;J. G. de Araújo Jorge.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APOTEOSE DE UMA LÁGRIMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem me dera uma lágrima – uma só! –&lt;br /&gt;Pelos corpos insepultos; pelas crianças famintas;&lt;br /&gt;Pelos homens incultos; pelas mulheres perdidas;&lt;br /&gt;Pelas guerras sangrentas e indevidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que me dera uma lágrima – uma apenas! –&lt;br /&gt;Por todas essas mulheres de Atenas.&lt;br /&gt;Pelos moleques da rua (ai de mim!)&lt;br /&gt;Mas como eu queria que fosse assim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria uma lágrima para chorar por Deus;&lt;br /&gt;Chorar pelos meus e pelos teus.&lt;br /&gt;Eu queria pelo menos uma lágrima para chorar por mim.&lt;br /&gt;Uma lágrima pelos ladrões, viciados e marginais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria uma lágrima para chorar pelos demais...&lt;br /&gt;Ah! quem me dera uma lágrima – somente uma! –&lt;br /&gt;Para chorar pelos que têm nome e pelos que têm alcunha;&lt;br /&gt;Pelos que lavram com máquina e pelos que lavram com unha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria uma lágrima – uma tão-somente! –&lt;br /&gt;Para chorar pelos loucos; pelos dementes;&lt;br /&gt;Pelos parentes; pelos aderentes; pelos ausentes;&lt;br /&gt;Pelos presentes; pelos ateus e pelos crentes;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos pingentes; pelos decentes e indecentes.&lt;br /&gt;Ah! eu queria uma lágrima pelos tiranos;&lt;br /&gt;Pelos meus acertos e pelos meus enganos;&lt;br /&gt;Pelos gregos e pelos troianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos corpos mutilados, retalhados;&lt;br /&gt;Pelas mulheres famintas e esfarrapadas;&lt;br /&gt;Pelas crianças abandonadas (tão abandonadas!),&lt;br /&gt;Pelos bêbedos atirados às calçadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas consciências e honras compradas;&lt;br /&gt;Pelas mocinhas: coisas-e-finas, depravadas;&lt;br /&gt;Pelos governos tirânicos e corruptos;&lt;br /&gt;Pelos termos absolutos e abruptos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu queria uma lágrima ao menos por mim:&lt;br /&gt;Uma lágrima bem sentida; bem chorada;&lt;br /&gt;Sincera, aberta; e por que não escancarada?&lt;br /&gt;Uma lágrima por mim, outra por Abel e outra por Caim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Classificada em 1º lugar em Concurso de Poesias, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo de Vilhena Rondônia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São José dos Campos (SP), 12 de junho de 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FACA DE CORTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atinos de facas afiadas em mãos calosas&lt;br /&gt;Que vão rompendo o ventre do próprio destino.&lt;br /&gt;Delírio de enxadas que sangram as veias da terra&lt;br /&gt;À procura de novas fontes.&lt;br /&gt;Fúria de foices rompendo cercas que marcam quintais.&lt;br /&gt;Angústia de martelos malhando em ferro frio.&lt;br /&gt;Solidão de punhais – em lutas desiguais –&lt;br /&gt;Querendo vingança.&lt;br /&gt;Luxaria de navalhas retalhando a carne.&lt;br /&gt;Indiferença de máquinas que moem dedos, mãos, braços,&lt;br /&gt;Cabeças, troncos, membros, lingüiças, pastéis...&lt;br /&gt;Fome de esmeril no primeiro corte.&lt;br /&gt;Sorriso de dentaduras postiças e bocas banguelas.&lt;br /&gt;Deleite de serras rompendo todas as grades:&lt;br /&gt;É o último preso que agora se evade.&lt;br /&gt;É o último cativo partindo a última corrente.&lt;br /&gt;É o povo lutando, produzindo, morrendo...&lt;br /&gt;E agora, conquistando sua própria liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Letra da música classificada em 1º lugar no Festival Mato-grossense de Música Universitária, no ano de 1982).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recife, 06 de maio de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CANTO DAS RAÇAS (POEMA NEGRO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor que tu negas, e calas, e abafas, e consentes, e escondes&lt;br /&gt;Tu a confirmas para ti, tu a fazes gritar em ti.&lt;br /&gt;A dor que tu calas no peito, no bolso, na barriga, nas veias...&lt;br /&gt;Ela renasce no povo, nos bares, nas fábricas, nos trabalhadores,&lt;br /&gt;Nos explorados, nas mulheres usadas, nos oprimidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor que te consome e que te curva e te prostra&lt;br /&gt;E que tu a embriagas em taças largas,&lt;br /&gt;Em largas taças a terás de tragar&lt;br /&gt;Nas noites mais tristes e mais revoltantes que houver.&lt;br /&gt;Tu terás de pisoteá-la na primeira passeata dos revoltados e&lt;br /&gt;desvalidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando soar o último tambor da última marcha dos&lt;br /&gt;opressores&lt;br /&gt;Terás então expulsado a última bactéria, o último vírus,&lt;br /&gt;O último parasito&lt;br /&gt;Do teu corpo, da tua casa e da face da terra.&lt;br /&gt;Tu estarás imune e todas as dores terão passado&lt;br /&gt;Pois o passado terá enterrado em si todas as opressões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E teu peito, negro, será o ninho de todos os oprimidos;&lt;br /&gt;Será o berço de todos os sonhadores redimidos.&lt;br /&gt;E o teu sonho, negro, atingirá todas as formas,&lt;br /&gt;Todas as dimensões, todas as cores.&lt;br /&gt;Aí, tu cantarás um suave canto de liberdade&lt;br /&gt;E teu canto, negro, será o canto de todas as RAÇAS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ti, Bosambo, assassinado pelo preconceito dos homens: pois eles também tinham medo de tua sensibilidade e de tua revolta, já que nós, os “negros”, ainda trazemos no pulso as marcas das algemas e das correntes, e nas costas as chagas deixadas pelo chicote do capataz.&lt;br /&gt;Eu queria ser criança ou mesmo um debilóide inconsciente para não sentir tão profundamente a orfandade de tua partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29 de setembro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PERFIL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cara lisa não criou vergonha&lt;br /&gt;Mas já não tá tão lisa a cara,&lt;br /&gt;Pois já se moldam as primeiras rugas.&lt;br /&gt;A camisa aberta ao peito já se abriu nas costas.&lt;br /&gt;Aqueles passos tão firmes, hoje precisam de muletas&lt;br /&gt;Para cambalear entre paralíticos.&lt;br /&gt;Aquelas mãos tão caritativas, agora apenas mendigam.&lt;br /&gt;Aquele bolso tão farto outrora... quem dera!!!...&lt;br /&gt;O dente de ouro que devorou tantos pratos gostosos&lt;br /&gt;Foi vendido para comprar a última ceia.&lt;br /&gt;Ah! já lá vai um bom tempo desde a última ceia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 27 de setembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÚLTIMO SAMBA EM NOVA IORQUE OU&lt;br /&gt;O ÚLTIMO SUBVERSIVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Libranos de aquel que nos domina em la miséria.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Victor Jara.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Luís seria o último morto de fome&lt;br /&gt;Maria seria a última criança abandonada&lt;br /&gt;Ruth seria a última prostituída&lt;br /&gt;Antônio seria o último mendigo&lt;br /&gt;José seria o último explorado&lt;br /&gt;Dina seria a última massacrada&lt;br /&gt;Carlos seria o último torturado&lt;br /&gt;Vanda seria a última favelada&lt;br /&gt;Severino seria o último analfabeto&lt;br /&gt;Mãe Preta seria a última discriminada por ser negra e mulher&lt;br /&gt;Lúcio seria o último trombadinha&lt;br /&gt;Carmem seria a última mãe aflita&lt;br /&gt;E Orlando seria o último delinqüente&lt;br /&gt;Se Mr. John fosse o último patrão;&lt;br /&gt;E aí, por não haver mais motivo,&lt;br /&gt;Eu seria então o último SUBVERSIVO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brasília, 05 de outubro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JOSÉ E O REI&lt;br /&gt;(SETE VACAS MAGRAS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres magras – magras mulheres;&lt;br /&gt;Mulheres pálidas – mulheres anêmicas;&lt;br /&gt;Pálidas mulheres – mulheres magérrimas;&lt;br /&gt;Pobres mulheres pobres e transparentes;&lt;br /&gt;Mulheres doentias e pernas trôpegas;&lt;br /&gt;Cambaleantes mulheres apocalípticas;&lt;br /&gt;Mulheres desalinhadas, chupadas, sugadas, sofridas...&lt;br /&gt;Pobres mulheres e filhos a tiracolo e languenzos;&lt;br /&gt;Pobres mulheres lânguidas e desdentadas;&lt;br /&gt;Pobres mulheres assalariadas;&lt;br /&gt;Pobres mulheres do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres fantasmagóricas.&lt;br /&gt;Mulheres volúveis na cama e na mesa.&lt;br /&gt;Pobres mulheres que se fazem presas&lt;br /&gt;Do sistema, do cavalo e do cavaleiro.&lt;br /&gt;Mulheres esfarrapadas, moídas, enganadas...&lt;br /&gt;Pobres mulheres angélicas, evangélicas e angelicais.&lt;br /&gt;Pobres mulheres iguais – sempre iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E...&lt;br /&gt;(SETE VACAS GORDAS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres bem nutridas e sorridentes.&lt;br /&gt;Bocas arreganhadas mostrando os dentes&lt;br /&gt;Finos, bem tratados, caros e reluzentes.&lt;br /&gt;Mulheres fartas – fartas mulheres.&lt;br /&gt;Mulheres finas – senhoras madamas.&lt;br /&gt;Mulheres festivas – senhoras palacianas...&lt;br /&gt;Gordas mulheres das bacanais – as bacanas!...&lt;br /&gt;Mulheres dos motéis, das jóias caras – raras!...&lt;br /&gt;Nos carros; dos carros; dos anéis; pelos anéis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres brilhantes, coloridas, aconchegantes,&lt;br /&gt;Bem prevenidas: – “Trouxe o talão de cheques?”&lt;br /&gt;– Sem essa! Sem grana eu não fico com você.&lt;br /&gt;Mulheres dos carrões, dos barões, dos ladrões...&lt;br /&gt;Mulheres dos machões, dos puxões...&lt;br /&gt;Mulheres dos milhões, dos biliões, dos canastrões.&lt;br /&gt;Mulheres das mesas fartas e das camas vazias.&lt;br /&gt;Pobres mulheres dos nossos patrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 19 de setembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OPERARIOPATRÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dedo que a máquina engoliu foi quase nada!&lt;br /&gt;(Segundo o patrão, “vão-se os dedos e ficam os anéis”).&lt;br /&gt;A máquina quis mais: engoliu-lhe a mão.&lt;br /&gt;(Segundo a Previdência, não faz mal,&lt;br /&gt;Já que foi a da esquerda).&lt;br /&gt;A máquina estava viciada: devorou o membro inteiro.&lt;br /&gt;Mas, segundo a sociedade, aquele sobejo da máquina&lt;br /&gt;Deveria ser vomitado do seu seio como coisa imprestável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele membro que a máquina devorou foi quase nada&lt;br /&gt;Já que aquele operário foi substituído, prontamente,&lt;br /&gt;Por outro bem mais moço e mais produtivo.&lt;br /&gt;Aquele homem inutilizado pela máquina não tem nada não!&lt;br /&gt;Segundo a sociedade de consumo, se ele vier a morrer,&lt;br /&gt;Ora, bolas! Será uma boca a menos.&lt;br /&gt;O sangue daquele homem, derramado entre as engrenagens.&lt;br /&gt;Daquela máquina fria e voraz,&lt;br /&gt;Segundos os tecnocratas, foi muito útil&lt;br /&gt;Para lubrificar o maquinário tão útil e produtivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Para Isaías Antunes, quase devorado pela&lt;br /&gt;máquina).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crato, 06 de junho de1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TEMPORADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amojadas as éguas,&lt;br /&gt;Prenhes as vacas,&lt;br /&gt;Fogosos os machos,&lt;br /&gt;Ciosas as novilhotas,&lt;br /&gt;Enjeitados os filhotes&lt;br /&gt;E mancantes as mulas:&lt;br /&gt;Assim começara janeiro e o ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éguas relinchando,&lt;br /&gt;Cabras magras pastando,&lt;br /&gt;Carneiros pelo pátio da casa-grande berrando,&lt;br /&gt;Meninos barrigudos roubando tudo que vão achando&lt;br /&gt;Para a fome enganar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meninas acanhadas olhando pela fresta da porta&lt;br /&gt;A vaca, no cio, se entregando ao touro.&lt;br /&gt;– Que faz aí, menina curiosa?&lt;br /&gt;– Nada não. O touro tá matando a vaquinha.&lt;br /&gt;– Já pra dentro, sua safadinha. Mas que safadinha!...&lt;br /&gt;– E mãe não vai acudir a tadinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim começara janeiro e o ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cobras e lagartos invadindo a casa.&lt;br /&gt;Homens com enxadas e mulheres a tiracolo&lt;br /&gt;Cansados de cavarem o solo&lt;br /&gt;Na esperança do veeiro da mina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram as primeiras chuvas de janeiro&lt;br /&gt;E outras não vieram.&lt;br /&gt;E com as chuvas de janeiro&lt;br /&gt;Se foram todas as esperanças do ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim findara janeiro e o ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 28 de setembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS HOMENS DO TORTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho legítimo do boi Marujo (quando este ainda era touro)&lt;br /&gt;O garrote Graúna deu muito o que falar&lt;br /&gt;No sítio Torto e arredores.&lt;br /&gt;Dizem as más línguas:&lt;br /&gt;– Com’é que pode um filho negro do pai branco?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Cromossomática que só a genética explica).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não convence.&lt;br /&gt;Pra os homens do Torto o boi Marujo levou muito chifre.&lt;br /&gt;“Só pode ter sido muita ponta”.&lt;br /&gt;– Não tá vendo que uma vaca nova, fogosa como aquela...&lt;br /&gt;Ia se satisfazer com um touro em decadência!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Genética que só a cromossomática complica,&lt;br /&gt;Mas não convence (é claro que não convence).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens do Torto tiveram muito o que falar.&lt;br /&gt;O que é aprumado que no Torto não sai torto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois assim são os homens do Torto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 27 de setembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MÃOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos magras, trêmulas, frágeis; calosas mãos.&lt;br /&gt;Pra ser franco, nem parecem mãos.&lt;br /&gt;Mãos que madrugam as enxadas.&lt;br /&gt;Mãos que calejam os cabos das foices.&lt;br /&gt;Mãos que amassam os martelos&lt;br /&gt;E que cultivam o pão para o diabo amassar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peiúdas, pedradas, indecisas, constringidas,&lt;br /&gt;Decifradas, rasgadas, sangradas...&lt;br /&gt;Amassadas, decepadas, reprimidas...&lt;br /&gt;Medrosas – acanhadas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos que cavam a cova&lt;br /&gt;À procura de uma palavra nova&lt;br /&gt;Que seja amor, paz, guerra...&lt;br /&gt;Contanto que traga justiça.&lt;br /&gt;Contanto que traga justiça – esta palavra nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 04 de novembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SANGRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(A los Obreros chilenos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yo&lt;br /&gt;Hijo de América,&lt;br /&gt;Hijo de ti y de África&lt;br /&gt;Esclavo ayer de mayorales blancos&lt;br /&gt;Dueños de látegos coléricos;&lt;br /&gt;Hoy esclavo de rojos yanquis azucareros y voraces,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sepultado en el fungo de todas las cárceles;&lt;br /&gt;Cercado día y noche por insaciables bayonetas.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Nicolás Guillén.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Vi sangue nas paredes das prisões,&lt;br /&gt;Nas calçadas, nas favelas e nos matagais.&lt;br /&gt;Vi sangue na argamassa das construções&lt;br /&gt;E nos pneus dos carros oficiais.&lt;br /&gt;Vi sangue nos coletes dos patrões,&lt;br /&gt;Nas minas e nos canaviais.&lt;br /&gt;Vi sangue nas salas e nos porões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também vimos sangue nos garimpos e seringais;&lt;br /&gt;Nas engrenagens das máquinas, nas fábricas,&lt;br /&gt;Nas luvas dos donos das multinacionais,&lt;br /&gt;Vimos sangue nas ruas, nas escolas,&lt;br /&gt;Nas botas dos soldados e nas mãos dos generais.&lt;br /&gt;Vimos sangue também nas estolas,&lt;br /&gt;Nos muros e nas fardas dos policiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sangue derramado em toda América –&lt;br /&gt;Em todas as Américas há sangue.&lt;br /&gt;Há aqui uma sangria tétrica&lt;br /&gt;Desde las poblaciones hasta los mangues.&lt;br /&gt;Há sangue derramado por uma ditadura cética&lt;br /&gt;Apoiada no capitalismo ianque.&lt;br /&gt;Há sangue na terra de Violeta – a feérica.&lt;br /&gt;E este é o sangue do povo: – “Tomai-o e bebei-o”.&lt;br /&gt;Reparai que é vermelho – só vermelho.&lt;br /&gt;Este é o sangue do trabalhador – sugai-o!&lt;br /&gt;Sugai-o enquanto fordes dono do relho.&lt;br /&gt;Este é o sangue do oprimido – saboreai-o!&lt;br /&gt;Saboreai-o enquanto fordes dono do reino&lt;br /&gt;Pois amanhã será o dia do lacaio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há sangue por toda parte – sangue do povo.&lt;br /&gt;Sangue de homens, mulheres, inocentes...&lt;br /&gt;Há dez anos houve sangue, há hoje e haverá de novo&lt;br /&gt;Até que se rompam todas as correntes.&lt;br /&gt;Há sangue no cálix e no pão servido ao polvo&lt;br /&gt;Do imperialismo capitalista, em grandes torrentes,&lt;br /&gt;No qual este se nutre em largos sorvos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19 de setembro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENTRE MORTOS E DESAPARECIDOS&lt;br /&gt;(A las madres “locas” de la Plaza de Mayo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso ser adubo para minha terra, mas dela não saio.&lt;br /&gt;Megaron, líder indígena txucarramãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às crianças indefensas que choravam por pão&lt;br /&gt;Responderam com bombas e granadas.&lt;br /&gt;Aos jovens que imploravam por educação&lt;br /&gt;Responderam com tiros e gás lacrimogêneo.&lt;br /&gt;Aos inocentes que clamavam por justiça&lt;br /&gt;Responderam com cárceres e algemas.&lt;br /&gt;Aos trabalhadores que reivindicavam seus direitos&lt;br /&gt;Responderam com metralhadoras e baionetas.&lt;br /&gt;Aos que atreveram um dia sonhar&lt;br /&gt;Responderam com o pesadelo da tortura e do terror.&lt;br /&gt;Aos camponeses que queriam a terra para trabalhar&lt;br /&gt;Responderam com ameaças e covas rasas.&lt;br /&gt;Aos que queriam melhores condições de moradia&lt;br /&gt;Responderam com o massacre às suas casas.&lt;br /&gt;Aos pacifistas que peiam paz&lt;br /&gt;Responderam com a mais brutal violência.&lt;br /&gt;Aos que lutavam pela melhoria da ciência&lt;br /&gt;Responderam com o aperfeiçoamento da tortura científica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos que queriam a soberania nacional&lt;br /&gt;Eles responderam com a perseguição e o degredo.&lt;br /&gt;Aos que necessitavam de medicamento&lt;br /&gt;Eles responderam com a anestesia do medo.&lt;br /&gt;Aos que procuravam pelos seus parentes&lt;br /&gt;Eles responderam que estavam mortos ou nas grades.&lt;br /&gt;Aos que pediam explicações sobre seus mortos&lt;br /&gt;Eles responderam com o silêncio dos covardes.&lt;br /&gt;Aos que tentaram falar a língua do povo&lt;br /&gt;Eles sufocaram com o matraquear das metralhadoras.&lt;br /&gt;Aos artistas, escritores, jornalistas e poetas do povo&lt;br /&gt;Eles laçaram o vilipêndio das mãos censoras.&lt;br /&gt;Aos que semeavam o amor e a união&lt;br /&gt;Eles responderam com o ódio e a discórdia.&lt;br /&gt;Aos patrícios por eles supliciados&lt;br /&gt;Eles nem deram o alívio do tiro de misericórdia&lt;br /&gt;E aos que ousaram um dia reclamar&lt;br /&gt;Eles os calaram para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buenos Aires, 17 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRELÚDIO PARA DEPOIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui a vida e a morte se confundem&lt;br /&gt;Em êxtases e delírios medonhos:&lt;br /&gt;Míseros seres esqueléticos e risonhos&lt;br /&gt;Sonham que são felizes.&lt;br /&gt;Gargalham e cantam as meretrizes,&lt;br /&gt;E as crianças tristes e abandonadas,&lt;br /&gt;Lânguidas, pálidas e chupadas&lt;br /&gt;Ainda conseguem forças para mais uma pelada.&lt;br /&gt;E assim se sente felizes e satisfeitas&lt;br /&gt;Pois tudo pode ser felicidade&lt;br /&gt;Para quem não conhece a ilha da liberdade&lt;br /&gt;Nem sabe que há a felicidade plena:&lt;br /&gt;Não a felicidade de ter quem dê uma esmola&lt;br /&gt;Mas a felicidade de não haver ninguém a mendigar.&lt;br /&gt;Não a felicidade de ter alguém para nos sorrir&lt;br /&gt;Mas a felicidade de poder sorrir também.&lt;br /&gt;Não a felicidade de servir para servir&lt;br /&gt;Mas a felicidade de servido e servir a alguém.&lt;br /&gt;Aqui tudo se forja num lapso de consciências.&lt;br /&gt;Aqui os mortos e os vivos se confundem&lt;br /&gt;Na lembrança dos mortos vivos e dos vivos mortos&lt;br /&gt;Em agonizantes e desesperadas existências&lt;br /&gt;Como se anunciassem um prelúdio para depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25 de maio de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRECE PELA AMÉRICA LATINA&lt;br /&gt;(Para Maidana, nos cárceres da burguesia paraguaia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enjaularam os inocentes&lt;br /&gt;Como se fossem animais.&lt;br /&gt;Procuraram os olhos&lt;br /&gt;Que viam claro nas trevas&lt;br /&gt;Para os vazar.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Paul Eluard.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina não seja&lt;br /&gt;O eterno continente dos generais:&lt;br /&gt;Mas que seja a terra dos soldados do povo,&lt;br /&gt;Do povo e dos homens iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina não seja&lt;br /&gt;O eterno continente do futebol, do sonho,&lt;br /&gt;Da esperança e do carnaval:&lt;br /&gt;Mas a pátria una do trabalho,&lt;br /&gt;Da certeza, da prosperidade e da grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina não seja&lt;br /&gt;O eterno continente da repressão, do terror,&lt;br /&gt;Da injustiça e da ditadura militar:&lt;br /&gt;Mas a pátria maior da liberdade,&lt;br /&gt;Da paz, da justiça e do governo popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina não seja&lt;br /&gt;O eterno continente da tortura e da miséria:&lt;br /&gt;Mas a terra da compreensão, do amor, da tolerância,&lt;br /&gt;Da união e da abundância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina não seja&lt;br /&gt;O eterno continente da tirania&lt;br /&gt;Mas o berço eterno do progresso e da democracia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a América Latina seja a pátria de Maidana&lt;br /&gt;E que as grades sirvam para os assassinos,&lt;br /&gt;Ladrões e traidores do povo.&lt;br /&gt;Que a igualdade seja a lei soberana&lt;br /&gt;Que rege o velho e o novo.&lt;br /&gt;Que essa América seja a América nossa&lt;br /&gt;Apesar do pouco que resta – mas que seja soberana –&lt;br /&gt;A soberana Pátria dos homens livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 1º de janeiro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Publicado no jornal &lt;strong&gt;VOZ DA UNIDADE&lt;/strong&gt;, órgão de&lt;br /&gt;divulgação do Partido Comunista Brasiliero - PCB,&lt;br /&gt;em sua edição número 137,&lt;br /&gt;período: 20 a 26 de janeiro de 1983).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUE PAÍS É ESTE?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quien&lt;br /&gt;nombra este país&lt;br /&gt;esta grandeza que avanza muy cerca de mi…?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quien me contó&lt;br /&gt;Que están juntos allí&lt;br /&gt;las tristes favelas con el carnaval?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Feliz Luna e Ariel Ramires.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há presos políticos,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há famintos e favelados,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há milhões de crianças abandonadas,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem que em país há desempregados e marginais,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há cadáveres e desaparecidos;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há miséria por todos os lados;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há exploração;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há subserviência e escravidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há um governo corrupto,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há mendigos pelas calçadas,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país há repressão,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não;&lt;br /&gt;Dizem quem em meu país há injustiça,&lt;br /&gt;Pois eu digo que não:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há um sistema corrupto e corrompedor.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há mendigos nas portas das mais&lt;br /&gt;luxuosas mansões.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há banditismo oficial.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há massacre, arbitrariedade e terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país não há liberdade,&lt;br /&gt;Pois eu digo que sim;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país não há mais carnaval nem futebol,&lt;br /&gt;Pois eu digo que sim;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país não há produto de 1ª qualidade,&lt;br /&gt;Pois eu digo que sim;&lt;br /&gt;Dizem que em meu país não há felicidade,&lt;br /&gt;Pois eu digo que sim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país somos livres para morrer:&lt;br /&gt;Quando ficamos “inúteis” e “improdutivos”.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há fantasias e ... GOOOOOOOL!&lt;br /&gt;Para o povo esquecer a fome, a exploração e a dor.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país há mulatas de 1ª linhagem&lt;br /&gt;Que são exportadas em grandes Navios Negreiros.&lt;br /&gt;Eu digo que em meu país é feliz aquele que escapa&lt;br /&gt;Das doenças infantis, dos parasitos ou do 10º assalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 11 de fevereiro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MÃOS OPOSTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que esgana&lt;br /&gt;sufoca&lt;br /&gt;esmaga&lt;br /&gt;E amassa o pão e a massa,&lt;br /&gt;A mão que em gestos ralos&lt;br /&gt;Luta&lt;br /&gt;Labuta&lt;br /&gt;Mendiga e perdoa,&lt;br /&gt;São mãos que não se dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que maneja o fuzil&lt;br /&gt;O Brasil&lt;br /&gt;O Povo&lt;br /&gt;Os dados e a computação,&lt;br /&gt;A mão que esforça&lt;br /&gt;Roça&lt;br /&gt;Capina&lt;br /&gt;Opera a máquina e o enfermo,&lt;br /&gt;São mãos que não se dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão do ladrão&lt;br /&gt;do chefão&lt;br /&gt;do patrão&lt;br /&gt;do barão prepotente,&lt;br /&gt;A mão do justiceiro&lt;br /&gt;do subalterno&lt;br /&gt;do operário&lt;br /&gt;do refratário consciente,&lt;br /&gt;São mãos que não se dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que tritura o povo&lt;br /&gt;o velho&lt;br /&gt;o novo&lt;br /&gt;a mulher, o negro...&lt;br /&gt;A mão que ampara o frágil&lt;br /&gt;o ancião&lt;br /&gt;a criança&lt;br /&gt;o desvalido feito um cão,&lt;br /&gt;São mãos que não se dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão do torturador&lt;br /&gt;do delator&lt;br /&gt;do traidor&lt;br /&gt;do ditador e mercenário,&lt;br /&gt;A mão do educador&lt;br /&gt;do trabalhador&lt;br /&gt;do revolucionário&lt;br /&gt;do governo igualitário,&lt;br /&gt;São mãos que não se dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres (MT), 31 de dezembro de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM CANTO DE DOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor do não-ter, do não-ser, do não-poder, do não-comer,&lt;br /&gt;Do só-esperar, do só-sofrer, do só-sonhar, do só-trabalhar;&lt;br /&gt;A dor do não-cantar, do não-sorrir, do não-viver, do não-vencer;&lt;br /&gt;Do só-mendigar, do só-vegetar, do só-perder, do só-lamentar;&lt;br /&gt;A dor do não-se-rebelar, do só-se-conformar e do só-produzir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor de ver o filho morto de fome e em sua miséria tamanha&lt;br /&gt;Ter que sair de porta em porta à cata da caridade dos outros&lt;br /&gt;Pedindo uma ajuda para enterrar o filho morto de fome,&lt;br /&gt;E ouvir daquele que, no orgulho do poder fazer caridade,&lt;br /&gt;Infamemente – sem respeitar a dor do pai da criança morta –&lt;br /&gt;Já lhe cobra pelo seu “belo ato caritativo”:&lt;br /&gt;– Olha! não vai beber, não. Enterra mesmo o teu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nem mesmo sei se pode haver um canto&lt;br /&gt;(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é dor.&lt;br /&gt;Já nem mesmo sei se pode haver um canto&lt;br /&gt;(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é miséria.&lt;br /&gt;Já nem mesmo sei se pode haver um canto&lt;br /&gt;(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é fome.&lt;br /&gt;Já nem mesmo sei se pode haver um canto&lt;br /&gt;(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é doença.&lt;br /&gt;Já nem mesmo sei se pode haver um canto&lt;br /&gt;(Mesmo que seja um canto de dor) quando tudo é escravidão.&lt;br /&gt;E quando tudo é dor e miséria,&lt;br /&gt;E quando tudo é fome e doença&lt;br /&gt;É porque tudo é escravidão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu pretenso Canto de Dor não se fez canto&lt;br /&gt;E se muito se fez se fez uma elegíada –&lt;br /&gt;Mais triste, mais fúnebre, mais dorida, mais funesta&lt;br /&gt;E mais elegíaca ainda nesta hora de tristeza e dor.&lt;br /&gt;De dor profunda de quem não fracassa, mas também não triunfa.&lt;br /&gt;Dor de ver mortas todas as esperanças –&lt;br /&gt;Quando se alimenta apenas de esperanças!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor da terra rachada, seca e quente;&lt;br /&gt;A dor da última pá de cal sobre o ente mais querido;&lt;br /&gt;A dor de todos os momentos de angústia e tristeza.&lt;br /&gt;A dor sem fim do só-sofrer e sofrer&lt;br /&gt;Até que a morte o consuma para sempre.&lt;br /&gt;E assim não há canto – mesmo que seja de dor – quando&lt;br /&gt;tudo é dor –&lt;br /&gt;Até que a morte nos consuma para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04 de outubro de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A burguesia fez da dignidade pessoal um simples valor de troca...&lt;br /&gt;Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio, fez seus servidores assalariados.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Karl Max e F. Engels.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;À mão opuseram a contramão&lt;br /&gt;À razão opuseram o contra-senso&lt;br /&gt;À indicação opuseram a contra-indicação&lt;br /&gt;À revolução opuseram a contra-revolução&lt;br /&gt;À abertura opuseram a contra-abertura&lt;br /&gt;À oposição opuseram o terror e a repressão&lt;br /&gt;À alegria opuseram todas as tristezas&lt;br /&gt;Ao fato opuseram a mentira&lt;br /&gt;Ao golpe opuseram o contragolpe&lt;br /&gt;Ao ataque opuseram o contra-ataque&lt;br /&gt;Ao gosto opuseram o contragosto&lt;br /&gt;Ao operário opuseram as máquinas&lt;br /&gt;Ao diálogo opuseram o monólogo&lt;br /&gt;Ao homem opuseram os tanques de guerra&lt;br /&gt;E do camponês fizeram “o homem sem terra”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santa Inês (MA), 12 de agosto de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VULTOS DA SECA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não basta ainda de dor, ó Deus terrível?!&lt;br /&gt;É, pois, teu peito eterno, inexaurível&lt;br /&gt;De vingança e rancor?...&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Castro Alves.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me como se tudo fosse agora!&lt;br /&gt;Era um homem alto, magro – quase transparente –&lt;br /&gt;O que dava a firme impressão de um fantasma&lt;br /&gt;Soprado pelos ventos – maus ventos com certeza –&lt;br /&gt;Trazia pela mão uma filha – pobre Ritinha! –&lt;br /&gt;Parecia mais um desenho animado&lt;br /&gt;Desenhado com caneta escrita fina;&lt;br /&gt;Magérrima (por pouca tinta), anêmica,&lt;br /&gt;Os ossos quase furando a pele,&lt;br /&gt;Pobre, triste e de infância assassina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me como se tudo fosse agora!&lt;br /&gt;Ano de 1958, lá pelo meado de novembro,&lt;br /&gt;Quando se chegou ao alpendre da casa aquele vulto,&lt;br /&gt;E com voz sumida e procurando em que se escorar,&lt;br /&gt;Interrogou suplicante, humilde e vacilante:&lt;br /&gt;– Posso ter uma palavrinha com o Coronel?&lt;br /&gt;É que eu vim... não sei nem mesmo como dizer.&lt;br /&gt;Mas Ritinha ajudou o pai a sair do embaraço&lt;br /&gt;Explicando com voz sussurrada, sumida:&lt;br /&gt;– Pai veio me trocar por um pouco de comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa proposta até então absurda, estranha,&lt;br /&gt;Ficou em mim como um câncer que me corrói as entranhas.&lt;br /&gt;E como uma chaga ativada a ferro quente&lt;br /&gt;Eu ouço sempre – aonde quer que eu vá – aquela voz:&lt;br /&gt;– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.&lt;br /&gt;E hoje é assim – infamemente assim:&lt;br /&gt;Em cada rosto magro, em cada criança na rua,&lt;br /&gt;Em cada trabalhador, em cada criança sofrida,&lt;br /&gt;Em cada mão que mendiga eu só vejo Ritinha,&lt;br /&gt;Este vulto que me acompanha por toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! é como se tudo acontecesse agora!&lt;br /&gt;As mesmas lágrimas ainda rolam incontidas&lt;br /&gt;E a mesma revolta que me marcou no mais fundo de mim&lt;br /&gt;Para todo o resto de minha amarga vida&lt;br /&gt;Ainda me atordoa como pesadelos medonhos;&lt;br /&gt;Como insonhados e lúgubres sonhos;&lt;br /&gt;Como hitleristas perseguindo judeus...&lt;br /&gt;É como se ainda agora eu visse aquela criança em minha frente&lt;br /&gt;A repetir sempre, e sempre, e sempre – eternamente:&lt;br /&gt;– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me como se tudo fosse agora!&lt;br /&gt;Aquele vulto magro ajoelhado, implorando:&lt;br /&gt;– Coronel! são só vinte rapaduras pretas,&lt;br /&gt;Dez quilos de feijão e trinta litros de farinha;&lt;br /&gt;É tudo, Coronel! e nada mais eu peço.&lt;br /&gt;Juro que é tudo que eu peço em troca&lt;br /&gt;Desta minha pobre e desventurada Ritinha.&lt;br /&gt;E faço isto, Coronel, por duas razões&lt;br /&gt;E não porque eu tenha uma consciência mesquinha...&lt;br /&gt;– E quais as tuas razões, João do Braço Cotó?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah! São simples as razões, Coronel; simples razões.&lt;br /&gt;São as razões da barriga vazia: a fome!&lt;br /&gt;As quais desconhecem os enternecidos corações.&lt;br /&gt;Feita a troca, Ritinha não mais passará fome&lt;br /&gt;E com certeza terá saúde e educação&lt;br /&gt;Nós, os demais, teremos comida para seguirmos&lt;br /&gt;À busca de outras terras, outras paragens...&lt;br /&gt;Ah! Coronel. Talvez penses que tenho instintos selvagens&lt;br /&gt;Mas faço isto só pelo bem dela, eu juro!&lt;br /&gt;E pelo bem dos que em casa ficaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! é como se tudo acontecesse agora!&lt;br /&gt;A mesma angústia ainda me dilacera as entranhas&lt;br /&gt;E a mesma revolta ainda me esgana e me devora.&lt;br /&gt;Ouço a mesma voz a repetir sempre, incessantemente,&lt;br /&gt;Constantemente, como uma eterna maldição&lt;br /&gt;Vaticinada pela bruxa-fada do destino&lt;br /&gt;Esta frase chocante e enlouquecedora:&lt;br /&gt;– “Pai veio me trocar por um pouco de comida”.&lt;br /&gt;E ouço fazer eco no vazio da vida:&lt;br /&gt;– PAI VEIO ME TROCAR POR UM POUCO DE COMIDA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me como se tudo fosse agora&lt;br /&gt;E ainda mais quando tudo se repete como então:&lt;br /&gt;Os mesmos vultos quase transparentes e cambaleantes&lt;br /&gt;Trazendo os magérrimos filhos pela mão.&lt;br /&gt;Sobejados da fome e rejeitados pela morte&lt;br /&gt;Escrevem com o próprio sangue mais uma história&lt;br /&gt;De retirantes numa eterna e triste repetição de fatos macabros&lt;br /&gt;Que através dos séculos vêm arrastando gerações&lt;br /&gt;E consumindo vidas, numa eterna repetição:&lt;br /&gt;– “PAI VEIO ME TROCAR POR UM POUCO DE COMIDA”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11 de setembro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ABC DO CAPITAL E DA REAÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assassinar é a palavra-chave&lt;br /&gt;Banir às vezes é uma opção&lt;br /&gt;Caluniar é sempre um bom negócio&lt;br /&gt;Dedurar é tudo o que têm em mãos&lt;br /&gt;Explorar é a base do capital&lt;br /&gt;Falcatruar é uma obrigação&lt;br /&gt;Ganância é marca registrada&lt;br /&gt;Hematofagia é meio de alimentação&lt;br /&gt;Injuriar é mais um prazer&lt;br /&gt;Jacobeus são todos por tradição&lt;br /&gt;Lucrar é tudo que têm em mente&lt;br /&gt;Mais-valia é porque valia mais, mas – “Mais não vale não”.&lt;br /&gt;Narcisismo é padrão moral&lt;br /&gt;Oprimir é meio de auto-afirmação&lt;br /&gt;Perseguir é evitar concorrência&lt;br /&gt;Quantidade é uma tentação&lt;br /&gt;Reprimir é manter-se no poder&lt;br /&gt;Sugar alimenta a reação&lt;br /&gt;Torturar evita os inimigos&lt;br /&gt;Usurpar é retaliação&lt;br /&gt;Verdugos são por natureza&lt;br /&gt;Xeretar é manterem-se em comunhão&lt;br /&gt;Zângãos é o que todos são.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(No 10º aniversário da morte (?) do poeta dos oprimidos e do&lt;br /&gt;amor-maior: Pablo Neruda).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23 de setembro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MUGEM AS VACAS E OS CORONÉIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas sem água e sem pasto.&lt;br /&gt;Mugem as vacas o seu mugido mais nefasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas sedentas e famintas.&lt;br /&gt;Mugem as vacas pelas crias extintas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas no curral do senhor.&lt;br /&gt;Mugem as vacas no frenesim do cio e da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas tristes na apartação&lt;br /&gt;E mais tristes mugem na hora da dilatação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas no mais triste abando&lt;br /&gt;Já que pouco produzem para seu dono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas como se fosse o último mugido,&lt;br /&gt;Mas mugem num gesto extremo e atrevido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas e os coronéis&lt;br /&gt;No terreiro da fazenda e nas portas dos bordéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas prenhes e as paridas,&lt;br /&gt;As vacas corruptas e as corrompidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas, que somos nós:&lt;br /&gt;Velhas, desamparadas, enganadas e sós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas saudosas e enternecidas.&lt;br /&gt;Mugem as vacas sérias e as prostituídas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mugem as vacas em noite de miséria ou gala&lt;br /&gt;Mas só mugem mesmo quando o touro cala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06 de janeiro de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAL CRÔNICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta hora exactamente,&lt;br /&gt;hay un niño en la calle…&lt;br /&gt;Hay un niño en la calle!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre del que ha olvidado que hay un niño en la calle,&lt;br /&gt;Que hay millones de niños que viven en la calle.&lt;br /&gt;Y multitud de niños que crecen en la calle…&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;A. Terrada Gómez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Nada me dói n’alma tão profundamente&lt;br /&gt;O quanto me dói ver uma criança chorando;&lt;br /&gt;Raquítica, anêmica, órfã, sofrendo,&lt;br /&gt;Minguando, morrendo; se consumindo, se acabando...&lt;br /&gt;Nada me dói n’alma tão dilaceradamente!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada me rasga o peito tão carniceiramente&lt;br /&gt;O quanto ver uma mão magra esmolando,&lt;br /&gt;Uma criança atirada na calçada&lt;br /&gt;Sem pai, sem patrícios, sem família: sem nada!&lt;br /&gt;Nada me rasga o peito tão mortalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada me estraçalha as entranhas tão brutalmente&lt;br /&gt;Como ver essa cara magra – magérrima! – .&lt;br /&gt;Como um pé descalço e uma camisa aberta ao peito.&lt;br /&gt;Nada!... nada me faz mais contrafeito&lt;br /&gt;Do que ver um peito sem leite&lt;br /&gt;E uma criança sem leite e sem leito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada me leva às lágrimas tão desesperadamente&lt;br /&gt;Como as lágrimas de uma criança que chora...&lt;br /&gt;Que chora aos soluços!&lt;br /&gt;Nada no mudo me faz tão bruto: tão animalesco!&lt;br /&gt;Dor que ver uma criança em seu mendigar&lt;br /&gt;Porta-a-porta da cidade dos homens da cidade...&lt;br /&gt;Mendigando o pão e a liberdade...&lt;br /&gt;Nada me faz tão prisioneiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 16 de agosto de 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PALMARES EM OUTROS DIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palmares. Manhã cinzenta. O sol nasceu meio acanhado.&lt;br /&gt;Manhã negra: os urubus sobrevoam os Palmares!&lt;br /&gt;Dizem que vieram lá das bandas do Engenho de Dentro.&lt;br /&gt;(Pobres urubus! aqui também tá como no Engenho:&lt;br /&gt;Os homens devoram tudo! Não sobra nada pra nós –&lt;br /&gt;Nem mesmo para os urubus).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palmares. Sol a pino; 40 graus; sede de cavalo.&lt;br /&gt;Os urubus desistiram. Os homens desistiram.&lt;br /&gt;Mas a fome persiste: afinal é fome pra urubus!&lt;br /&gt;As ruas estão desertas; o céu também.&lt;br /&gt;Chego a pensar que a morte morreu de fome.&lt;br /&gt;Chego a pensar que a fome morreu de fome,&lt;br /&gt;Pois em Palmares tudo é silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palmares. Aquele sol quente se escondeu de vergonha.&lt;br /&gt;Tardezinha, já começo de noite –&lt;br /&gt;Parece até que já era noite em Palmares&lt;br /&gt;Desde que amanheceu o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem parece que já houve dias em Palmares.&lt;br /&gt;Nem parece que já houve Palmares em outros dias.&lt;br /&gt;Não há quilombo, nem senzala, nem casa-grande:&lt;br /&gt;O que há em Palmares é uma história&lt;br /&gt;Que se decompôs com o passar do tempo&lt;br /&gt;E Palmares nem viu o tempo passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palmares, 05 de maio de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A LOS MINEROS DE LA SIERRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívia! Bolívar se envergonha de ti&lt;br /&gt;Pois a Garcia não foi mesa posta&lt;br /&gt;Para os teus mineiros famintos.&lt;br /&gt;E Santo Inácio, Santa Cruz de la Sierra, Cochabamba –&lt;br /&gt;Seus bravos agora extintos –&lt;br /&gt;Um dia viram ser metralhado bem aqui&lt;br /&gt;O maior guerrilheiro do mundo&lt;br /&gt;Pelo pior exército do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívar! levanta-te das cinzas do passado&lt;br /&gt;Pois os mineiros famintos e estraçalhados&lt;br /&gt;São míseros escravos ianques,&lt;br /&gt;Reprimidos, oprimidos e pisados pelos tanques&lt;br /&gt;De um exército traficante de cocaína e sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mineiros! à luta!&lt;br /&gt;Estraçalhem essa farda bruta&lt;br /&gt;Que vos vende aos imperialistas.&lt;br /&gt;Pois Bolívar já não mais virá&lt;br /&gt;Mas os “garcias” precisam ser liquidados.&lt;br /&gt;E viva o povo e morra o passado!&lt;br /&gt;Mineiros! à luta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolívia, 06 de janeiro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOS CONFINS DOS BRASIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Açúcar e presentes, essas coisas acaba.&lt;br /&gt;Terra não acaba. Então índio tem que brigar&lt;br /&gt;senão caraíba toma todas nossa terra.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Cacique Raoni; Xingu, 1971.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Brasis dos confins&lt;br /&gt;E entranhas das matas desvirginadas&lt;br /&gt;Onde cearenses são escravos servis,&lt;br /&gt;Que a exemplo dos outros brasis&lt;br /&gt;São dóceis escravos de japoneses, americanos,&lt;br /&gt;Alemães, suíços e até de brazilianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos confins dos brasis&lt;br /&gt;Onde o cidadão brasileiro&lt;br /&gt;Nunca passa de escravo ou de forasteiro&lt;br /&gt;Há um mundo de Babel:&lt;br /&gt;Há gregos e troianos;&lt;br /&gt;Japoneses e americanos;&lt;br /&gt;Alemães e italianos;&lt;br /&gt;Ratos e tubarões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brasis das matas desvirginadas,&lt;br /&gt;As multinacionais comem-te às dentadas&lt;br /&gt;E fazem de teus filhos míseros escravos.&lt;br /&gt;Brasis dos índios bravos&lt;br /&gt;A quem já funaram também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mirassol d’Oeste, MT., 03 de janeiro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;METALÉTICA E DIAFÍSICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou o dia – não viu o dia.&lt;br /&gt;Veio a noite – não houve luar.&lt;br /&gt;Passou o tempo – não viveu.&lt;br /&gt;Não viu o dia; não houve luar; não viveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não passou a fome – comeram-se uns aos outros.&lt;br /&gt;Não passou o dia – “É hoje ou nunca mais”.&lt;br /&gt;Não viu o luar – o sol não nasce para todos.&lt;br /&gt;Engoliu mosquitos e se engasgou com os bois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insistiu em viver – não conseguiu –&lt;br /&gt;Pois a água mole não fura pedra dura.&lt;br /&gt;Vieram novos ventos – também não moveram moinhos –&lt;br /&gt;Pois quem alcança certamente não esperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem com ferro fere continua ferindo&lt;br /&gt;Pois em terra de cego quem tem um olho é zarolho.&lt;br /&gt;“Dize-me com quem andas e te direi quem és”.&lt;br /&gt;Cristo andava com Judas e Judas era seu discípulo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pau que nasce torto, não tem jeito, eu aprumo,&lt;br /&gt;Porque “nem tudo que reluz é ouro”.&lt;br /&gt;Em casa de ferreiro se engana aos tolos&lt;br /&gt;Com banana e bolo e espeto de ferro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou a hora – quem sabe espera acontecer.&lt;br /&gt;É melhor menos – mas melhor é ter.&lt;br /&gt;Passou o dia e não houve sol – não era dia.&lt;br /&gt;E Zé pra não ser Maria preferiu morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 20 de dezembro de 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO BAGAÇO DO ENGENHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São casas caídas – bagaço do engenho da vida! –&lt;br /&gt;E tinham as mãos moídas&lt;br /&gt;E os dentes rangentes.&lt;br /&gt;Eram soldados dementes&lt;br /&gt;Devorando crianças famintas e tementes.&lt;br /&gt;E o bagaço virou gente&lt;br /&gt;Já que um dia a casa cai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram os esqueletos redimidos&lt;br /&gt;Fazendo guerra aos seus bandidos&lt;br /&gt;Num medonho faiscar de facas.&lt;br /&gt;E já que um dia a casa cai&lt;br /&gt;Aquele povo triturando&lt;br /&gt;Se levantou das cinzas do passado&lt;br /&gt;E fez dos soldados,&lt;br /&gt;Que eram seus opressores,&lt;br /&gt;Homens produtivos e úteis à pátria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 29 de novembro de 1980.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONTAGEM REGRESSIVA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Angra I, Angra II, Angra III,&lt;br /&gt;Angra IV, Angra V, Angra VI”...&lt;br /&gt;E assim começa a história&lt;br /&gt;Dizendo que era uma vez&lt;br /&gt;Angra do povo – Angra dos Reis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Angra I irá terminar em Angra II?&lt;br /&gt;Ou em Angra V, VI, X ou Angra Mil?&lt;br /&gt;Ou será Angra a sopa no prato&lt;br /&gt;Dessa corja que em um só ato&lt;br /&gt;Negociou a soberania do Brasil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizeram de Angra o átomo da morte&lt;br /&gt;Para o orgulho belicista de uma casta.&lt;br /&gt;Orgulho esse alimentado na fome do povo;&lt;br /&gt;Do povo que foi tragado de um sorvo&lt;br /&gt;Numa negociata nefasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Angra VI, Angra V, Angra IV,&lt;br /&gt;Angra III, Angra II, Angra I!”&lt;br /&gt;E assim terminará a história&lt;br /&gt;(Que fez de Angra “uma glória”?)&lt;br /&gt;Em um catastrófico ZUUUUUUUUUUNNN!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOMBRAS NOCTÍVAGAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Es el tiempo del cobre,&lt;br /&gt;mestizo, grito y fusil,&lt;br /&gt;si no se abren las puertas,&lt;br /&gt;el pueblo las ha de abrir.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Daniel Vigletti.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Não é que agora me doa no peito essa dor&lt;br /&gt;Que chamam saudade – absolutamente não! –&lt;br /&gt;Mas me retalha as entranhas esta certeza crua&lt;br /&gt;De que dos meninos que brincavam no pátio da casa-grande&lt;br /&gt;Somente eu cresci – somente eu!&lt;br /&gt;Uns, bem pequenos ainda, morreram de fome.&lt;br /&gt;Outros, a verminose corroeu lentamente.&lt;br /&gt;Alguns – sobejados da morte e dos vermes –&lt;br /&gt;Caídos nas mãos de outros parasitos,&lt;br /&gt;Teimosamente relutaram em viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é que me venha agora a saudade da casa-grande&lt;br /&gt;Com toda a sua fartura, luxo, aparato, parafernália...&lt;br /&gt;Não é que me faça falta aquela vida aparentemente boa –&lt;br /&gt;Longe (bem longe!) de mim tais males.&lt;br /&gt;É que, para aonde quer que eu vá,&lt;br /&gt;Os fantasmas dos meninos magros acompanham-me os passos.&lt;br /&gt;Esvoaçantes aos quatro ventos – ventos rasteiros até!&lt;br /&gt;Transparentes e vulneráveis como cristais!&lt;br /&gt;Pálidos; anêmicos como a gazula do algodão em floração.&lt;br /&gt;Errantes como beduínos nômades os meninos magros me&lt;br /&gt;perseguem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sombras noctívagas os meninos magros&lt;br /&gt;Acompanham-me os passos pelas ruas desertas&lt;br /&gt;Da nauseabunda cidade noturna dos homens de negócios.&lt;br /&gt;Praguejantes e irreverentes me perseguem passo a passo.&lt;br /&gt;Como se fosse eu o assassino de mil vidas&lt;br /&gt;Ouço no silêncio da noite o retumbar de vozes clamantes:&lt;br /&gt;– Vingança! ao que, nadando em ouro, roubou nosso único pão!&lt;br /&gt;Envergonhado lembro-me que na casa-grande era farta a mesa.&lt;br /&gt;Fartura exagerada de um coronelismo falido e decadente&lt;br /&gt;Enquanto os meninos magros morriam de fome lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns, empunham foices; outros, empunham martelos.&lt;br /&gt;E todos bramem seus instrumentos no ar – VINGANÇA!&lt;br /&gt;Faíscas ofiomórficas cruzam os céus&lt;br /&gt;Descrevendo o anátema dos desvalidos:&lt;br /&gt;– MORTE AO ASSASSINO DOS MENINOS MAGROS!!!&lt;br /&gt;E assim avançam e recuam sobre mim continuamente&lt;br /&gt;Em movimentos ritmados, lânguidos e funestos&lt;br /&gt;Como se precedesse ao meu funeral.&lt;br /&gt;Pejo! e tremo, e tremo, e tremo ainda mais e mais!&lt;br /&gt;E os meninos magros se tornam gigantes ante mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E crescem mais e ainda mais e mais!&lt;br /&gt;Os ex-meninos-magros são agora gigantes&lt;br /&gt;Que me circundam em meus passos cadenciados&lt;br /&gt;Como se fosse eu o menino magro morto de fome.&lt;br /&gt;É que agora – molemente – eles caem sobre mim&lt;br /&gt;E entoam a CANÇÃO DOS ESCRAVOS REBELDES.&lt;br /&gt;Tento cantar com eles mas a voz dos rebeldes em coro&lt;br /&gt;Altissonante sufoca a minha vacilante voz de covarde.&lt;br /&gt;Porém, um esforço vão e mais outro e outro mais&lt;br /&gt;Me permitem cantar em coro com os ex-menios-magros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canto! Canto agora a CANÇÃO DOS ESCRAVOS REBELDES&lt;br /&gt;Em coro uníssono com os ex-meninos-magros&lt;br /&gt;Que, com isto, se mostram agora satisfeitos.&lt;br /&gt;Martelos e foices em punho lá vamos nós&lt;br /&gt;(Sou eu agora – que nunca fui magro – mais um dos&lt;br /&gt;Ex-meninos-magros, agora satisfeitos) numa marcha fúnebre&lt;br /&gt;Ao brado: “MORTE AOS NOSSOS ALGOZES!”&lt;br /&gt;Os ex-meninos-magros, agora satisfeitos,&lt;br /&gt;Marcham triunfalmente sobre os algozes do POVO&lt;br /&gt;Na conquista dos nossos próprios direitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 12 de junho de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AO POETA DO POVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Le poète est ciseleur,&lt;br /&gt;Le ciseleur est poète.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Victor Hugo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Nego Egberto&lt;br /&gt;Byron e Göethe nem passaram por perto&lt;br /&gt;De tua cacimba de poesia (inesgotável).&lt;br /&gt;Versos dás de esmola&lt;br /&gt;A esses mendigos de escola –&lt;br /&gt;Esses asnos acadêmicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nego Egberto – poeta do povo;&lt;br /&gt;Poeta da calçada, do beco, da bodeguinha...&lt;br /&gt;(Esta, cheirando a cachaça; ele, cheirando a povo –&lt;br /&gt;Cheiro de tudo, menos de poeta).&lt;br /&gt;Nego Egberto – poeta de noite; de dia, lavrador.&lt;br /&gt;De dia lavra a fome; de noite versejo o amor.&lt;br /&gt;Terror de Manoel Bandeira quando a este interrogou:&lt;br /&gt;– Mané Bandera!&lt;br /&gt;Mas quem te falou que hora tem cinza?&lt;br /&gt;No Nordeste te ensinaram que poeta popular&lt;br /&gt;Mesmo não sendo fanhoso chama camisa caminza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 08 de junho de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HÁ UM POVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um povo dominado pela força e pela miséria&lt;br /&gt;E que, já afeito às chicotadas, apenas cala.&lt;br /&gt;Há um povo, eu sei, que esgotado, sugado, explorado&lt;br /&gt;E treinado para produzir e dar lucro ao patrão&lt;br /&gt;Apenas trabalha, trabalha e trabalha,&lt;br /&gt;E consente-se na exploração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um povo, e eu sei que esse povo foi apelidado de “MASSA”:&lt;br /&gt;– “Simples massa de manobra”! – e cuja massa&lt;br /&gt;Serve para fazer pão, biscoito, bolacha...&lt;br /&gt;E que qualquer padeiro, sem mão-de-obra especializada,&lt;br /&gt;AMASSA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um povo que passa fome, é escravizado&lt;br /&gt;E nem sabe que é infeliz.&lt;br /&gt;Há um povo, eu sei, que crente no destino,&lt;br /&gt;Espera por um deus inútil e falido,&lt;br /&gt;Tal como a sociedade que o criou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que há uma raça esmagada&lt;br /&gt;Por uma sociedade supra-sumo;&lt;br /&gt;Uma sociedade coisa-e-fina-e-coisa-e-tal;&lt;br /&gt;Uma sociedade de desperdício e consumo;&lt;br /&gt;Por uma sociedade ociosa e decadente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que outros povos já se libertaram&lt;br /&gt;E que outros lutam pela sua libertação.&lt;br /&gt;Eu sei que o nosso povo trabalha e sofre:&lt;br /&gt;Uns, conformados; outros, revoltados.&lt;br /&gt;É certo que as adversidades existem&lt;br /&gt;Mas mesmo assim o nosso povo ensaia a REVOLUÇÃO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 22 de março de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VELHA HISTÓRIA DE UM POVO&lt;br /&gt;(Para uma menina morta de fome)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina Verinha era aquilo que um desavisado&lt;br /&gt;Chamaria de “sobejo da morte”.&lt;br /&gt;Nem era esqueleto, nem era sombra, nem era!!!...&lt;br /&gt;Olhou-me como quem não olhava e quis sorrir.&lt;br /&gt;Porém não sorriu – seu sorriso parou numa careta de fome,&lt;br /&gt;Pois a fome era bem mais forte.&lt;br /&gt;Dizem que Verinha não é filha da sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanta vergonha sentiria a filha do patrão&lt;br /&gt;(Se um dia houvesse vergonha)&lt;br /&gt;Ao ver que há milhões de verinhas&lt;br /&gt;Porque seu pai é o patrão todo-poderoso.&lt;br /&gt;Mas não. Tamanha reflexão fica para depois;&lt;br /&gt;Verinha é apenas um trapo de gente&lt;br /&gt;E quem deixará o brinquedo importado, made in sei lá,&lt;br /&gt;Para pensar na fome made in Brazil?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos três anos Verinha nem aprendera a falar.&lt;br /&gt;Também não teria importância, pois sua voz não teria vez;&lt;br /&gt;Teria, como os demais, que balançar sempre a cabeça,&lt;br /&gt;Afirmativamente, aos ditames e caprichos do patrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quis brincar com Verinha, fazê-la rir,&lt;br /&gt;Mas com a miséria não se brinca.&lt;br /&gt;Pára lá! Exijo mais respeito. O caso é sério!&lt;br /&gt;Verinha olhou-me de soslaio&lt;br /&gt;E seu olhar foi como um raio&lt;br /&gt;Dilacerando-me o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus, Verinha! Verinha! Eh! Verinha, adeus!&lt;br /&gt;Verinha, Verinha! Adeus! Adeus!&lt;br /&gt;Mas que cego sou eu!... Que cego!&lt;br /&gt;Infame! Cabeça de prego!&lt;br /&gt;Nem vi que Verinha não mais via&lt;br /&gt;Ou melhor – Verinha nem nasceu!&lt;br /&gt;Estava ali um aborto da fome&lt;br /&gt;Sem direito, sem pão, sem vida, sem nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 06 de dezembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOTE Nº 1&lt;br /&gt;(Para Delmiro Violeiro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do que me convém&lt;br /&gt;Ultrapassar os limites&lt;br /&gt;Sem aceitar os palpites&lt;br /&gt;De fulano ou seu-ninguém;&lt;br /&gt;Sem rapa-pé ou porém,&lt;br /&gt;Sem me gabar das virtudes,&lt;br /&gt;Atingindo longitudes&lt;br /&gt;Que alguém jamais conseguiu,&lt;br /&gt;“Atravesso mar e rio&lt;br /&gt;Pra atingir as altitudes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não somo e nem subtraio,&lt;br /&gt;Não divido ou multiplico;&lt;br /&gt;Amo o pobre e odeio o rico&lt;br /&gt;E firo a este como um raio.&lt;br /&gt;Dívida eu nunca contraio&lt;br /&gt;Pois tenho solicitudes.&lt;br /&gt;Jamais serei dos mais rudes&lt;br /&gt;Pra ser na vida um vadio.&lt;br /&gt;“Atravesso mar e rio&lt;br /&gt;Pra atingir as altitudes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui buscar minhas raízes&lt;br /&gt;E as achei no xiquexique,&lt;br /&gt;No jeitinho do trambique&lt;br /&gt;E nas raças infelizes;&lt;br /&gt;Nas casas das meretrizes,&lt;br /&gt;No ponteio das violas rudes,&lt;br /&gt;Nas paredes dos açudes&lt;br /&gt;E na terra quando no cio.&lt;br /&gt;“Atravesso mar e rio&lt;br /&gt;Pra atingir as altitudes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não admito blá-blá-blá&lt;br /&gt;Nem mais-mais ou rém-rém-rém.&lt;br /&gt;Não divido meu xerém&lt;br /&gt;Com qualquer um aruá.&lt;br /&gt;Não quero nunca abusar&lt;br /&gt;De tamanhas magnitudes&lt;br /&gt;Pois de falsas atitudes&lt;br /&gt;Francamente desconfio.&lt;br /&gt;“Atravesso mar e rio&lt;br /&gt;Pra atingir as altitudes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 11 de dezembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOTE Nº 2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a foice e o martelo,&lt;br /&gt;Com a enxada na mão,&lt;br /&gt;Sem medo de assombração&lt;br /&gt;Trabalhando sempre revelo&lt;br /&gt;O mais puro e digno anelo&lt;br /&gt;Pelo que o povão quer.&lt;br /&gt;Vendo a vida como é&lt;br /&gt;Eu quero dizer bonito:&lt;br /&gt;“Do trabalho necessito&lt;br /&gt;Na justiça faço fé”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço fé no camponês,&lt;br /&gt;No nosso proletariado,&lt;br /&gt;No homem assalariado&lt;br /&gt;Que luta contra o burguês.&lt;br /&gt;Naquele que nunca fez&lt;br /&gt;O jogo do “coroné”&lt;br /&gt;Nem atendeu ao pajé&lt;br /&gt;Quando este lhe tratou a grito.&lt;br /&gt;“Do trabalho necessito&lt;br /&gt;Na justiça faço fé”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É no homem que trabalha&lt;br /&gt;E luta contra a opressão,&lt;br /&gt;O burguês e a exploração&lt;br /&gt;E arde como fornalha&lt;br /&gt;Quando trava a sua batalha&lt;br /&gt;Que espero um novo CHE&lt;br /&gt;Pra salvar esta ralé&lt;br /&gt;Que sofre um mal infinito.&lt;br /&gt;“Do trabalho necessito&lt;br /&gt;Na justiça faço fé”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço fé em toda luta&lt;br /&gt;Contra o falido sistema&lt;br /&gt;Que ao povo sempre algema&lt;br /&gt;Sendo do patrão a batuta.&lt;br /&gt;Na atitude resoluta&lt;br /&gt;Que não é só rapa-pé&lt;br /&gt;Porém um grande abaré&lt;br /&gt;Proclamando a grande grito:&lt;br /&gt;“Do trabalho necessito&lt;br /&gt;Na justiça faço fé”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 01 de novembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOTE Nº 3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra onde sempre se destrói&lt;br /&gt;E quase mesmo nada prospera&lt;br /&gt;Pois dentro desta maldita esfera&lt;br /&gt;Governo e patrão tudo corroem.&lt;br /&gt;Esta é a realidade que dói&lt;br /&gt;Como vis punhaladas no peito&lt;br /&gt;De que sempre procura algum jeito&lt;br /&gt;Mas as coisas nunca que melhoram.&lt;br /&gt;“Governo e patrão sugam e esfolam&lt;br /&gt;E o povo a nada tem direito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O patrão rouba e explora de um lado;&lt;br /&gt;Do outro o governo despreza e engana&lt;br /&gt;De forma descarada e tirana&lt;br /&gt;Este povo que já virou gado.&lt;br /&gt;E assim, faminto, nu e explorado,&lt;br /&gt;Não se pode viver satisfeito;&lt;br /&gt;E nem se pode ser bom sujeito&lt;br /&gt;Quando todos nos roubam e amolam.&lt;br /&gt;“Governo e patrão sugam e esfolam&lt;br /&gt;E o povo a nada tem direito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prospera o burguês explorador,&lt;br /&gt;O patrão que nos rouba a camisa,&lt;br /&gt;Aquele que rouba o que não precisa;&lt;br /&gt;Prospera o governo enganador,&lt;br /&gt;Só não prospera o trabalhador&lt;br /&gt;Devido à mania de ser perfeito,&lt;br /&gt;Honesto e tudo fazer bem feito&lt;br /&gt;Enquanto os tubarões nos devoram.&lt;br /&gt;“Governo e patrão sugam e esfolam&lt;br /&gt;E o povo a nada tem direito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suga o governo, suga o patrão...&lt;br /&gt;Todos sugam o trabalhador.&lt;br /&gt;O estrangeiro também é sugador&lt;br /&gt;E todos sugam sem compaixão.&lt;br /&gt;Sugam nossa querida Nação:&lt;br /&gt;Sugam branco, índio e preto,&lt;br /&gt;Pois pra sugar não têm preconceito&lt;br /&gt;E assim eles a todos enrolam:&lt;br /&gt;“Governo e patrão sugam e esfolam&lt;br /&gt;E o povo a nada tem direito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 31 de dezembro de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A BEM DIZER NÃO HÁ HISTÓRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha história é bem curta:&lt;br /&gt;Não tenho muito pra contar.&lt;br /&gt;A bem dizer, tenho muito pouco pra contar.&lt;br /&gt;Sou filho da fome, irmão da seca&lt;br /&gt;E retirante das bandas do Ceará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É história de poucos versos&lt;br /&gt;E de muito versejar.&lt;br /&gt;Alguns pés-quebrados e muitas emboscadas,&lt;br /&gt;Pouco tino e muitas estradas&lt;br /&gt;Que a lugar nenhum vão dar.&lt;br /&gt;É história de pouca terra e muito trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;História igual a outras tantas&lt;br /&gt;Que vêm do Ceará, Pernambuco, Paraíba...&lt;br /&gt;História de poucos alqueires e muita fome;&lt;br /&gt;De muitas cuias e pouca farinha;&lt;br /&gt;História pra ser contada em entrelinhas&lt;br /&gt;Enquanto se faz a emboscada&lt;br /&gt;Ou se enterra o último cadáver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bem dizer, não tenho história,&lt;br /&gt;Não tenho nome, não tenho lar,&lt;br /&gt;Não tenho terra (a não ser nas unhas),&lt;br /&gt;Não tenho pão nem glória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bem dizer não tenho lá grandes ambições.&lt;br /&gt;Talvez um punhado de farinha seca,&lt;br /&gt;Um bom taco de rapadura preta&lt;br /&gt;E para completar as minhas satisfações&lt;br /&gt;Alguns alqueires de terra boa pra lavrar&lt;br /&gt;E não mais, pois assim sendo&lt;br /&gt;A vida estará completa:&lt;br /&gt;Lavrador e poeta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 25 de dezembro de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS RETIRANTES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os senhores que aí estão&lt;br /&gt;Metidos a retirantes&lt;br /&gt;São homens fugidos da seca&lt;br /&gt;Ou esqueletos andantes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os senhores de São Paulo – esta fábrica de fumaça –&lt;br /&gt;Me perdoem o atrevimento da graça&lt;br /&gt;(Já que é o que me apraz):&lt;br /&gt;Isto aqui é o ponto de encontro da neurose e da desgraça&lt;br /&gt;Ou é o famoso Brás?&lt;br /&gt;Ainda pergunto aos senhores que daqui são:&lt;br /&gt;Isto é o céu em decadência ou o inferno em ascensão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que famintos mais engraçados!&lt;br /&gt;– Que engraçados mais famintos!&lt;br /&gt;– Que famintos mais desgraçados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Fragmento)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 03 de janeiro de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A GUERRILHEIRA&lt;br /&gt;(Para Nora Astorga).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¿Qué canción mejor que&lt;br /&gt;el pueblo en la Revolución?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Rubén Darío.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Usava uma transparente anágua&lt;br /&gt;Que um dia vestira na Nicarágua&lt;br /&gt;Quando lutara junto aos Sandinistas.&lt;br /&gt;E na transparência da anágua fina&lt;br /&gt;A beleza escultural da divina&lt;br /&gt;Parecia obra dos mais puros artistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é mulher – é uma quase-santa!&lt;br /&gt;Gesticula, se senta, se levanta,&lt;br /&gt;Anda, ri e a nós todos contagia.&lt;br /&gt;Pasmo e penso: e a nossa Revolução?&lt;br /&gt;Meu povo vai cantar esta canção?&lt;br /&gt;E me invade uma vil melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu rosto não há marca de dor,&lt;br /&gt;Nem derrota, nem fome e nem rancor.&lt;br /&gt;Ela é a encarnação dos que triunfam.&lt;br /&gt;É o escravo que partiu as correntes.&lt;br /&gt;É o povo que, com unhas e dentes,&lt;br /&gt;Venceu e agora labuta com afã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a gloriosa filha do Caribe&lt;br /&gt;Com o patrício do índio Piragibe&lt;br /&gt;Na luta contra nossos opressores&lt;br /&gt;Por uma sociedade igualitária&lt;br /&gt;Sem a vil questão latifundiária&lt;br /&gt;E um mundo sem escravos nem senhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na transparência da anágua fina&lt;br /&gt;Vi o futuro naquela heroína&lt;br /&gt;Que usava a transparente anágua.&lt;br /&gt;Foi quando todos nós – de uma só vez –&lt;br /&gt;Gritamos com brio, força e altivez:&lt;br /&gt;– VIVA O GRANDE POVO DA NICARÁGUA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(No dia em que morreu Raúl Roa, no país da liberdade&lt;br /&gt;– 10 de julho de 1982).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAGARÁS O DÍZIMO?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?&lt;br /&gt;Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes,&lt;br /&gt;Embuçado nos céus?&lt;br /&gt;Há dois mil anos te mandei meu grito&lt;br /&gt;Que embalde desde então, corre o infinito...&lt;br /&gt;Onde estás, Senhor Deus?...&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Castro Alves.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Nas ruas, nas sarjetas, nas mesas dos bares,&lt;br /&gt;Nas esquinas, nas construções e nos becos;&lt;br /&gt;Nas filas, nas fábricas, nos lares,&lt;br /&gt;Nos copos vazios e nos lábios secos;&lt;br /&gt;Nos depósitos de lixo e nas portas dos cabarés;&lt;br /&gt;Nas palmas das mãos e nas solas dos pés&lt;br /&gt;Eu procurei por deus e não encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos corpos exangues e mutilados,&lt;br /&gt;Nas crianças tristes e famintas,&lt;br /&gt;Nos indigentes por todos os lados,&lt;br /&gt;Nas fervorosas preces e ávidas fintas,&lt;br /&gt;Nas favelas, nos orfanatos, nas valas,&lt;br /&gt;Em tudo: nos quartos e nas salas&lt;br /&gt;Eu procurei por deus e não encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos cárceres infectos e imundos,&lt;br /&gt;No sofrimento dos desvalidos,&lt;br /&gt;Nos trabalhadores, nos vagabundos,&lt;br /&gt;Em todos os vãos sentidos;&lt;br /&gt;Nas noites de tristeza e solidão,&lt;br /&gt;Nos antros do vício e da perdição&lt;br /&gt;Eu procurei por deus e não encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos corpos das mulheres, suados e sebentos,&lt;br /&gt;No amor feito no mais total escuro,&lt;br /&gt;Nos casebres tenebrosos e fedorentos,&lt;br /&gt;No aborto jogado atrás do muro,&lt;br /&gt;Nos meninos magros e pálidos da rua,&lt;br /&gt;Na mulher sobre a cama (bela e nua)&lt;br /&gt;Eu procurei por deus e não encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas crianças que catam lixo para comer,&lt;br /&gt;Nas deletérias razões de um suicida,&lt;br /&gt;Nas mulheres que alugam o corpo para sobreviver,&lt;br /&gt;No jeitinho que se dá pra levar a vida;&lt;br /&gt;No chão, no mar, no horizonte, nos ares,&lt;br /&gt;Em tudo! em todos os pobres lugares&lt;br /&gt;Eu procurei por deus e não encontrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dizem que ele foi visto nas festas palacianas&lt;br /&gt;Entre os de barriga farta e os sorridentes;&lt;br /&gt;Entre os grandes acionistas e as senhoras bacanas;&lt;br /&gt;Entre os que exibem as jóias caras e os bem tratados dentes;&lt;br /&gt;Entre os doutores (mas necas de discutir as leis&lt;br /&gt;Que são sempre a favor dos senhores e dos reis),&lt;br /&gt;Enquanto o povo o idolatra assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que deus é convidado exclusivo&lt;br /&gt;Dos palácios e das belas mansões;&lt;br /&gt;Dizem também que ele é cativo&lt;br /&gt;Das mesas dos generais e dos barões.&lt;br /&gt;Dizem mais: que é loiro, de olhos azuis,&lt;br /&gt;Despreza os pobres, os famintos e os nus&lt;br /&gt;E é capataz preconceituoso e protetor dos ricos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dizem ainda mais: que ele castiga,&lt;br /&gt;Mata crianças, velhos, inocentes...&lt;br /&gt;Admite o bem e o mal, a paz e a intriga&lt;br /&gt;E quer que sejamos seus dóceis serventes.&lt;br /&gt;Não admite operário contra patrão,&lt;br /&gt;Condena o roubo mas recebe o dízimo do ladrão!&lt;br /&gt;Esse é o deus que criaram para o povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEUSOTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus onisciente&lt;br /&gt;onirrisonho&lt;br /&gt;onifeliz&lt;br /&gt;oniverdadeiro&lt;br /&gt;onipotente não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus todo-pomposo&lt;br /&gt;todo-milagroso&lt;br /&gt;todo-bondoso&lt;br /&gt;todo-amoroso&lt;br /&gt;todo-luz não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus assim&lt;br /&gt;assado&lt;br /&gt;amarelo&lt;br /&gt;azulado&lt;br /&gt;avantajado não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus reinante&lt;br /&gt;robusto&lt;br /&gt;reverendo&lt;br /&gt;reprobatório&lt;br /&gt;requintado não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus iluminativo&lt;br /&gt;infalível&lt;br /&gt;incognoscível&lt;br /&gt;imperativo&lt;br /&gt;ilusório não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deus originador&lt;br /&gt;ordeiro&lt;br /&gt;opiniático&lt;br /&gt;opulento&lt;br /&gt;ostensivo não é o meu deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres (MT), 13 de julho de 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ASSIM É O MEU DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um deus em cujo nome são abençoadas&lt;br /&gt;Terríveis armas de extermínio em massa;&lt;br /&gt;Em cujo nome são abençoados exércitos sanguinários e assassinos;&lt;br /&gt;Em cujo nome são explorados os ignorantes e os de boa fé.&lt;br /&gt;Há um deus em cujo nome casam e batizam&lt;br /&gt;E esse jamais poderia ser o meu deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um deus de olhos azuis e convencional&lt;br /&gt;Criado para servir ao preconceito, ao racismo e à exploração.&lt;br /&gt;Há um deus todo-poderoso para os ricos&lt;br /&gt;E indiferente à miséria dos oprimidos e dos explorados.&lt;br /&gt;Há um deus em cujo nome uns roubam e enricam&lt;br /&gt;Justificando-se que “o rico é rico porque deus quer”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém o meu deus não castiga – perdoa;&lt;br /&gt;Não mata nem extermina – cria e eterniza;&lt;br /&gt;Não quer nem ricos nem pobres&lt;br /&gt;Mas que todos sejamos felizes.&lt;br /&gt;O meu deus não está lá em cima em um trono majestoso&lt;br /&gt;Mas aqui – lado a lado na luta do dia-a-dia – .&lt;br /&gt;O meu deus não nos criou à sua imagem e semelhança&lt;br /&gt;Pois ele se faz igualzinho a nós na dor e na alegria.&lt;br /&gt;O meu deus não cheira incenso nem se prostra nos altares&lt;br /&gt;Mas cheira à graxa e terra e suor e vai à luta.&lt;br /&gt;O meu deus não tem forma nem cor&lt;br /&gt;E se chama igualdade, justiça e amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANTAGONISMO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguimos caminhos opostos,&lt;br /&gt;Antagônicos e adversos:&lt;br /&gt;Eu, o do poema sem versos;&lt;br /&gt;Tu, o da luxúria e dos impostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que eu peguei o caminho da esquerda&lt;br /&gt;Enquanto pegaste o da direita;&lt;br /&gt;E foi exatamente desta feita&lt;br /&gt;Que um de nós registrou a maior perda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomaste o caminho fácil: o atalho, talvez!&lt;br /&gt;Tomaste o caminho paralelo às luzes&lt;br /&gt;Enquanto segui entre sombras e cruzes:&lt;br /&gt;Sem pão, sem teto, sem voz e sem vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou o rebelde – o que não cala nem consente.&lt;br /&gt;Tu és o perdulário das noites da gala;&lt;br /&gt;Eu sou a mão que luta e voz que não cala&lt;br /&gt;Enquanto tu és o eterno e todo-contente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cáceres, 07 de maio de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FESTA LATINA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma está em festa – pois eis que agora retornam&lt;br /&gt;Vitoriosas e imbatíveis as suas legiões.&lt;br /&gt;É povo a rua gritando: “Viva o imperador”.&lt;br /&gt;E na arena um só grito da torcida: “GOOOOOL!&lt;br /&gt;Salve! Salve! os nossos tri-campeões!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma está em festa – carnaval em plena avenida!&lt;br /&gt;E no morro saltitam as favelas&lt;br /&gt;Ao som eletrizante da escola de samba querida&lt;br /&gt;Pois Roma está assistindo novelas:&lt;br /&gt;– Plin, Plin! Plin, Plin!... Plin, Plin!...&lt;br /&gt;Ah! Pois em Roma é mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma está em festa! Ah! Roma está em festa!&lt;br /&gt;E por ordem do imperador devemos todos rir:&lt;br /&gt;Rá-rá-rá-rái! “Ei! você aí: me dá um dinheiro aí!&lt;br /&gt;Não vai dá? Não vai dar não?”...&lt;br /&gt;Ah! mas vejam só que confusão:&lt;br /&gt;Eu pensei que você fosse do FMI!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O imperador teve a humildade de se lembrar do povo&lt;br /&gt;E mandou soltar na arena seus leões.&lt;br /&gt;E na arena os gladiadores se digladiam&lt;br /&gt;Para delírio do povo, do rei e das legiões&lt;br /&gt;Que agora são heróis nacionais.&lt;br /&gt;Que agora são tema para muitos carnavais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Roma está em festa, já que o imperador&lt;br /&gt;Mandou incendiar a cidade inteira para seu deleite.&lt;br /&gt;Roma está em festa, já que o imperador divino&lt;br /&gt;Nomeou seu cavalo para representar o povo o senado,&lt;br /&gt;Inaugurando o senado biônico latino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma está em festa, já que o imperador&lt;br /&gt;Se lembrou do povo: “Antes o cheiro do suor de Incitatus&lt;br /&gt;Do que o cheiro do povo”. E para manter do império&lt;br /&gt;Toda a sua pompa e seu status&lt;br /&gt;Nero mandou servir aos leões um banquete de gente&lt;br /&gt;E os leões de chácara se deleitaram no banquete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma está em festa! Em festa latina.&lt;br /&gt;Os direitos do cidadão foram esmagados pelo estado.&lt;br /&gt;E o povo, segundo o imperador, precisa ver sangue;&lt;br /&gt;Sangue na arena, sangue dos mártires – sangue do povo.&lt;br /&gt;O estado forte esmaga a Nação miserável e faminta&lt;br /&gt;E o imperador se deleita com o sangue da vindita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CANTO DA TERRA-NINGUÉM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criança estava brincando de matar...&lt;br /&gt;Um dia, ele será homem...&lt;br /&gt;... e continuará a brincar...&lt;br /&gt;J.G. de Araújo Jorge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero algo que seja novo,&lt;br /&gt;Algo que venha do povo&lt;br /&gt;E não seja um simples sonhar.&lt;br /&gt;Eu quero uma canção aberta&lt;br /&gt;E que seja do poeta&lt;br /&gt;A sua forma de lutar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero o ponteio da viola,&lt;br /&gt;Não na mesma mão que esmola&lt;br /&gt;Na feira do meu lugar,&lt;br /&gt;Mas na mão do repentista&lt;br /&gt;Que um dia se fez artista&lt;br /&gt;Da cultura popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero o poder das moneras&lt;br /&gt;Que rompendo suas esferas&lt;br /&gt;Conquistam um outro reino.&lt;br /&gt;Quero a rebeldia dos rios&lt;br /&gt;Com os seus caudais bravios&lt;br /&gt;Ampliando seu esteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero as crianças nas ruas,&lt;br /&gt;Não com as costas nuas&lt;br /&gt;E o pão-da-vida a mendigar;&lt;br /&gt;Quero-as livres e felizes&lt;br /&gt;Tal qual correm as perdizes&lt;br /&gt;Sob o esplendor do luar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 de junho de 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MADE IN BRAZIL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica aviões;&lt;br /&gt;Fabrica carrinhos e carrões;&lt;br /&gt;Fabrica baionetas e facões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica vaselina;&lt;br /&gt;Fabrica a eletrola mais fina;&lt;br /&gt;Fabrica alimentação canina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica Itaipu;&lt;br /&gt;Fabrica o mais encaroçado angu;&lt;br /&gt;Fabrica Flamengo e Bangu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica a mais fina cambraia;&lt;br /&gt;Fabrica cabresto e cangalha;&lt;br /&gt;Fabrica também rabo-de-saia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica a vergonha nacional;&lt;br /&gt;Fabrica birita e berimbau;&lt;br /&gt;Fabrica fantasia e carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil fabrica seus generais;&lt;br /&gt;Fabrica fome de canibais;&lt;br /&gt;Fabrica dirigentes canalhas e anormais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sousa, 07 de julho de 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRENÚNCIO DE UM NOVO DIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mantivemo-nos firmes: no povo&lt;br /&gt;buscáramos a força&lt;br /&gt;e a razão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inexoravelmente&lt;br /&gt;como uma onda que ninguém trava&lt;br /&gt;Vencemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povo tomou o rumo da barca...&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;Agostinho Neto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Homens esqueléticos saem da noite quase eterna da escravidão&lt;br /&gt;E timidamente põem a cabeça fora para olhar&lt;br /&gt;De espreita&lt;br /&gt;O límpido dia da liberdade e da justiça.&lt;br /&gt;Como não acostumados à luz da liberdade&lt;br /&gt;Estranham a claridade da igualdade transparecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lívidos e assustados, os homens esqueléticos&lt;br /&gt;Vêem a luz de um novo dia&lt;br /&gt;Que se prenuncia festivo e geral.&lt;br /&gt;Que se prenuncia forte como um verso libertário&lt;br /&gt;Que “ameaça a segurança nacional” da pátria-colônia.&lt;br /&gt;E os homens esqueléticos olham de espreita o novo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, pois, o dia da liberdade prenunciado&lt;br /&gt;Por todos os versos subversivos da igualdade e da justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos os versos que, por todo o tempo, anunciaram este dia&lt;br /&gt;E foram censurados por “subversão e incitamento”&lt;br /&gt;Serão o Canto Geral, não só da vanguarda libertária&lt;br /&gt;(Que já não terá mais razão de existir)&lt;br /&gt;Mas de todos os homens que serão, agora,&lt;br /&gt;Simplesmente homens livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será este o novo dia prenunciado por todos os versos subversivos&lt;br /&gt;Porque será este dia o dia da liberdade e da justiça para todos.&lt;br /&gt;Porque será este dia o dia mesmo da utopia.&lt;br /&gt;Porque será este dia o dia mesmo do sonho&lt;br /&gt;que já não é apenas fantasia.&lt;br /&gt;Porque será este dia o último dia da exploração e do medo.&lt;br /&gt;Homens esqueléticos saídos da noite quase eterna da escravidão&lt;br /&gt;Cantarão neste dia o canto ensaiado em Palmares&lt;br /&gt;E louvarão os companheiros sacrificados&lt;br /&gt;Na grande luta desigual&lt;br /&gt;E colherão para si o fruto do sangue de Zumbi,&lt;br /&gt;Porque este será o dia da libertação total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21 de abril de 1984.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POPULORIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Indigente não é gente!&lt;br /&gt;(diz o agente).&lt;br /&gt;– E agente é gente?&lt;br /&gt;(pergunta o indigente).&lt;br /&gt;– Pelo menos não é gente da gente.&lt;br /&gt;(responde toda gente).&lt;br /&gt;– Contra o agente usemos o reagente.&lt;br /&gt;(diz um popular da gente).&lt;br /&gt;– Quem sabe, um bom detergente!&lt;br /&gt;(sugere o indigente).&lt;br /&gt;– Aí, indigente será gente.&lt;br /&gt;(diz toda gente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Em qualquer dia. –&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1921936460589028745-8235621808137852172?l=fantenorgonsalves.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/8235621808137852172/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1921936460589028745&amp;postID=8235621808137852172' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/8235621808137852172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/8235621808137852172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/2007/07/cano-da-agonia-da-noite-e-outras.html' title='CANÇÃO DA AGONIA DA NOITE E OUTRAS AGONIAS'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/RpK5NI_qtkI/AAAAAAAAAAs/qojs5MJUq4E/s72-c/capaCAN%C3%87%C3%83O+DA+AGONIA+E.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-5459531600435083607</id><published>2007-05-21T20:05:00.000-07:00</published><updated>2008-05-09T15:47:00.551-07:00</updated><title type='text'>FIM DA “PROFISSÃO” DE POLÍTICO</title><content type='html'>&lt;div style="color: rgb(0, 102, 0);" align="center"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);font-size:130%;" &gt;&lt;span style="color: rgb(0, 102, 0);"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;FIM DA “PROFISSÃO” DE POLÍTICO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 51, 255);font-size:130%;" &gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Passa já da hora de repensarmos a república e a democracia.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;O que servia aos romanos e aos gregos há milhares de anos, não tem nenhuma razão de ser para as civilizações hodiernas.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;As fronteiras demarcadas ou violentadas pelas lanças e espadas do império romano há dois milênios atrás já não se justificam. Na pior das hipóteses, hoje já se fala em “comunidade internacional”.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Democracia – mesmo na etimologia e acepção do termo – não exprime e tão menos justifica sua definição acadêmica. A prática é outra.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Exemplifiquemos: um país com duzentos milhões de habitantes tem um colégio eleitoral de cento e vinte milhões de eleitores inscritos, o equivalente a 60% do total da população, dos quais 17% (vinte milhões e quatrocentos mil) abstêm-se do voto; outros 6% (sete milhões e duzentos mil) votam nulo e 5% (seis milhões) votam em branco, perfazendo apenas 86.400.000 (oitenta e seis milhões e quatrocentos mil) votos válidos divididos por X candidatos.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Se o candidato mais votado obtiver 50% + 1 dos votos válidos, ele será eleito com 43.200.001 votos!!! ou seja: 21,6000005% de toda população do país.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Se subtrairmos os votos comprados – que geralmente são muitos –, os que votaram no “menos ruim”, os que não tiveram outra opção, os que votaram para “pagar favores”, os que justificam: “esse rouba mas pelo menos faz alguma coisa”, os votos de cabresto, os currais eleitorais, os de boa fé que acreditam no “comigo é diferente”, et cetera, et cetera, et cetera... então, o que há de sobrar?!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Democracia pode ser qualquer coisa, menos governo da maioria, e, por conseguinte, nunca foi, é ou será “governo do povo, pelo povo e para o povo”; senão para o que era o povo na Grécia antiga.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Hoje, porém, democracia não passa de uma ignominiosa farsa para legitimar a ditadura do capital.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Porém, há alguns que argumentam: “Mas não inventaram nada melhor” querendo dizer “é assim e não devemos pensar nada diferente”, como se o diferente nunca pudesse ser melhor do que um miserável pai de família aparecer na “grande mídia” declarando o seu “voto secreto” em determinado candidato porque este um dia lhe deu umas migalhas do seu próprio pão que o candidato “bonzinho” lhe roubou.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Votar – delegar poderes – é assumir:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;– Eu sou um idiota e incompetente.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Governemos nós mesmos o que é nosso, em assembléias, mutirões... Seja como for, menos com corruptos e ladrões.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;A democracia atual é a herança mais perniciosa que temos hoje como legado dos gregos. Literalmente um “presente de grego”.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Se um determinado indivíduo quer ser uma pessoa pública, deve ser antes de tudo um humanista; um abnegado; um altruísta. Nada de representatividade remunerada.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Nos tempos modernos, com toda ciência e tecnologia a serviço do homem, é mister que nos reciclemos e busquemos sempre o novo.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;É mais que possível governarmos um país com Assembléias Populares – via teleconferências – onde todo povo participe das discussões e votações, sem delegação de poderes e, portanto, sem representatividade.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Em cada cidade haverá uma Praça do Povo, provida de telões interligados a uma rede de computadores, onde o povo debaterá seus problemas e necessidades; tomará decisões e, em mutirões, executará suas decisões.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(51, 255, 51);"&gt;Portanto, fim para a “profissão” de político, que adquiriu a conotação e até mesmo a sinonimização de corrupto e ladrão.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1921936460589028745-5459531600435083607?l=fantenorgonsalves.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/5459531600435083607/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1921936460589028745&amp;postID=5459531600435083607' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/5459531600435083607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/5459531600435083607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/2007/05/fim-da-profisso-de-poltico_21.html' title='FIM DA “PROFISSÃO” DE POLÍTICO'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-2354243941300590877</id><published>2007-05-21T19:07:00.001-07:00</published><updated>2008-05-09T09:11:30.473-07:00</updated><title type='text'>ANACORETAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/Ro_8tI_qtiI/AAAAAAAAAAc/kJebOGEu7pw/s1600-h/capaANACORETAS.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/Ro_8tI_qtiI/AAAAAAAAAAc/kJebOGEu7pw/s200/capaANACORETAS.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5084560356763416098" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;ANACORETAS&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Notas:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;1) Meus livros &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;ANACORETAS I&lt;/span&gt; e &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;II&lt;/span&gt; foram "recolhidos" - juntamente comigo - por agentes da ditadura militar.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;2) &lt;/span&gt;ANACORETAS II - IGUALMENTE CENSURADO! - É UMA REPORTAGEM HISTÓRICA SOBRE OS BASTIDORES DAS ATIVIDADES DE ESQUERDA NO SEIO DAS FORÇAS ARMADAS; O CLUBE DOS SARGENTOS; O COMÍCIO DA CENTRAL DO BRASIL... TENDO COMO PERSONAGEM PRINCIPAL O OFICIAL DA MARINHA DO BRASIL &lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;GENTIL PIRES DANTAS.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com os pobres da terra eu quero minha sorte achar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para:&lt;br /&gt;Chico Preto, Antônio de Xandu, Mãe Zefa, Nego Samba, Chico Grande, Antônio Costa (Antônio da Serra), Cadinho, Silva Vaqueiro, Itamar Cachacinha, Toninha de Bieta, Chico Grande, Xandu Preta, Zé de Ló, Alaíde, Zé Horácio, Felinto Furtado, João Doido, Beata Preta, Jacinta de Beata, Nega Joana, Nivaldo, Tetê, Luiz Coutinho, Mestre Titico, Maneco, Gordin Padeiro, Seu Cícero, Antônio Peixe, Zé de Antônio de Hermínia, Toínha de Chico Cândido... personagens de minha infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Toínho do Aguiar: “Oxente, bichin! Qualquer dia nós faz a Revolução”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para:&lt;br /&gt;João Brasil – sem Brasil pra lavrar nem morar. Para Delmiro Violeiro – pelo tema para desenvolver: “Quero o amor do amor que me quer”.&lt;br /&gt;Para João Esperança – cansado de esperar um dia melhor.&lt;br /&gt;Para a finada Terezinha – colega de infância que a morte levou, quando do parto do primeiro filho.&lt;br /&gt;Pela saudade de minha gente; pela saudade do cheiro de mato; pelo mote de amor – onde desenvolvi o amor e o mote.&lt;br /&gt;Eh, boi Marujo! Campeão!... O carro de bois...&lt;br /&gt;-Taca o ferrão nos bois, Chico!&lt;br /&gt;Ah! Que saudade! Eh, boi!&lt;br /&gt;Eu “tacava” o ferrão em Marujo e Campeão e o carro é que gemia.&lt;br /&gt;-Oxente! o carro é que gemia?!&lt;br /&gt;-Taca o ferrão nos bois, Chico!&lt;br /&gt;Ah! que saudade!&lt;br /&gt;A saudade é grande, Porcina! É grande... Eu nem sabia “tacar” o ferrão nos bois, você passava, eu gritava: Mamãe, eu vou pra casa de Porcina.&lt;br /&gt;Chega!!! senão expludo de saudade. De saudade... Minha gente, que saudade! De saudade... minha gente... que saudade!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. Antenor Gonçalves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Yo,&lt;br /&gt;Hijo de América,&lt;br /&gt;Hijo de ti y de África,&lt;br /&gt;Esclavo ayer de mayorales blancos&lt;br /&gt;Dueños de látigos coléricos;&lt;br /&gt;Hoy, esclavo de rojos yanquis azucareros y voraces,&lt;br /&gt;Yo chapoteando en la oscura sangre en que se&lt;br /&gt;Mojan mis Antillas;&lt;br /&gt;Ahogado en el humo agriverde de los cañaverales,&lt;br /&gt;Sepultado en el fango de todas las cárceles;&lt;br /&gt;Cercado dia y noche por insaciables bayonetas;&lt;br /&gt;Perdido en las florestas ululantes de las islas&lt;br /&gt;Crucificadas en la cruz del Trópico;&lt;br /&gt;Yo, hijo de América,&lt;br /&gt;Corro hacia ti, muero por ti.&lt;br /&gt;Yo, que amo la libertad com sencillez,&lt;br /&gt;Como se ama a un niño, al sol, o al árbol&lt;br /&gt;Plantado frente a nuestra casa;&lt;br /&gt;Que tengo la voz coronada de ásperas selvas&lt;br /&gt;milenarias,&lt;br /&gt;Y el corazón trepidante de tambores,&lt;br /&gt;Y los ojos perdidos en el horizonte,&lt;br /&gt;Y los dientes blancos, fuertes y sencillos para&lt;br /&gt;tronchar raices&lt;br /&gt;Y morder frutos elementales;&lt;br /&gt;Y los labios carnosos y ardorosos&lt;br /&gt;Para beber el agua de los ríos que me vieron nacer...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nicolás Guillén.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chuva no sertão é um Deus: fecunda tudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dr. Bosambo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A N A C O R E T A S&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tio Amaro, o Zezinho saiu daqui inda agorinha, e queria falar com o senhor...&lt;br /&gt;-E o que ele queria, Zefinha?&lt;br /&gt;-Não sei, Tio, pois o senhor sabe como é o Zezinho; fala pouco e a gente nunca sabe o que ele quer. – fez uma pausa e continuou:&lt;br /&gt;-Eu insisti muito para que ele dissesse o que queria, mas ele disse que só com o senhor mesmo.&lt;br /&gt;-Você não acha que é uma admiração aquela criatura por aqui, justo hoje que ele está com um adjunto na Pitombeiras?! Se o espírito não me engana, deve ser doença lá pela casa dele. Você também não acha, Zefa?&lt;br /&gt;-Pai... Ó, Pai... - gritou Mariquinha, que ainda vinha lá pelo oitão da casa; e logo em seguida, entrando com “cara de quem viu alma ao meio-dia”:&lt;br /&gt;-Pai... o se-nhor n-ão ima-gi-na o que a-ca-bo de sa-ber... – tomou fôlego e continuou – a filha mais velha de Seu Zezinho deu à luz!!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e dizem que é filho do patrão dela, Pai! – soletrou Mariquinha, de tão cansada, enquanto se deixava cair sobre um tamborete que estava perto do paiol de rapadura, pois, de tão cansada já não podia se sentar – caiu!&lt;br /&gt;-Para nós, aqui, minha filha, coisas assim já não são novidades...O que é de se estranhar é que o patrão foi procurar logo uma coruja daquelas, quando há tantas cabritinhas boas por aí, atrás dele... Zefa disse que Zezinho saiu daqui inda há pouco... Ah! Com’é mesmo que eu tava dizendo? Ah, pois é! O patrão doutorou-se agora, herdou essa fortuna toda do coronel pai dele e já recebeu a fazenda de Seu Cazuza pela conta que o coitado devia ao finado coronel (acho tão esquisito esse negócio de finado, minha filha, que creio que não irei me acostumar nunca!)... Vive lá pela cidade, onde só tem mulher bonita, e vir se sujar com uma coisa dessa!... Isso é o que me faz ficar cismado!&lt;br /&gt;-Pai, - propôs Mariquinha – seria melhor se o senhor fosse lá na casa do Zezinho... Se ele veio aqui, é porque está precisando do senhor!&lt;br /&gt;-Não... não, Mariquinha!! o doutor ficou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de vir hoje com umas máquinas para a fazenda... Ele chega aqui e não me encontra, vai botar a gente pra fora. Quando o coronel me trouxe pra cá, me garantiu que eu morreria aqui como “gerente” dele, mas o coronel já se foi!... Vocês sabem que o novo patrão, quando se apossou disso tudo, fez uma “reunião” com tudo quanto é de morador e disse que não iria precisar da gente. Irá “modernizar” tudo. Que está pronto para indenizar a todos que queiram ir embora. Aqui, ele só quer máquinas! Além do mais, os boatos já andam por aí sobre o que diz o doutorzinho: “Quem manda no que é meu sou eu: sou dono, gerente e tudo”! Pelo visto, minha filha, ele quer somente a oportunidade pra dar com os pés na cara da gente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Amaro não foi à casa do compadre, que fica na fazenda, pertinho - Pau Ferro, antigamente propriedade do Seu Cazuza.&lt;br /&gt;Mas as máquinas vieram!!!!!! Estão aí...&lt;br /&gt;-Quantas novidades têm aparecido depois que o doutor Mário se apossou de Jatobá e Várzea Grande!? A primeira foi no dia da festa do santo padroeiro, quando a gente estava na bolandeira e apareceu aquele barulho no céu; era um.... um helicóptero com o doutor Mário! – observou o senhor Amaro e continuou sua reflexão sobre as novidades da fazenda com o novo patrão:&lt;br /&gt;-Depois, o telefone... e agora, essas máquinas que fazem tudo! O patrão tem razão em dizer que não irá precisar mais da gente!&lt;br /&gt;Seu Amaro baixou a cabeça por alguns minutos. Ficou pensativo!... apoiou os braços cruzados sobre o jirau e sobre os mesmos a cabeça pesada – eram grandes os problemas de agora!&lt;br /&gt;-Maricô?!... Ô Maricô? Vem cá!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Maricô veio atender ao seu velho companheiro de todas as horas – cinqüenta e oito anos de casados! – mas veio em silêncio, e em silêncio ficou ali diante do seu homem que, para quem bem o conhecia, diria não ser feito de carne e osso mas de esperanças, trabalho e coragem, e temperado na forja do sofrimento – homem de boa têmpera, dir-se-ia.&lt;br /&gt;Ele levantou a cabeça.&lt;br /&gt;Entreolharam-se por algum tempo e ao mesmo instante, ambos baixaram a cabeça. Ambos miraram um ponto invisível – o passado.&lt;br /&gt;As únicas coisas que podemos saborear sozinhos são a visão e o sonho – a reminiscência e a esperança!&lt;br /&gt;O passado não só é bom porque já passou, mas sim, porque não mais voltará!&lt;br /&gt;Seu Amaro e Dona Maricô tiveram horas difíceis, lá, isso é verdade, mas tiveram também suas horas felizes!&lt;br /&gt;“Casaram-se em mil novecentos e quatorze: que festa! Também tocada por Agripino! Se não fosse o casamento de um primo de estimação e os ‘arrogos’ que fizeram, ele jamais teria vindo tocar! Principalmente naquela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;época que só tocava em festa de coronel – era&lt;br /&gt;‘convite por riba de convite’ – costumava dizer com orgulho. A quadrilha marcada por João de Filormina e a comida por conta de Ma’joana, era impossível haver melhores! Em quinze, foi seco; em trinta, Seu Amaro foi a Princesa Isabel, pois ainda era cabra disposto! Voltou como herói. Foi quando o coronel Isidório apareceu lá pela fazenda de Seu Matias e o trouxe consigo.&lt;br /&gt;Cinqüenta e oito?! nem se pode chamar aquilo de seca – umas chuvaradas lá pela entrada do ano indo até lá pelo meado do mês do Senhor São José...&lt;br /&gt;As construções dos açudes de São Gonçalo e Boqueirão, abaixo de Deus, renderam algumas migalhas para muitos escaparem; mal, mas renderam, no decorrer dessas secas malditas – renderam muitos votos para os coronéis, lá isso é verdade, mas... E em l958, até que o governo deu umas olhadinhas para as misérias deste sertão velho; mas agora, as coisas tomaram o rumo que tomaram”!...&lt;br /&gt;Foram estes, possivelmente, os pensamentos dos dois, interrompidos por Seu Amaro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Maricô... inda tem café feito?&lt;br /&gt;-... Só que já tá frio, Amaro.&lt;br /&gt;-Serve... dá cá um golinho para ver se eu me despareço um tiquinho.&lt;br /&gt;-Os meninos já chegaram? - perguntou Seu Amaro, depois de um breve silêncio.&lt;br /&gt;-Não. Para que, Amaro?&lt;br /&gt;Eu preciso muito falar com eles... Esta terra não dá mais para a gente. Temos que ir embora daqui! Isto não é mais lugar para um ser humano viver, não. Está aí: o gado está sendo melhor tratado que a gente! Uma farmácia e um médico especialmente para os animais; além do estábulo que é um colosso e da alimentação que deixa a gente com água na boca!...&lt;br /&gt;-É isso mesmo, Amaro... É como diz o padrinho Juvêncio: “Não há mal que não traga o bem”. Não vê como os meninos do Chico Preto estão gordinhos, agora? É o efeito da torta que botam para o gado e dos tacos das rapaduras de boró que o touro Marujo deixa nas cocheiras. Ainda bem que o bruto é mansinho que faz gosto e deixa o Gabriel tirar alguns tacos de rapadura para ele e para os menores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Que Deus, nosso Senhor, abrande o coração do doutor Mário, pois foi justamente isto que o patrão soube, em primeiro lugar, quando chegou ontem.&lt;br /&gt;-Amaro!... pelo amor de Deus, não me conta uma coisa desta, homem! E quem foi esse espírito maligno, Amaro?&lt;br /&gt;-Quem poderia, senão o vaqueiro, Maricô?! Quem, criatura de Deus?!&lt;br /&gt;-Aquilo é cabra de peia! O Xavier sempre me deu esta impressão.&lt;br /&gt;-Ah, meus vinte anos, Maricô! Eu faria justiça neste mundo... e não é só ele quem merece uma boa surra, não! Tem muita gente safada por aí, merecendo o mesmo ou mais!&lt;br /&gt;Depois de um breve silêncio, Seu Amaro retomou a conversa:&lt;br /&gt;-Sabe, Maricô?... eu tenho muita pena do Chico Preto com aquela reca de filhos... Se eu tivesse com que, um homem não ficaria naquela situação...&lt;br /&gt;Seu Amaro respirou profunda e longamente, seus olhos marejaram, olhou meio de viés para a mulher e continuou:&lt;br /&gt;-Parece que não tem jeito de se acabar mais sofrimento para quem nascer neste sertão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de agonias.&lt;br /&gt;Dona Maricô atalhou o desabafo do Seu Amaro:&lt;br /&gt;-O coitado do Chico Preto vivia daquelas empreitadas de açudes, mas agora existem as máquinas que fazem essas coisas da noite pro dia; e por riba, o patrão não quer que o Chico, e nem ninguém, cri; e já mandou que Chico vendesse os jumentos – desse descaminho ao comboio. E como você já sabe, Amaro, Chico já vendeu as cangalhas por uma ninharia...&lt;br /&gt;-É, Maricô... os meninos ainda não chegaram e estão me dando cuidado. Muito cuidado mesmo, sabe?&lt;br /&gt;-Não se aperreia, homem de Deus; hoje tem cantoria lá pela casa do Neco e o Cícero é muito encapetado! Deve ter seduzido o Raimundo para ir até lá...&lt;br /&gt;-Ih, Maricô! O Neco me convidou para eu comparecer na cantoria, como sem falta, e se não fosse você...&lt;br /&gt;-E você vai?!&lt;br /&gt;-Vamos. Eu prometi para ele que iria e vou mesmo. Se vocês não querem ir, eu irei sozinho. Passei por lá, pela manhã, e o Neco já&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;havia aprontado o pavilhão. Só faltavam algumas palhas de coqueiro na latada. – e pegando o chapéu de palha, disse:&lt;br /&gt;-Diga pra Mariquinha e Zefa que se arrumem depressa, senão a gente perde os improvisos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cícero e Raimundo estavam, como previra Dona Maricô, na casa do Neco.&lt;br /&gt;Cícero era aquele moleque de cabeça grande, sempre traquino como só ele mesmo, que não gostava da companhia dos outros meninos; é tanto que ele já está homem feito e nunca se montou num cavalinho de pau nem catou chifres nos monturos para brincar de boiadeiro. Assim era o Cícero criança. O que ele gostava de fazer era carrinhos com latas de doces, sardinhas ou de óleo e algumas tábuas que achava lá no oitão da casa-grande da fazenda e vendê-los ou trocá-los com os outros meninos. Com oito anos, já ganhava para botar água na casa do coronel Isidório. É que o moleque impressionava mesmo. Quando os galos estavam amiudando, ele já havia ido à Manga da Bagaceira, pegado o jumento Piloto, posto a cangalha e as ancoretas no lombo do jegue e estava a caminho do açude com o galão no ombro. Galãozinho feito de duas latas de biscoitos, por ele mesmo; e compradas com todas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as suas economias adquiridas com a venda das peles de tejos que Presidente acuou – Presidente era o nome do cão vira-lata – e ele matou, esfolou e espichou. Do Açude Grande até a casa do coronel Isidório, era de um só fôlego, pois tinha que ir para a escola do Grupo Escolar de Vila Nova; e além do mais, seria logo chamado de “cabra mole” todo aquele que ficasse para trás.&lt;br /&gt;-Vamos ver quem chega primeiro?! – gritava Cícero.&lt;br /&gt;-Vamos! – respondiam os demais.&lt;br /&gt;-Quem ficar por último, é filho da puta! – era sempre a voz de Cícero lá na frente, tangendo Piloto para chegarem o mais rápido possível.&lt;br /&gt;-Pois eu estou atrás de vocês, Cícero; já levei duas por uma de Belarmino e não sou filho de quem você diz não! – queimou-se Expedito de Neco.&lt;br /&gt;Era assim mesmo.&lt;br /&gt;No caminho do açude, um juazeiro velho, que, quando o Padrinho Juvêncio nasceu já era aquilo mesmíssimo que está ali agora, era o ringue dos botadores de água.&lt;br /&gt;Estava formado o pé-de-briga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabroeira atiçou a sanha.&lt;br /&gt;Cícero parou, pôs o galão d’água no chão, amarrou Piloto e foi diretinho para o juazeiro.&lt;br /&gt;Expedito fez o mesmo. Ficaram frente a frente. Ambos ficaram parados – cada um esperando que o outro começasse. Porém, como nenhum começava, João Moleque se impacientou, fez dois riscos no chão e disse:&lt;br /&gt;-Este é a mãe de Expedito, e esse aí é a mãe de Cícero. Aquele que pisar a mãe do outro é o mais valente.&lt;br /&gt;Os dois sapatearam sobre os riscos feitos na terra ressequida.&lt;br /&gt;-Agora, eu quero ver quem pisa o pé do outro!...&lt;br /&gt;Cícero pisou primeiro e foi o bastante.&lt;br /&gt;Pegaram-se e o pau quebrou.&lt;br /&gt;Rolaram pelo chão: ora um, ora o outro ficava por cima e aí aproveitava a oportunidade para bater bem na cara do outro.&lt;br /&gt;-Ai! – gritou Expedito, contorcendo-se, numa careta mais horrível do que sua careta nata.&lt;br /&gt;-O que foi? – perguntou Cícero, rolando para o lado direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-“O que foi?”! Ora o que foi! Uma dor fina em minhas costas.&lt;br /&gt;-Deixa eu ver o que foi mesmo.&lt;br /&gt;-Olha logo! Parece que está saindo sangue, Cícero?&lt;br /&gt;-Está, mas é pouquinho... Ah! não foi nada, não. Só um espinho de juazeiro. Olha para o céu que eu vou arrancá-lo. Agüenta firme.&lt;br /&gt;-Mas está ardendo!...&lt;br /&gt;-O quê?&lt;br /&gt;-O espinho!&lt;br /&gt;-Ora essa! Pode ser outra coisa, porque o espinho já está aqui, olha... já arranquei...&lt;br /&gt;-Ei, vocês não vão brigar mais? – perguntou João Moleque, dirigindo-se a Cícero.&lt;br /&gt;-Não, João Moleque. Não está vendo que Expedito está sangrando? E quando a mãe dele ver isso, dará outra surra nele!!&lt;br /&gt;-Mas foi você quem começou...&lt;br /&gt;-Eu não. Foi ele.&lt;br /&gt;-Foi você quem descompôs da mãe dele.&lt;br /&gt;-Não foi da mãe dele, não. Foi de qualquer um que ficasse por último.&lt;br /&gt;-Mas era ele quem vinha atrás... Eh! espera aí!!! Mas você quer dizer que disse aquilo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até com a minha mãe?&lt;br /&gt;-Com a sua, não, porque você nem sabe quem é. Seus pais eram retirantes e quando passaram por aqui, em Jatobá, acamparam neste juazeiro e mamãe me disse que você nasceu aqui debaixo. Foi em cinqüenta e oito que você nasceu. Seus pais moravam lá pelas bandas de Lavras da Mangabeira, no Ceará. Ela disse também que eles se tornaram retirantes por causa da seca.&lt;br /&gt;-Já me falaram disso. Eu quero é saber se vocês não vão brigar mais?&lt;br /&gt;-Não. Fica pra outra vez. Hoje, não. Papai vai saber que eu fiz sangue no Expedito... Ele vai me dar uma pisa e não vai deixar eu ir para a escola enquanto ele bem entender...&lt;br /&gt;Cícero sempre foi assim – um pouco esquisito e ainda o é hoje. As dores e os problemas do seu próximo são seu pesado fardo. E é a única esperança de um futuro melhor que a família e os amigos têm.&lt;br /&gt;Outro dia, quando o governador do estado veio a São Gonçalo – “passar o fim de semana” – ele teve a ousadia de ir até lá reivindicar uma escola e assistência de um médico – “ao menos uma vez por mês!” para Jatobá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e Várzea Grande.&lt;br /&gt;-Parabéns, Cícero. Você tem muita coragem. Ninguém, aqui, tem a coragem para fazer o que você fez: ir a São Gonçalo, especialmente para falar com o governador e pedir alguma coisa para nós! – era o que diziam todos em Jatobá e Várzea Grande, quando Cícero voltou.&lt;br /&gt;-É... Obrigado! – era sempre a resposta de Cícero. - É verdade que deu um trabalhão danado, mas tive recompensa. O governador me recebeu bem. De início, disseram que ele não estava, mas eu fiquei insistindo – eu tinha a certeza de que ele estava lá, pois eu tinha visto quando ele chegou e se hospedou no hotel. Juraram-me que ele não estava, mas eu tinha a certeza que sim. Foi quando eu me impacientei – entrei de supetão e lá estava o dito cujo dando ordens pra um cabra me despistar, dizer-me que o governador havia seguido para o Brejo das Freiras. Mas o cabra ficou vexado, fez sinal para o governador como quem queria dizer que a pessoa de quem estavam falando estava ali presente, que já não podia mais se esconder de mim. Aí, o governador se vexou mesmo... Pois não é que ele chegou a fingir até&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que me conhecia!!! Quis acertar meu nome, mas não acertou não. Eu contei para ele a situação da gente; ele ficou espantado com o que eu contei do sofrimento da gente; aí ele me deu a palavra de honra dele de que logo que chegasse na capital iria providenciar uma escola e um médico para a Vila uma vez por mês. O médico só poderá vir até a Vila.&lt;br /&gt;-Já é muita coisa, se ele fizer isso para nós. – duvidou Tibúrcio.&lt;br /&gt;-E vai fazer, Tibúrcio. Vou lhe mostrar ainda que vai.&lt;br /&gt;-Queira Deus, Seu Cícero. E veja lá o senhor que já faz pra mais de seis meses que a gente espera pela tal vontade alheia, que para mim, esperar só pela vontade de Deus. E veja ainda o senhor, Seu Cícero, que não é todo dia que se está pronto para esperar nem pela vontade de Deus, não!&lt;br /&gt;-Tibúrcio, eu já lhe pedi para você não me tratar mais por “senhor”, não foi?&lt;br /&gt;-Foi, mas é modéstia do senhor...&lt;br /&gt;-“Senhor” novamente, Tibúrcio?!&lt;br /&gt;-Como eu ia dizendo, Seu Cícero, o senhor é muito modesto. O senhor já é quase um doutor; já está estudando na cidade porque não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pode mais estudar em Vila Nova - estava sabendo igual, ou mais, que o professor. E olha que Antônio Professor é bem entendido! – sabe fazer até carta!&lt;br /&gt;-Mas não é motivo para você me tratar por “seu” nem “senhor”, Tibúrcio.&lt;br /&gt;-Ah, Seu Cícero!... isso não. Meus pais não me ensinaram esses desaforos. O senhor é um rapaz de bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O concreto está além do visível – o que vemos é somente a sombra. Uma imagem verdadeira ou falsa daquilo que está além do perceptível, dependendo de quem ver...&lt;br /&gt;O abstrato é invisível, mas nunca inabalável.&lt;br /&gt;O nordestino é a sombra de um povo esquelético; sepultado na poeira das secas contínuas e infindáveis; nas emboscadas do oitão da casa ou da parede do açude. Sepultado na esperança de melhores dias e coberto de promessas falsas!... Sepultado no esquecimento.&lt;br /&gt;Repito: o nordestino é a sombra de um povo esquelético...&lt;br /&gt;Mas não olvidemos: o concreto está além do visível – o que vemos... o abstrato é invisível, mas nunca inabalável!...&lt;br /&gt;O nordestino ainda vive sepultado no esquecimento ou na ilusão...&lt;br /&gt;E exemplo típico disso é Amaro José da Silva, mais pária do que cidadão!!!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu não acredito nesse negócio de aposentadoria... Está aí o Padrinho Juvêncio, coitado!... até escravo já foi! – comentou Dona Maricô – E ainda vive morrendo pela vida, trabalhando noite e dia para sustentar os netos, bisnetos, tataranetos e quanta coisa há, que nem sei como aquele vivente ainda consegue forças para tanto! E bem que ele merece ser aposentado, mas não!! Vêm essas coisas para nós, pobres, e está aí: quem se lucra com essas coisas são sempre os que não necessitam... Diga, pelo amor de Deus, se a viúva do coronel Isidório necessitava disso? Eu acho que o governo não está sendo justo agindo assim, não. Não entendo bem dessas coisas, mas acho que há algum mal entendimento nisso...&lt;br /&gt;-Cala essa boca, Maricô! Você não sabe mesmo de nada, – atalhou Seu Amaro, um tanto afobado – e põe-se aí, falando asneiras! Você sabe que “mato tem olho e parede tem ouvido”, sem saber nem o que diz... O governo quer fazer alguma coisa por nós, mas os homens que se encarregam dessas coisas nunca fazem como mandam as ordens. Vai lá que o governo está ciente de que estamos todos aposentados!!... E o Padrinho Juvêncio bem que já&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;podia ter a sua oposentadoriazinha, mas é que ninguém se interessa por essas coisas.&lt;br /&gt;-E por que você não tá aposentado?! – interrogou Maricô, fazendo pouco caso do que Seu Amaro dizia. – Ou você já se esqueceu de que você já foi à cidade por... sei lá quantas vezes! e o que foi que você conseguiu? Você conseguiu aborrecimentos, e muitos; você conseguiu muitos “volte depois”, que para mim estou vendo... O que você conseguiu foi vender a criaçãozinha de cabra pra comprar o terno novo de cáqui, que já tá que não há mais lugar pra por remendos no fundo da calça, de tanto você subir e descer do caminhão do Compadre Venâncio, para ir à cidade – que já é coisa certa Amaro ir todo sábado à feira de Antenor Navarro!&lt;br /&gt;-Cala essa boca, mulher dos diabos! Hoje, você parece que amanheceu com os lundus de sua mãe ou com a avó torta por trás das orelhas! (Que Deus tape as ouças delas onde estiverem). Eu bem que já havia percebido isso. Para começar, você se levantou da rede e não fez nem o “pelo sinal”. E depois, calçou os tamancos trocados: do pé esquerdo, no pé direito; do pé direito, no esquerdo. Isso é mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;33&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Bons dias, Seu Amaro! Bons dias Dona Maricô! – disse Tibúrcio, que acabava de chegar.&lt;br /&gt;-Bons dias, Tibúrcio; como vai a família? – perguntou Amaro, um tanto desinteressado.&lt;br /&gt;-Bons dias... com licença... – respondeu Dona Maricô, retirando-se para a cozinha.&lt;br /&gt;-O que foi que Dona Maricô viu, Seu Amaro? Foi só por causa que eu cheguei?!&lt;br /&gt;-Não liga para essas coisas, não, Tibúrcio; a Maricô tem andado assim mesmo.&lt;br /&gt;-E como vão as coisas, Seu Amaro?&lt;br /&gt;-Daquele jeitão: tudo de mal a pior!&lt;br /&gt;-Essa gente fala demais e não se sabe nunca em quem se acredite; “uma abelha zoou” lá por casa que vocês vão embora?!&lt;br /&gt;-Vamos... desta vez vamos mesmo. E agora não há mais o coronel para nos prender aqui, prometendo “mundos e fundos”, não. Tibúrcio, eu estou ciente de que rico só quer ver o couro de nós pobres...&lt;br /&gt;-Disso, eu já estava ciente há muito tempo. – atalhou Tibúrcio.&lt;br /&gt;-Pois é... está aí o Cícero... Lembro-me como se fosse hoje: pobre do Cícero, com toda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;34&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aquela carreira danada para botar água na casa do coronel e ganhar tempo para ir à escola, e quando o coronel Isidório me chamava lá debaixo do alpendre da casa-grande só para me dizer: “Amaro, tira aquele moleque da escola; bota-o na cangalha, que filho de pobre é como burro – só serve para cangalha mesmo”. E eu até que achei que o coronel estava certo. Tirei o menino da escola, mas aquele nasceu para essas coisas! Eu levava o Cícero comigo para o trabalho, mas quando eu cuidava que não, o Cícero já havia escapulido! Eu chegava em casa e procurava por ele, mas qual nada – Cícero havia teimado e tinha ido para a escola... E está aí o resultado... Eu queria que o coronel fosse vivo para eu passar tudo isso na cara dele.&lt;br /&gt;-É, Seu Amaro... – disse Tibúrcio tirando a lata de rapé do bolso, e tomando uma pitada em cada narina, espirrou umas três vezes seguidas e continuou falando:&lt;br /&gt;-Como eu ia dizendo, Seu Amaro... tem rico bom, lá isso é verdade, mas é de um cento que se tira um. Não vê os Almeida?! Pois me diga quem é que presta daquela corja, pelo amor de Deus?... Pra mim, o único que inda dá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;35&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pra “aproveitar” é o Pedrinho, e assim mesmo não vale nada!&lt;br /&gt;-Não estou agravando os outros, mas para mim é o único que ainda presta ali. E assim mesmo já anda despeitado com o Cícero, só porque o menino tem amigos por toda parte e está fazendo muita gente ficar de boca aberta com o saberzinho que ele conseguiu a muque. Não é porque o Cícero é meu filho, não, mas aquele vai vencer logo na vida.&lt;br /&gt;-E bem que ele merece, Seu Amaro; o senhor pode dizer que tem um grande filho que está conseguindo vencer na vida com os próprios esforços. O senhor pode se orgulhar de ter um filho daquele!&lt;br /&gt;-E me orgulho mesmo, sabe? E tenho desgosto por nunca ter feito nada pelos estudos dele, e ainda hoje eu sinto uma revolta bem grande aqui dentro deste peito – Seu Amaro bateu com a mão fechada sobre o peito esquerdo, com ímpeto, e com a voz trêmula continuou falando, como se fosse de si para si – e quando falo nisso eu sinto um nó bem aqui. – apontou para a garganta com o dedo indicador e continuou – Tenho vontade de chorar. Eu sinto revolta em pensar que fui rude&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;36&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para com ele. Mas, sabe, Tibúrcio? Às vezes me conformo, principalmente quando eu pego a falar nisso e ele me diz que eu não tenho culpa de nada. Que se há algum culpado pelas dificuldades que ele enfrentou, é outro, não eu. Que eu tinha minhas razões: a péssima condição financeira e a falta de motivação, que é a pior coisa.&lt;br /&gt;-Falta de quê?!... – atalhou Tibúrcio.&lt;br /&gt;-Motivação!&lt;br /&gt;-E o que é isso, Seu Amaro?&lt;br /&gt;-Perguntei para ele e ele falou que é a ignorância do valor real de alguma coisa; que eu não sabia da importância que tem o estudo. Ele também chama “conscientização”! E que se há culpados por tais dificuldades alheias, são aqueles que são conscientizados e têm condições mas não fazem nada por ninguém, a não ser chegar para a gente e dizer: “Deixa isso de mão, que você não dá para essas coisas não”. E é mesmo, Tibúrcio; Cícero tem razão. Eu me conformo um pouquinho, mas quando ele me diz essas coisas numa conversa bonita que faz gosto... e é tanto que estamos todos na escola...&lt;br /&gt;-Até o senhor!?... – indagou Tibúrcio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;37&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Até Maricô, quanto mais eu!... Mas logo agora que a gente tá tomando gosto de verdade, logo agora, a escola vai fechar.&lt;br /&gt;-Fechar!? Por quê? – perguntou Tibúrcio, com espanto.&lt;br /&gt;-É o Antônio Professor, coitado! Não agüenta mais ensinar de graça.&lt;br /&gt;-De graça?!&lt;br /&gt;-Sim, de graça; pois já está com mais de três meses que ele não recebe pagamento... Pode ser uma coisa dessa?! E quem vai dar de comer à família dele?&lt;br /&gt;-Mas ele ganha bem – setenta cruzeiros por mês é um dinheirão! Setenta só do MOBRAL. E ganha para ensinar no grupo de Vila, por conta da prefeitura.&lt;br /&gt;-Ganhar eu sei que ele ganha, mas receber é que é o difícil. Três meses sem ver nem a cor do dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;38&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não é por causa que atearam fogo na bagaceira que vou perder minha cana! Fizeram de propósito, eu sei. Para mim, estou vendo o desgraçado fazendo lá os planos dele: “Toco fogo no bagaço e a lenha do Neco vira fumaça também. Aí, ele não tem com que moer a cana, tão cedo, pois os burros de carga o doutorzinho vendeu todos e o trator está botando a lenha dos outros moajantes”. Mas eu mostrarei que nem que o mundo se arrebente, eu hei de moer a minha cana! Eu mostrarei a esse desgraçado...&lt;br /&gt;-Neco!... está conversando só?&lt;br /&gt;-E com razão para isto. Fazer um sacrifício danado daquele para ver tudo por terra!!!&lt;br /&gt;-Que sacrifício, Neco? – perguntou Dona Ana.&lt;br /&gt;-Ainda pergunta!? Aqueles preparativos todos para a moagem. Você acha que não foi um sacrifício? Pois pra mim foi.&lt;br /&gt;-Calma... calma... Não precisa desses arrebates todos, não!!!! Eu perguntei qual foi o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;39&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sacrifício, pois aqui eu já nem sei mais o que não é sacrifício!... Está aí: o Raimundinho saiu bom de casa e chega para morrer... bucho inchado...&lt;br /&gt;-Parece um castigo uma coisa desta... Por cima de tudo isto, esse menino achar de cair doente logo hoje... (Neco falou como se o filho fosse conscientemente culpado pela sua própria doença). Não sei mesmo como me atar! O que foi mesmo que esse menino comeu, mulher de Deus?&lt;br /&gt;-Sei lá, homem... e pelas cinco chagas de nosso Senhor Jesus Cristo não me pergunta mais, que eu não sei não. Tudo que eu sei é que ele se levantou cedinho e foi apanhar tiborna para os porcos, lá no engenho, pois foi você mesmo quem disse para ele ir, pois você já tinha pedido ao Dr. Mário e ele deu ordem para você mandar apanhar uma lata de tiborna dia sim, dia não.&lt;br /&gt;-Esse cachorro danado deve ter tomado muito caldo de cana e comido muita rapadura quente para agora está aí empanzinado – só para dar trabalho pra gente! Pergunta para ele o que foi que ele comeu para poder dar um chá de macela, olho de goiabeira, quebra-pedra; de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;40&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alfazema braba ou qualquer outra mezinha que sirva para bucho inchado e caganeira.&lt;br /&gt;-Eu perguntei, mas foi perdido – ele diz que não foi nada não.&lt;br /&gt;-Espera aí que ele diz já o que foi que ele comeu! – disse Neco, retirando o relho que estava dependurado no armador, pertinho.&lt;br /&gt;-Você não vai me dizer que vai bater no menino, doente como ele está, vai, Neco?! – perguntou Dona Ana, um tanto preocupada.&lt;br /&gt;-É o jeito... ele tem que dizer o que comeu.&lt;br /&gt;Seu Neco ia falando enquanto se dirigia para o canto da sala, onde Raimundo estava encovado na tipóia feita por sua mãe, Dona Ana, de dois sacos vazios de farinha, que carinhosamente costurou e teceu os punhos, tudo a mão!&lt;br /&gt;Neco ameaçou o filho:&lt;br /&gt;-Você diz o que comeu ou “entra já no que dói”!&lt;br /&gt;-Não foi nada, pai! – respondeu Raimundo, com voz suplicante, própria dos indefensos.&lt;br /&gt;-Vamos... diga logo ou...&lt;br /&gt;-Eu já disse, pai: não foi nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;41&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não vai dizer, não é mesmo? – Neco levantou o relho e...&lt;br /&gt;-Eu digo, pai! Eu digo!...&lt;br /&gt;-Então diga logo, cabra ruim.&lt;br /&gt;-Eu fui buscar a tiborna e já ia com o sentido no caldo de cana, mas quando eu cheguei no engenho, o doutor Mário e Seu Amaro estavam lá. Aí, Seu Amaro me chamou e disse que eu não o levasse a mal, mas o patrão dera ordem para que ninguém nem ao menos entrasse no engenho. Eu fiquei na banda de fora apanhando a tiborna e vendo o caldo da cana escorrendo lá dentro (da gamela para o tacho). E quando a lata encheu de tiborna e eu fui apanhá-la, caiu um pingo da desgraçada da tiborna bem aqui, - com a magérrima mão apontou o lábio inferior – e eu não tinha intenção de beber, mas senti o gostinho doce da bicha e não pude mais me controlar: bebi o quanto pude...&lt;br /&gt;-Peia não é santo mas obra milagre; está vendo, Ana? – Neco fez uma pausa e continuou:&lt;br /&gt;-Bem que eu estava desconfiado de que este cabra tinha comido alguma porcaria: foi mesmo na batata!! E num é que eu sou macaco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;42&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;velho mesmo, não sou, Ana?&lt;br /&gt;Por fim, aconselhou:&lt;br /&gt;-Dá um chá de casca de marmereiro que ele fica bom, já-já! (É um santo remédio).&lt;br /&gt;-E se não melhorar?...&lt;br /&gt;-Você vai com ele pra Padrinho Juvêncio benzê-lo. Aí eu quero ver se ele não fica bom!... Mas antes, traga meu chapéu, que eu vou ver como andam as coisas lá pela vazante. O coitado do Expedito ficou sozinho para pastorear a baixa de arroz, que o papa-arroz está com tudo, tem como diacho! E se não plantar a rama de batata, todinha, daqui para o por do sol, a rama vai ficar perdida, pois, confiando em Deus Nosso Senhor, daqui para a barra clarear, vai ser chuva que vai fazer gosto! E se não plantar a rama toda hoje, a enchente vai levar tudo e aterrar as covas. Só pode ser muita chuva este calor que está fazendo hoje, com esses torreames amarelos no nascente... e era experiência do finado meu avô, que para mim estou vendo ele dizer: “Estando fazendo verão e aparece tanajura, pode contar com açude cheio”. E era mesmo! É por isso que eu digo que de hoje não passa...&lt;br /&gt;-Ah! seria bom se você falasse pela boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;43&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de um anjo, Neco!... Eu “roubei” a imagem do Senhor São José, do Padrinho Juvêncio, e vou já preparar o andor, porque, se chover hoje, amanhã a gente faz uma procissão com o Santo São José, saindo daqui de casa, indo até o Cruzeiro e terminando na casa do Padrinho Juvêncio.&lt;br /&gt;-Mas está danado, Ana! Eu não tenho nem um centavo para comprar os festejos, nem as fitas nem nada.&lt;br /&gt;-Besteira, homem! Desde o dia que eu “roubei” o Santo que eu venho ajuntando um dinheirinho para isso mesmo...&lt;br /&gt;-Ajuntando esse dinheirinho de quê?!&lt;br /&gt;-Dos ovos das duas galinhas que ainda não levantaram as posturas e do meu ganho de lavar roupa e varrer terreiro para Dona Chiquinha... - Dona Chiquinha é a viúva do coronel Isidório.&lt;br /&gt;Neco pôs o chapéu e saiu. Dona Ana o acompanhou até a latada. Seu Neco seguiu caminho – não tinha mais tempo a perder -, pois a chuva poderia vir.&lt;br /&gt;Dona Ana se debruçou sobre a cerca da latada e pôs-se a contemplar o marido que, de pouco em pouco, se sumia!! Sumia-se em duas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;44&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estradas: a que o levava ao roçado e a que o levava ao fim de tudo.&lt;br /&gt;Aquele vulto estava diminuindo... diminuindo... A cada posso ele diminuía mais: diminuía pela distância que os separava; diminuía pelos anos que agora o faziam curvo, impotente, minado – um vulto... uma sombra do que fora ou, pior! do que poderia ter sido e nunca fora...&lt;br /&gt;Ficou invisível aos olhos da mulher. E quando ficará para sempre invisível?&lt;br /&gt;-Dona Ana? Ó Dona Ana?&lt;br /&gt;-Hem?! Que foi, João Moleque?&lt;br /&gt;-Estava pensando, Dona Ana? Em quê?&lt;br /&gt;-Na vida, João. Na vida! O que significa isso tudo?! Neco saiu e eu fiquei olhando para ele... Quarenta e sete anos de casados!... e sempre moramos aqui e sempre essa mesma coisa: de casa para o roçado... de casa para o roçado... Só muda quando é do roçado para casa. E nunca conseguimos nada na vida...&lt;br /&gt;-Dona Ana, passei lá na casa de Seu Amaro, inda há pouquinho, e ele mandou dizer que a senhora mandasse apanhar umas roupinhas velhas que ele trouxe da cidade... Foi a Dona Mimosa quem mandou pra senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;45&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tá bem, João! Tá bem. Vou já mandar o Maneco buscá-las...&lt;br /&gt;Dona Ana deu meia volta e entrou em casa, gritando pelo filho:&lt;br /&gt;-Maneco?! Ó Maneco?!&lt;br /&gt;-O que foi, mãe?&lt;br /&gt;-Vai depressa buscar umas roupas velhas que a Dona Mimosa mandou pra gente. Estão na casa do compadre Amaro. Vai correndo! Olha... eu cuspo no chão...&lt;br /&gt;Maneco fez carreira – partiu em silêncio. “Carreira fechada”! Os calcanhares batiam nas nádegas.&lt;br /&gt;Em pouco tempo estava de volta com um pacote na cabeça. Só que agora não vinha mais correndo – é que o pacote era um tanto grande e ele já estava cansado! E ele andava meio cansado nestes últimos dias. Ainda chegou a tropeçar uma perna na outra e cair; cortou o joelho esquerdo quando caiu, mas não foi nada não! Pôs um pouco de terra em cima do ferimento – “que serve pra atalhar o sangue”! Dor, ele não sentiu! – cabra que geme é cabra de peia... cabra mole! Cabra frouxo! Seguiu caminho como se nada houvera, pois a mãe já estava impaciente de tanto esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;46&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-A casa do compadre Amaro fica aqui, pertinho – é só passar a porteira e está lá! – Dona Ana ia falando enquanto se dirigia para a porta. Avistou Maneco que vinha lá pelo monturo da casa e gritou:&lt;br /&gt;-Anda depressa, menino dos diachos! Para ir ali passa a vida inteira!&lt;br /&gt;Maneco mal acabou de chegar, a mãe arrebatou o pacote e o abriu com pressa – tinha ânsia de ver se a roupa ainda dava para aproveitar. E espantou-se quando viu o estado da roupa:&lt;br /&gt;-Como é que se tem coragem de chamar umas coisas destas de “roupas velhas”?!?! É até uma loucura, menino! Vai dar para a gente vestir por muito tempo! E vieram em boa hora (a gente já não tinha mais nem o que vestir!) - Dona Ana ia falando em voz alta e de si para si:&lt;br /&gt;-Isto é roupa de se ir a muitas festas!...&lt;br /&gt;Foi quando Neco chegou. Dona Ana foi ao seu encontro saltitante de alegria – ela esqueceu o peso dos anos! Abraçou o marido (coisa que já fazia muito tempo que não fazia!) e tratou logo de mostrar a roupas que a Dona Mimosa mandara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;47&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Aquilo é que é ter o coração de ouro!... Uma pessoa daquela tem a alma para Deus – disse Dona Ana, depois de um breve inventário.&lt;br /&gt;-Nem vale a pena... – disse Neco.&lt;br /&gt;-Por que, homem?... Deixa de ser mal agradecido! A Dona Mimosa teve tanto gosto em mandar...&lt;br /&gt;-Não é isso, mulher! Não é isso... É que eu estou aperreado... Não lhe disse logo para não lhe fazer sobrosso... o coitado do Expedito foi mordido...&lt;br /&gt;-De cobra?! – antecipou-se a mulher.&lt;br /&gt;-Cascavel!...&lt;br /&gt;-... e ele ficou onde?&lt;br /&gt;-Ficou na casa do Padrinho Juvêncio para ser curado. O Padrinho Juvêncio cuspiu sumo de fumo na boca dele e me disse que ele precisava ficar lá pra ele fazer umas benzeduras e evitar os maus-olhados.&lt;br /&gt;-Eu tava tão contente que nem tinha dado pela falta do Expedito. – justificou-se Dona Ana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;48&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domingo!!!...&lt;br /&gt;Dia de feira em Vila Nova! E dia de feira em Vila Nova não fica ninguém pelas redondezas – principalmente quando é dia de missa (que são duas vezes por ano!): na festa do santo padroeiro São Sebastião –“louvado seja o seu santo nome por ter protegido sempre Vila Nova da peste, fome e guerra”! – e a segunda, quando o padre da freguesia vem em comissão tirar “algumas contribuições para a festa da padroeira da cidade.&lt;br /&gt;Em dia de festa, todos os caminhos são convergentes para Vila Nova. E lá, bem debaixo da bolandeira, estão as tendas do Mulato Tião, de Maria Louceira, de João Bodó e outras e outras...&lt;br /&gt;O Mulato Tião esculpe toda diversidade de santo – do careca São Pedro ao cabeludo Santo Onofre! Do Jesus de olhos azuis ao São Benedito preto retinto!!! e trabalha no gesso, no osso – ele também esculpe no osso -, na madeira... com a mesma naturalidade, maestria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;49&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e perfeição.&lt;br /&gt;Já Maria Louceira, parece-me que, partindo do princípio de que “Deus fez o homem de barro”, não se contenta somente em fazer utensílios de uso doméstico – quer ir além! Representa cenas inesquecíveis e personagens famosos da história de Vila Nova em cada uma de suas obras de barro, às quais “falta somente o sopro divino pra serem reais” – segundo ela.&lt;br /&gt;E João Bodó?&lt;br /&gt;Este aí, com um sem-número de versos! Parece ser a fonte inesgotável da literatura de cordel do Brasil!&lt;br /&gt;São artistas! São mais que artistas: são heróis. São estrelas que, pelo fato de não se chamarem “Tom”, Mary” e “John” não brilham nos céus artísticos dos Mrs. das artes.&lt;br /&gt;E João Bodó muitas vezes se revolta com muitas coisas que, para ele, andam erradas. Ao redor de sua tenda não forma roda de gente somente para comprar seus impressos. A maior parte quer ouvir sua conversa bonita falando de “justiça humana, do mundo e sua estrutura errada”.&lt;br /&gt;-Conterrâneos! Não sou eu e nem somos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;50&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nós de Vila Nova que vamos aprumar esse mundo velho e torto, não; mas é preciso lutar, que um dia o nosso sacrifício valerá a pena.&lt;br /&gt;E assim, João Bodó vai vendendo os seus folhetins e levando essa vida danada.&lt;br /&gt;Outro dia, ele não teve o que fazer, pegou o morcego do caminhão de Seu Venâncio, que carregava rapadura para ser vendida na feira livre de Sousa, e foi bater na cidade. E fez aí muitas presepadas. Voltou para casa depois de mês que havia saído. E depois de andar a cidade toda! Subiu também o bairro da Estação e visitou as casas de “mulheres de vida livre”; dentre elas, o “Palacete de Célia”. João Bodó desceu o bairro da Estação e no centro da cidade ele aprontou mais uma. Parou em frente a lanchonete Teimosa e da calçada ouviu uma converseira adiantada sobre boicotagem, Watergate e as próximas eleições para deputados e senadores... João Bodó entrou na lanchonete e reconheceu um dos que ali conversavam – um candidato a reeleição para deputado estadual... cara conhecida – ele já estivera na Vila, angariando votos... João Bodó tirou um amarrotado papel de embrulho do seu roto bolso, atirou-o sobre a mesa, onde corria a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;51&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;prosa misturada com cerveja, enquanto ia dizendo:&lt;br /&gt;-Senhores! Será que isto vale uma lata de leite em pó e uma caixa de arrozina?&lt;br /&gt;Seu subconsciente acusava, talvez, o choro de fome da filha.&lt;br /&gt;O candidato a reeleição pegou o papel, leu, passou-o aos companheiros, tomou ares de crítico, fitou bem o João e falou:&lt;br /&gt;-Muito bem, rapaz! Só que você é muito pessimista...&lt;br /&gt;João atalhou:&lt;br /&gt;-Eu perguntei se vale uma lata de leite em pó e uma caixa de arrozina...&lt;br /&gt;-Vale!&lt;br /&gt;-Você dá?&lt;br /&gt;-Dou. Apareça em meu escritório que preciso falar com você.&lt;br /&gt;-E onde fica seu escritório?&lt;br /&gt;-Você não sabe onde fica meu escritório!?!?!?!?!?&lt;br /&gt;-Não! E tenho a obrigação de saber, por acaso? – João foi falando e se retirando. Nunca apareceu em escritório coisa nenhuma. O que ele queria mesmo era criar aquela grande piada, pois na verdade João não queria trocar o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;52&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;seu papel de embrulho por coisíssima nenhuma do mundo. Naquele papel estava o seu mais recente poema. E que poema!!!!!!!!!!&lt;br /&gt;Senão, vejamos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fico sempre indeciso quando me perguntam:&lt;br /&gt;-Vale a pena viver?&lt;br /&gt;Quando muito eu respondo com outra pergunta:&lt;br /&gt;Isso é viver ou “estamos aí”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E insistem na pergunta:&lt;br /&gt;-Vale a pena viver?&lt;br /&gt;E como sempre eu respondo:&lt;br /&gt;Isso é viver ou somente existir?&lt;br /&gt;É um eterno chorar ou momentâneo sorrir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há sempre quem pergunte:&lt;br /&gt;-Vale a pena viver? Vale a pena estar aqui?&lt;br /&gt;E sempre perguntando eu respondo:&lt;br /&gt;Você acha que viver é isso –&lt;br /&gt;Sempre sonhar e nunca dormir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que vale a pena, enfim?” – insiste alguém.&lt;br /&gt;“Você ainda não se decidiu?”&lt;br /&gt;Para mim vale a pena amar! Esperar! Querer!&lt;br /&gt;Lutar – perder ou vencer!...&lt;br /&gt;Vale a pena esperar o sorriso de alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale a pena sonhar com um dia melhor&lt;br /&gt;(que não sei quando virá!)&lt;br /&gt;E nem mesmo se virá esse dia!&lt;br /&gt;MAS VALE A PENA!!!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;53&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da lanchonete, João rumou até ao Gato Preto; e aí, viu coisas que fizeram João desejar mil vezes ter nascido cego.&lt;br /&gt;Agora se faz necessário que eu diga que o Gato Preto é o mais afamado açude da Região. É bom que fique claro que não é lá um açude grande, mas ele está sempre cheio de seca a inverno! – mesmo com tantas secas! -, e para isso são suficientes os esgotos que para lá convergem. É um açude pequeno com um grande número de grandes histórias. “Histórias de assombrar crianças, fazer gente grande tremer e o Padrinho Juvêncio se benzer três vezes” (conforme todos dizem por lá).&lt;br /&gt;Já ouvi muitas vezes a estória das trezentas e setenta e duas moças que foram “defloradas”, “desonradas” lá! e que “um dia, quando completar o número seiscentos e sessenta e seis – que é o número da besta-fera – o mar vai alagar a cidade de Sousa e o açude do Gato Preto será a cama de uma baleia!”.&lt;br /&gt;Beirando a parede traseira de uma fábrica de doces, fica a água lamacenta do Gato Preto, e aí descem pelo buraco de esgoto, as goiabas e bananas deterioradas, rejeitadas pelos doceiros. Mas antes dessas frutas caírem na&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;54&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lama, dezenas e dezenas de seres humanos maltrapilhos e famintos estão aos empurrões, na disputa pela banana ou da goiaba cheia de tapurus que vem de esgoto abaixo. E, como sempre, no mundo dos animais, vence sempre o mais forte; e quando este sacia a sua fome, inclina-se sobre a água lamacenta do Gato Preto, na qual todos eles estão com os pés dentro, e bebe daquela lama até a grande barriga não o permitir mais naquela posição.&lt;br /&gt;Isto é o máximo que se pode descrever do que João Bodó ouviu e viu no Gato Preto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre do Expedito! Já um rapazinho... mas é que mordidura de cobra cascavel não é brincadeira não.&lt;br /&gt;O Expedito já estava quase curado mas foi fazer extravagância, teve a morte como pagamento.&lt;br /&gt;-Quando uma cobra cascavel morde um por essas bandas, - é o que todos dizem em Vila Nova e arredores – só o Padrinho Juvêncio, abaixo de Deus, é quem salva. Mas é preciso ter muito cuidado e fazer só o que ele manda.&lt;br /&gt;-O filho do Neco morreu a míngua, coitado! – comentava o Zezinho que acabava de engolir mais uma bicada de cachaça, escorado no balcão da bodega do Aristides.&lt;br /&gt;Xavier, que acabava de entrar, foi logo participando da conversa:&lt;br /&gt;-Foi mais descuido... Num tá vendo que Juvêncio velho num cura mais ninguém?!...&lt;br /&gt;-Descuido uma conversa!!! Maldade do seu patrão (pois aquele doutor de merda num é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;56&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;flor que se cheire!); o pobre do menino tava se esvaindo em sangue (era sangue até pelos pés dos cabelos) e foram chamar o doutor Mário pra dar uma olhadinha no pobre coitado, e cadê? Você foi lá?&lt;br /&gt;-Não...&lt;br /&gt;-Mesmo assim foi ele.&lt;br /&gt;-Ele também não tem a obrigação de andar cuidando dessas coisas, não...&lt;br /&gt;-Nego Xavier, cala tua boca! – atalhou o Zezinho – Tu tá com essa punição toda porque tu é um cabra bajulador; um cabra safado...&lt;br /&gt;-Nada! – replicou o Xavier – Tu é que tem queixa do doutor porque ele comeu tua filha, e agora tu vem procurar a honra dela em cima de mim?! Oxe!&lt;br /&gt;-Tu é cabra de peia, Xavier. Tu sabe que ninguém gosta de tu porque tu vive bajulando o doutor. Aprende a respeitar os homens e pesa as tuas palavras senão eu corto a tua língua a faca.&lt;br /&gt;-Repete que tu corta a minha língua a faca, Zezinho da peste! Cabra do inferno! que eu é que corto a tua...&lt;br /&gt;Quando o Xavier terminou de falar, o Zezinho saltou - já de faca em punho!! - e logo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;57&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xavier fez o mesmo. Seu Aristides tentou, inutilmente, acalmar os dois, dizendo:&lt;br /&gt;-Rapazes, deixem isso pra lá. Venham tomar as chamadinhas de vocês e deixem o resto por minha conta. Encrencas não enchem barriga de ninguém.&lt;br /&gt;Ninguém deu atenção ao velho Aristides – foi como se ele houvesse falado Grego.&lt;br /&gt;Os homens, que há pouco discutiam, agora apagavam a luz dos candeeiros e a bodeguinha do Aristides ficou no escuro total – estava pronto o campo de batalha para a luta sangrenta.&lt;br /&gt;Ouviu-se o tinir das facas, uma na outra. Seguiram-se outros tinidos e nenhuma voz humana. As facas tiravam faíscas de fogo uma da outra. Por fim, alguém falou:&lt;br /&gt;-Cabra ruim, hoje eu bebo teu sangue como se bebe água depois de um dia de sede. – era a voz do Zezinho, ao som do tinir de facas.&lt;br /&gt;-Pode suceder o contrário. – retrucou Xavier – No pau que corre o risco também corre o machado.&lt;br /&gt;Durante uns vinte minutos, aproximadamente, nada mais se ouviu - a não ser o tinir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;58&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;das facas. Em meio aos tinidos, ouviu-se gritos e gemidos de dor. Depois, o silêncio reinou na bodeguinha.&lt;br /&gt;Decorrido algum tempo, Seu Aristides saiu de sob o balcão de madeira, já estragado pelo cupim, onde permaneceu por todo decorrer da briga. Reacendeu os candeeiros e somente agora puderam ver o que aconteceu – o terreiro já estava repleto de curiosos.&lt;br /&gt;O Xavier, estirado no chão, ainda com a faca na mão, esvaía-se em sangue.&lt;br /&gt;Zezinho estava a uns três passos do Xavier, num esforço estrênuo: com a mão esquerda a repor as tripas que saíam pelos dois grandes rasgões em sua barriga. Com a mão direita, tentava levar a faca ensangüentada até a boca.&lt;br /&gt;Do meio dos curiosos, alguém falou:&lt;br /&gt;-Gente, num deixa o homem morrer sem vela, não. Botem ao menos um candeeiro aceso na mão dele, que quem é cristão não pode morrer sem a luz de Deus.&lt;br /&gt;Xavier não esperou por vela coisa alguma: deu o último suspiro! “Fechou o paletó” para sempre! Perdão: Xavier nunca tivera o prazer de, ao menos, pegar num paletó, mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;59&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dos outros... “Bateu a biela” – era máquina!&lt;br /&gt;Enquanto isso, Zezinho acabava de conseguir concretizar sua promessa: lambia o sangue do Xavier que ficara em sua faca, passando a língua de um lado e de outro da mesma, com um prazer selvagem; feroz.&lt;br /&gt;Seu Aristides tentou colocar um candeeiro em sua mão mas Zezinho dispensou – preferiu morrer sentindo o “gosto adocicado do sangue daquele cabra atrevido”.&lt;br /&gt;Logo alguns dias depois da morte dos dois, saíam os versos de João Bodó, que começavam assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bandido! Assassino! gritaram juntos.&lt;br /&gt;Tombaram os dois já defuntos&lt;br /&gt;Para nunca mais se erguerem!&lt;br /&gt;Morreram os dois por besteira; por nada.&lt;br /&gt;Um, lambia a faca; o outro, tapava a facada&lt;br /&gt;Que era para as tripas não descerem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreram por ignorância. Por loucura!&lt;br /&gt;Mataram-se pensando que faziam bravura.&lt;br /&gt;Deixaram foi as famílias desamparadas.&lt;br /&gt;E assim eles geram uma eterna vingança&lt;br /&gt;Para deixarem uma brutal herança:&lt;br /&gt;Os filhos também irão morrer a facadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;60&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era madrugada. Alguns pássaros batiam as asas e ensaiavam os primeiros toques da alvorada sertaneja.&lt;br /&gt;No oitão da casa-grande da fazenda, o galo-de-campina, saltitando de galho em galho, dobrava o seu canto de alvorada – o mais belo de todos os pássaros nordestinos!&lt;br /&gt;A barra estava clareando – estava nascendo o dia dezenove de março de mil novecentos e setenta e dois.&lt;br /&gt;Para o sertanejo do Nordeste, este é um dia diferente de todos os demais dias do ano: é o dia da decisão. O dia das definitivas experiências sobre o inverno de cada ano...&lt;br /&gt;É, pois, o dia do “Divino São José”. “Dia santo... pois é!”, e das procissões até o Serrote do Cruzeiro, onde todos têm que fazer penitências para que, em troca e como agradecimento pelos festejos do dia, “São José peça bom inverno ao Divino”.&lt;br /&gt;Todos têm as suas experiências sobre o futuro inverno! porém, nenhuma com a mesma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;61&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;credibilidade de que desfrutam as experiências do Padrinho Juvêncio!&lt;br /&gt;-Com mais de cem janeiros no talo e nunca uma experiência sua falhou: quando diz que é seca, é seca! – é o que dizem todos que conhecem o Padrinho Juvêncio, nem que seja só de nome, ou renome...&lt;br /&gt;O dia amanheceu...&lt;br /&gt;A casa do velho Juvêncio – ex-escravo de mais de cem anos! – parecia um formigueiro humano. Era a solenidade anual à espera da grande notícia: logo o Padrinho Juvêncio (que havia passado toda a noite anterior, desde a “Ave Maria” até o sol nascer sentado em sua rede branca, com o rosário nas mãos e cabisbaixo) sairia até a latada e diria suas previsões para o futuro inverno.&lt;br /&gt;Fez-se silêncio...&lt;br /&gt;Os homens retiraram os chapéus. As mulheres começaram a rezar o “Bendito”: era o Padrinho Juvêncio que se levantara e vinha em direção da latada. O preto velho terminara, finalmente, as suas orações! Portanto, estava, agora, pronto para dar suas previsões para o inverno vindouro.&lt;br /&gt;-Meus irmãos!... - Juvêncio, já na latada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;62&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;levantou o seu grande rosário até à altura da cabeça e se dirigia para a multidão – irmãos por parte do nosso pai eterno... Deus, nosso senhor, continua lembrando de nós, já que os deuses da terra nos esqueceram. Nosso bom pai vai mandar um ótimo inverno para todos nós, este ano!&lt;br /&gt;-Graças a Deus!!!... – gritaram todos – Louvado seja o seu santo nome!&lt;br /&gt;Houve, neste momento, aplausos e alegria geral.&lt;br /&gt;Depois, já silêncio, o Padrinho Juvêncio continuou:&lt;br /&gt;-Mas é preciso que a gente não se acomode, e quando na fartura não se viva só de farra. É preciso ter a alma e o pensamento voltados para Deus.&lt;br /&gt;Neste dia, o velho Juvêncio pregou um sermão prolongado como fazia anos que não pregava um daqueles! Foram horas a fio de conselhos!&lt;br /&gt;Terminado o sermão, ele deu a bênção a todos e cada um tomou o seu destino.&lt;br /&gt;Dezenove de março é dia de folguedos. “Não é, e nunca foi, dia de trabalho. Dezenove de março é dia santo, do santo São José”!!!! É,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;63&lt;br /&gt;F ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois, dia de alegria; dia de festa; dia de pagode. É dia de se jogar uma suequinha, na casa do compadre; depois, convidar o vizinho para “comer do arrubacão com torresmo, que a muiê preparou com muita pimenta e muito amor”.&lt;br /&gt;E por isto mesmo é que, debaixo da latada da casa do Neco, já estava formada aquela tuia de gente.&lt;br /&gt;Os mais velhos, iam jogar sueca; os mais moços, iam jogar peteca, e a criançada ia brincar nos paus-de-sebo e galamatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;64&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Desde o governo de Getúlio que falam em Reforma Agrária. Vem hoje, vem amanhã, e nunca vem! E agora, depois dessa tal de Revolução de 64 (t’esconjuro com todos os diabos!), botaram uma pedra em cima! Dizem que “é comunismo” e que “comunismo não presta”. Ora! Se comunismo não prestasse, já tinha vindo pra o pobre, que o pau só quebra mesmo é no lombo do burro. Isso, quando é com o pobre; mas com o americano a coisa é outra: tão comprando a madeira da Amazônia bem baratinho, ocando a madeira e enchendo de minério e levando pros Estados Unidos! Mas o pau só quebra no lombo do burro mesmo. Também, né?! Brasileiro também começa com b...&lt;br /&gt;-João Bodó, cala-te a boca! Tu num vai mudar o mundo... – atalhou Seu Amaro.&lt;br /&gt;-Não! Não vou mudar o mundo, Seu Amaro! Quero só que o mundo não me mude!! Não agüento mais é ver tanta injustiça; tanta miséria; tanta fome, tanta exploração... quando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;65&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;outros se fartam, usam, abusam e lambuzam de tudo e de todos. (A viagem de João a Sousa serviu-lhe apenas para inflamar-lhe os ideais).&lt;br /&gt;Houve um breve silêncio entre os dois. João Bodó, por fim, retomou a conversa:&lt;br /&gt;-Seu Amaro sabe quanto ganha um deputado?&lt;br /&gt;-Não...&lt;br /&gt;-Mas sabe quanto custa uma diária no roçado?&lt;br /&gt;-Sei... vinte cruzeiros.&lt;br /&gt;-Pois um deputado ganha hoje quarenta mil cruzeiros no espinhaço da gente. Esses palhaços não fazem nada! São uns parasitas da Nação.&lt;br /&gt;-Isso lá é verdade, mas o que se pode fazer? Vamos lutar com pedras contra metralhadoras? Eu sei, e todos sabemos, que isso aí é tudo uma farsa...&lt;br /&gt;-Pois é!... – atalhou João – Em 64, eu vi metralharem brasileiros como eu e como você em plenas ruas de Recife, só porque gritavam o nome de Miguel Arraes. E Qual foi o crime de Arraes?! Ser brasileiro e querer ver a terra dividida entre os pobres? Multiplicaram a corrupção, a exploração, a fome, a miséria!!!... foi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;66&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;isto tudo que fizeram, e por quê? Porque os americanos assim ordenaram. Quem não sabe da interferência militar dos ianques, em 64? Todo mundo soube e tivemos que “engolir a tora” calados.&lt;br /&gt;João teve que interromper a conversa, pois Dona Maricô veio até à latada servir um pouquinho de café:&lt;br /&gt;-Tá meio amargo, porque o restinho da rapadura eu dividi com Comadre Ana.&lt;br /&gt;-Amarga é esta vida, Dona Maricô. E as rapaduras de todos os engenhos do mundo não a adoçam. – retrucou João Bodó.&lt;br /&gt;-Bêbado!... também começa com b. Cada brasileiro é um bêbado. Um bêbado, Seu Amaro!... Comendo qualquer coisa para esquecer que tem fome. Vivendo de qualquer jeito para esquecer que apenas vegeta. Vivemos embriagados na metafísica do “Deus dará”. Vivemos drogados no ópio que chamam “religião”...&lt;br /&gt;-João!...&lt;br /&gt;-Que foi, Dona Maricô?&lt;br /&gt;-Mas tu num vai falar da religião, não?! É por isto que te chamam de comunista!&lt;br /&gt;-Não, Dona Maricô. Não é por isto!!... É&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;67&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que quando a gente fala em liberdade, igualdade, justiça social e divisão das terras entre os pobres, os “sugadores” dizem que a gente é comunista, como se comunista fosse um bicho maldito. Mas malditos são esses exploradores de homens! Nós, pobres, somos a maioria; e se a gente se reunisse, esta maioria seria danada de poderosa.&lt;br /&gt;-É, João!... – interveio Seu Amaro – A gente já tá velha; não serve mais pra essas coisas, não. Deixa isso pra vocês, que ainda são fortes.&lt;br /&gt;-É... eu e Amaro só temos agora que pensar na morte.&lt;br /&gt;-Não, Dona Maricô. Isso é se acomodar com a desgraça e a miséria. É não pensarmos no nosso semelhante. Se cada um fizer a sua parte, haverá justiça e felicidade para todos. Se cada um varrer o seu terreiro, o mundo todo estará limpo.&lt;br /&gt;-É isso mesmo, Maricô; João tem razão. Sabe que se esse tal de comunismo fosse ruim já tinha vindo pra gente?! Num vem porque isso é ruim para os “poderosos”. Se entrasse um presidente que comesse feijão com rapadura preta só uma vez ao dia, logo ele sabia olhar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;68&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pros pobres!...&lt;br /&gt;-É... O JK, em 58, no tempo da seca, esteve em São Gonçalo; comeu feijão com farinha debaixo da barraca, junto com a caçacada. Ali sabia o que pobre sofre!... Esses “paus verdes” só entendem de bacamarte, e mesmo assim mal. – completou Amaro, pensativo.&lt;br /&gt;-Sabe, gente? Fizeram deste país um quartel; agora temos que fazer deste quartel uma nação; mas uma nação de seres verdadeiramente humanos, e não de máquinas. E chega de tanta exploração; tanta miséria; tanta fome! Chega de tanta...&lt;br /&gt;-Chega, João! Chega! que eu já tô me revoltando também. – Seu Amaro atalhou João Bodó subitamente e seu ímpeto fez reinar um ligeiro silêncio. Depois, retomou a conversa:&lt;br /&gt;-Tá vendo estes calos, João?! Olha bem para estas mãos (que nem parecem mãos!). Deformadas!... não pegarão mais na enxada, João! Pegarão no fuzil, para fazer justiça! Eu sonho com Princesa... eu sonho com a Revolução de 30! Eu sonho com uma nova Revolução! Eu sonho com Canudos! Viva CANUDOS!! Viva CANUDOS!! Eu sonho com PRINCESA!! VIVA PRINCESA!!!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;69&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Amaro correu pelo pátio, foi à cerca, retirou uma vara e, como se fosse um rifle, saiu disparando:&lt;br /&gt;-Pan! Pann! Paann! A terra é nossa! A terra é de quem trabalha na terra! Pan! Viva CANUDOS! A terra é nossa, João! A terra é nossa! Pan! Pan! Eu amo esta terra; esta terra que reguei com o meu suor; esta terra onde plantei esperanças e colhi amarguras!... Ah! Maricô, minha velha! venha também abraçar a terra, que a terra agora é nossa!&lt;br /&gt;Seu Amaro se estendeu bruscamente no chão e abraçou a “sua terra”.&lt;br /&gt;Dona Maricô correu em busca do seu revolucionário em delírio e o abraçou gritando:&lt;br /&gt;-João?! Amaro enlouqueceu!!! Valei-me meu Padrinho Cícero do Juazeiro! Amaro enlouqueceu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!&lt;br /&gt;-Não, Maricô. Eu não enlouqueci. Eu estou sonhando com Canudos! Eu estou sonhando com a Coluna Prestes, varrendo sertões, dividindo a terra com os homens que trabalham na terra; plantando a esperança em cada coração deste povo que, como eu e como você, não passa de burro de carga!!!!!... Viva a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;70&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;COLUNA! VIVA A COLUNA!!!!!!!!!!!!&lt;br /&gt;Amaro corria e gritava mais e mais:&lt;br /&gt;-Viva Alagamar! Viva o CAVALEIRO DA ESPERANÇA DE ALAGAMAR! VIVA ZUMBI REDIMINDO O SEU POVO!! O POVO ROMPENDO OS GRILHÕES DO CATIVEIRO!&lt;br /&gt;João Bodó foi ao encontro de Seu Amaro e Dona Maricô; ajoelhou-se e também abraçou a “sua terra”.&lt;br /&gt;O sol já morria, se enterrando atrás das serras cinzentas.&lt;br /&gt;Tardes sertanejas – anoiteceres melancólicos!&lt;br /&gt;Tudo é noite! No sertão tudo é eterno anoitecer.&lt;br /&gt;João Bodó e Dona Maricô levaram Seu Amaro para dentro de casa, puseram-no em sua rede, onde permaneceu em seu tresloucado sonho até o outro dia raiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;71&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era exatamente uma hora e cinqüenta minutos da manhã de 16 de agosto de l968.&lt;br /&gt;Ouviu-se barulho de dois ou três veículos e poucos minutos depois toda população de Vila Nova era despertada pelo matraquear das metralhadoras que tocavam a sinfonia dos covardes e dos opressores.&lt;br /&gt;Vila Nova assistia, naquela madrugada macabra, a casa de João Bodó ser totalmente vazada de balas de metralhadoras e fuzis.&lt;br /&gt;Como se fossem os donos do mundo, aqueles assalariados do crime invadiram a casa de João Bodó e lá dentro encontraram uma criança morta (toda rendada de balas) e uma pobre mãe semimorta.&lt;br /&gt;Selvageria inadmissível para o homem pré-histórico.&lt;br /&gt;A massa encefálica da criança ensopava o chão de barro da casa de taipa de João Bodó – o pai ausente.&lt;br /&gt;Um dos homens – e nem sei se devo chamar aquilo de homens!! – grunhiu como se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;72&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fosse o barrão do chiqueiro:&lt;br /&gt;-Aquele comunista maldito me paga!...&lt;br /&gt;Outro deles chutou a mulher que agonizava no chão e disse:&lt;br /&gt;-É a puta daquele comunista safado!&lt;br /&gt;-Puta é a tua mãe, macaco fardado! – gemeu a mulher.&lt;br /&gt;Uma voz abafada naquela madrugada de quarta-feira de l968.&lt;br /&gt;Deram, brutalmente, um chute na cabeça da mulher e ela perdeu os sentidos. Em seguida, partiram.&lt;br /&gt;Daí a poucos minutos os moradores de Vila Nova estavam na casa de João Bodó, e foi Seu Amaro quem rompeu o silêncio:&lt;br /&gt;-Pobre João!... Ele é quem está certo: comunistas não fazem estas coisas, não; comunistas sofrem estas coisas! Estas safadezas!...&lt;br /&gt;-E quem eram eles?!... estavam fardados... – perguntou alguém, timidamente.&lt;br /&gt;-Fardados de verde, de azul, de amarelo... só garanto que fardados de vermelho não tavam. – retrucou Seu Amaro.&lt;br /&gt;Mariquinha cuidou da mulher enferma.&lt;br /&gt;Raimundo se esforçou para tentar juntar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;73&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o corpo dilacerado do que antes fora uma criança, colocou-os em um caixão, vazio, de sabão, e enterrou a filha de João Bodó no terreiro do curral – “lugar destinado a enterrar-se crianças pagãs”, segundo os nordestinos que mantêm, a todo custo, os dogmas de um povo inteiro.&lt;br /&gt;Foi grande a expectativa e a pergunta pairou no ar:&lt;br /&gt;-O que João irá fazer quando chegar?&lt;br /&gt;Porém, logo tiveram a resposta.&lt;br /&gt;Quase sol a pino quando João Bodó chegou. Aquele revolucionário era íntegro. Completo. Um espelho ideal para o homem. Pareceu adivinhar o que ocorrera. Entrou; sentou-se ao lado da mulher; acariciou-lhe os cabelos e sussurrou-lhe ao ouvido:&lt;br /&gt;-Nizinha... Nizinha... Nem as metralhadoras hão de calar a minha voz! Nem minha voz deixará de clamar pelo povo. Derramaram o teu sangue e o de nossa filha para ver se era vermelho como o meu. Nizinha... pensam que mataram nossa filha e nossos ânimos. Enganam-se, pois! Nossa filha não morrerá! pois ela se chama Liberdade e é irmã gêmea do Amor, do Destemor, da Igualdade, da Justiça e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;74&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da Grandeza.&lt;br /&gt;João Bodó abraçou a sua companheira; apertou-a fortemente contra seu peito e gritou para todos:&lt;br /&gt;-Derramar o sangue do povo é aguar a grande sementeira da LIBERDADE e da JUSTIÇA, pois o povo há de se rebelar contra os tiranos e opressores e fazer brotar sobre este chão de pedras as roseiras do AMOR, da LIBERDADE, da IGUALDADE e da JUSTIÇA SOCIAL.&lt;br /&gt;Os tiranos constróem seu cadafalso na proporção que assassinam os heróis do povo.&lt;br /&gt;João Bodó se dirigia agora a Seu Amaro:&lt;br /&gt;-Queremos terra para trabalhar; tirar da terra-mãe, regada com o suor do nosso rosto, o pão que sacia a fome dos nossos filhos. Queremos a não exploração do homem pelo homem; direitos iguais para a mulher e o negro, que negro no Brasil continua escravo: você já viu um presidente negro? Um senador negro? Um governador negro ou mulher?!... Queremos um Brasil para os brasileiros. Queremos a nacionalização do Brasil!&lt;br /&gt;Eufórica e revolta, a multidão, como um&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;75&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rio em fúria, gritou automaticamente:&lt;br /&gt;-Queremos a nacionalização do Brasil!! Viva o Brasil e fora os ianques!!!!!! Fora as multinacionais!&lt;br /&gt;-João Bodó ia continuar, porém a multidão não o deixou:&lt;br /&gt;-Viva João Bodó! Viva João Bodó!&lt;br /&gt;-Queremos emprego assegurado para todos; escola grátis para todos; comida para todos; moradia para todos; assistência médica e remédio para todos; queremos a seca como um fenômeno natural e superável e não como uma calamidade social, onde os ricos enricam mais e os pobres morrem de fome...&lt;br /&gt;A multidão irrompeu em aplausos e vivas:&lt;br /&gt;-Viva João Bodó! Viva João Bodó! Viva o Padin Cícero do Juazeiro! Viva o justiceiro Lampião! VIVA! VIVA! VIVAAAA!!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era madrugadinha do dia treze de outubro de l972.&lt;br /&gt;A barra já vinha clareando e os galos já estavam amiudando pela segunda vez.&lt;br /&gt;Neco ia passando em frente a casa do Padrinho Juvêncio, quando parou atônito: é que ele ouviu gemidos na casa do “Padrin”. Quis acorrer mas tinha que chegar logo no engenho, e já estava atrasado.&lt;br /&gt;Mas era o “Padrin Juvêncio”, ora!...&lt;br /&gt;-Meu Padin pode tá passando mal e o engenho que vá às favas!&lt;br /&gt;Bateu na porta, porém não foi atendido. Mas insistiu mais umas quatro ou cinco vezes, até perder a paciência. Deu dois passos atrás e se jogou contra o caniço que fazia a vez de janela e por aí entrou.&lt;br /&gt;Porém é indizível o seu espanto ao ver o velho Juvêncio estirado ao chão, já na agonia da morte.&lt;br /&gt;Neco levantou o preto velho, e não foi necessário tanto esforço para repô-lo na tipóia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;77&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;velha, pois do robusto escravo que fora, ali restavam trinta e dois quilos de “couro e osso”.&lt;br /&gt;-Meu Padin?... Ô meu Padin? Meu Padin?... Ô meu Padin?...&lt;br /&gt;Nada! Neco quis pedir socorro, mas a quem? A estas horas quem está acordado está no engenho.&lt;br /&gt;-Mas deixar meu Padin só, nesse estado?! Não!&lt;br /&gt;Ele insistiu mais uma vez:&lt;br /&gt;-Ô meu Padin?... Meu Padin? Ô meu Padin?...&lt;br /&gt;O velho Juvêncio entreabriu os olhos; tentou dizer algo mas não pode. Neco chegou-se mais, trouxe o candeeiro para mais perto e relutou piedosamente:&lt;br /&gt;-Fala, meu Padin, fala!... Diga se tem alguma mágoa de mim; e se tem, o meu Padin me perdoa, né?&lt;br /&gt;O velho tentou falar novamente, só que desta vez já não mais entreabriu os olhos.&lt;br /&gt;Por fim, a custo de muito esforço, sussurrou:&lt;br /&gt;-Meu filho... diga... aos outros... – Juvêncio, agonizante, parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;78&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Vamos, meu Padin Juvêncio! Pelo amor do Padin Cícero do Juazeiro, fala logo!&lt;br /&gt;-Diga... aos... outros... es... outros escravos... que se... que se libertem!...&lt;br /&gt;O velho Juvêncio expirou para sempre.&lt;br /&gt;O dia já estava claro.&lt;br /&gt;Neco correu direto para o engenho e de longe gritou:&lt;br /&gt;-O Padin Juvêncio morreu!!!&lt;br /&gt;-Tu num tá brincando não, ó Neco?! Cum a morte num se brinca.&lt;br /&gt;-Tô não! O Padin morreu!&lt;br /&gt;-Caldeireiros, bagaceiros, tombadores, gameleiros, cambiteiros, boca-de-fogo, mestre de rapadura, maquinista, auxiliares... Parem! Hoje é dia santo: o Padin morrrrrreeeeuuu!!! Vá um no canavial e mande os cortadores de cana pararem o corte e diga a eles que é dia santo: o Padin morreu!&lt;br /&gt;-Mas Seu Amaro, o doutor Mário ficou de vir hoje pra moagem... – observou alguém.&lt;br /&gt;-Que esse doutorzinho vá pros infernos, fazer companhia ao coronel, pai dele. Oxente, menino! Tu tá doido, é?! Padin Juvêncio morreu e a gente fica trabalhando? Não!!! – irritou-se Amaro, e alteando a voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;79&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Fechem o engenho que já me vou.&lt;br /&gt;Já era tardezinha e todos os moradores de Vila Nova estavam na casa do velho Juvêncio: todos queriam a última bênção do “Padin”.&lt;br /&gt;Sob a latada, alguns grupos de pessoas conversavam baixinho ou rezavam “pela alma do Padin”.&lt;br /&gt;Alguns chegaram a comentar:&lt;br /&gt;-Ainda bem que arranjaram uma roupa decente pro Padin.&lt;br /&gt;-Até sapato!...&lt;br /&gt;-Arranjaram uma rede nova?! Quem deu?&lt;br /&gt;Alguém falou mansamente:&lt;br /&gt;-Respeitem ao menos a presença do finado! Vocês não têm sentimento?&lt;br /&gt;Alguém quis saber quais foram as suas últimas palavras. Neco, que estava sentado em um cepo, cabisbaixo, respondeu:&lt;br /&gt;-“Diga aos outros escravos que se libertem”.&lt;br /&gt;-Quê?! – perguntaram todos, espantados.&lt;br /&gt;-Sim!... “Diga aos outros escravos que se libertem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;80&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Tava delirando... O coitado pensava que ainda tava na escravidão. – alguém quis explicar.&lt;br /&gt;-Todos aqui somos escravos, sim senhores. – atalhou Seu Amaro e continuou:&lt;br /&gt;-Precisamos nos libertar.&lt;br /&gt;-Tá na hora do enterro. – disse Zefinha, sem mais entreveros.&lt;br /&gt;-Ele deixou alguma herdade? – indagou Mariquinha.&lt;br /&gt;-Que nada! Esse era tão pobre que não deixou nem dívida.&lt;br /&gt;-Deixou, Itamar Cachacinha: e “diga aos outro que se libertem”. – retrucou Seu Amaro.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;81&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas esse bichin quer saber mesmo o que se faz por estas brenhas? Trabalhar... trabalhar... Comer, quando há o que; mas tendo ou não, trabalhar... trabalhar... trabalhar... E arrepara que tem gente aqui que trabalha e não ganha e ainda por riba apanha, né, seu menino?&lt;br /&gt;E, depois de uma ligeira pausa:&lt;br /&gt;-Como é mesmo a graça de vosmecê?&lt;br /&gt;-Eu sou fiscal do banco...&lt;br /&gt;-Fiscá do banco!? Oxente, seu menino! e que diacho nós tem com banco?&lt;br /&gt;-Vocês, nada; mas é que o doutor Mário vai fazer novo empréstimo e o banco exige essas formalidades. Aliás, formalidades para com uns; para com outros, são exigências sérias! - cuidou em se corrigir, com certo tom galhofeiro, o fiscal.&lt;br /&gt;-Pai!? adonde já se viu gente cum esse nome, pai?!?!&lt;br /&gt;-Não, Jãjão... o nome dele não é fiscá de banco não!!! É que o Seu Menino aí trabaia no&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;82&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;banco de botar dinheiro, lá na cidade.&lt;br /&gt;-Como é mesmo o nome do senhor?&lt;br /&gt;-É Tibúrcio... Tibúrcio José da Silva, mas vosmecê pode chamar Bubu, que é como todo mundo me conhece por estas brenhas aqui.&lt;br /&gt;-Pois é, Seu Bubu...&lt;br /&gt;-Seu criado. – atalhou Tibúrcio.&lt;br /&gt;-Este Brasil tá de mal a pior. Os americanos estão cada vez mais donos do “nosso” Brasil. Os japoneses também tão dando uma dentadinha de Brasil; e os alemães; e os suíços; e os...&lt;br /&gt;-Sabe, Seu Menino? vosmecê tá bom de palestrar com o João Bodó; ele aprecia muito falar dessas coisas.&lt;br /&gt;-E quem é João Bodó, Seu Bubu?&lt;br /&gt;-Oxente! e o Seu Menino nunca ouviu falar no poeta João Bodó, não?! O mais afamado repentista destas bandas!? Num tarde ele aparecer por cá.&lt;br /&gt;E o que ele fala?&lt;br /&gt;-Ele fala essas coisas mesmo: que os estrangeiros tão tomando o Brasil; que a gente deve lutar pra ter a terrinha da gente mesma pra trabalhar; que é preciso todo o trabaiador e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;83&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;toda trabaiadora se organizá e se ajudar uns aos outros; que rico só quer ver o couro da gente... essas coisas mesmo de gente letrada.&lt;br /&gt;-Mas isso não são coisas de gente letrada, Seu Bubu; são coisas de todos nós que sofremos a exploração na pele.&lt;br /&gt;-Na pele e na barriga, não, camarada? – era João Bodó que acabava de chegar sem ser notado, provocando, de imediato, boa gargalhada.&lt;br /&gt;-Quem é esse pai’d’égua, Tibúrcio?&lt;br /&gt;-Eu sou fiscal do Banco do Brasil e pelo visto o senhor é João Bodó.&lt;br /&gt;-João Bodó, mas sem o “senhor”.&lt;br /&gt;O duplo sentido da resposta de João provocou nova risada entre os dois.&lt;br /&gt;-Por estas bandas só vem quem tem negócio ou tá fugindo da polícia. Qual é o seu “negócio”?&lt;br /&gt;-Formalidades burocráticas e autárquicas, nada mais. Às vezes, um cafezinho e um dedo de boa prosa.&lt;br /&gt;-Ah! eu sei: safadezas de gerente e fazendeiros, né?&lt;br /&gt;-E como não?! Cá pra nós, mas há um trinchinchim entre o gerente e o sub-gerente!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;84&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá do banco, num sabe?!... Pois é...&lt;br /&gt;-E que trinchinchim é esse? Diga logo.&lt;br /&gt;-Sabe?... O negócio acontece mais quando se trata de pequeno ou médio agricultor. Você sabe: geralmente gente pouco esclarecida e boca-aberta...&lt;br /&gt;João Bodó apurou ainda mais os sentidos e o fiscal continuou:&lt;br /&gt;-O pobre chega e faz o cadastro; aí já um bom dinheiro e um bom tempo perdido com papelada inútil; pede o empréstimo, o gerente diz que não e coisa-e-tal... Por trás, vem o sub-gerente, que já tá combinado com o gerente, e diz pro coitado: “Se me dá 10%, eu dou um jeitinho de sair o empréstimo”. E o coitado tem que dar mesmo! E o empréstimo sai, mas com, além de juros e correções já descontados, o desfalque de 10% do valor bruto! Porém, no próximo fim de semana tem churrasco na casa do gerente ou do sub.&lt;br /&gt;-Pois é... Quem tem a quem roubar, que roube. O povo é que se cuide.&lt;br /&gt;-Esse governo é o melhor do mundo, João...&lt;br /&gt;-Pra os ricos; mas desde que os ricos roubem e “paguem seus impostos em dia”, aos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;85&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;generais e essa corja ditatorial que aí estão instalados desde 64.&lt;br /&gt;-Exato! É o que eu sempre tenho dito. Você é dos meus, cabra!&lt;br /&gt;Porém, com cinco dias passados, Egberto José de Mesquita já não era mais o fiscal do Banco do Brasil; mas como o fato se deu, não se sabe explicar, a não ser com o dito popular que corre os sertões: “Mato tem olho e parede tem ouvido”.&lt;br /&gt;Tibúrcio, quando soube do fato, comentou:&lt;br /&gt;-Quem defende os pobres são vistos por esses filhos da besta-fera como bandidos. É por isso que já tentaram matar João Bodó não sei quantas vezes. Só porque o coitadin do fiscá deu uma palavrinha por nós, cortaram o emprego do tadin. Vai lá que era o único ganha-pão da fiarada do coitado!&lt;br /&gt;E o era mesmo!&lt;br /&gt;No outro dia Egberto José de Mesquita chegava em Vila Nova, com a mulher, a sogra e a filharada.&lt;br /&gt;Procurou por João Bodó e tiveram uma conversa bem demorada. Porém, sobre o quê é&lt;br /&gt;que jamais se soube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;86&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Bodó e Egberto juntaram as duas famílias em uma só casa e nunca mais foram vistos.&lt;br /&gt;Soube-se depois que as famílias recebiam dinheiro pelo Correio de Sousa; e alguns até diziam que o dinheiro vinha do exterior. Outros iam além e determinavam:&lt;br /&gt;-Vem de Cuba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;87&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que Egberto e João Bodó tiveram participação na guerrilha do Araguaia, porém, não vi – não sei. Sei que eles estavam em Alagamar, e isto eu sei porque cheguei a vê-los lá, como posseiros. Não como “agitadores”, mas sim como redentores de dezenas de trabalhadores camponeses que, como os demais, não tinham ainda a consciência de que juntos e organizados são fortes e invencíveis.&lt;br /&gt;João Bodó e Egberto se encarregaram do árduo trabalho de conscientização. A presença de Dom José Maria Pires facilitou o trabalho dos dois...&lt;br /&gt;O interesse de Dom José pela causa daqueles camponeses não deixa de ter sido uma valiosa força moral para aquele povo. A posição de Dom José Maria Pires não representava a posição da igreja católica que, pelo contrário, reprovava-a. E essa mesma igreja hoje diz que “estava ao lado dos camponeses de Alagamar”, mas é que, como sempre, ela está ladeando os que triunfam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;88&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem também que, em Alagamar, o nome de João Bodó era Pedro Gerônimo e o de Egberto era Belarmino Pereira. O certo é que boatos não faltaram. Uns, glorificavam João e Egberto; porém, outros os censuravam, principalmente por terem abandonado as famílias.&lt;br /&gt;Um jornal de João Pessoa chegou a publicar em editorial que, entre os posseiros de Alagamar, havia provavelmente a infiltração de comunistas, e que o “elemento conhecido por Pedro Gerônimo” era “suspeito”; e afirmava o editor ter em seu poder vários poemas do “Sr. J. B.”, e que aquele “falso Pedro Gerônimo” teria feito “melhor carreira na literatura do que como agitador”.&lt;br /&gt;Preterição a parte, mas é desnecessário dizer que tal jornal, reacionário como tal, era da União: órgão de propaganda do governo.&lt;br /&gt;João Bodó leu aquela seboseira e comentou para si mesmo:&lt;br /&gt;-Um dia, quando eu morrer de fome, esses imbecis irão dizer que me eternizei nas letras. Canalhas é o que são! Entreguistas da Pátria! Defensores das multinacionais e sugadores dos patrícios!!!! Bonecos cocacolizados,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;89&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nylonizados, norteamericanalhados... Mercenários; vende-pátrias e testas-de-ferro do capital estrangeiro é o que são!!!!&lt;br /&gt;João silenciou, quase sufocado de revolta e indignação...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;90&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XIV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Questão de tempo, Maricô. É só uma questão de tempo...&lt;br /&gt;-“Questão de tempo, Maricô”! – Dona Maricô arremedou Seu Amaro, num gesto de impaciência, e continuou:&lt;br /&gt;-Não é de hoje que você vem nessa conversa fiada de que no fim do mês nós vamos embora; e entra mês e sai mês e nada!...&lt;br /&gt;-Mas também não precisa ficar nessa latumia todo santo dia não. E pra lhe falar a verdade, se aparecesse uns seis cabras por aqui, da marca de João Bodó e Egberto, eu não iria sair daqui nunca!&lt;br /&gt;-E o que tem a ver?...&lt;br /&gt;-Ora!... A gente ia levantar o povo e se apossar das terras, que é disto que a gente precisa: da terrinha da gente mesma pra trabalhar. Nem que seja a bala, um dia a gente consegue!&lt;br /&gt;-Amaro! Acaba com isso, homem de Deus. Nós já estamos velhos demais pra essas coisas. E não é mais como quando você tinha seus trinta e poucos anos, foi lutar pras bandas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;91&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Princesa não. Ali, você era cabra disposto que nem boi fogoso; hoje, é um caco de gente.&lt;br /&gt;-Maricô... Eu morro, o sangue dá no meio da canela mas não deixo de reconhecer que João Bodó tá certo. Temos que lutar com unhas e dentes contra esses exploradores da gente, porque só esperar por Deus já chega! E nos meus valha-me Deus só me acudiram os vermes. É preciso lutar, Maricô, mas lutar com ideal. E chega de servidão! Mas chega mesmo, sabe?&lt;br /&gt;-Tá... você é quem sabe. “É melhor um desengano cedo do que um arrependimento tarde”. Já no fim da vida e agora quer fazer loucura.&lt;br /&gt;E, depois de respirar profundamente, Dona Maricô continuou:&lt;br /&gt;-O tadin do Cícero passou oito anos no meio do mundo, sem parente nem aderente, sofrendo que nem jirico, privado até de dar notícia ou receber notícias da gente... Quando é agora o coitado manda um escrito dizendo que vai se formar em doutor advogado este ano... Tanto esforço, tanto gosto, e agora você quer estragar a festa do pobrezinho. Não, Amaro!! Tenha dó daquele vivente. Eu sei que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;92&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o maior prazer dele é ouvir você dizer de boca cheia: “Eu tenho um filho doutor”. Você já tá mesmo na idade de caducar, Amaro, mas isso não é caduquice não, é loucura! Loucura, Amaro, pura loucura.&lt;br /&gt;-Que adianta, Maricô, eu ter um filho doutorado e o meu semelhante faminto, doente, sugado e esfarrapado? E você fique sabendo que se ele se doutorar for pra não defender o pobre oprimido, que ele nem me apareça.&lt;br /&gt;-Amaro! – Dona Maricô chamou a atenção de Seu Amaro para a gravidade do que ele acabara de dizer.&lt;br /&gt;-Pois é!... Se não for pra defender os direitos do pobre, eu prefiro Raimundinho com uma foice na mão do que todos os advogados do mundo, com canetas em riste, a serviço desses burgueses exploradores de homens.&lt;br /&gt;-Mas o Cícero não vai ser assim. Ele tem o seu sangue, Amaro. Ele sofreu como a gente, portanto ele sabe o que pobre sofre e não vai trair o seu povo não.&lt;br /&gt;-Melhor que não traia, pois se trair, eu nunca mais lhe boto a bênção! Para mim é um&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;93&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dedo que cortei e joguei fora.&lt;br /&gt;Nisto, entra Mariquinha com uma carta na mão:&lt;br /&gt;-A bênção, Pai... A bênção, Mãe... Itamar Cachacinha trouxe esta carta pro senhor. Veio da capital.&lt;br /&gt;-De quem é? Não tenho nenhum conhecido pras bandas de João Pessoa. Tinha uma parente, prima já longe; dessas que a gente diz que é parente por consideração; ricursada, lá, isso é verdade, mas esse povo não sabe nem se a gente existe (e também é um favor, pois não quero aproximação com burguês)... Mas vê lá de quem é, minha filha...&lt;br /&gt;-É de um tal de Pedro Bento. O senhor quer ler ou quer que eu leia?&lt;br /&gt;-Oxe! E você pensa que eu enxergo mais essa letrinhas miúdas assim? Pode ler você mesma.&lt;br /&gt;Seu Amaro encostou-se mais perto de Dona Maricô e sussurrou-lhe ao ouvido:&lt;br /&gt;-Tadinha! A bichinha já vem trazer porque sabe que eu não enxergo mais essas coisas, né, Maricô?&lt;br /&gt;É mesmo!...&lt;br /&gt;E riram os dois numa alegria incontida e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;94&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aberta.&lt;br /&gt;Mariquinha desconfiou:&lt;br /&gt;-Que foi?...&lt;br /&gt;-Nada não. As besteiras de teu pai, mesmo.&lt;br /&gt;-Vamos, minha filha, leia. – relutou Seu Amaro, um tanto impaciente e ansioso.&lt;br /&gt;Mariquinha rasgou o envelope e leu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Camarada Amaro,&lt;br /&gt;saudações!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de poder te dizer pessoalmente o que passo a te dizer, agora, através desta missiva. Mas, infelizmente, me é impossível no momento.&lt;br /&gt;Sei que aí, em Vila Nova e redondezas, já me têm como morto, porém, não tão morto!&lt;br /&gt;Amaro! Estive em outras terras; vi outros povos que, na verdade, são iguais a nós: trabalham, enricam cada vez mais os patrões e morrem de fome.&lt;br /&gt;Há dias que estou aqui, mas como no nosso Brasil os homens de bem têm que negar a sua verdadeira identidade, enquanto que os oportunista, corruptos e ladrões esnobam com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;95&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as riquezas do povo, eu tive que adotar vários nomes falsos para sobreviver.&lt;br /&gt;Sabes, Amaro, eu nunca havia chorado por mim mesmo, não sabes? Mas hoje eu chorei por este morto que ninguém chora. E chorei tão profundamente como não havia chorado nem pela morte do Padrinho Juvêncio. E esta foi, Amaro, a primeira vez que chorei por mim mesmo: “o morto que ninguém chora”.&lt;br /&gt;Como posso te falar da vontade de ver o meu povo? Como, Amaro, se nossa gramática é curta?! Sou como o Nordeste sem chuva. E o que mais posso dizer-te, Amaro, é que realmente morri, pois morro a cada vez que sei que no meu sertão não choveu. Pois bem diz o poeta: “Chuva no sertão é um deus: fecunda tudo”.&lt;br /&gt;Quem pode reviver não vive de relembrar, meu caro Amaro. E eu não vou relembrar por mais tempo da nossa querida Vila Nova, pois a qualquer hora, quando me vier na veneta, eu bato aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Bodó.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;96&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu logo vi que só podia ser coisa de João Bodó. E se ele vier mesmo não vamos mais embora daqui não, Maricô.&lt;br /&gt;-Oxente! Por que, Amaro?&lt;br /&gt;-Porque isto aqui vai ser nosso, Maricô. Nosso! De nós que trabalhamos nesta terra, sol a sol, e que só um cabra como João pode libertar de tamanha escravidão. Deixa o Bodó chegar aqui que eu vou lhe mostrar o que um povo, faminto e escravizado, é capaz de fazer quando se rebela contra os seus exploradores.&lt;br /&gt;E virando-se para Mariquinha:&lt;br /&gt;-Minha filha também não queria sua terrinha pra trabalhar?&lt;br /&gt;Mariquinha juntou as mãos entre os joelhos, num gesto que denotava acanhamento, e respondeu profundamente:&lt;br /&gt;-Eu queria... E quem não queria, né, Pai?&lt;br /&gt;-Tá vendo, Maricô? Só você que não quer...&lt;br /&gt;-Quem não quer?! Eu?! Tu tá é doido. Todo mundo quer sua terrinha própria, eu sei, Amaro. O que eu num tô de acordo é que tu, nessa idade, põe-se agora querendo mudar o mundo!!!! Você quer mudar o mundo sozinho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;97&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amaro!!! Deixe que os outros façam a parte deles.&lt;br /&gt;-Certo... certo, Maricô! Quer dizer que você concorda que eu faça também a parte que me toca, né?&lt;br /&gt;-Não, Amaro; não! Eu disse que você já fez o que podia fazer.&lt;br /&gt;-Mas eu não fiz nada. Nunca fiz nada pelo meu povo; e não vou perder a única oportunidade de fazer, não, Maricô. Por nada no mundo...&lt;br /&gt;Dona Maricô apelou para a influência da filha, na esperança de despersuadir Seu Amaro daquela obsessão medonha:&lt;br /&gt;-Minha filha, o que você acha? Você não acha, também, que seu pai tá com a bola virada?&lt;br /&gt;-Sei não!...&lt;br /&gt;E depois de uma breve pausa:&lt;br /&gt;-Se eu disser, mãe não fica com queixa não?&lt;br /&gt;-Não, minha filha; pode dizer.&lt;br /&gt;-Acho que pai tá certo. É preciso fazer alguma coisa, mãe, e até hoje ninguém fez nada.&lt;br /&gt;-Mas minha filha... - Maricô falou como&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;98&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;incrédula de que a sua filha estivesse de acordo com aquela “aventura louca” de Amaro, e continuou, desconsolada:&lt;br /&gt;-Mas logo seu pai, minha filha?!?! Logo seu pai?! Já velho como tá; fraco, nesse estado... – apontou para o marido e continuou – é loucura! Vamos lá que esse negócio de reforma agrária seja bom pra gente, mas seu pai sozinho não vai conseguir não, minha filha. Vão é matar seu pai, como já tentaram matar João Bodó, sei lá quantas vezes.&lt;br /&gt;-Logo eu, Maricô! Logo eu! E não é loucura não. Não é desespero não. E não é porque não tenho nada a perder mais na vida, e sim, porque com isto nós só temos a ganhar. E eu não quero morrer escravo não, Maricô! Eu quero morrer livre; livre, Maricô! Livre como um riacho que desce serrote abaixo! Livre como o galo-de-campina anunciando, na madrugada, o novo dia que vem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;99&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nordestino é aquele homem que, acostumado com a caatinga, se rasgando nos espinhos de jurema, convivendo com dois monstros vorazes: o patrão e a seca, e, como todo brasileiro, sofrendo a influência degradante do estrangeirismo “made in USA” (usa, abusa e lambuza mesmo!), conseguiu, incrivelmente, conservar o que de mais puro e íntegro há na espécie humana, que é a simplicidade.&lt;br /&gt;O sertanejo do Nordeste é, além da grandiosidade peculiar do nordestino, aquele homem que se sente infinitamente feliz quando ouve do compadre, ou lhe diz com a voz mansa e profunda:&lt;br /&gt;-Este ano eu tirei a conta com o patrão.&lt;br /&gt;-O riacho tá que não dá passagem.&lt;br /&gt;Ou ainda:&lt;br /&gt;-O roçado tá de cobrir um homem.&lt;br /&gt;O Nordeste é, indiscutivelmente, o celeiro da cultura brasileira. E dois extremos contribuem enormemente para tal: ou se dedica integralmente à cultura ou se mofina no seu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;100&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;roçado. E isto acontece infalivelmente.&lt;br /&gt;Emigrar não é verbo para o bom nordestino. Os que daqui se vão são os incapacitados de viver condignamente aqui. Emigra, principalmente para São Paulo, a escória da lavra nordestina, pois aí, centro da degradação do homem e ascensão do capital e das máquinas conviverão muito bem.&lt;br /&gt;São estes que, quando em São Paulo, têm vergonha de dizer-se nordestinos, para felicidade e glória do Nordeste.&lt;br /&gt;Não sabem estes que São Paulo é a entranha exposta do Brasil para o capital estrangeiro e portões escancarados às multinacionais. Não sabem estes que, apesar dos pesares, o Nordeste é, com certeza, o maior reservatório da cultura nacional.&lt;br /&gt;Não há nada mais alegre, mais sublime e mais envaidecedor para um nordestino do que ouvir, vindo da mata verde, o som pungente de um chocalho: tengo-lengo, lengo-tengo; tengo-lengo, lengo-tengo; e, em seguida, o aboio plangente de um vaqueiro saudoso:&lt;br /&gt;-Fasta pra lá, vaca magra! Êh! Te ajeita, boi Marujo! Êeeehhhhhhhhhaaaaa!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;101&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lugar de nordestino é, indubitavelmente, no Nordeste, onde ele, apesar das condições desumanas em que vive, tem o convívio humano e dignificante do vizinho, do compadre e dos familiares. Porque nordestino em terras alheias é sempre visto como um troço qualquer, cheio de lombrigas, de pobreza contagiante e que só serve mesmo para ser explorado.&lt;br /&gt;Foi pensando assim, possivelmente, que Seu Amaro desistiu, por várias vezes, de deixar o seu torrão natal. E também não seria agora que ele iria partir não. Longe dele tamanha fraqueza!&lt;br /&gt;Foi absorto nestes pensamentos que Seu Amaro começou a ouvir o rádio tocar a “TRISTE PARTIDA”, cantada por Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Foi até ao rádio, abriu-lhe mais o volume e, na proporção em que ouvia aquele hino, chorava mais e mais, como se fosse a história de sua própria vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Trabaia dois ano, treis ano e mais ano,&lt;br /&gt;E sempre nos prano de um dia vortá.&lt;br /&gt;Mas nunca ele pode – só vive devendo,&lt;br /&gt;E assim vai sofrendo – é sofrer sem parar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;102&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguma notiça das banda do Norte&lt;br /&gt;Tem ele por sorte o gosto de ouvir&lt;br /&gt;Lhe bate no peito saudade de moio,&lt;br /&gt;E as água dos óio começa a cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mundo afastado, ali vive preso;&lt;br /&gt;Sofrendo desprezo, devendo ao patrão.&lt;br /&gt;O tempo rolando, vai dia e vem dia&lt;br /&gt;E aquela famia não vorta mais não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Se não volta, não vou!&lt;br /&gt;Seu Amaro desabafou como se falasse para uma multidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Distante da terra, tão seca mas boa,&lt;br /&gt;Isposto a garoa, a lama e o paul,&lt;br /&gt;Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo&lt;br /&gt;Viver como escravo no Norte e no Sul.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-“Faz pena o nortista, tão forte e tão bravo, viver como escravo no Norte e no Sul”.&lt;br /&gt;Seu Amaro repetiu aqueles versos tão amargos de cantá-los que é impossível dizer da amargura de vivê-los; e quando ele estava enxugando as lágrimas dos seus olhos mortiços, semi-opacos e baços pelos anos, ele ouviu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;103&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma voz que não lhe era estranha:&lt;br /&gt;-Tá chorando, Seu Amaro?!&lt;br /&gt;-Tô reconhecendo essa voz.&lt;br /&gt;Seu Amaro colocou a mão espalmada sobre os olhos, para facilitar-lhe melhor a visão, porém, a súbita claridade da porta e as lágrimas que ainda borbulhavam, não lhe permitiram distinguir perfeitamente de quem era aquele vulto. Levantou-se e caminhou em direção da porta, mas o vulto sumira. Saiu até à latada mas também não viu ninguém.&lt;br /&gt;-Será visagem? Era só o que me faltava!&lt;br /&gt;Seu Amaro voltou para a sala já um tanto intrigado com aquele mistério. Sentou-se novamente em sua espreguiçadeira e ouviu aquela voz outra vez:&lt;br /&gt;-Tava chorando, Seu Amaro?!&lt;br /&gt;-Olha aqui, ô menino! eu não sou muito chegado a esses pantins bestas não, ouviu?! Quando vou aí, você corre; volto e você reaparece... Isso é coisa de moleque, sabe?&lt;br /&gt;-Mas por que Seu Amaro tava chorando?&lt;br /&gt;-Dê-se a conhecer que eu digo. Se quiser entrar, entre; se não quiser, pode ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;104&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Quer dizer que não tá mais me reconhecendo, Seu Amaro?&lt;br /&gt;-Pra lhe ser franco, eu não tou é lhe vendo. Só vejo um vulto, assim: meio apagado. Mas é por conta da claridade da porta.&lt;br /&gt;-Já ouviu falar em Pedro Gerônimo?&lt;br /&gt;-Pra bem dizer, já ouvi falar d’uns quantos e conheço outro tanto. Por quê?&lt;br /&gt;-Pois eu sou Pedro Gerônimo, Seu Amaro. Pedro Gerônimo de Alagamar; nunca ouviu falar?&lt;br /&gt;-Já. E o que lhe traz aqui? Mas espere aí... O que se boatou por estas bandas é que o Pedro Gerônimo de Alagamar é o nosso João Bodó. Você tá caçoando comigo? Diga que tá.&lt;br /&gt;Seu Amaro se levantou e foi novamente até à porta; porém, desta vez o aborrecimento que já o dominava se transformou em alegria, só que sextilhões de vezes.&lt;br /&gt;Nem dava para acreditar no que seus olhos viam. Aquilo deveria ser alguma brincadeira de muito mau gosto, de algum vadio de Vila, pois Vila Nova estava tendo destas presepadas, desde que começou a crescer. E bem que dizem por aí que em cidade aparece de tudo quanto não presta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;105&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sussurrando assim, abriu a porta e chegou-se bem perto daquele vulto que, agora, sob a claridade da latada, se tornou perfeitamente visível. Mas mesmo assim, vendo claramente a figura do João, não foi possível acreditar no que seus olhos viam; e, para tirar a dúvida, abraçou aquele fantasma; e, com a força que ainda lhe restara de oitenta e tantos anos de trabalho duro e vida amarga, apertou bem aquela figura, como se quisesse, assim, comprovar que, de fato, não estava delirando.&lt;br /&gt;Mas era verdadeiramente João Bodó! E não havia mais dúvida alguma, pois ouviu perfeitamente suas costelas estalarem com o abraço tão apertado que lhe deu e sua voz firme reclamar:&lt;br /&gt;-Você quebra meus ossos, Amaro!!!&lt;br /&gt;-Sabe que eu já lhe tinha como morto, até eu receber sua carta?&lt;br /&gt;-Da maneira covarde e bárbara como mataram minha filha, não era pra menos, Amaro.&lt;br /&gt;Pois é... Vamos entrar, João.&lt;br /&gt;Parecendo um monumento, no meio da porta, Seu Amaro gritou para dentro de casa:&lt;br /&gt;-Adivinhe quem tá aqui, Maricô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;106&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Mas era só o que me faltava mesmo! E eu tou adivinhando agora, Amaro?!&lt;br /&gt;-Veja se acerta quem é. É a pessoa que eu gosto mais neste mundo. Adivinhe...&lt;br /&gt;-Oxe! e eu pensei que a pessoa que você gosta mais no mundo fosse eu. Depois de velho deu pra arranjar “contrabando”?&lt;br /&gt;-Essa mulher é assim mesmo, João: só entende as coisas pelo contrário.&lt;br /&gt;-É claro que é depois da senhora, Dona Maricô.&lt;br /&gt;-João Bodó! Reconheci só pela voz. Quanto tempo, hem, João?!?!?!&lt;br /&gt;-Pra mim, foi uma eternidade, Dona Maricô!&lt;br /&gt;-Eu dou por visto... Só penso no coitado do Cícero, jogado no meio-do-mundo, sem parente nem aderente. Deve sofrer que nem couro de pisar fumo.&lt;br /&gt;-Besteira. Vai lá que ele nem se lembra que a gente é viva. – suspirou Seu Amaro, como se tirasse um grande fardo de cima de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;107&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO XVI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Será do Nordeste que sairá a verdadeira Revolução brasileira. Disto eu não tenho dúvida. E será, de fato, uma Revolução feita pelo povo. Querem fatos? Pois bem. A única Revolução popular (e atentem bem), a única Revolução popular, feita no Brasil, nasceu aqui, na Paraíba, mais precisamente em Princesa Isabel. Não quero, aqui, questionar o seu valor político-ideológico; quero, sim, lembrar que “o povo é como um rio em fúria”, principalmente quando esse povo é nordestino e, mormente, quando esse povo está faminto e sedento de justiça e liberdade. Ah! querem fatos, não é? Pois lá se vão... No ano de l979, foi seca. Em l980, a mesma coisa; mas em 1981, já não é tão-somente “a mesma coisa”. A seca se repete pelo terceiro ano consecutivo, mas agora “a coisa é outra”. E isto é outra história!&lt;br /&gt;Eram estas as palavras de João Bodó, sempre que havia alguém para lhe ouvir – e sempre havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;108&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o dia 19 de março de cada ano, o nordestino mantém vivas todas as suas esperanças. Este ano de 1981, porém, a história é outra. Já nos primeiros dias deste ano, milhares de camponeses famintos e dispostos a tudo, saem do seu ostracismo à busca do precioso pão para matar a fome que, aos poucos, mata os filhos.&lt;br /&gt;No começo de março de 1981, camponeses famintos vão à cidade mais próxima, com uma única finalidade: conseguir comer, pois têm fome. Mas para isto estão dispostos a tudo, como sempre está o bom nordestino.&lt;br /&gt;Ceará, março de 1981. Piquet Carneiro é a primeira cidade que experimenta da força de um rio em fúria: um povo faminto. Depois, Acopiara, Senador Pompeu, Monbaça, Barro, Missão Velha, Russas, Barbalha, Milagres, Mauriti, Aurora e outras...&lt;br /&gt;Em Pernambuco, o mesmo quadro. Na Paraíba, a expectativa é geral, como nos demais estados do Nordeste.&lt;br /&gt;Em meio a este quadro macabro, onde a fome, a sede, a miséria, a nudez; injustiça social e abutres poderosos que ditam o “destino” deste povo tão sofrido!!... Em meio a toda esta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;109&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nojenteza, o nordestino é, como se tudo isso aí fosse pouco, vítima do aviltamento de um imbecilóide estatal que declara publicamente, e toda imprensa publica, que no Nordeste não há fome e sim, subversão provocada por agentes comunistas.&lt;br /&gt;-No Nordeste há agentes provocadores infiltrados, isto sim.&lt;br /&gt;Foram estas as palavras do ministro do interior, cujo nome me recuso citar para não bostificar este trabalho que levo tão a sério e é um pedaço de mim mesmo.&lt;br /&gt;A seca do Nordeste sempre foi uma indústria para aumentar os currais eleitorais e enricar ainda mais os “coronéis” (só que agora são os generais), e matar de fome e sede os pobres.&lt;br /&gt;Amanhã ou depois irão dizer que João Bodó era um dos “agentes provocadores” das invasões ocorridas em diversas cidades de quase todos os estados nordestinos, na primeira quinzena de março de 1981, por milhares e milhares de camponeses esfomeados, sofridos e sugados.&lt;br /&gt;Mas, infelizmente, este pré-movimento de reivindicação e libertação popular, feito por&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;110&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;milhares de camponeses do Nordeste, coincidiu com um fato trágico e amargo, que deixou João Bodó desorientado por vários dias.&lt;br /&gt;No dia dois de março, quando Seu Amaro soube que vários moradores da redondeza estavam reunidos em Vila Nova, dispostos a “atacar” a cidade, ele saltou de sua espreguiçadeira e gritou a plenos pulmões:&lt;br /&gt;-Eu vou! Eu também voooooooouu! Ei! Esperem por mim! Eu também vou! Não!... Não!... não vão sem mim! – Amaro abriu a porta e saiu correndo.&lt;br /&gt;Dona Maricô veio até a porta, quando viu Amaro correndo loucamente pelo pátio.&lt;br /&gt;-Que foi, Amaro? Que foi, hem?&lt;br /&gt;Porém, não teve nenhuma resposta.&lt;br /&gt;Maricô tentou, inutilmente, alcançar o marido. Já exausta, parou e ficou contemplando-o bestialmente, já que nada mais podia fazer. Olhou para um lado e outro na esperança de que, naquele momento, aparecesse alguém.&lt;br /&gt;-Não chega uma só alma vivente!... Triste de quem mora nestas brenhas! – lamentou-se Dona Maricô.&lt;br /&gt;Amaro, porém, continuava em desvario, indiferente aos anos e aos apelos da mulher:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;111&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eu vou também! Esperem por mim.&lt;br /&gt;E corria mais; e gritava mais; e pulava mais; e ria mais:&lt;br /&gt;-Chega, João, chega! que eu já tou me revoltando também.&lt;br /&gt;Seu Amaro ria, pulava, gargalhava e quis cantar alguma canção, e cantou alguma coisa, que deve ter sido “MULHER RENDEIRA”. Foi até a latada e retirou uma vara e saiu correndo outra vez e gritando; e rindo; e gargalhando; e pulando...&lt;br /&gt;-Tá vendo estes calos, João?! Olha bem para estas mãos (que nem parecem mãos!). Deformadas!... não pegarão mais na enxada, João! Pegarão no fuzil, para fazer Justiça! Eu sonho com Princesa... Eu sonho com a Revolução de 30... Eu sonho com uma nova Revolução! Eu sonho com Canudos! Viva Canudos! Viva CANUDOS!!! Viva PALMARES!!! Viva ZUMBI DOS PALMARES!!! Pan! Pan!... Pan... A terra é nossa! A terra é de quem trabalha na terra! A terra é nossa! A terra é nossa, Maricô! Pan! Pan! Eu amo esta terra; esta terra que reguei com o meu suor; esta terra onde plantei esperanças e colhi amarguras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;112&lt;br /&gt;ANACORETAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amaro caiu, como se quisesse abraçar a “sua terra”, e, naquela posição, seu sonho morreu para sempre.&lt;br /&gt;Já no cemitério, quando ia receber o último adeus dos amigos e familiares, e João se aproximou para o seu adeus final, dizem que Seu Amaro riu quando João Bodó lhe disse:&lt;br /&gt;-“SÓ MORREM AS CAUSAS PELAS QUAIS NINGUÉM MORRE”!!!!! Vai, Amaro; a nossa luta continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;113&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONÇALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÍNDICE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO:.............................................PÁG.&lt;br /&gt;I......................................................................13&lt;br /&gt;II....................................................................16&lt;br /&gt;III...................................................................23&lt;br /&gt;IV...................................................................31&lt;br /&gt;V....................................................................39&lt;br /&gt;VI...................................................................49&lt;br /&gt;VII..................................................................56&lt;br /&gt;VIII................................................................61&lt;br /&gt;IX...................................................................65&lt;br /&gt;X....................................................................72&lt;br /&gt;XI...................................................................77&lt;br /&gt;XII.................................................................82&lt;br /&gt;XIII................................................................88&lt;br /&gt;XIV................................................................91&lt;br /&gt;XV...............................................................100&lt;br /&gt;XVI..............................................................108&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1921936460589028745-2354243941300590877?l=fantenorgonsalves.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/feeds/2354243941300590877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=1921936460589028745&amp;postID=2354243941300590877' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/2354243941300590877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1921936460589028745/posts/default/2354243941300590877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fantenorgonsalves.blogspot.com/2007/05/anacoretas.html' title='ANACORETAS'/><author><name>F. ANTENOR GONSALVES</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02519332790788869772</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_Mhw3Z-hDuLE/Ro_8tI_qtiI/AAAAAAAAAAc/kJebOGEu7pw/s72-c/capaANACORETAS.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1921936460589028745.post-9144439184881576628</id><published>2007-05-09T01:52:00.001-07:00</published><updated>2008-05-03T05:59:02.568-07:00</updated><title type='text'>LIS, TEU CORPO É MINHA PÁTRIA (ATRAVÉS DAS SOMBRA - NA CERCA DE GIZ)</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;LIS, TEU CORPO É MINHA PÁTRIA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);font-size:180%;" &gt; (ATRAVÉS DAS SOMBRA - NA CERCA DE GIZ)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Ao heróico – indomável mesmo! – povo cubano, em especial ao FIDEL, um dos maiores fazedores de história da humanidade, em todos os tempos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIS,&lt;br /&gt;TEU CORPO É MINHA PÁTRIA&lt;br /&gt;(ATRAVÉS DAS SOMBRAS – NA CERCA DE GIZ)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. ANTENOR GONSALVES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só me punja a saudade da pátria imaginária.”&lt;br /&gt;Carlos Drummond de Andrade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          ...ficaram terríveis, profundas e indeléveis cicatrizes no meu corpo e na minha memória, e tanto que às vezes vejo sangue e pus nestas páginas que agora vos ofereço para vosso deleite intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Que eu não sou o dono da verdade é provável, mas que eu não sou serviçal da mentira é indiscutível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Esta é uma obra baseada em fatos; qualquer semelhança com ficção é mera ficção mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          “A liberdade não é algo a ser conquistado. Ela depende de nossa consciência.”&lt;br /&gt;Provérbio do povo Maia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          “Habian bloqueado todas las salidas, pero él escapó por una de las entradas.”&lt;br /&gt;Ângel Fechera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Para ELIANE, minha menina de rua, com orgulho por sua dignidade e honra para a classe trabalhadora (com documentos e nome falsos para sobreviver comigo na Amazônia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Para a família que me adotou após os trinta e por opção e liberdade escolhi: Macimino, Dorinha, Hélio, Mara, Cília, Gilmar, Pedro, Delamare, Deizi (também como poetisa), Adélia, Gina, Leth, César, Tanane, Fablício e Camila (uma justa homenagem do Jorge ao Camilo Cienfuegos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       AMIGO A GENTE ESCOLHE, PARENTE NÃO!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Para SONINHA, que deu sua vida por minha vida!!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para todos que vão além do sonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nossos heróis não são os heróis dos livros.”&lt;br /&gt;(Janaína – não está nos livros).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM POEMA POR PREFÁCIO&lt;br /&gt;DENÚNCIA&lt;br /&gt;(Para todas as vítimas da injustiça)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde “sempre livre”&lt;br /&gt;é absorvente para higiene feminina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde a justiça é cega,&lt;br /&gt;o parlamento é mudo e o executivo é surdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como já disse, eu sou de um país onde a “justiça é cega”:&lt;br /&gt;(viste o caso dos inocentes condenados a vinte anos de prisão&lt;br /&gt;nos cárceres da burguesia,&lt;br /&gt;por interesses escusos de juízes também cegos e escusos?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde “liberdade” é nome de praça&lt;br /&gt;(e o pior é que em meu país a praça não é do povo&lt;br /&gt;“como o céu é do condor”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde os três poderes são exercidos pelas três armas&lt;br /&gt;e o “quarto poder” é paramilitar:&lt;br /&gt;bichos encapuzados metidos nos porões,&lt;br /&gt;agindo na noite – torturando, trucidando, matando...&lt;br /&gt;matando... matando... matando... infinitamente matando!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde é tão grande a quebradeira&lt;br /&gt;que os mandatários governam por “emendas”&lt;br /&gt;ou simplesmente decretam leis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde infância e marginalização se confundem nas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde policiais e marginais exercem a mesma atividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país tão frágil e inseguro que um simples operário&lt;br /&gt;(poeta nas horas vagas – subversivo todas as horas!)&lt;br /&gt;pasmem vocês!&lt;br /&gt;foi acusado de ameaçar a “segurança nacional” da pátria-colônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou de um país onde, não faz muito tempo, me proibiram ser do&lt;br /&gt;“meu país”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hay mujeres que amo&lt;br /&gt;cuando tú no estás conmigo&lt;br /&gt;(el hombre necesita dosis de amor y fantasía).&lt;br /&gt;Y aunque sólo las ame en el poema&lt;br /&gt;no deja de ser amor.&lt;br /&gt;Te prevengo por si algún día las descubres entre mis cosas.&lt;br /&gt;Esas son mis mujeres de papel.&lt;br /&gt;Mis amores de caligrafía y soledad.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;G. Gómez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIS&lt;br /&gt;(NO MUNDO DOS TUIUIÚS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Era uma jovem bastante bonita para os padrões estabelecidos; e como se a beleza física não lhe bastasse, era extremamente simpática, amável e culta. E grande foi minha surpresa quando ela me abordou:&lt;br /&gt;          – Me empresta tua caneta, por favor? (pronunciou o por favor pausadamente, com um sorriso discreto, porém marcante).&lt;br /&gt;          Nunca vira antes essa jovem, mas me parecia bastante familiar, tanto sua fisionomia quanto a intimidade com que ela me tratava. E, a partir daí, nossos encontros se fizeram bem freqüentes e, por mais que ela se esforçasse para transparecer o contrário, sempre eu tinha a impressão de que ela premeditava nossos encontros. No início, quis evitá-la, mas desisti, pois concluí que todo meu receio e preocupação com segurança não passavam de paranóia de clandestino de esquerda, e cedi aos encantos e amabilidades da bela e inteligente jovem. A nossa amizade já parecia antiga...&lt;br /&gt;          Certa noite, por volta das 23:00 h, o telefone do escritório tocou; e ao meu já habitual boa noite tive um longo silêncio como resposta. Aguardei um pouco mais e monologuei: já que ninguém quer falar, não tenho por que querer ouvir, e desliguei. Em poucos minutos seguidos, tocou novamente o telefone e desta vez foi o do meu quarto. Detalhe intrigante, pois pouquíssimas pessoas sabiam o número - somente algumas pessoas mais íntimas – e no próprio catálogo o telefone estava em nome de alguém que nada poderia sugerir ser meu. Corri ansioso para atender e intraduzível foi minha surpresa ao ouvir:&lt;br /&gt;          – Trabalhando a esta hora, hem?! – o tom me pareceu desaprovador, repreensivo; e a voz, familiar.&lt;br /&gt;          – Falta de opção!... Sugere algo melhor, Lis?&lt;br /&gt;          – Como sabe?!... nunca nos falamos por telefone...&lt;br /&gt;          – Não lhe perguntei como sabe o meu telefone, e isto é – no mínimo – curioso; lhe perguntei se tem algo a sugerir para o momento, melhor que trabalhar...&lt;br /&gt;          Foi esta a nossa primeira noite, e foi assim o início do nosso relacionamento tempestivo, mesclado de loucuras e aventuras. No dia seguinte, fomos para Chapada dos Guimarães e nas semanas seguintes devastamos o Pantanal.&lt;br /&gt;          Nossas decisões eram quase irracionais: atendíamos aos instintos e quase sempre nossas atitudes eram impulsivas. Eu queria aquela aventura sem medir conseqüência, até que uma noite, numa embarcação no rio Paraguai – em pleno coração pantaneiro – notei que meus documentos estavam fora da ordem habitual que eu os mantinha. Desconfiei da tripulação mas concluí ser impossível, assim como também seria impossível qualquer outro passageiro entrar, sem ser notado, em nosso camarote. Restavam, então, as possibilidades de eu não lembrar que havia eu mesmo desordenado meus documentos e Lis – numa crise de curiosidade feminina – ter mexido, por mera curiosidade. Novamente me veio a questão da segurança pessoal e, mais uma vez, atribuí a preocupação a uma suposta paranóia de clandestino de esquerda. Fiz referência ao fato e ela disse com aparente indiferença:&lt;br /&gt;          – Apenas arrumei nossa bagagem. Ou não devia? Você não é dos que determinam o que uma mulher “pode” ou “não pode” fazer, não é?&lt;br /&gt;          Ora! Mesmo que fosse, com ponderações assim, quem haveria de assumir? Abracei-a, dei-lhe um beijo na testa, como ela gostava, e fomos para o convés e, abraçados, contemplamos a lua refletida na água turva do rio. O silêncio logo foi rompido por ela:&lt;br /&gt;          – O que você gosta de ler?&lt;br /&gt;          – Você está afirmando que gosto de ler! Como sabe?!&lt;br /&gt;          – Já leu tudo de Karl Marx e Frederico Engels, por exemplo, não foi? – ela nunca (ou quase nunca) respondia ao que eu perguntava, mas sempre cobrava uma resposta para suas embaraçosas perguntas.&lt;br /&gt;          Nada respondi... Eu estava demais intrigado para fazer qualquer coisa senão refletir. Ela, porém, ignorou meu silêncio e divagou – de forma provocativa para o debate, como se já soubesse que este era o meu ponto fraco – sobre filosofia, dando muita ênfase a PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE FILOSOFIA, de dois discípulos de Politzer. Teceu um assunto onde encaixou uma frase de Lênine “é melhor menos mas melhor” e quase não me deixava hiato para o diálogo. Era como se ela quisesse mostrar-me que dominava o assunto, e a mim só restava uma grande interrogação: por que tudo isso? Do âmbito filosófico, ela entrou de cheio na biografia de grandes revolucionários, dando muito destaque para Rosa Luxemburgo, Guevara, Mao Tse-tung, Samora Machel, Agostinho Neto, Ho Shi Min e Ramires Sanches – o Carlos Chacal -, e este detalhe me chamou muito a atenção: era exatamente a elite revolucionária que adotou a luta armada na forma de guerra de guerrilhas para a derrocada da burguesia do poder e a independência de seus respectivos países.&lt;br /&gt;          Não resisti e indaguei:&lt;br /&gt;          – Por que a preferência por estes?... São seus preferidos, não são?&lt;br /&gt;          – Você se preocupa muito em adjetivar tudo, até as idéias! Quem te disse que estes são meus preferidos?&lt;br /&gt;          Às vezes, ela me dava a sensação de que estávamos em permanente competição e, pior, que eu estava sempre perdendo. Era como se eu caísse sempre nas esparrelas que ela me armava. E não era o ranço machista de “perder para uma mulher”, era o dissabor de entrar em seu jogo, de deixar-me envolver sem o menor controle da situação. Sem o menor controle de mim mesmo.&lt;br /&gt;          Eu disse – como se estivesse a me desculpar – que não estava insinuando nenhuma preferência... que estava apenas surpreso pelo conhecimento que ela tinha, e este em especial... Como se ela percebesse alguma fragilidade minha, inclinou minha cabeça sobre seu ombro esquerdo e acariciou-me a face como quem protege uma criança indefensa. E era assim que eu estava me sentindo. E ela me tinha sob controle, desde minhas emoções até os meus atos, e isto era ainda mais apavorante para mim, acostumado que era a ser o dono da situação.&lt;br /&gt;          Senti-me seguro e insisti:&lt;br /&gt;          – Então, por que estes?... O que você sabe sobre mim e quem é você, afinal?!...&lt;br /&gt;          Ela sorriu, e o seu sorriso me machucou, pois me pareceu sarcástico. Ela percebeu e me abraçou forte e sussurrou doce e suavemente:&lt;br /&gt;          – Sou tua; é tudo o que sei. É tudo que me importa no momento.&lt;br /&gt;          – Só no momento? E quando o momento for outro?&lt;br /&gt;          Ela não respondeu. Preferiu abraçar-me mais forte e apoiou o seu rosto no meu. Senti seus olhos úmidos; a afastei de mim e exclamei:&lt;br /&gt;          – Está chorando!!!&lt;br /&gt;          – São duas lágrimas intrusas e inconvenientes, nada mais!&lt;br /&gt;          – E qual a razão das lágrimas? – insisti.&lt;br /&gt;          – As lágrimas não obedecem à razão; são intrusas e inconvenientes, já o disse! E nem sempre obedecem aos sentimentos. Se eu dissesse que foi algum ácido? Um mosquito, talvez... afinal, estamos em plena selva amazônica...&lt;br /&gt;          Não me convenceu. Continuei pensando que ela escondia o verdadeiro motivo de suas lágrimas, pois as lágrimas não acontecem por acaso e, concluí por dedução, se escondia o motivo era certamente algo que ela sabia que me magoaria muito. Daí em diante este enigma passou a ser demais torturante para mim: o que, vindo de Lis, me magoaria? Talvez eu nunca soubesse, principalmente por confissão dela. Tentei – com tudo que a retórica me permitia – persuadi-la para me contar, pois, argumentei em vão, se não fosse nada grave ela me contaria, e se não contava era porque ela tinha convicção de que iria me magoar.&lt;br /&gt;          – Não controlo teus pensamentos... Se é isso que você pensa... – retrucou, indiferente ao que eu pensasse ou deixasse de pensar, o que me deu a sensação (quase certeza) de que ela me tinha como um meio-débil-mental.&lt;br /&gt;          Houve um breve silêncio entre nós dois, quebrado apenas pelo barulho de alguns tuiuiús que se assustaram com nossa indesejável presença. Lis perguntou-me o que significava aquele barulho com a voz doce e suave que já a caracterizava sempre que me magoava, o que me dava a certeza de que ela me magoava de propósito. Envolveu-me o tórax com seus braços frágeis e pediu-me que a abraçasse forte. Por um momento eu tive a ilusão de que ela estivesse com medo, o que seria demais surpreendente, pois nunca Lis me dera o menor motivo para, sequer, eu imaginar que ela sentisse medo. Aproximou sua boca ao meu ouvido e sussurrou como uma brisa morna:&lt;br /&gt;          – Não quero, nunca, perder você! – sussurrou o nunca longamente.&lt;br /&gt;          – O que há?!... Está com medo?!...&lt;br /&gt;          – De quê? Estou apenas te amando; é tudo que estou sentindo.&lt;br /&gt;          – Do barulho dos tuiuiús...&lt;br /&gt;          – Ah! nem estava me lembrando mais... Era só curiosidade. E o que são tuiuiús? Você está inventando essa palavra esquisita, não é?&lt;br /&gt;          Não lhe respondi o que são tuiuiús, talvez pela vontade inconsciente de me vingar por ela nunca responder minhas perguntas. Ela inclinou a cabeça para trás, mantendo seus braços em torno do meu corpo e insistiu:&lt;br /&gt;          – O que são tuiuiús???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIS&lt;br /&gt;(UM XEQUE-MATE PASTORZINHO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Inverti as ligações da bobina defletora do monitor do computador, digitei o numeral 517, apertei a tecla enter e no cinescópio do monitor apareceu LIS. Imaginava eu que fosse deixá-la, no mínimo, curiosa. Ela, porém, com aquela naturalidade que parecia indiferença (ou indiferença que parecia naturalidade) observou:&lt;br /&gt;          – Isso é um computador! Há recursos suficientes para imprimir todo manancial do conhecimento acumulado pelos humanos... portanto, todo teu esforço foi inútil!&lt;br /&gt;          – Inútil, Lis?! A vida me ensinou que nenhum esforço é inútil. Eu quis, de maneira diferente, imprimir o teu nome... e não foi inútil, pois me deu prazer, me fez bem...&lt;br /&gt;          – Bobo!... estou apenas te mostrando que há maneiras mais práticas e rápidas de se fazer as coisas...&lt;br /&gt;          Ela fez uma breve pausa; com a mão esquerda sob meu queixo suspendeu minha cabeça, olhou-me profundamente nos olhos e disse:&lt;br /&gt;          – Sem conviver contigo, ninguém te imagina tão sentimentalóide! Sabes que o sentimento é proporcionalmente inverso à razão? – ela riu subtilmente e, paradoxalmente, era o seu riso o que mais me machucava.&lt;br /&gt;          Com um ligeiro e suave movimento da mão, e com o dorso da mesma, acariciou-me a face, fitando-me com ar grave – porém terno – ela falou como quem anuncia um xeque-mate pastorzinho:&lt;br /&gt;          – As minhocas têm cinco pares de corações e nenhuma cabeça.&lt;br /&gt;          Preferi ignorar as provocações de Lis, por duas razões óbvias: primeiro, eu já não tinha mais autoconfiança de tanto Lis vencer-me nas argumentações e, segundo, as questões científicas e ideológicas sempre nos traziam controvérsias; portanto, nos afastavam. Ademais, desde que passamos a morar juntos, eu não queria perder, por um só instante, os carinhos dela.&lt;br /&gt;          Àquela altura do nosso relacionamento – quando ela parecia saber tudo sobre mim – eu havia feito apenas uma descoberta sobre o comportamento de Lis: ela estava sempre pronta para tudo (e tudo era tudo mesmo!) que eu a procurasse e, com mais entusiasmo ainda, quando provocada; e assim era para discussões científicas, viagens, carinho, sexo, trabalho, esportes... era isto que ainda me dava uma certa sensação de domínio e, consequentemente, um pouco de autoconfiança, pois eu sabia que encontraria nela o que eu quisesse: a amante, a desportista, a companheira, a debatedora intelectual... para tal bastava que eu a provocasse.&lt;br /&gt;          Assim se iniciou o nosso primeiro dia em casa, ao retornarmos de nossas aventuras – ao que normalmente chamariam de lua-de-mel – quando soou a campainha, acompanhada de uma das palavras que mais têm despertado curiosidade e ansiedade no humano hodierno:&lt;br /&gt;          – Caaaaarrrrrrttteeeeeeiiirrroo!!!!!!&lt;br /&gt;          Saltamos de uma só vez e enquanto eu me calçava, ela já retornava com alguns envelopes sob o braço e um nas mãos, lendo com incontida curiosidade o que estava escrito por fora do mesmo. Porém, sem perceber a minha aproximação, colocou o envelope contra a luz, como se tentasse radiografar o conteúdo.&lt;br /&gt;          Já era grande minha curiosidade para saber que correspondência era aquela que tanto chamara a atenção de Lis, quando ela exclamou:&lt;br /&gt;          – Da Nicarágua!!!... Do Ministério de Educação da Nicarágua! Até aonde vão tuas ligações com movimentos internacionais?... de esquerda, claro!&lt;br /&gt;          Sugeri que ela mesma abrisse a correspondência, e, com incontrolável ansiedade, ela cortou a margem do envelope, lendo em seguida o conteúdo.&lt;br /&gt;          Seu rosto taciturno anunciava a bateria de indagações que eu estava prestes a enfrentar, pois Lis não se continha de curiosidade. “Por que da Nicarágua?”, “Ministério de Educação é só disfarce, não é?”, “Você é a favor da luta armada, não é?”, “até aonde vão tuas ligações com movimentos internacionais de esquerda?”, “...”, “...?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÓ BRANCO NO VENTILADOR DE VOCÊS&lt;br /&gt;ASSIM COMO GERVÁSIO:&lt;br /&gt;IRRECONHECIVELMENTE&lt;br /&gt;RENDADO DE BALAS!!!&lt;br /&gt;CARLA PATRÍCIA VIROU MEMÓRIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          É como uma necessidade fisiológica que eu quero vomitar estas memórias – estas terríveis memórias! -, assim como quem vomita a aguardente que passou da conta ou a comida indigesta do restaurantezinho da beira da estrada; eu quero vomitá-las todas: tanto as reminiscências dos momentos de prazer quanto as dos momentos de tortura... talvez na tentativa estrênua de me desligar do passado – de um passado que tenho sempre presente e que jamais consegui colocá-lo no meu pretérito e não consigo me livrar dele – mas sinto que conscientemente não quero (e certamente não posso) viver sem este passado sempre presente mas, paradoxalmente, impreterivelmente passado! Mas tenho esta necessidade fisiológica mesmo de pô-lo para fora, assim como quem quer se esvaziar para depois se fartar outra vez. Talvez esta não seja uma necessidade orgânica de se jogar fora o corpo estranho, mas de assumir de público aquilo que tem sido tão só e unicamente meu por tanto tempo. Quero expor minhas feridas; quero exibir (com orgulho) as minhas cicatrizes (todas, principalmente as mais íntimas); e como eu gostaria de chocar-vos com a exposição de minhas vísceras dilaceradas e de minhas chagas vivas e, deliciosamente, ver-vos contorcerem-se enojados com as feridas purpúreas e a purulência que hei de lançar em vossas caras... da forma mais estrambótica que me aprouver!&lt;br /&gt;          Quando a ciência falha, a psicanálise explica – eles explicam tudo! -, explicam até que aquele homem insandecido de fome, tendo chegado em casa e encontrado oito filhos agonizantes (de fome também!) após ter sido dispensado do emprego “por justa causa”, porém sem nenhum motivo, pegou um instrumento de trabalho e foi ao supermercado mais próximo e saqueou alimento... aquele ato de desespero não era uma questão sócio-político-econômica (segundo eles), mas sim “uma predisposição psíquica, por índole atávica, das sub-raças de QI pouco desenvolvido... etcétera-e-tal”; eles também explicarão o meu caso.&lt;br /&gt;          Neste momento, vem-me à lembrança o caso do operário Gervásio não-sei-de-que (datas não têm importância para mim e nomes próprios são referências fúteis, quando não, vaidades incontidas), e Gervásio que já estava demitido, juntamente com um seu amigo (como que eu sei que era amigo? Só porque deu na televisão?) – e bem que todos os trabalhadores deveriam ser amigos, mas infelizmente não são – e Gervásio, dois meses desempregado, a filhinha doente... na fila da Previdência disseram-lhe que já haviam acabado as fichas, Gervásio não resistiu ao convite do amigo (estavam desempregados) foram assaltar uma agência do Banco do Brasil (do Brasil?) – quem pode me garantir que é do Brasil? – e os dois sem experiência no ramo, pois trabalharam a vida inteira na roça e agora desempregados e armas na mão (o que antes fora instrumentos de trabalho!), mas sem jeito “isto é um assalto! Todo mundo no chão!” – foi assim que eles viram na televisão, num programa infantil da televisão, num programa educativo da televisão, num filme da televisão, numa novela da televisão – meio sem jeito, e a polícia infalível quando quer Baannn!!!!!! Baaannn! e Gervásio morreu crivado de balas (nem sei para que tanta bala, o homem já estava quase morto, bastava um empurrão) mas tinham que mostrar serviço e... Gervásio morreu!!! Crivado de balas!!!... seu amigo morreu! Foi tiro demais!! Morreram! Necropsia... pó branco nas entranhas do ex-operário GERVÁSIO CRIVADINHO DE BALAS DA SILVA (nem sei pra que tanta bala!!!)... pó branco nas entranhas do ex-operário Gervásio! Conclusão: o cara tinha ingerido cocaína, meu irmão!!!!!!!!! “Manda pro laboratório. Vamos analisar o teor de pureza!” A televisão anuncia: “operário qual nada (estava em moda a discussão sobre pena de morte – pra pobre, é claro), traficante de alta periculosidade. Bem feito! Um bandido a menos!” e o povo pensou (ainda não estou certo se o povo pensa, mas se a televisão disse não tem como não acreditar), o povo pensou que o cara era bandido mesmo... Veredicto popular: “culpado”. Sentença geral: “pena sumária foi bem merecida”... saiu o resultado da análise laboratorial: pó branco nas entranhas do Gervásio (operário assassinado com tantos tiros que foi um esperdício)... o pó branco era farinha!!!!!!!!!! Única coisa que Gervásio havia ingerido nas últimas vinte e quatro horas e aí a imprensa se omitiu (a livre imprensa de vocês se omite nas questões de justiça) e o pior é que não se pode pegar a televisão assim como se pega um jornal e fazê-la útil antes de jogá-la na lata de lixo. A imprensa se omite de tudo que não dá lucro – nem financeiro e nem ideológico. E sem remorso todos (principalmente os religiosos) esqueceram Gervásio e eu não o consigo esquecer; ele fica todo tempo me cobrando ação; e ele se confunde com minha sombra... Gervásio tem sido um fantasma para minha consciência... não queria admitir, mas me sinto cúmplice da vida-e-morte de todos os gervásios do mundo... e o pior é que não creio em psicanálise – já disse: psicanálise é o vácuo da ciência; é a pseudo ciência da conformação. E eu quero agora vomitar tudo isto e muito mais na cara de vocês, no prato da burguesia, na minha gorda conta bancária... e eu quero jogar o pó branco do Gervásio no ventilador de vocês... a farinha do Gervásio no ventilador da burguesia... Foi tiro demais para um pobre (redundantemente pobre) operário a quem bastava um empurrão para cair morto e vocês lhe deram bala quando ele queria apenas pão.&lt;br /&gt;          Um dia, perguntei a um endocrinologista, amigo meu – quero dizer: de quem sou amigo -, se o vômito tem seqüência lógica e cronológica; e ele riu com o seu jeito vago de rir e eu insisti: tem ou não? e ele disse entre dentes: “Sabes que nunca pensei nisso?!”&lt;br /&gt;          Este meu vômito, pelo menos, não tem uma seqüência cronológica lógica, nem os nomes próprios têm lá muita importância: Gervásio pode ser José, João, Severino, Nassif, Cienfuegos, Osawa, Lídia (você, Lídia, eu lhe vi morrer de fome!!!), você, Verinha, morreu de fome em meus braços, braços de verme socializável impotente e como impotente, o que foi que fiz? Nada! E nada é uma bela desculpa já que eu não pude fazer nada, principalmente naquela época em que minha preocupação era quase toda voltada para minha sobrevivência – eles também me queriam ver morto, com oitocentos e cinquenta e seis tiros, o corpo todo rendado... era (é ainda, disfarçadamente) assim que eles queriam me ver: pior que Gervásio, irreconhecivelmente rendado de balas de fuzis e metralhadoras (dizem que armamento obsoleto, doado às força armadas brasileiras pelos ianques), e eles não gostam quando eu falo ianques, preferem “americanos” como se somente eles fossem americanos e nós não fôssemos nada... e Gervásio também pode ser Rutinha, prostituída ainda na infância-adolescência (doze anos incompletos, segundo ela) e (deram graças a Deus!) ainda bem, pois era alugando o corpo que Rutinha sustentava toda a família (e eles davam graças a Deus por isso!), mas agora as coisas já não iam tão bem porque (já não dava para esconder) ela não era mais a mesma aos dezenove anos “você sabe como é, eles usam a gente; eles só querem essas menininhas... você sabe como é... quanto mais novas, melhor... você sabe como é... a gente fica assim... você sabe como é... ainda vou fazer dezenove anos em outubro (era março) e eles já não querem mais... você sabe como é... eles só querem usar a gente... você sabe como é...” É, Rutinha, eu sei como é, mas não me joga assim na cara não; é atroz demais, fere demais... eu sei como é, Rutinha, eu sei como é... E ela me perguntou com uma naturalidade quase ingênua: “E você?... por que não quer transar comigo? Nunca transamos, não é mesmo?” Sim, Rutinha, nunca transamos; você sempre foi como uma irmã para mim (sempre tive esta mania de sentir que todo filho – toda filha – de um operário – toda prole – é meu irmão), então, Rutinha, nunca te vi como mulher. “Mas sou, seu bobo. Experimenta-me, vem!!!” Não, Rutinha... contigo não! O que me dá prazer redobrado é transar essas gordas putas burguesas, fedendo a naftalina misturada com perfume importado; é isto que me dá o prazer de um vencedor: cornear a burguesia. Transar contigo, Rutinha, me daria apenas o prazer momentâneo do sexo e, depois, para o resto de minha vida, o trauma para minha consciência por ter alugado o teu corpo e comprado o meu prazer... eu me sentiria um traidor. Eu quero o prazer da vitória, do triunfo: quero me espojar sobre uma burguesinha, derramar o meu suor operário sobre o corpo dela e sentir o prazer de estar esporrando sobre toda a classe que delira em foder todo o proletariado. Contigo, Rutinha, eu teria a sensação de estar esporrando em nossa classe. “Estúpido! Dá, pois, à nossa classe, o prazer de suas carícias; dá, pois, à nossa classe, o prazer do calor do seu sexo...” suspirou profundamente e continuou: “De ti, eu quero somente o prazer; deles, eu quero a grana... eles deixam a grana deles comigo, mas do meu corpo eles não levam nada. Não me nega esse prazer, pois deles eu já tenho a grana.” Rutinha falava como as mulheres burguesas: os burgueses não dão prazer às suas fêmeas – elas, coitadas, somente conseguem arrancar deles a grana. Eu dei prazer à Rutinha talvez por solidariedade de classe, solidariedade proletária, e ela chorou (segundo ela) de felicidade; felicidade por ter feito sexo pela primeira vez depois de ter alugado o corpo tantas vezes para a satisfação de homens medíocres, mas agora ela fazia sexo, fazia amor, tinha prazer, êxtase... agora ela não estava transando o corpo... ela transava comigo prazeres, sentimentos, sensações, volúpias, gozos, carinhos, carícias, amores (sim, amores, pois nos instantes supremos do gozo nos chamávamos de meu amor, amor de minha vida, meu tudo...), ela me dava o que recebia e recebia o que dava... E Rutinha pode ser Carla, classe média-baixa, esperança de ser feliz, e ser feliz para ela (e quantas outras mocinhas) era casar (é ainda) com um macho que lhe pague as contas, que lhe compre tudo que ela admirar nas vitrines... e Carla me dava a sensação de que seu orgasmo era vestir o último modelo que passou na televisão. Quantas vezes eu a acariciando e ela gemendo (e quando eu pensava que fosse de prazer pelas carícias que eu fazia) ela suspirava: “Você viu como é lindo aquele Romeu e Julieta?” – Carla suspirava por jóias – e um dia eu disse (nem sei por que eu disse) que as mulheres não resistem a jóias e carros, e lembro-me que naquela ocasião eu repeti feito papagaio palerma que “jóia e mulher, quem tem uma consegue a outra” e ela riu, e até hoje eu não sei se ela riu por não ter entendido minha insinuação maldosa ou se por ter concordado comigo (comigo?!), mas eu não disse nada; eu apenas repeti automaticamente não sei quem nem por que... sei que havia uma inadaptabilidade entre nós incontrolável, e a cada dia eu me afastava ainda mais de Carla, até que um dia ela se foi tão naturalmente como os girassóis e como girassóis vieram outras, e pela enésima vez eu trocara de mulher (elas próprias me adaptaram a substituí-las uma pela outra sem escrúpulo e sem constrangimento), e Carla – aquela mulher que me incendiava na cama – virou apenas lembranças e agora memórias, assim como muitas carlas patrícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DINA&lt;br /&gt;(LIÇÃO DE VIDA NA CERCA DE GIZ)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Ah! Dina... foi contigo que aprendi que o ser humano não necessita de castigo pelo seu erro, mas sim de estímulos para o acerto. Cada ato teu, cada gesto teu, cada palavra tua era uma lição de vida, e eu – obcecado pela liberdade – não queria me prender a ti. Meu mundo era um imenso teatro de fantoches e marionetes; um verdadeiro teatro de sombras. E eu era um servo da liberdade, um prostituto da justiça social. Dividia nossa cama com elucubrações, loucuras e ideologia... nem sei se te dei todo amor que merecias (ou pelo menos, que carecias), e isto atormenta a minha consciência. Nunca consegui te definir, Dina! Sou um escravo das adjetivações (dos adjetivos baratos, em particular); talvez seja por isto mesmo que nunca fui capaz de te definir, e continuas para mim um enigma e o atestado vivo de que fui (sou ainda) incapaz de amar exclusivamente uma só mulher, um só ser. E nem mesmo sei se sou capaz de amar.&lt;br /&gt;          Uma estúpida cerca de giz nos separou!!!... E eu aprendi – tu me deste com doçura, Dina, a lição – que não se pode cobrar nada de quem nada recebeu. E eu quis de ti o que nunca fui capaz de te dar. Eu encontrava em tudo, pretexto para justificar o meu egoísmo.&lt;br /&gt;          Há uma estúpida cerca de giz traçada entre nós! Intransponível cerca graças às mediocridades de primatas que ainda nos fecham em nós mesmos. E eu queria te amar mas o orgulho de imbecil foi bem maior. Não fui – ainda? – capaz de rasgar a camisa-de-força que me contém idiota: os preconceitos determinam nossos sentimentos e interesses.&lt;br /&gt;          Quando haveremos de ignorar esta estúpida cerca de giz?&lt;br /&gt;          Então, Dina, nossas diferenças não foram entendidas como complementos, mas sim como antagonismos.&lt;br /&gt;          E o que são os antagonismos, Dina?!&lt;br /&gt;          Os extremos dos opostos inconciliáveis ou o princípio da convergência dos opostos?! A conclusão das teses e das antíteses ou as antíteses das teses inconclusas?! A expressão do egoísmo humano em seu paroxismo ou o paroxismo da expressão inumana do egoísmo?!&lt;br /&gt;          A cerca de giz com a qual fingimos nos proteger: hipócritas!!!&lt;br /&gt;          Cercamo-nos de hipocrisias como nobres medievais em seus castelos, mas o que gostaríamos mesmo era de nos despir de todas as armaduras e deixar ruírem todas as máscaras que as normas e preceitos das putrefatas elites dominantes nos impõem!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!&lt;br /&gt;          Ah! Dina...&lt;br /&gt;          Nem mesmo os versos falaram mais alto do que as discriminações e os conceitos precipitada e criminosamente formulados: nem sempre vencem os melhores!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LIS&lt;br /&gt;(VIAJANDO PELO SEU CORPO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Conheço o corpo de Lis assim como conheço este país: cada curva, cada relevo, cada monte; chapadas, planícies, planos, altiplanos, planaltos, planalto central com sua flora rara e contorcida – quase encaracolada -, climas (aqui é bem mais quente, humanamente bem mais quente – e mente quem diz que acima de trinta e sete graus é estado febril)... e tanto de Lis como deste país eu conheço muitíssimo bem até mesmo as cascatas... E quantas vezes, acariciando o corpo de Lis, eu lhe disse: Teu corpo é minha pátria!?&lt;br /&gt;          O corpo de Lis era, humanamente, bem mais quente... mas havia uma diferença fundamental entre o corpo de Lis e o país que deveria ser a minha pátria: eu me sentia perdido no país em que nasci; já no corpo de Lis eu me reencontrava. No país em que nasci eu me sentia limitado e vivia encarcerado; já no corpo de Lis eu me libertava. No país que deveria ser a minha pátria eu era um pária, com o direito único de obedecer; já no corpo de Lis eu tinha todos os direitos – inclusive de opinar, de optar, de sentir prazer, de ser feliz... Eu fui felicíssimo quando o corpo de Lis foi a minha pátria!&lt;br /&gt;          Um dia, viajando pelo seu corpo, sem passaporte e sem fronteira, eu disse para Lis:&lt;br /&gt;          – Se tiveres de me exilar um dia, dá ao condenado o direito de tua misericórdia: antes que me exiles de ti, sepulta-me em tua chã fértil e acolhedora.&lt;br /&gt;          – Os homens estão sempre presos aos seus próprios interesses.&lt;br /&gt;          – Não entendi. Queres explicar?!&lt;br /&gt;          – Cada um procura um porto para ancorar... e por que não procurar um mar para navegar sempre? Navegar... navegar...&lt;br /&gt;          – Não estou te entendendo...&lt;br /&gt;          Indiferente às minhas dúvidas, Lis continuou, após fitar-me languidamente nos olhos:&lt;br /&gt;          – Tens um olhar de eterno condenado... É impossível acertar contas com a justiça; ela é podre como todos os porões. Ou não conheces os porões?! Os porões são o refúgio da justiça: é aí onde está o que há de excretório da sociedade.&lt;br /&gt;          – Lis!!!... – eu a interrompi e ela, indiferente, continuou:&lt;br /&gt;          – Crápulas e tiranos construem templos à justiça, para depois os transformarem em cadafalsos; em pelourinhos para imolação de inocentes.&lt;br /&gt;          Após um breve silêncio, ela arrematou com um profundo suspiro:&lt;br /&gt;          – Nem mesmo sei por que estou falando isto... Tu sabes bem melhor do que eu... Aliás, os porões não são o refúgio da justiça, são o santuário do judiciário, em todos os tempos e todas as civilizações!&lt;br /&gt;          Tergiversei. Divaguei sobre alguns avanços da medicina, em especial ao que concerne ao ramo cirúrgico e, destacadamente, fiz elogios enfáticos à medicina informatizada. Fiz rasgados elogios aos avanços na engenharia genética. Cheguei mesmo a dizer que se houvera algum deus, esse deus já estaria superado em muito por verdadeiros cientistas. Mas como Lis continuava calada, parecendo apática a tudo que eu falava, retruquei com veemência o argumento que eu gostaria que Lis houvesse feito e não o fez:&lt;br /&gt;          – Sim, Lis, há cientistas honestos – honestos e humanistas -, em que pese admitir que muitos são corruptos, embusteiros, serviçais e mercenários... Ou tu pensas que todos os cientistas são puros como a ciência?&lt;br /&gt;          Lis, como sempre, nada respondeu. Inclinou a sua cabeça sobre meu peito e quebrou o seu silêncio que tanto me incomodava com um longo suspiro. Eu, porém, insisti:&lt;br /&gt;          – Lis!... Estou falando contigo.&lt;br /&gt;          Nenhuma palavra, porém. E seria inútil insistir – jamais consegui uma só palavra dela em momentos assim. Eu estava começando a conhecê-la – admiti meu progresso – e apenas a acariciei. Sussurrei-lhe ao ouvido (não tenho certeza se com estas mesmas palavras): você virou meu mundo! Ela me envolveu com seus braços frágeis e vislumbrei o esboço de um sorriso em seus olhos – sim! quando Lis estava feliz, ela sorria com os olhos – e a abracei com força, conseguindo assim arrancar-lhe um prolongado e suave “estou feliz!”. Com os olhos entreabertos, ela me olhou longamente e num sussurro suave e profundo (o que me fazia chamá-la de gata manhosa) ela disse:&lt;br /&gt;          – Meu corpo é tua pátria, e sou a pátria que virou o teu mundo?! Isso mexe com meu ego, sabia? – e Lis me apertou com mais força contra seu peito...&lt;br /&gt;          Assim permanecemos por um bom tempo, sentindo eu o seu coração em taquicardia anunciando (ou denunciando?) a emoção que ela tentava disfarçar.&lt;br /&gt;          – Sim, Lis, teu corpo é minha pátria!!!&lt;br /&gt;          – Assim não vale.&lt;br /&gt;          – Como “não vale”?!&lt;br /&gt;          – É covardia descobrir o ponto fraco de alguém e explorá-lo depois. Não brinca com meus sentimentos, sim?&lt;br /&gt;          – Incrível! – exclamei atônito - Pensei que não tivesses sentimentos... ou não foi de ti que ouvi que as minhocas têm dez corações e nenhuma cabeça?&lt;br /&gt;          Mais uma vez eu me deixava levar pelo sentimento medíocre de vingança – pensando eu que era um eterno perdedor para Lis, eu não perdia oportunidade para ir à vindita – mas ela, em sua grandeza, apenas ignorava minhas mediocridades.&lt;br /&gt;          Lis tinha sentimentos e nunca os negara; apenas os submetia à razão, porque “os sentimentos racionais são humanos” – como ela mesma costumava dizer. Costumava, pois que Lis estava sempre progredindo, e tanto que já melhorara esse seu conceito: “os sentimentos racionais são mais que humanos: são humanistas”. E era isto que eu não estava sendo capaz de acompanhar nela: sua constante e eterna evolução, o que me dava uma terrível e incômoda sensação de defasagem entre mim e ela (mas de defasagem, não de antagonismo, felizmente).&lt;br /&gt;          Nossos momentos de silêncio eram bem mais eloqüentes.&lt;br /&gt;          Parecia haver em nossos corpos códigos de barras e sensores que se liam e se decifravam ao nosso contato. Uma mútua transcodificação e decodificação... Meus lábios em seu ventre, deslizando suavemente, era um tratado de paz e pacto de prazer; minha língua em circuncisão em seu mamilo esquerdo era o prenúncio do orgasmo incontido; minhas coxas roçando nas suas era o código da inevitável penetração... a respiração ofegante de Lis era o anúncio do êxtase que nos faz todos iguais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“TREMENDA CARA DE MARGINAL”&lt;br /&gt;CALDEIRÃO GEOGRÁFICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Confesso que em tudo que já li de literatura da esquerda e esquerdista, apenas uma coisa me repugnou: “OS HOMENS BURGUESES PENSAM COM O ESTÔMAGO E AS MULHERES BURGUESAS PENSAM COM A VAGINA.”&lt;br /&gt;          Vi (com asco) em tudo isso uma mediocridade anti-revolucionária injustificável. E fiquei incontrolavelmente irritado.&lt;br /&gt;          Vinha eu de Machu Pichu (Perú), via Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), para fazer alguns “contatos”, tanto na Bolívia como no lado do Brasil.&lt;br /&gt;          Em Santa Cruz, forneceram-me um novo contato a ser feito em Quijarro (Bolívia), já na fronteira com o Brasil, a poucos quilômetros de Corumbá (Mato Grosso do Sul)... Em Santa Cruz, peguei o “Trem da Morte” (nunca tive a curiosidade de saber a origem desse nome tão sugestivo) e fui para Quijarro. No trem, um garoto falando um espanhol bastante carregado de sotaque nativo (o que me dificultava compreender o que ele falava) estendeu-me um panfleto, onde li em letras garrafais: “ANTES MORIR QUE ESCLAVO VIVIR”, e logo abaixo, convocações para luta pela reforma agrária e, em seguida, no rodapé, o que me irritou: “... LAS MUJERES BURGUESAS PIENSAN CON LA CLOACA.”.&lt;br /&gt;          Eu estava ali para “contatar” um burguesão local, “simpatizante da boa causa”, mas como (com que cara?!) eu haveria de receber “as contribuições” de um casal que “pensa com o estômago e a vagina”?&lt;br /&gt;          Mas não foi isso que me irritou. O que me enoja é a inverdade, a baixeza, a injúria, a injustiça...&lt;br /&gt;          Não fiz o “contato” - sou independentemente indisciplinado.&lt;br /&gt;          Já na barreira policial da fronteira, tive (o que para mim se tornou habitual e cômico) dificuldades com os policiais:&lt;br /&gt;          – Você aí...&lt;br /&gt;          – Eu?!&lt;br /&gt;          – Você mesmo!&lt;br /&gt;          – Por que eu?!&lt;br /&gt;          – Vamos, porra! Deixa de conversa...&lt;br /&gt;          – Mas por que logo eu?!&lt;br /&gt;          – ... tu tem uma cara de marginal, meu!&lt;br /&gt;          Isto se tem repetido sempre comigo – virou um ritual – e já sei, sempre que há barreira policial ou numa alfândega qualquer, que serei o “escolhido”, pois, segundo eles, tenho uma “tremenda cara de marginal”...&lt;br /&gt;          Só estou escrevendo isto porque foi exatamente esse preconceito policialesco que me salvou a pele muitas vezes e me deu livre trânsito para minhas atividades revolucionárias e subversivas. E tanto que, no início da década de oitenta, eu estava em Assunção – Paraguai – quando o ex-ditador nicaraguense Anastácio Somoza, deposto pelos sandinistas, voou pelos ares de Assunção com um disparo de bazuca, e imediatamente eu procurei sair do Paraguai, e o fiz com certa facilidade graças à minha “tremenda cara de marginal”, pois eles – os da farda – procuravam “terroristas” e eu tinha apenas “cara de marginal”.&lt;br /&gt;          Já no lado da fronteira do Brasil, escolhido eu por policiais federais para a “revista”, os quais fuçaram toda minha bagagem (que se resumia praticamente a livros), um agente da Polícia Federal do Brasil, folheando meus livros, olhou-me de viés e rosnou:&lt;br /&gt;          – Esse golpe do livro já tá manjado, meu!&lt;br /&gt;          – Que golpe?!&lt;br /&gt;          – Aí, Pereira; esse é daqueles que não sabem de nada! – disse o policial, dirigindo-se para o seu colega, ao lado...&lt;br /&gt;          Nessa época eu era Mário, mas sempre com este perfil de marginal e estrambótico (segundo o convencionado). De origem negra, trajando sempre fora dos padrões e “humildade que incomoda” – como dizem alguns.&lt;br /&gt;          Em Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, sobrevivi alguns meses dormindo em uma cerâmica e consertando aparelhos eletrônicos em uma oficina de um tal Ferraz.&lt;br /&gt;          Eu sempre quis visitar o Maidana (há décadas preso pelo ditador paraguaio Alfredo Stroessner) e nunca o consegui. Várias incursões fiz ao território paraguaio e sempre incluí uma visita ao Maidana como um dos principais objetivos, porém nunca o consegui.&lt;br /&gt;          Em l983, o PCB (PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO) publicou no jornal VOZ DA UNIDADE um poema que fiz em homenagem ao Maidana, e por ocasião da prisão de vários dirigentes do PARTIDÃO, como também da invasão da redação desse jornal e de minha detenção à época. Eu quis levar um exemplar do jornal para o Maidana, mas me confiscaram (segundo eles) o jornal e mais alguns pertences, em uma estrada do departamento de Amambay...&lt;br /&gt;          Da minha ficha no SNI (Serviço Nacional de Informações), a “inteligência” repressora da ditadura militar brasileira, fazem parte alguns poemas meus, como um que fiz para o Maidana: PRECE PELA AMÉRICA LATINA.&lt;br /&gt;          Costurei por muitos anos a fronteira geográfica brasileira, e numa freqüência tão aguda que, muitas vezes, anotava na palma da mão (antes de dormir) o nome da localidade onde me encontrava, pois que, quase sempre, minha cabeça virava um caldeirão geográfico. Em um mesmo dia saí de Cáceres (Mato Grosso – Brasil), entrei em San Mathias (Bolívia), peguei um daqueles péssimos aviões da Força Aérea Boliviana – ninguém sabe se chegará vivo ou morto – e, misturado à bagagem, cheguei até La Paz; daí, eu fui para Guayaramerim, atravessei o rio Mamoré (em geografia oficial, eles ensinam que é o rio que separa Brasil e Bolívia, mas eu sempre tentei mostrar para eles que o Mamoré une Brasil e Bolívia), e desembarquei da “voadeira” (é assim que eles chamam os barquinhos providos com motor de popa) em solo brasileiro mais uma vez, porém resolvi pernoitar em Riberalta (outra vez na Bolívia).&lt;br /&gt;          Foi nesta viagem que consegui mais uma “atividade paralela”: garimpeiro do rio Madeira. (Aqui quero tão-somente registrar que vi ouro tanto quanto cadáveres – ou cadáveres tanto quanto ouro?).&lt;br /&gt;          Há fatos que tentei por todo tempo apagar de minha memória – vã tentativa! Quis, por todo esse tempo, negar para mim mesmo a vivência de fatos e cenas que, já passados anos desde então, suas reminiscências ainda me deixam estonteado, me enchem de torpor; me atormentam com uma interrogação que, às vezes, não consigo crer na afirmativa: será que vivi tantas turbulências?! Será que vivi?...&lt;br /&gt;          Em tudo, os golpes mais terríveis são as irreparáveis perdas de pessoas que, no convívio e na luta, se fazem parte de nós mesmos.&lt;br /&gt;          Patri morreu no primeiro parto – foi um golpe terrível! – e ninguém pode (quem há de?) se conformar com aquela dupla estupidez: ainda morrem mulheres de parto (descobrimos atônitos e inconformados) e quem mais luta contra a miséria morre vítima dela! Zé Bento, clandestino de tantos anos – como ele mesmo me disse – virou “bicho do mato nos garimpos da Amazônia”. O Jorge foi atrevido até mesmo na morte: morreu sem me avisar; ele não tinha esse direito... não o perdoarei nunca por isso... Dos companheiros mortos, até então, a morte do Jorge foi o golpe mais terrível e triste para mim.&lt;br /&gt;          Muitos dos que lutaram pela terra foram assassinados! Tiveram, enfim, para si, a terra que tanto queriam para os sem-terras. E vi essas pessoas regarem a terra com seu suor e seu sangue na luta quase-ingênua por uma sociedade nova, justa e igualitária... Houve ingenuidade sim, mas não se pode negar que houve, acima de tudo, altruísmo, desprendimento, boa vontade, grandeza... Homens que dão a própria vida pela causa dos outros não são homens comuns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REMINISCÊNCIAS DA INFÂNCIA&lt;br /&gt;(“JUSTIÇA, UMA PROSTITUTA CEGA”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Vêm-me agora reminiscências da distante infância...&lt;br /&gt;          A casa em pândegas com as tias que vinham da fazenda (do lado materno) sempre para as festas anuais e para as missas dominicais, mas mais para exibir roupas e jóias do que pelos sermões, ainda em latim.&lt;br /&gt;          Então vinham as tias com marcantes costumes europeus (havia ascendência espanhola pelo lado materno) e minha mãe nos fazia aquela chantagem:&lt;br /&gt;          – Tomem banho logo senão não verão a tia Nabel...&lt;br /&gt;          E, depois de apurado exame, nos dizia:&lt;br /&gt;          – Ah! As unhas não ficaram bem limpas; assim não verão a tia Dolores.&lt;br /&gt;          E lá íamos a fazer tudo outra vez como se tudo fosse festa.&lt;br /&gt;          Então vinham as tias carregadas de costumes europeus – lembro-me bem da tia Erenice com muito rouge (logo fiquei sabendo que rouge significa vermelho em francês) e muito batom e muitas jóias de ouro bom – e diziam para minha mãe:&lt;br /&gt;          – É, Regina... quero ver se Mac Dowel (era o tio dentista pelo lado paterno) põe ouro nestes dentes. – e mostravam os incisivos superiores.&lt;br /&gt;          E minha mãe deu uma boa gargalhada e minhas tias perguntaram:&lt;br /&gt;          – O que foi, Regina?!&lt;br /&gt;          E minha mãe disse, sem conter o riso:&lt;br /&gt;          – Não vos conto a última do Mac Dowel...&lt;br /&gt;          – Conta, Regina!&lt;br /&gt;          – Vou contar. Não sabem Antônio Furtado?... pois é... veio extrair uns dentes com o Mac Dowel...&lt;br /&gt;          – Vamos, mulher... pára de rir e conta logo! – pressionaram as tias.&lt;br /&gt;          – Pois é... O paciente se sentiu mal e Mac Dowel olhou para um lado e outro e só encontrou um boticão velho; pegou o boticão, o encostou no nariz do paciente e recomendou: “inspira bem fundo”, e o paciente disse: “Que remédio bom, doutor!”.&lt;br /&gt;          Então lá iam as tias outra vez embora para estarem de volta no próximo domingo ou na próxima festa quase que infalivelmente e me invadia uma curiosidade muito grande: de onde vem essa gente assim como tanajuras, assim como golondrinas, assim como regra de mulher, assim como as chuvas de janeiro, assim como só essa gente mesma tão periodicamente regular?!&lt;br /&gt;          Meu avô (pelo lado materno) quase nunca aparecia e quando vinham as tias havia sempre uma reunião secreta entre minha mãe e minhas tias e cuja reunião se iniciava quando minha mãe indagava:&lt;br /&gt;          – E papai?...&lt;br /&gt;          Esse avô era um homem alto, avermelhado, compleição avantajada, porém de pouca fala (pouquíssima fala) e quando falava era uma fala mansa e lenta e quase nunca aparecia mas um dia descobri que esse avô era um homem de dores silenciadas e sentimentos reprimidos e extremado gênio e demais sistemático esse homem que perdeu sua companheira ainda muito jovem (no parto em que uma de suas filhas nasceu) e dizem que era uma mulher muito bonita e refinada e amável e doce mas minha mãe não conheceu a mãe dela (que morreu quando ela nasceu e eu sempre vi isso muito estranho: uma morreu quando a outra nasceu) e quase nada nos sabia dizer dessa avó!&lt;br /&gt;          Havia histórias que eles mantinham em clima de mistério, principalmente quando pronunciavam uma palavra mágica (à época): “questão”. Era a questão (já adolescente fiquei sabendo) das terras do Russo Velho (modesto minifúndio do meu avô materno), cuja questão o pai de minha mãe há muito tinha com um latifundiário seu vizinho, e era “questão para ser resolvida a bala, porque essa justiça é muito lenta” – eles diziam –, “a justiça anda de tartaruga” – eles diziam –, “a justiça tarda mas falha” – eles diziam –, “a justiça é uma prostituta cega” – eles diziam –, “... não é cumpra-se a lei, é compra-se a lei” – eles diziam.&lt;br /&gt;          Bem por estes dias, refletindo sobre herança, principalmente sobre a da propriedade privada (privada mesmo!) de produção, não pude me furtar de profundas reflexões sobre o pensamento de Rousseau: “TODA RIQUEZA É UM FURTO” e sobre a “exploração do homem pelo homem” e, pelo lado paterno, lembrei-me da fazenda Belo Monte – herdade que o pai do meu pai lhe deixou – e fiz o poema que ora transcrevo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;BELO MONTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             Meu pai tinha uma fazenda&lt;br /&gt;                             herdada do meu avô&lt;br /&gt;                             modesta herança (dir-se-ia uma vingança)&lt;br /&gt;                             que o pai do meu pai deixou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             O canavial...&lt;br /&gt;                             Os homens cortando cana&lt;br /&gt;                             (as mulheres se restringiam&lt;br /&gt;                             à cozinha e à tarefa dos puxa-puxas durante o dia;&lt;br /&gt;                             à noite, satisfaziam aos maridos&lt;br /&gt;                             - as casadas, bem casadas;&lt;br /&gt;                             as nem tão bem casadas satisfaziam aos vizinhos&lt;br /&gt;                             e as solteiras satisfaziam aos solteiros&lt;br /&gt;                             na bagaceira do engenho.&lt;br /&gt;                             E talvez seja daí que bagaceira&lt;br /&gt;                             adquiriu a significação léxica&lt;br /&gt;                             de bagunça, algazarra, desordem, baderna...);&lt;br /&gt;                             as éguas no cio,&lt;br /&gt;                             o açude quase vazio,&lt;br /&gt;                             os meeiros, o gado...&lt;br /&gt;                             O que na terra havia&lt;br /&gt;                             por herança ali se transmitia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                             A rapadura quente na gamela&lt;br /&gt;                             o mel borbulhando no tacho&lt;br /&gt;                             o jeito imperativo do macho&lt;br /&gt;                             a meeira mais formosa e bela&lt;br /&gt;                             com a fazenda o meu pai herdou&lt;br /&gt;                             do meu avô.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Os parentes davam-me livros e mais livros para minha insaciável sede (ou fome?) de conhecimento, e destacam-se aí Castro Alves (presente do primo Johnson...), Rui Barbosa (presente da prima Lúcia) e aguardando o jantar no alpendre da casa-grande devorei “Oração Aos Moços”... Do Rui, ficou-me profundamente marcado: “A NECESSIDADE DAS NECESSIDADE DE UMA NAÇÃO É A JUSTIÇA”. Depois, feito traça de biblioteca (e como esquecer a bibliotecária Adelaide?!, Biblioteca Humberto de Campos, “SOMBRAS QUE SOFREM”...). Dentre tantos, “O CAVALEIRO DA ESPERANÇA”...&lt;br /&gt;          E de Luís Carlos Prestes, “O CAVALEIRO DA ESPERANÇA”, jamais esqueci: “O JUDICIÁRIO BRASILEIRO SEMPRE PODRE. TERRIVELMENTE PODRE!”, o que tão bem se encaixava na conversação de minha mãe e suas irmãs!&lt;br /&gt;          Um dia não foram só as tias que se foram: aí na adolescência me desgarrei da família, iniciando a vida de gitano e hoje nem sei se eu seria capaz de viver de outro modo.&lt;br /&gt;          Sempre vi o mundo muito pequeno; muito mesmíssimo... O cordão umbilical não pode e nem deve ser reatado – teve sua função na vida intra-uterina e não mais – e ignorar as fronteiras sempre me fez bem.&lt;br /&gt;          As tias continuaram as visitas para as missas dominicais, suponho eu...&lt;br /&gt;          Por minha vez, deparei-me com “questões” pela terra em todas as partes, nas quais não só as “tias” morrem mas meus irmãos de todas as partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PERSIGNEM-SE...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(KARLA LENINA)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Persignem-se...&lt;br /&gt;preceitos, conceitos, proposituras, razões...&lt;br /&gt;a transitividade verbal,&lt;br /&gt;a bomba no Nepal,&lt;br /&gt;as mulheres de Bombaim,&lt;br /&gt;a tragédia de Bhopal&lt;br /&gt;(como esquecer 02/12/84 – Pimenta Bueno?!)...&lt;br /&gt;A teoria salvadora de Oparin&lt;br /&gt;- o homem é o único animal&lt;br /&gt;que um dia olhou para trás e viu de onde saiu -,&lt;br /&gt;“VINTE POEMAS DE AMOR E UMA CANÇÃO&lt;br /&gt;DESESPERADA”.&lt;br /&gt;Dois pontos sobrepostos por si sós&lt;br /&gt;não explicam nada...&lt;br /&gt;Risos, gargalhos, gargalhadas...&lt;br /&gt;ânodo, cátodo, íons, enzimas, aminoácidos,&lt;br /&gt;protozoários, proteínas, vitaminas,&lt;br /&gt;ponto de apoio,&lt;br /&gt;ácidos ribonucléico e desoxirribonucléico...&lt;br /&gt;radical livre, base nitrogenada,&lt;br /&gt;meus genes genialmente transcrevem&lt;br /&gt;meu código genético na perpetuação da espécie.&lt;br /&gt;Microscópica imaginação,&lt;br /&gt;ação – vinte mil volts aceleram os elétrons –&lt;br /&gt;tríades da “realidade virtual”,&lt;br /&gt;(para meu gosto, Shekespeare é demais saxônico:&lt;br /&gt;“Homem... Oh! orgulhoso homem! Ignorante&lt;br /&gt;daquilo que tem mais certeza, faz coisas tão&lt;br /&gt;fantásticas que...&lt;br /&gt;Não há longa noite que não encontre um dia”)&lt;br /&gt;- empirismo vão!&lt;br /&gt;A Revolução dos Bichos&lt;br /&gt;ou os bichos da Revolução de George Orwell,&lt;br /&gt;O Cândido de Voltaire,&lt;br /&gt;a Mãe de Gorki, os Ex-Homens Russos,&lt;br /&gt;Os Miseráveis de Hugo, o Fausto de Göethe,&lt;br /&gt;O Corvo de Poe, As Provinciais de Pascal,&lt;br /&gt;o Manifesto de Marx e Engels...&lt;br /&gt;“Que Fazer”, Lenin?&lt;br /&gt;com Platão (ombros largos), Sócrates&lt;br /&gt;só sabe que nada sabe&lt;br /&gt;Rousseau, Tolstoi, Trotski, Brecht, Buñuel, Lorca,&lt;br /&gt;Guillén, Nietzsche, Stirner, Phroudhom,&lt;br /&gt;Luther King, Marti, Guevara, Puschkine...&lt;br /&gt;As Catilinárias de Cícero&lt;br /&gt;Canto Geral nerudiano&lt;br /&gt;(não é canto gregoriano)&lt;br /&gt;Confesso Que Vivi&lt;br /&gt;a Marcha Fúnebre de Choppin&lt;br /&gt;a 5a Sinfonia de Beethoven&lt;br /&gt;o Bolero de Ravel&lt;br /&gt;concertos de Karayan, Strauss,&lt;br /&gt;Mozart, Tchaikovski...&lt;br /&gt;As Quatro Estações&lt;br /&gt;no inverno gélido das mulheres&lt;br /&gt;e se nada disto te diz nada&lt;br /&gt;é que és – no mínimo –&lt;br /&gt;analfabeto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          – Bobagem, Karla Lenina; bobagem! era fácil ser comunista quando ser comunista dava status... era fácil ser comunista quando comunismo era uma “doce utopia”; era fácil ser comunista quando os comunistas estavam no poder... Agora, eles dizem que “comunismo é o sonho que não deu certo”, e eu não tive nenhum pesadelo, oh! minha doce Karla Lenina... Bulgária, Hungria, Polônia (quem diria?!), Lituânia... os comunistas voltam ao poder pelo voto – o tão decantado voto da democracia burguesa...&lt;br /&gt;          Bobagem, Karla Lenina... bobagem! Oh! minha doce Karla Lenina! Quanta bobagem eles dizem para o povo acreditar com toda sua religiosidade velhena e empirismo retardante?! Ah! minha doce Karla Lenina... bobagem, quanta bobagem crer em outros meios senão os científicos! Até mesmo o amor faz mal quando não se submete à razão, oh! minha doce Karla Lenina.&lt;br /&gt;          Já que fazem tanto pelo melhoramento genético de quase tudo – de abóboras a galinhas – por que não melhorar a raça humana? Por que ainda a estupidez da pena de morte, quando a ciência pode melhorar (não só o indivíduo, é verdade) mas a própria espécie? oh! minha doce Karla Lenina!&lt;br /&gt;          Dize-me tu, minha doce Karla Lenina, tu que, se houvesse deuses, já os terias superado, dize-me tu, oh! minha KL-1, tu que me destrinchaste todos os segredos, tu que suplantaste todos os medos, tu que sublevaste todos os oprimidos, tu que perverteste todos os resignados... dize-me tu, oh! Karla Lenina, onde – em que víscera ou em que neurônio – tu buscas e rebuscas tua grandeza!?!?!?!?!&lt;br /&gt;          Pura bobagem, oh! Karla Lenina... pura bobagem!... qualquer contestação a Stanley Miller é pura bobagem, oh! minha doce Karla Lenina!&lt;br /&gt;          Afirmar a existência de um  P P L O  (Pleuro--pneumonia life organisms) ou de um deus não é, nunca, a mesma coisa, oh! minha doce Karla Lenina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MASSACRE EM TODA PARTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Massacre em Rio Verde&lt;br /&gt;massacre em Mirassolzinho&lt;br /&gt;massacre em Jauru&lt;br /&gt;massacre em Jaru&lt;br /&gt;massacre em Vila Bela&lt;br /&gt;massacre em Humaitá&lt;br /&gt;massacre em Boa Esperança&lt;br /&gt;massacre em Abunã&lt;br /&gt;massacre em Brasiléia&lt;br /&gt;massacre em Suapi&lt;br /&gt;massacre em Periquitos&lt;br /&gt;massacre em Bico do Papagaio&lt;br /&gt;massacre em Monção&lt;br /&gt;massacre no Araguaia&lt;br /&gt;massacre em Livramento&lt;br /&gt;massacre em Porto Murtinho&lt;br /&gt;massacre em Cacoal&lt;br /&gt;massacre em Ariquemes&lt;br /&gt;massacre em Três Rios&lt;br /&gt;massacre em Angicos&lt;br /&gt;massacre em Canudos&lt;br /&gt;massacre em Palmares&lt;br /&gt;massacre na Candelária&lt;br /&gt;massacre em Santiago&lt;br /&gt;massacre em Córdoba&lt;br /&gt;massacre em Vale Grande (sim, em Valegrande&lt;br /&gt;                                                         também houve&lt;br /&gt;massacre!)&lt;br /&gt;massacre em Porto Príncipe&lt;br /&gt;massacre em Granada&lt;br /&gt;massacre na Somália&lt;br /&gt;massacre no Bronx&lt;br /&gt;massacre em Bangladesh&lt;br /&gt;massacre em Ruanda&lt;br /&gt;massacre em Quibumba&lt;br /&gt;massacre no Chade&lt;br /&gt;massacre na Tchetchênia&lt;br /&gt;massacre no Chile&lt;br /&gt;massacre na República Dominicana&lt;br /&gt;massacre...&lt;br /&gt;massacre...&lt;br /&gt;massacre...&lt;br /&gt;massacre... massacre... massacre... massacre...&lt;br /&gt;massacres em toda parte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Quando haverá um mínimo de indignação com tantos massacres?!&lt;br /&gt;          Quando iremos dar um basta a tantos massacres?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HELOISE&lt;br /&gt;UM CASO INTERNACIONAL&lt;br /&gt;(INARRÁVEL É A SEPARAÇÃO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Devo admitir que minha gueixa não tinha nada de oriental: era loira, alta e esguia, olhos verdes, bastante agitada e autoritária. Falava mal o Português – aliás, tentava mesclar seu Francês clássico com algumas palavras de Português que ia aprendendo no dia-a-dia – mas não se cansava de vangloriar-se por ter estudado na Sorbonne e ter parentesco com Simone de Beauvoir (a eterna companheira de Jean-Paul Sartre e grande líder feminista). E era com incontido orgulho – que às vezes soava como arrogância – que ela se apresentava como Heloise de Beauvoir.&lt;br /&gt;          Heloise foi também o meu primeiro caso amoroso internacional.&lt;br /&gt;          É...&lt;br /&gt;          Heloise foi minha gueixa, e difícil é entender uma gueixa agitada e autoritária. Parece contraditório ou a própria negação do bom senso, mas ela era como se fosse uma homogênea massa erógena.&lt;br /&gt;          Quando ela não estava na cama, estava no espelho se narcisando e escrevendo com batom (ela vibrava com nosso estrangeirismo de origem francesa), e no espelho ela escrevia frases e/ou versos para mim.&lt;br /&gt;          – Heloise de Beauvoir... faze biquinho assim... ficar som feio sem biquinho. – insistia ela em me ensinar a pronúncia correta.&lt;br /&gt;          – Sim, madame de Beauvoir.&lt;br /&gt;          – Formidable! Formidable!&lt;br /&gt;          – É formidável, Heloise...&lt;br /&gt;          – Formidavél! Formidavél! – disse ela se atirando sobre mim e beijando-me freneticamente.&lt;br /&gt;          Gueixa sim. Heloise foi minha gueixa, pois o que fazem as gueixas senão tudo para agradar ao seu homem? Heloise fazia tudo (literalmente tudo) para me agradar.&lt;br /&gt;          Já havia decorrido quarenta e oito dias do seu prazo para regressar a França e Heloise não queria nem ouvir falar em deixar a Amazônia.&lt;br /&gt;          Nos dias mais quentes, ela dispensava qualquer refeição por sorvetes de cupuaçu e frapês de biribá. E levava não menos que meia hora para degustar uma pequena taça de sorvete – que ao final já nem era mais sorvete – e aquele ritual de paciência sempre me irritava, e mais ainda quando ela interrompia:&lt;br /&gt;          – Cupuaçu!... Fantastique!... cupuaçu!...&lt;br /&gt;          Um dia, comentei com Heloise que ela dava uma preferência quase patológica a todas as coisas que tinham denominações oxítonas e como resposta à minha observação ela disse que isso lhe dava a sensação de que estava falando sua língua-pátria, pois o tupi-guarani – a exemplo do francês – é língua cujas palavras terminam em sílabas fortes. E Heloise não se deliciava tanto com sorvetes de cupuaçu e frapês de biribá o quanto se deliciava entremeando cada sorvo com um longo “cupuaçu” pronunciado sonoramente com fonação labial.&lt;br /&gt;          Heloise era agradavelmente contraditória; era doce e dócil, culta e pueril – bucólica às vezes e amável sempre – e esnobe em sua potencialidade cultural. Estava sempre repetindo que me amava desde o momento em que percebeu minha paixão pela cultura francesa e me chamava em público de “ami de france, ami de Sartre, ami de Exupéry, ami de Eluard, ami de Molière, ami de Voltaire...”.&lt;br /&gt;          Heloise já havia conseguido mais noventa dias de permanência quando, inesperada e inexplicavelmente, recebeu um ultimatum do governo para que ela deixasse o país “no máximo em 48 horas”. E estarrecidos, e indignados, e constrangidos, e constringidos e não menos consternados fomos informados (por fonte infiltrada) de que a expulsão de Heloise se devia ao fato de que passara ela a ser “persona nom grata” desde que se “rebaixara a amante desse comunistinha filho da puta”. E não menos consternada Heloise disse entre soluços, rosto no meu peito, lágrimas mornas, inconformada (como se diz: p da vida):&lt;br /&gt;          – Que pays c’est, enfin?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Heloise se foi – eu não podia ir e ela não podia ficar – e inarrável é a separação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Certo é que nunca mais eu soube de Heloise e nunca eu soube responder nem para mim mesmo que país é este, afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM ESCARRO VERMELHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TRÊS SODALITAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM MAÇOM E OS SEGREDOS DA MAÇONARIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ELA E VOCÊ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Um escarro vermelho – quase azulado de tão vermelho – saído das entranhas dos pulmões (do que antes fora pulmões), agora semidestruídos pela tuberculose, foi jorrado pela boca, e aos borbotões e entremeando aquela tosse descomunal, o sangue jorrado pela boca daquele sobejo da morte parecia uma volúpia incontrolável.&lt;br /&gt;          Quando já parecia recuperada, veio nova crise de tosse e desta vez bem mais terrível, ao que parecia. E em meio a uma crise e outra ela se esforçou para recuperar o fôlego e sonorizou o seu pensamento:&lt;br /&gt;          – “Há mais humanismo neste escarro do que em toda vã filosofia cristã”.&lt;br /&gt;          Você lembrou que a frase é do poeta Augusto dos Anjos, pronunciada em idênticas circunstân
